Gerenciamento de resultados no Brasil (2000-2025): síntese, evidências e agenda de pesquisa
DOI:
https://doi.org/10.1590/1808-057x2026100-2.enPalavras-chave:
gerenciamento de resultados, qualidade dos lucros, IFRS, governança corporativa, auditoria, BrasilResumo
O objetivo deste artigo é oferecer uma revisão sistemática analítico-narrativa da pesquisa sobre gerenciamento de resultados no Brasil (2000-2025), integrando métodos, achados e mecanismos, com ênfase no papel editorial da Revista Contabilidade & Finanças (RC&F) e na formulação de uma agenda 2026-2030 orientada por identificação crível, replicabilidade e utilidade regulatória. A metodologia utilizada foi a busca em SciELO, SPELL, Google Scholar e no Portal CAPES (PT/EN), com critérios de elegibilidade para estudos empíricos focados no Brasil e uso de proxies quantitativas (accruals, atividades reais, qualidade dos lucros, distribuição de resultados). Foram realizadas triagem em duas etapas e codificação por eixos temáticos [International Financial Reporting Standards (IFRS), governança/auditoria, contábil-fiscal, setorial/propriedade] e famílias de proxies (Jones/Kothari; Dechow-Dichev/McNichols; Roychowdhury; híbridas/IA), assim como síntese narrativa apoiada por linha do tempo e tabelas. Como lacuna de pesquisa, têm-se: evidência causal norma-específica (IFRS 15/16/17) ainda restrita; compreensão incompleta de mecanismos de governança/auditoria [comitês, especialização setorial, American depositary receipts (ADRs)]; integração texto + números com interpretabilidade; impactos micro da transformação digital [enterprise resource planning (ERP), auditoria contínua, smart contracts]; e efeitos de base erosion and profit shifting (BEPS) sobre o elo contábil-fiscal. Os resultados indicam que uma convergência às IFRS se associa, em média, à redução moderada do gerenciamento por accruals, condicionada à governança, auditoria (Big Four) e enforcement; há indícios de substituição para atividades reais sob maior escrutínio contábil. Book-tax differences (BTDs) anormais e baixa conformidade fiscal-contábil relacionam-se a menor persistência dos lucros e maior risco informacional. A RC&F padronizou protocolos, alinhou desenhos às especificidades brasileiras e conectou resultados a problemas regulatórios. O artigo consolida boas práticas (benchmarks setoriais, efeitos fixos, clustering, testes de sensibilidade) e propõe agenda 2026-2030 em cinco frentes: trade-off accruals-real; IFRS específicas; mecanismos de governança/auditoria; integração texto + números; e transformação digital. A relevância do tema está na síntese útil a pesquisadores (mapa de validade e lacunas), reguladores e auditores (priorização de fiscalização) e usuários da informação (sinais de alerta). Ao integrar 25 anos de evidência em um quadro explicativo unificado, o estudo reorganiza o campo (canais, condições e limites do gerenciamento), normaliza protocolos para o contexto brasileiro e delimita prioridades de alto retorno para 2026-2030, reforçando a cumulatividade da literatura e aproximando o debate nacional dos padrões internacionais.
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