Aumentou a crise; nós reprimimos; a crise não diminuiu
encarceramento, letalidade e limites do ajuste prisional na crise do trabalho
DOI:
https://doi.org/10.11606/eISSN.2236-2878.rdg.2026.239206Palavras-chave:
cárcere, periferias, punição, ressocializaçãoResumo
Este artigo investiga as transformações contemporâneas nas formas de punir, enfocando da tortura à letalidade prisional, da punição em liberdade às formas de confinamento urbanas e relacionando-as com a crise do trabalho e da reprodução social capitalista. Apresentamos uma síntese das formulações desenvolvidas em nossa pesquisa de mestrado, cujo foco foi a execução da assim chamada política de segurança pública cidadã Pacto Pela Vida (PPV), entre 2007 e 2022, pelo estado de Pernambuco. Para o desenvolvimento desta pesquisa, contamos com a feitura de trabalhos de campo no Patronato Penitenciário de Pernambuco, semanalmente, ao longo de cinco meses, além de visitas de monitoramento a diferentes unidades prisionais do estado. Nossas principais conclusões revelam que, apesar do enfoque na prevenção social ao crime, o PPV produziu políticas sociais precárias, altas taxas de encarceramento, condições torturantes de cumprimento de pena e aumento da violência letal de Estado. A partir destes achados, desdobramos uma análise que conjuga ampliação da descartabilidade (denotada pela letalidade prisional, violência policial e pela degradação da vida, reduzida à sobrevivência) e impossibilidade de ressocialização pelo trabalho (denotada pela baixa taxa de contratos de trabalho formais e informais dos sobreviventes do cárcere), para encontrar, na escala da totalidade, a expulsão relativa e absoluta do trabalho vivo do processo produtivo, movida pelo aumento da composição orgânica do capital como fundamento da crise da sociedade capitalista.
Downloads
Referências
ABILIO, L. Uberização do trabalho: a subsunção real da viração. Blog da Boitempo, [S. l.], 22 fev. 2017. Disponível em: http://bit.ly/4eYO4cX. Acesso em: 13 jun. 2025.
ARAUJO, F. A prisão e a produção do espaço urbano: territorialidades carcerárias. In: MALLART, F.; GODOI, R. (org.). BR 111: a rota das prisões brasileiras. São Paulo: Veneta, 2017.
AUGUSTO, A. Para além da prisão-prédio: as periferias como campos de concentração a céu aberto. Cadernos Metrópole, v. 12, n. 23, p. 263-276, 2010. Disponível em: https://sl1nk.com/sgb7S. Acesso em: 12 jun. 2025.
BURAWOY, M. Marxismo sociológico: quatro países, quatro décadas, quatro grandes transformações e uma tradição crítica. São Paulo: Alameda, 2014.
CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA (CNJ). Portaria Conjunta CN/DMF nº 2, de 1 de julho de 2022. Dje/CNJ. Brasília. 4 de julho de 2022. Disponível em: http://bit.ly/4kELNVI. Acesso em: 13 jun. 2025.
CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA (CNJ). Relatório de correição extraordinária: sistemas informatizados, Varas Criminais e de Execuções Penais Tribunal de Justiça do Estado de Pernambuco. Conselho Nacional de Justiça. Brasília: CNJ, 2022.
CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA (CNJ). Letalidade prisional: uma questão de justiça e de saúde pública. Conselho Nacional de Justiça; Instituto de Ensino e Pesquisa Insper; Colaboração Fundação Getúlio Vargas. – Brasília: CNJ, 2023a.
CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA (CNJ). Pesquisa do CNJ destaca problemas de saúde e ameaças contra a vida nas prisões do Brasil. CNJ. Brasília. 12 maio 2023b. Disponível em: http://bit.ly/4eOz3dL. Acesso em: 11 jun. 2025
DAMIANI, A. L. Urbanização crítica e produção do espaço. Cidades, Presidente Prudente, V 6 Nº 10, p. 307-339, 2009.
FELTRAN, G. de S. Irmãos: uma história do PCC. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
FLAUZINA, A. L. P. Corpo negro caído no chão: o sistema penal e o projeto genocida do estado brasileiro. 2006. Dissertação (Mestrado em Direito) – Universidade de Brasília, Brasília, 2006. Disponível em: https://www.repositorio.unb.br/handle/10482/5117. Acesso em: 9 jun. 2025.
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA (FBSP). Atlas da Violência. FBSP, Brasília, 31 ago. 2021. Disponível em: https://forumseguranca.org.br/atlas-da-violencia/. Acesso em: 14 jun. 2025.
FOUCAULT, M. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. Tradução de Raquel Ramalhete. 20ª ed. São Paulo: Vozes. 2001.
G1 PE. Superlotação, maus-tratos e violações de direitos são comuns em presídios de Pernambuco, revela relatório. G1 PE. Olinda. 19 maio 2025. Disponível em: http://bit.ly/451Zh99. Acesso em: 3 jun. 2025.
GIAVAROTTI, D. M. Mercantilização da autoconstrução e crise do trabalho. Passa Palavra, São Paulo, 14 mar. 2022. Disponível em http://bit.ly/464ERxm. Acesso em: 9 jul. 2025.
GILMORE, R. W. Califórnia gulag: prisões, crise do capitalismo e abolicionismo penal. Igrá Kniga, 2024.
GODOI, R. Fluxos em cadeia: as prisões em São Paulo na virada dos tempos. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2017.
HARVEY, D. A produção capitalista do espaço. São Paulo: Annablume. 2005.
HIRATA, D. V. Sobreviver na adversidade: mercados e formas de vida. São Carlos: EdUFSCar, 2018.
INSTITUTO DE DEFESA DO DIREITO DE DEFESA (IDDD). Alimentação e prisões: a pena de fome no sistema prisional brasileiro. [S. l.]: IDDD, 2022. Disponível em: http://bit.ly/3UfSGSg. Acesso em: 2 jun. 2025.
KURZ, R. O colapso da modernização. São Paulo: Paz e Terra. 1992.
LEITE, A. C. G.; GIAVAROTTI, D. M. Padrão territorial e crise do trabalho: o confinamento como forma de territorialização das relações sociais capitalistas contemporâneas. Cuadernos de Geografía, Revista Colombiana de Geografía 29 (1): 32-50. doi: 10.15446/rcdg.v29n1.76443. 2020.
MACIEL, D. E. F. A rebelião do público-alvo e a crise da tecnologia social de pacificação: luta no Programa Fábricas de Cultura. 2018. Tese (Doutorado em Interfaces Sociais da Comunicação) - Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2018.
MARQUES, A. Crime e proceder: um experimento antropológico. [S. l.]: Alameda, 2014.
MBEMBE, A. Necropolítica. Tradução de Renata Santini. São Paulo: N-1 Edições, 2018.
MECANISMO NACIONAL DE PREVENÇÃO E COMBATE À TORTURA (MNPCT). Relatório Anual 2022. Brasília: MNPCT, 2023. Disponível em: http://bit.ly/4lLJdOy. Acesso em: 2 jun. 2025.
MELOSSI, D.; PAVARINI, M. Cárcere e fábrica: as origens do sistema penitenciário (séculos XVI-XIX). Rio de Janeiro, Revan, 2006.
MINISTÉRIO DA JUSTIÇA E DIREITOS HUMANOS (MJSP). Diagnóstico para estratégia de prevenção à tortura e tratamento degradante no sistema prisional brasileiro. Disponível em: http://bit.ly/44wK2VC. Acesso em 2 jun. 2025.
MENEGAT, M. Estudos sobre ruínas. Rio de Janeiro: Revan, 2012.
MONITOR DA VIOLÊNCIA. G1; Núcleo de Estudos da Violência (NEV-USP), São Paulo, 2021. Disponível em: https://g1.globo.com/monitor-da-violencia/. Acesso em: 2 jun. 2025.
OLIVEIRA, F. de. Crítica à razão dualista: o ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003.
OLIVEIRA, V. S. Nosso pacto é pela vida? Violência de Estado, encarceramento em massa e a política de segurança pública cidadã. Dissertação (Mestrado em Serviço Social), Universidade Federal de Pernambuco, CCSA, 2023. Disponível em: http://bit.ly/3GmUK84. Acesso em: 2 jun. 2025.
PASSOS, P. Por que o ‘Pacto Pela Vida’ em Pernambuco fracassou. Ponte.org, São Paulo, 9 maio 2018. Disponível em http://bit.ly/40kwXMK. Acesso em: 13 jun. 2025.
PASTORAL CARCERÁRIA. Vozes e dados da tortura em tempos de encarceramento em massa. Pastoral Carcerária: São Paulo. 2022. Disponível em: http://bit.ly/40ds08s. Acesso em: 2 jul. de 2025.
PRADO JR., C. Formação do Brasil contemporâneo: colônia. São Paulo: Brasiliense. (1942) 1979.
RAMOS, S. et al. Pele-alvo: a cor da violência policial. Rio de Janeiro: CESeC, 2022.
RUSCHE, G.; KIRCHHEIMER, O. Punição e estrutura social. Rio de Janeiro: Revan, 2004.
SADER, E. Quando novos personagens entraram em cena: experiências, falas e lutas dos trabalhadores da Grande São Paulo (1970-80). São Paulo: Paz e Terra, 1995.
SASSEN, S. Expulsões: brutalidade e complexidade na economia global. São Paulo: Paz e Terra, 2016.
SCHOLZ, R. Forma social e totalidade concreta: na urgência de um realismo dialético hoje. 2009. Revista EXIT! - Crise e Crítica da Sociedade da Mercadoria, n. 6, 2009. Disponível em: https://sl1nk.com/N0t1i. Acessado em 3 jun. 2025.
SISTEMA DE INFORMAÇÕES DO DEPARTAMENTO PENITENCIÁRIO NACIONAL (SISDEPEN). População por tipo de regime – 2024/2. Gov.br, Brasília, 2025. Disponível em: http://bit.ly/40fCcxg. Acesso em: 9 jun. 2025.
SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA (STJ). Ministro manda analisar contagem de pena em dobro no Complexo do Curado (PE) sem as restrições da Justiça local. STJ, Brasília, 11 out. 2022. Disponível em: http://bit.ly/44uOmF1. Acesso em: 13 jun. 2025.
TOLEDO, C. de A. A região das Lavras Baianas. Tese (Doutorado em Geografia Humana), Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008.
WACQUANT, L. As prisões da miséria. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
WACQUANT, L. O lugar da prisão na nova administração da pobreza. Novos Estudos CEBRAP, n. 80, São Paulo, 2008, p. 9-19.
WACQUANT, L. Punir os pobres: a nova gestão da miséria nos Estados Unidos. Rio de Janeiro: Revan, 2003.
WANG, J. Capitalismo carcerário. São Paulo: Igrá Kniga, 2021. 328 p.
WATCH, H. R. O Estado deixou o mal tomar conta. [S. l.]: [s. n.], 2015. 43 p. Disponível em: https://www.hrw.org/sites/default/files/report_pdf/brazil1015port_forupload.pdf. Acesso em: 13 jun. 2025.
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença
Direitos autorais (c) 2026 Victor Santos Oliveira

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 4.0 International License.
Autores que publicam nesta revista concordam com os seguintes termos:
- Autores mantém os direitos autorais e concedem à revista o direito de primeira publicação, com o trabalho simultaneamente licenciado sob a Licença Creative Commons Attribution BY-NC-SA que permite o compartilhamento do trabalho com reconhecimento da autoria e publicação inicial nesta revista.
- Autores têm autorização para assumir contratos adicionais separadamente, para distribuição não-exclusiva da versão do trabalho publicada nesta revista (ex.: publicar em repositório institucional ou como capítulo de livro), com reconhecimento de autoria e publicação inicial nesta revista. A licença adotada enquadra-se no padrão CC-BY-NC-SA.
- Autores têm permissão e são estimulados a publicar e distribuir seu trabalho online (ex.: em repositórios institucionais ou na sua página pessoal) a qualquer ponto antes ou durante o processo editorial, já que isso pode gerar alterações produtivas, bem como aumentar o impacto e a citação do trabalho publicado (Veja O Efeito do Acesso Livre).