Padrões de uso de medicamentos em indivíduos com covid-19 no Brasil: Epicovid 2.0
DOI:
https://doi.org/10.11606/s1518-8787.2026060007542Palavras-chave:
SARS-CoV-2, Coronavírus, Epidemiologia, Uso de Medicamentos, Estudo TransversalResumo
OBJETIVO: Descrever o padrão de uso de medicamentos que os indivíduos com covid-19 usaram para tratar a doença no Brasil, segundo a área de residência, características demográficas, socioeconômicas, religião e nível de confiança em cientistas. MÉTODOS: Inquérito Nacional Epicovid 2.0 (2024) em 133 municípios. A análise incluiu participantes que relataram ter sofrido episódio de covid-19. Avaliou-se o uso de antibióticos, azitromicina, antitérmicos, cloroquina e ivermectina, além dos desfechos compostos: uso de cloroquina e/ou ivermectina; cloroquina, ivermectina e/ou azitromicina (CIA); e uso de qualquer medicamento. Foram estimadas a frequência de uso e os intervalos de confiança de 95%, considerando o desenho amostral complexo e a ponderação da amostra RESULTADOS: A frequência de uso de qualquer medicamento para tratar covid-19 foi de 63,0% (IC95% 60,0–65,9). Os antitérmicos foram os mais utilizados (53,7%), seguidos por antibióticos (36,2%) e azitromicina (27,2%). O uso isolado de ivermectina foi relatado por 23,6% e o de cloroquina, por 12,1%; o uso de ivermectina e/ou cloroquina atingiu 27,8% e o CIA, 39,0%. No geral, o consumo de medicamentos foi mais frequente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste e entre mulheres. O uso concentrou-se entre adultos de 40–59 anos, pessoas com baixa escolaridade e menor renda. Pessoas autodeclaradas pretas e pardas relataram maior consumo de cloroquina. Uso de cloroquina, ivermectina e combinações destes medicamentos foi mais comum entre evangélicos (0,05 < p < 0,1) e entre pessoas que consultaram médicos (p < 0,001). Participantes que relataram desconfiar de cientistas relataram maior uso de cloroquina e de cloroquina/ivermectina em comparação com os que relataram confiar em cientistas. CONCLUSÃO: Quatro em cada dez pessoas que relataram episódios de covid-19, para tratar a doença, consumiram medicamentos não recomendados pela ciência. O uso de medicamentos tendeu a ser mais frequente entre mulheres, na metade norte do Brasil, entre evangélicos e pessoas de menor renda e escolaridade. Esses grupos devem ser priorizados em campanhas futuras sobre o uso adequado de medicamentos.
Referências
1. World Health Organization. Medication Without Harm. Geneva: World Health Organization; 2017 [citado 2026 maio 7]. Disponível em: https://www.who.int/initiatives/medicationwithout-harm
2. Siemieniuk RA, Bartoszko JJ, Zeraatkar D, Kum E, Qasim A, Martinez JPD et al. Drug treatments for covid-19: living systematic review and network meta-analysis. BMJ. 2020;370:m2980. https://doi.org/10.1136/bmj.m2980
3. Perico N, Cortinovis M, Suter F, Remuzzi G. Home as the new frontier for the treatment of COVID-19: the case for anti-inflammatory agents. Lancet Infect Dis. 2023;23(1):e22-33. https://doi.org/10.1016/S1473-3099(22)00433-9
4. Cavalcanti AB, Zampieri FG, Rosa RG, Azevedo LC, Veiga VC, Avezum A et al. Hydroxychloroquine with or without azithromycin in mild-to-moderate Covid-19. N Engl J Med. 2020;383(21):2041-52. https://doi.org/10.1056/NEJMoa2019014
5. Popp M, Stegemann M, Metzendorf MI, Gould S, Kranke P, Meybohm P et al. Ivermectin for preventing and treating COVID-19. Cochrane Database Syst Rev. 2021;7(7):CD015017. https://doi.org/10.1002/14651858.CD015017.pub2
6. RECOVERY Collaborative Group; Horby P, Mafham M, Linsell L, Bell JL, Staplin N et al. Effect of Hydroxychloroquine in Hospitalized Patients with Covid-19. N Engl J Med. 2020;383(21):2030-40. https://doi.org/10.1056/NEJMoa2022926
7. Singh B, Ryan H, Kredo T, Chaplin M, Fletcher T. Chloroquine or hydroxychloroquine for prevention and treatment of COVID-19. Cochrane Database Syst Rev. 2021;2(2):CD013587. https://doi.org/10.1002/14651858.CD013587.pub2
8. Melo JRR, Duarte EC, Moraes MV, Fleck K, Silva ASN, Arrais PSD. Reações adversas a medicamentos em pacientes com COVID-19 no Brasil: análise das notificações espontâneas do sistema de farmacovigilância brasileiro. Cad Saude Publica. 2021;37(1):e00245820. https://doi.org/10.1590/0102-311X00245820
9. Lasco G, Loreche AM, Aguilar MAD, Yu VG. Miracle cures, wonder drugs, and unproven treatments for COVID-19: a global database. Soc Sci Med. 2026;391:118901. https://doi.org/10.1016/j.socscimed.2025.118901
10. Machado C, Santos J, Santos N, Bandeira L. International trends in misinformation and the departure from the scientific debate, Salvador: Instituto Nacional de Ciência & Tecnologia em Democracia Digital; 2020.
11. Guimarães A, Carvalho WRG. Desinformação, negacionismo e automedicação: a relação da população com as drogas “milagrosas” em meio à pandemia da COVID-19. Interam J Med Health. 2020;3:e202003050. https://doi.org/10.31005/iajmh.v3i0.147
12. Arrais PSD, Fernandes MEP, Pizzol TSD, Ramos LR, Mengue SS, Luiza VL et al. Prevalência da automedicação no Brasil e fatores associados. Rev Saúde Pública. 2016;50(supl.2):13s. https://doi.org/10.1590/S1518-8787.2016050006117
13. Conselho Federal de Farmácia. Quase metade dos brasileiros que usaram medicamentos nos últimos seis meses se automedica até uma vez por mês. Brasília: CFF; 2023 [citado 2026 maio 7]. Disponível em: https://crfse.org.br/noticia/906/quase-metade-dos-brasileiros-que-usarammedicamentos-nos-ultimos-seis-meses-se-automedica-ate-uma-vez-por-mes
14. Pan American Health Organization. Entenda a infodemia e a desinformação na luta contra a COVID-19. Washington: PAHO; 2020.
15. Associação Médica Brasileira. Uso de cloroquina e outros medicamentos sem comprovação científica contra a COVID-19 deve ser banido. São Paulo: AMB; 2021 [citado 2026 maio 7]. Disponível em: https://amb.org.br/noticias/associacao-medica-brasileira-diz-que-uso-decloroquina-e-outros-remedios-sem-eficacia-contra-covid-19-deve-ser-banido/
16. Merck & Co. Merck statement on ivermectin use during the COVID-19 pandemic. Kenilworth: Merck & Co.; 2021 [citado 2026 maio 7]. Disponível em: https://www.merck.com/news/merckstatement-on-ivermectin-use-during-the-covid-19-pandemic/
17. US Food and Drug Administration. FDA cautions against use of hydroxychloroquine or chloroquine for COVID-19 outside of the hospital setting or a clinical trial. Silver Spring: FDA; 2020 [citado 2026 maio 7]. Disponível em: https://www.fda.gov/drugs/drug-safety-andavailability/fda-cautions-against-use-hydroxychloroquine-or-chloroquine-covid-19-outsidehospital-setting-or
18. COVID-19 Treatment Guidelines Panel. Coronavirus disease 2019 (COVID-19) treatment guidelines. Bethesda: National Institutes of Health; 2025.
19. Roy-García IA, Moreno-Noguez M, Rivas-Ruiz R, Zapata-Tarres M, Perez-Rodriguez M, Ortiz-Zamora MA et al.Efficacy of hydroxychloroquine with azithromycin in mild COVID-19: randomized clinical trial. Cir Cir. 2026;94(1):65-73. https://doi.org/10.24875/CIRU.23000265
20. Caponi S, Brzozowski FS, Hellmann F, Bittencourt SC. O uso político da cloroquina: COVID-19, negacionismo e neoliberalismo. Rev Bras Sociol. 2021;9(21):78-102. https://doi.org/10.20336/rbs.774
21. Santana OMB, Prado MAR. Negacionismo à brasileira: os impactos da desordem informacional para o fenômeno da (des) infodemia no Brasil durante a pandemia da COVID-19. Rev Comun Midiática. 2024;19(1):e202401. https://doi.org/10.5016/hjmrdj34
22. Silva H. Medical misinformation and unproven COVID-19 treatments in Brazil: analyzing the impact of misguided health policies. Pharmacologia. 2024;15(1):11. https://doi.org/10.17311/pharmacologia.2024.11.14
23. Bandeira O, Carranza B. Reactions to the pandemic in Latin America and Brazil: are religions essential services? Int J Latin Am Relig. 2020;4(2):170-93. https://doi.org/10.1007/s41603-020-00116-0
24. Ferrari IW, Grisotti M, Amorim LC, Rodrigues LZ, Ribas MT, Silva CU. “Tratamento precoce”, antivacinação e negacionismo: quem são os Médicos pela Vida no contexto da pandemia de COVID-19 no Brasil? Cienc Saude Colet. 2022;27(11):4213-24. https://doi.org/10.1590/1413-812320222711.09282022
25. Melo JRR, Duarte EC, Moraes MV, Fleck K, Arrais PSD. Automedicação e uso indiscriminado de medicamentos durante a pandemia da COVID-19. Cad Saúde Pública. 2021;37(4):e00053221. https://doi.org/10.1590/0102-311X00053221
26. Santos-Pinto CDB, Miranda ES, Castro CGSO. O “kit-covid” e o programa farmácia popular do Brasil. Cad Saúde Pública. 2021;37(2):e00348020. https://doi.org/10.1590/0102-311X00348020
27. Machado LZ, Marcon CEM. Carta às Editoras sobre o artigo de Melo et al. Cad Saude Publica. 2021;37(4):e00028721. https://doi.org/10.1590/0102-311x00028721
28. Galhardi CP, Freire NP, Minayo MCS, Fagundes MCM. Fato ou fake? Uma análise da desinformação frente à pandemia da COVID-19 no Brasil. Cienc Saude Colet. 2020;25(supl.2):4201-10. https://doi.org/10.1590/1413-812320202510.2.28922020
29. Pimentel MR, Souza WM. Avaliação do uso de medicamentos em estudantes durante a pandemia da COVID-19. Cad ESP. 2024;18(1):e2017. https://doi.org/10.54620/cadesp.v18i1.2017
30. Alves DKB, Barbosa EDS, Santos MMH, Silva AD, Nóbrega IMF, Medeiros FPM et al. Impacto da pandemia da COVID-19 nas práticas de automedicação: um estudo descritivo com professores da rede pública de Pernambuco. Rev Eletron Acervo Saude. 2022;15(8):e10744. https://doi.org/10.25248/REAS.e10744.2022
31. Cecilio SG, Vargas MEC, Silveira APV, Coelho JCO, Silva DRG et al. Impacto da COVID-19 na prática de automedicação em estudantes universitários. Trab Educ Saude. 2024;22:e02368235. https://doi.org/10.1590/1981-7746-ojs236
32. Branco LL, Lobato MYF, Borges JFT, Oliveira RCS. Automedicação durante a pandemia de COVID-19 e fatores associados. Res Soc Dev. 2023;12(2):e11212239924. https://doi.org/10.1590/2317-6369/06522pt2023v48e14
33. Pitta MGR, Lima LP, Carvalho JS, Teixeira DRC, Nunes TRS, Moura JAS et al. Análise do perfil de automedicação em tempos de COVID-19 no Brasil. Res Soc Dev. 2021;10(11):e28101119296. https://doi.org/10.33448/rsd-v10i11.19296
34. Santos CVB, Coelho LE, Luz PM, Goedert GT, Csillag D, Gennari J et al. History of self-reported COVID-19 cases and hospitalizations in the Brazilian population: a countrywide survey. Int J Epidemiol. 2026 Jan 1;55(Suppl.1):i1-i12. https://doi.org/10.1093/ije/dyaf153
35. Mitjà O, Corbacho-Monné M, Ubals M, Alemany A, Suñer C, Tebé C et al. A cluster-randomized trial of hydroxychloroquine for prevention of COVID-19. N Engl J Med. 2021;384(5):417-27. https://doi.org/10.1056/NEJMoa2021801
36. Wehrmeister FC, Menezes AM, Dalcolmo M, Prendergast EC, Batista TG, Leão OAA et al. A countrywide study on post-COVID-19 condition in Brazil: the Epicovid 2.0. Int J Epidemiol. 2026;55(Suppl.1):i31-i40. https://doi.org/10.1093/ije/dyaf143
37. Bertoldi AD, Pizzol TSD, Ramos LR, Mengue SS, Luiza VL, Tavares NUL et al. Sociodemographic profile of medicines users in Brazil: results from the 2014 PNAUM survey. Rev Saúde Pública. 2016;50(suppl.2):5s. https://doi.org/10.1590/S1518-8787.2016050006119
38. Fonseca AB, Dias J. Caminhos da desinformação: evangélicos, fake news e WhatsApp no Brasil. Rio de Janeiro: Instituto de Estudos da Religião; 2021.
39. Recuero R, Soares FB, editores. O discurso desinformativo sobre a cura da COVID-19 no Twitter: estudo de caso. E-Compós. 2021;24:e202111. https://doi.org/10.30962/ec.212
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença
Direitos autorais (c) 2026 Romina Buffarini, Cesar Gomes Victora, Pedro Curi Hallal, Mariângela Freitas da Silveira

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Como Citar
Dados de financiamento
-
Ministério da Saúde
Números do Financiamento Projeto EPICOVID 2.0