Cosmopercepções e modos de cuidar de vida: saúde, cuidado e alimentação em uma comunidade quilombola no Nordeste brasileiro
DOI :
https://doi.org/10.1590/S0104-12902026250735ptMots-clés :
Quilombo; Cosmopercepção Quilombola; Saúde; Cuidado; Alimentação.Résumé
O quilombo, ao mesmo tempo que se institui enquanto lócus de resistência e memória coletiva para a população negra brasileira, articula dimensões do processo da saúde-doença que transpassam as barreiras instauradas nos modos de cuidar produzidos a partir da racionalidade biomédica. Este artigo busca compreender os elementos constitutivos das noções de saúde, cuidado e alimentação na cosmopercepção quilombola disseminada na experiência do quilombo Kaonge, localizado no Recôncavo baiano. Partiu-se de uma abordagem etnográfica assentada em trabalho de campo realizado entre os meses de agosto de 2022 e outubro de 2023, compreendendo observação participante, entrevistas semiestruturadas e um grupo focal, mobilizando oito mulheres e três homens moradores do quilombo. Buscou-se a multirreferencialidade nas narrativas, vivências e memória coletiva do grupo. Assimilado enquanto território racialmente delimitado, o quilombo mobiliza arranjos produtivos, práticas de cuidado e discursos sobre o viver que estão expressos na tessitura das memórias, sobretudo alimentares, assentadas na preservação do seu espaço onde as fronteiras da clássica discussão acerca da natureza e cultura estão constantemente sendo tensionadas. Busca-se, a partir desta reflexão crítica, a contracolonização de práticas de cuidado disseminadas no campo da saúde, instituindo novas simetrias entre os saberes tradicionais e acadêmicos no fazer saúde e políticas públicas resultantes.
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