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				<journal-title>Revista de Tradução e Terminologia</journal-title>
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			<issn pub-type="ppub">2317-9511</issn>
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				<publisher-name>Centro Interdepartamental de Tradução e Terminologia da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.11606/issn.2317-9511.v38p291-314</article-id>
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					<subject>Articles</subject>
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				<article-title><italic>André Louco</italic>, de Bernardo Élis, sob a Ótica de Rosa Berardo</article-title>
				<article-title><italic>André Louco</italic>, by Bernardo Élis, under Rosa Berardo’s perspective</article-title>
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				<label>1</label>
				<institution content-type="original">Graduando em Letras pela Universidade Estadual de Goiás (UEG|UnUCSEH). E-mail: souzaramos.ctt@gmail.com</institution>
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			<aff id="aff2">
				<label>2</label>
				<institution content-type="original">Doutor em Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista. Docente nos Programas de Pós-Graduação TECCER - Territórios e Expressões Culturais no Cerrado e POSLLI - Língua, Literatura e Interculturalidade da Universidade Estadual de Goiás. E-mail: ewerton.ignacio@ueg.br</institution>
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				<label>3</label>
				<institution content-type="original">Doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Docente no Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Educação, Linguagem e Tecnologias (IELT) da Universidade Estadual de Goiás. E-mail: curadoeugenia@hotmail.com</institution>
				<institution content-type="orgname">Pontifícia Universidade Católica de São Paulo</institution>
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				<day>16</day>
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				<year>2022</year>
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			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
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			<volume>38</volume>
			<fpage>291</fpage>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>Concebendo a arte literária e a arte cinematográfica como expressão humana e espelho do ser social e político, o presente artigo tem o objetivo de analisar como a tradução cinematográfica de Rosa Berardo, André Louco (1990), dialoga com a novela homônima de Bernardo <xref ref-type="bibr" rid="B5">Élis (1978</xref>). Sobremaneira, nos conflitos miméticos responsáveis por disparar o mecanismo do bode expiatório girardiano. Trata-se de uma pesquisa com ênfase na tradução intersemiótica, de Julio <xref ref-type="bibr" rid="B13">Plaza (2003</xref>), verticalizada com uma análise das relações sociais, proposta por <xref ref-type="bibr" rid="B6">Girard (2004</xref>). Elucidando, assim, o processo de transmutação e composição do foco narrativo conduzido pela ótica de Berardo.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>Abstract</title>
				<p>Conceiving literary and cinematographic art as an expression of human and a mirror of social and political being, this study aims to analyze how Rosa Berardo’s film translation, André Louco (1990), dialogues with the homonymous novel by Bernardo <xref ref-type="bibr" rid="B5">Élis (1978</xref>). Especially in the mimetic conflicts responsible for triggering the Scapegoat mechanism. It is a research with an emphasis on intersemiotic translation, by Julio <xref ref-type="bibr" rid="B13">Plaza (2003</xref>), verticalized with an analysis of social relations, proposed by <xref ref-type="bibr" rid="B6">Girard (2004</xref>), elucidating the process of transmutation and composition of the narrative focus conducted by Berardo's perspective.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Tradução Intersemiótica</kwd>
				<kwd>Bode expiatório</kwd>
				<kwd>Bernardo Élis</kwd>
				<kwd>Rosa Berardo</kwd>
				<kwd>André Louco</kwd>
			</kwd-group>
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				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Intersemiotic Translation</kwd>
				<kwd>Scapegoat</kwd>
				<kwd>Bernardo Élis, Rosa Berardo</kwd>
				<kwd>André Louco</kwd>
			</kwd-group>
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		<sec sec-type="intro">
			<title>1. Introdução</title>
			<p>A elaboração de uma adaptação cinematográfica caracteriza-se pela ressignificação de signos entre linguagens, criando uma obra originária a partir de uma (re)leitura e cotejamento seletivo, de forma que “o signo estético, quando é traduzido por outro signo estético, mantém com este uma conexão por similaridade” (<xref ref-type="bibr" rid="B13">PLAZA 2003</xref>: 32), estabelecendo uma “relação íntima com seu original, ao qual deve sua existência” (Ibid.). Todavia, esse processo independe de fidelidade à obra original, apresentando múltiplas configurações e intencionalidades que se remontam segundo as dinâmicas de cada mídia e autor. Assim,</p>
			<disp-quote>
				<p>os signos empregados têm tendência a formar novos objetos imediatos, novos sentidos e novas estruturas que [...] tendem a se desvincular do original. A eleição de um sistema de signos, portanto, induz a linguagem a tomar caminhos e encaminhamentos inerentes à sua estrutura. [...] Nessa medida, a tradução intersemiótica induz [...] à descoberta de novas realidades, visto que “na criação de uma nova linguagem não se visa simplesmente uma outra representação de [...] conteúdos já pré-existentes [...], mas a criação de novas realidades, de novas formas-conteúdo” (PIGNATARI 1975: 161 <italic>apud</italic><xref ref-type="bibr" rid="B13">PLAZA 2003</xref>: 30).</p>
			</disp-quote>
			<p>Isso significa que a adaptação é uma <italic>interpretação</italic> passível de redefinir os valores e o sentido da experiência narrativa, utilizando-se de recursos semióticos próprios de sua mídia para (re)criar uma obra; dialogando com o original, mas sem a obrigatoriedade de replicá-lo. Dessa forma, os estudos de tradução intersemiótica não devem se ater à ideia de ‘traição’ e ‘fidelidade’, mas à compreensão do diálogo latente no processo de recriação e transmutação sígnica.</p>
			<p>Segundo Roman <xref ref-type="bibr" rid="B10">Jakobson (2015</xref>: 65, grifos do autor), a “tradução intersemiótica ou <italic>transmutação</italic> consiste na interpretação dos signos verbais por meio de sistemas de signos não-verbais”. Apoiando-se no conceito de intersemiose de Jakobson e nos estudos de Charles Peirce e Walter Benjamin, Plaza entende a tradução intersemiótica como “transação criativa entre diferentes linguagens ou sistemas de signos” (<italic>apud</italic><xref ref-type="bibr" rid="B1">AMORIM 2013</xref>: 18), não ocorrendo relações de equivalência nesse processo, pois a transmutação parte de um ato criativo que concebe um novo original, explorando diferentes signos, objetivos e estratégias narrativas. Portanto, os processos de “leitura, tradução, crítica e análise são operações simultâneas, embutidas/ou paralelas que serão sintetizadas na tradução” (<xref ref-type="bibr" rid="B13">PLAZA 2003</xref>: 30).</p>
			<p>Tendo em vista que “a cultura contemporânea é sobretudo visual” (<xref ref-type="bibr" rid="B14">PELLEGRINI 2003</xref>: 15), a tradução cinematográfica de uma obra literária atua como um expoente orgânico do texto original, fomentando novos leitores ao alcançar espaços e públicos que tangenciam o ambiente literário, seja pelo caráter imagético de ‘consumo passivo’ (e gama de estímulos sensoriais do audiovisual) ou por construtos socioculturais. Fato é que a tradução entre mídias, independente da lógica de mercado, gera debates e discussões, corroborando com pesquisas e análises teóricas. Dessa forma, os estudos comparados, como nos informa <xref ref-type="bibr" rid="B3">Carvalhal (2006</xref>), amparam o imbricamento entre diferentes linguagens e áreas do saber, possibilitando aproximações entre textos literários e narrativas cinematográficas sob múltiplas perspectivas.</p>
			<p>Para analisar as obras, utilizar-se-á como referencial teórico o conceito de tradução intersemiótica, de Julio <xref ref-type="bibr" rid="B13">Plaza (2003</xref>), complementado pelos estudos de <xref ref-type="bibr" rid="B17">Xavier (2003</xref>) e o mecanismo do bode expiatório, de René <xref ref-type="bibr" rid="B6">Girard (2004</xref>).</p>
			<p>Abarcando uma metodologia de caráter qualitativo e natureza analítico-descritiva, sob a esteira do comparativismo, a investigação ocupa-se da interpretação dos fenômenos e atribuição de significados (<xref ref-type="bibr" rid="B2">BRASILEIRO 2013</xref>), dividindo-se em dois momentos:</p>
			<p>(1) discussão do texto literário;</p>
			<p>(2) análise da tradução cinematográfica em diálogo.</p>
			<p>Assim, concebendo a arte literária e a arte cinematográfica como expressão humana e espelho do ser social e político, propomos enriquecer o debate por meio de uma análise girardiana das interações sociais, nos embasando no Desejo Mimético (<xref ref-type="bibr" rid="B7">GIRARD 2009</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B11">KIRWAN 2015</xref>), que elucida a origem e criação de bodes expiatórios (<xref ref-type="bibr" rid="B8">GIRARD 2012</xref>: 88) ao desvendar a dimensão da mímesis do desejo como um dos elementos estruturantes da violência (<xref ref-type="bibr" rid="B9">HAMERTON-KELLY 2012</xref>: 58).<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref> Essa discussão justifica-se por esclarecer um dos pontos centrais de ambas as obras, contribuindo para o debate da transmutação e composição do foco narrativo.</p>
			<p>O fenômeno do bode expiatório será analisado a partir dos estereótipos persecutórios do mecanismo vitimário (<xref ref-type="bibr" rid="B6">GIRARD 2004</xref>: 19-32), sendo estes: a (i) <bold>Crise Indiferenciadora</bold>; o (ii) <bold>Crime Indiferenciador</bold>; as (iii) <bold>Marcas Vitimárias</bold>; e a (iv) <bold>Violência ou Expulsão Coletiva</bold> (simbólica ou física, lançando à vítima a responsabilidade sobre a crise).</p>
		</sec>
		<sec>
			<title><bold>2. <italic>André Louco</italic> e a narrativa de Bernardo Élis</bold></title>
			<p>Com uma narrativa permeada pela realidade humana e social, tendo como palco o Brasil Central, <italic>Ermos e Gerais</italic> marca, em 1944, a estreia de Bernardo Élis - livro composto por dezenove contos e a novela <italic>André Louco</italic> (1978).<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref>
			</p>
			<p>Situada em um contexto de agitações e conflitos, a obra estrutura-se em um interregno marcado por lutas entre o velho e o novo, construindo um registro da cultura e identidade rural que engatinhava em seu processo de urbanização. Élis assume a forma do conto e rompe com a tradição nordestina do romance de 1930, produzindo uma obra estranha e original (<xref ref-type="bibr" rid="B16">TELES 2003</xref>: 9) que se utiliza do grotesco como expressão da mudança histórica. Demonstrando consciência das nuances e do caráter estrutural da violência, o autor dá voz àqueles que foram preteridos e apagados pela história, denunciando as oligarquias e desmandos do coronelismo que relegaram uma realidade ‘semifeudal’ a esses sujeitos esquecidos, abandonados aos ermos e gerais.</p>
			<p>Inserida nesse quadro, <italic>André Louco</italic> é uma novela literária de 47 páginas, com traços regionalistas, que explora o imaginário popular a partir da figura do louco. Contada em primeira pessoa por um narrador-personagem, utilizando-se de analepse, há “uma distância temporal entre o passado da história e o presente da narração, vazios muitas vezes preenchidos pelas observações do adulto que se faz um narrador menino” (<xref ref-type="bibr" rid="B12">MARCHEZAN 2005</xref>: xxv).</p>
			<p>Explorando a realidade de uma comunidade interiorana, Bernardo Élis tece uma união coesa entre a linguagem culta e coloquial, na qual cada personagem possui suas idiossincrasias;<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>3</sup></xref> destaca-se a estética literária do narrador que não perde o caráter intimista da oralidade.</p>
			<disp-quote>
				<p>Por trás de cada conto está a estrutura de [...] um causo, quando não de uma lenda ou de um mito. [...] E é esse sentido de oralidade que determina a ressonância linguística do coloquialismo que marca as falas do narrador e das personagens, já que o espaço entre as duas estâncias se vê praticamente eliminado (<xref ref-type="bibr" rid="B16">TELES 2003</xref>: 14).</p>
			</disp-quote>
			<p>Plasmando um Brasil mítico, repleto de crendices, medos e lendas folclóricas, o espaço ficcional remonta um pequeno município (anônimo) marcado por uma linha tênue entre a cidade e o campo, com suas instituições estatais em processo de formação. A partir das descrições, costumes e componentes imediatos, é possível inferir que a novela se passa no período entreguerras da primeira metade do século XX. O pai do narrador, João Ferreira, conversa com o médico alemão sobre a <italic>Grande Guerra</italic>. Fala sobre o <italic>Comunismo</italic>. E em outro momento, relata-se o uso de ‘Réis’ como unidade monetária, posteriormente substituída pelo Cruzeiro, em 1942: “meu pai não pediu diferença, pagou cinco contos de réis e saiu falando para todo o mundo que pagou somente 200$000” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">ÉLIS 1978</xref>: 18).</p>
			<p>A construção narrativa apresenta digressões com cortes de cenas que se assemelham a <italic>takes</italic> cinematográficos. O autor estimula nossos sentidos por meio da palavra, trabalhando nosso imaginário ao conceber <bold>imagens</bold> que se formulam pela oralidade.</p>
			<disp-quote>
				<p>Ela costurava, a cabeça inclinada, sua <bold>sombra</bold><xref ref-type="fn" rid="fn4"><sup>4</sup></xref> vacilante projetada disforme na parede, no teto sem forro, e conversava sobre André Louco: que ele matava todo mundo; que ele fizera bramura; que ele ia fugir e estrangular habitante por habitante da cidade (<xref ref-type="bibr" rid="B5">ÉLIS 1978</xref>: 7, grifo nosso).</p>
			</disp-quote>
			<p>Assim, a trama se desenvolve pelo ponto de vista do narrador- personagem, compondo um relato de caso calcado nas memórias da infância. Essa ótica dita o foco narrativo da novela, que se fixa na dinâmica entre os moradores da comunidade, com destaque para João Ferreira, estabelecendo uma relação periférica da personagem André que permeia a sociedade reverberada pelos ruídos e ecos do imaginário coletivo. Essa perspectiva nos mostra como João direciona seus ressentimentos e recalques para André, apontando-o como o culpado por tudo o que lhe aflige e buscando disseminar essa ideia para expulsar o Louco do município.</p>
			<p>Essas informações são importantes para contextualizar a análise dos estereótipos persecutórios e o modo como a trama nos é apresentada.</p>
			<p>Desse modo, João vivia agastado, até eleger sua vítima expiatória:</p>
			<disp-quote>
				<p>Por fim, atinou com a causa primária de toda aquela complicação psicológica em que vivia nos últimos tempos - André Louco. Não existisse ele, não haveria espancamento de Pedro, não haveria a sua mendicidade de favores aos jurados, não haveria sua humilhação ante o coronel. Para desabafar, virou-se contra o louco, que passou a bode expiatório.</p>
			</disp-quote>
			<disp-quote>
				<p>- Essa cidade é um suplício, ninguém tem descanso. A noite inteira é berreiro de doido. Em toda a parte procuram diminuir o ruído. Aqui existe um cuidado meticuloso em aumentá-lo (<xref ref-type="bibr" rid="B5">ÉLIS 1978</xref>: 23).</p>
			</disp-quote>
			<p>A partir desse momento, João começa a advogar contra o Louco: “Esse endemoniado, qualquer dia, sai pela rua e será muito bom se não matar alguém” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">ÉLIS 1978</xref>: 23). Logo em seguida:</p>
			<disp-quote>
				<p>um dia, quando o filho do Valentim foi jogar o pacote de ‘comê’ para o demente, ele deu aquele urro, balançou as grades. O menino confiava nela; já estava habituado com a cena:</p>
			</disp-quote>
			<disp-quote>
				<p>- Bamo vê, André véiu! Força!</p>
			</disp-quote>
			<disp-quote>
				<p>E não é que a grade cedeu mesmo? O menino correu. Era tarde, porém.</p>
			</disp-quote>
			<disp-quote>
				<p>- André Louco fugiu! (<xref ref-type="bibr" rid="B5">ÉLIS 1978</xref>: 28-29).<xref ref-type="fn" rid="fn5"><sup>5</sup></xref>
				</p>
			</disp-quote>
			<p>A comunidade se reúne na casa de João para escutar a história, e é nesse momento que ele consegue a atenção desejada; apontando André como o causador de todos os males do lugar. Apesar de conseguir plantar a semente dessa narrativa, as pessoas não se revoltam contra André, mesmo após a morte do filho do Valentim: “Se não fosse o louco não teríamos hoje este prosão animado, - continuava chistoso o dentista” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">ÉLIS 1978</xref>: 37).</p>
			<p>O ápice da crise indiferenciadora, no entanto, ocorre quando alguém grita o nome de ‘André Louco’ na porta da igreja. Os moradores entram em pânico ao pensar que o louco tinha escapado novamente. Assim, esse mal- entendido começa a gerar inúmeros conflitos entre os habitantes, até chegar a notícia de que a mulher do escrivão sofreu um aborto ao fugir da igreja: “Foi aí que a revolução de meu pai encontrou clima propício. - Bem que o senhor disse, seu João. É preciso mandar esse tranca embora. Veja quanta discórdia, quanta coisa ridícula” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">ÉLIS 1978</xref>: 46).</p>
			<p>O crime indiferenciador,<xref ref-type="fn" rid="fn6"><sup>6</sup></xref> segundo estereótipo, não precisa efetivamente ter sido cometido pelo bode expiatório, visto que ele tem valor simbólico. O foco é atribuir a André a culpa por toda a crise mimética. Assim, há um apontamento genérico: André é a origem de todos os problemas; é o responsável pelo aborto.<xref ref-type="fn" rid="fn7"><sup>7</sup></xref> Mas, no âmbito pessoal, cada um atribui um crime específico: João culpa André por tudo o que lhe acontecera com o alemão, Pedro e o coronel Bentinho. Para Joana, “André Louco estava possuído do capeta” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">ÉLIS 1978</xref>: 38).</p>
			<p>Quanto às marcas vitimárias, <xref ref-type="bibr" rid="B6">Girard (2004</xref>: 26-27) aponta que a multidão tende a canalizar sua violência às ‘minorias’, atribuindo-lhes a culpa pela crise mimética. Assim, os traços culturais, religiosos e físicos, como a <italic>Loucura</italic> e deformações, tendem a polarizar os perseguidores. Pois são traços que <italic>diferenciam</italic> o bode expiatório da multidão escandalizada.</p>
			<p>Por fim, temos o último estereótipo: a violência ou expulsão coletiva. André Louco sofre ambos. Sendo expulso da comunidade e posteriormente morto no sítio de sua família. Conforme <xref ref-type="bibr" rid="B15">Rocha (2017</xref>: 59),</p>
			<disp-quote>
				<p>trata-se de mecanismo interno que ao mesmo tempo necessita criar uma exterioridade em relação ao próprio grupo. O bode expiatório é um membro do grupo, mas deixa de sê-lo na hora em que é assinalado como culpado da desordem. Converte-se assim numa espécie de elemento externo, favorecendo o retorno da coesão do grupo, que volta a reconhecer-se como unidade, em oposição ao futuro bode expiatório, figura mesma da alteridade que se havia perdido na crise da indiferenciação.<xref ref-type="fn" rid="fn8"><sup>8</sup></xref>
				</p>
			</disp-quote>
			<p>Assim, “André é louco, é pária, é um indivíduo privado de todos os direitos sejam eles religiosos ou sociais e, portanto, excluído da sociedade e aprisionado em sua loucura em contraponto a (in)sanidade social” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">CURADO 2016</xref>: 347).</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>3. A Ótica de Rosa Berardo</title>
			<p>André Louco (1990), de Rosa Berardo, é um curta-metragem (p&amp;b) em película 35mm, filmado na Cidade de Goiás, com duração de 16:30 min, uma adaptação da novela homônima de Bernardo Élis. O curta foi premiado no Festival de Cinema de Locarno (Suíça), sendo exibido em Gramado; Rio Cine Festival; e no Museu da Imagem e do Som de São Paulo.<xref ref-type="fn" rid="fn9"><sup>9</sup></xref> A obra estava guardada e jamais havia saído da ‘lata’ para livre circulação. Assim, com a inserção e disponibilização digital propiciada pela cineasta, finalmente foi possível retomá-la para estabelecer um diálogo com o texto literário, no qual analisamos a transmutação conduzida pela ótica de Berardo.</p>
			<p>Ao justapor as obras, constatou-se que o curta-metragem não pleiteou se afastar do texto original, dialogando com o mesmo contexto ficcional e utilizando-se de cenas e falas literais da novela. Atentando-se ao sincretismo semiótico e as demandas do formato empregado, Berardo realizou um recorte e rearranjo de símbolos e acontecimentos, transmutando-os em outra “configuração seletiva e sintética” (<xref ref-type="bibr" rid="B13">PLAZA 2003</xref>: 40). Desse modo, há uma redução da narrativa acrescida de duas cenas inéditas/originais, estabelecendo um plano simbólico sensível ao audiovisual. Esse procedimento corresponde a base da transcriação aplicada por Berardo, pois na tradução intersemiótica</p>
			<disp-quote>
				<p>o que se visa é penetrar pelas entranhas dos diferentes signos, buscando iluminar suas relações estruturais, pois são essas relações que mais interessam quando se trata de focalizar os procedimentos que regem a tradução. Traduzir criativamente é, sobretudo, inteligir estruturas que visam à transformação de formas (<xref ref-type="bibr" rid="B13">PLAZA 2003</xref>: 71).</p>
			</disp-quote>
			<p>Assim, Berardo reafirma as figuras do texto de Élis, acrescentando novos elementos ao (re)interpretá-los e dar-lhes nova forma, manifestando uma “consciência tradutora capaz de perscrutar não apenas os meandros da natureza do novo suporte, seu potencial e limites, mas, a partir disso, dar o salto qualitativo, isto é, passar da mera reprodução para a produção” (<xref ref-type="bibr" rid="B13">PLAZA 2003</xref>: 109).</p>
			<p>Na prática, podemos observar esse procedimento logo nos primeiros segundos da película. Replicando a cena inicial da novela, há sons de latidos e o tilintar de correntes, recurso objetivo retirado do texto bernardiano:</p>
			<disp-quote>
				<p>ouvi um barulho de corrente se arrastando nas pedras das calçadas, lá fora. A cachorrada latia desesperadamente pela cidade inteira. Os do largo do cemitério latiam e os da rua de baixo respondiam (<xref ref-type="bibr" rid="B5">ÉLIS 1978</xref>: 3).</p>
			</disp-quote>
			<p>Berardo complementa a cena com o uso de música instrumental não diegética, que auxilia na construção lúgubre e dramática do clima, introduzindo a personagem André Louco de forma indireta, por meio de sombras distorcidas (<xref ref-type="fig" rid="f1">figura 1</xref>); tal como uma assombração entrando na cidade. Observa-se, nas <xref ref-type="fig" rid="f1">figuras 1</xref> e <xref ref-type="fig" rid="f2">2</xref>, a aplicação do contraste de luz e sombras como recurso estético, marcando a <italic>mise-en-scène</italic> noturna. </p>
			<p>
				<fig id="f1">
					<label>Figura 1:</label>
					<caption>
						<title>Projeção da sombra de André Louco</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2317-9511-tradterm-38-291-gf1.jpg"/>
					<attrib>Fonte: André Louco (1990: 01:50/16:30) </attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>
				<fig id="f2">
					<label>Figura 2:</label>
					<caption>
						<title>Contraste de luz e sombra</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2317-9511-tradterm-38-291-gf2.jpg"/>
					<attrib>Fonte: <italic>André Louco</italic> (1990: 01:23/16:30) </attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>O uso de sombras distorcidas, ou em contraste, é pinçado do texto literário, adquirindo uma nova configuração e intencionalidade na película, estando presente em algumas passagens:</p>
			<disp-quote>
				<p>À claridade vermelha e vacilante da fornalha, sua <bold>sombra disforme projetava-se na parede</bold> enfumaçada e no teto enegrecido, mais impressionante, mais exótico, mais desproporcional.</p>
			</disp-quote>
			<disp-quote>
				<p>No nosso quarto, de noite, Joana costurava, augurando desgraças. A <bold>sombra</bold> dela <bold>escorria pelo soalho</bold>, <bold>dobrava-se na parede</bold>, tornava a dobrar-se no teto, onde havia estalidos estranhos (<xref ref-type="bibr" rid="B5">ÉLIS 1978</xref>: 49, grifos nossos).</p>
			</disp-quote>
			<p>Na composição da tradução, por meio do contraste de luz e sombras, Berardo cria um efeito estético que ambienta a diegese, transmitindo uma percepção de ‘atraso e de trevas’ de um município rural, sem luz elétrica; compondo uma dualidade entre dia/segurança e noite/terror:</p>
			<disp-quote>
				<p>De noite, assombrava a cidade com os urros. No silêncio de desespero da cidade desfalecida de atraso e de trevas, o grito rouco de André acordava assombrações e pesadelos (<xref ref-type="bibr" rid="B5">ÉLIS 1978</xref>: 5).</p>
			</disp-quote>
			<p>Ao sintetizar esses elementos, a cineasta ressignifica a cena, passando da reprodução à construção de um novo original.</p>
			<p>Quanto à estrutura narrativa, observa-se que a perspectiva foi modificada devido à retirada do narrador-personagem, alterando a forma como a trama nos é apresentada. Portanto, não há uso predominante de <italic>voz- over</italic>,<xref ref-type="fn" rid="fn10"><sup>10</sup></xref> recorrendo-se a ela uma única vez como recurso para desenvolver um <italic>flashback</italic> de André. Assim, as personagens João, Antão e o sacristão assumem, brevemente, o papel de narrador, mantendo uma coesão narrativa entre os cortes.</p>
			<p>O texto literário aborda vários acontecimentos do passado de André, nem sempre confiáveis. Desse modo, Berardo decide contar apenas um desses casos, utilizando-se de um trecho literal da novela,<xref ref-type="fn" rid="fn11"><sup>11</sup></xref> substituindo a voz do narrador-personagem por um diálogo, em <italic>voz-over</italic>, entre as três personagens citadas acima. Em seguida, há uma cena inédita na qual André faz um discurso em um curral, cercado por vacas (<xref ref-type="fig" rid="f3">Figura 3</xref>).</p>
			<p>
				<fig id="f3">
					<label>Figura 3:</label>
					<caption>
						<title>Discurso de André</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2317-9511-tradterm-38-291-gf3.jpg"/>
					<attrib>Fonte: <italic>André Louco</italic> (1990: 03:27/16:30) </attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>Essa cena, elaborada e criada exclusivamente para o curta-metragem, apresenta o momento exato em que André enlouquece, sendo preso por querer “distribuir o [gado] que não tem”, como afirma o delegado. Ensandecido, André produz um discurso aparentemente sem nexo, mas que remete à denúncia do coronelismo e exploração do trabalho.</p>
			<p>Há uma construção simbólica por trás da decupagem e ações da personagem. Enquanto discursa, André começa a se despir, arremessando o chapéu pelos ares (<xref ref-type="fig" rid="f4">figura 4</xref>). Aqui, as roupas representam as amarras e laços sociais, os acordos tácitos entre os indivíduos, a sanidade e racionalidade que nos permite viver em sociedade. Há um rompimento claro da personagem com o tecido da malha social, o diruir psicológico que abraça a loucura, tornando- se um sujeito imprevisível e de difícil convívio. E, por isso mesmo, incômodo. Assim, André Louco incomoda, mas produz fascínio: “Precisamos do louco, seu João. Precisamos muito dele. Sem o louco, ninguém aguenta a insipidez da cidade” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">ÉLIS 1978</xref>: 37).<xref ref-type="fn" rid="fn12"><sup>12</sup></xref>
			</p>
			<p>
				<fig id="f4">
					<label>Figura 4:</label>
					<caption>
						<title>André arremessando o chapéu</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2317-9511-tradterm-38-291-gf4.jpg"/>
					<attrib>Fonte: <italic>André Louco</italic> (1990: 03:44/16:30) </attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>Em seguida, há um corte de cena, saltando para o delegado na cadeia. Se no momento anterior André se despia e arremessava o chapéu pelos ares, agora a película nos mostra o delegado pegando o chapéu na mesa (<xref ref-type="fig" rid="f5">Figura 5</xref>), finalizando o plano simbólico ao ‘restabelecer’ a ordem: sendo André uma voz incômoda à sociedade, cabe às instituições coercivas do Estado calá-lo, segregando-o do convívio social.</p>
			<p>
				<fig id="f5">
					<label>Figura 5:</label>
					<caption>
						<title>Chapéu do Delegado</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2317-9511-tradterm-38-291-gf5.jpg"/>
					<attrib>Fonte: <italic>André Louco</italic> (1990: 03:45/16:30) </attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>Assim, Berardo segue um padrão ao pinçar trechos da novela, mesclando-as para produzir novos significados. Ao transpor os diálogos do texto, a cineasta mantém as marcas de oralidade, transmitindo o pensamento, nível de escolaridade e visão de mundo pessoal de cada personagem. Seja o religioso, científico ou mítico.</p>
			<p>Próximo ao desfecho que leva a expulsão de André, Berardo ressignifica o diálogo entre o filho de João e a empregada Joana (<xref ref-type="fig" rid="f6">figura 6</xref>), construindo um novo significado ao unir a passagem: “Joana começou a soprar o ferro, na janela, para avivar as brasas, e voltou à conversa” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">ÉLIS 1978</xref>: 23), ao diálogo:</p>
			<p>- Joana, se ele fugir, acha que ele vem aqui em casa?</p>
			<p>- Ele quem? André Louco?</p>
			<p>- É.</p>
			<p>- Ora, se évem! Évem, mas é feito cobra mandada. Seu pai mandô botá ele no pote (<xref ref-type="bibr" rid="B5">ÉLIS 1978</xref>: 7).</p>
			<p>Essa combinação nos antecipa que algo está para acontecer. Desse modo, após o diálogo, o filho de João pula a janela para seguir o menino que levava o almoço aos presidiários, incluindo André. Nesse momento, Joana encara o horizonte, torpe, como se pressentisse algo, um presságio; queimando a roupa com o ferro de passar (<xref ref-type="fig" rid="f7">figura 7</xref>).</p>
			<p>
				<fig id="f6">
					<label>Figura 6:</label>
					<caption>
						<title>Joana e o filho de João </title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2317-9511-tradterm-38-291-gf6.jpg"/>
					<attrib>Fonte: <italic>André Louco</italic> (1990: 05:16/16:30) </attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>
				<fig id="f7">
					<label>Figura 7:</label>
					<caption>
						<title>Joana tendo um presságio</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2317-9511-tradterm-38-291-gf7.jpg"/>
					<attrib>Fonte: <italic>André Louco</italic> (1990: 05:52/16:30) </attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>O menino joga a marmita de André pela fresta da janela, provocando o louco. Com feições animalescas (<xref ref-type="fig" rid="f8">figura 8</xref>), André ataca, arrancando a grade e fugindo da prisão. Dessa maneira, Berardo combina essa cena com o ápice da crise indiferenciadora do texto literário (quando alguém grita o nome de André Louco na porta da igreja, assustando as pessoas). Aqui, no entanto, é o filho de João que avisa os moradores. </p>
			<p>
				<fig id="f8">
					<label>Figura 8:</label>
					<caption>
						<title>André Louco comendo</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2317-9511-tradterm-38-291-gf8.jpg"/>
					<attrib>Fonte: <italic>André Louco</italic> (1990: 06:42/16:30) </attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>Se a novela desenvolve pequenas tramas para mostrar como João (e a comunidade) concebe o louco como um bode expiatório, na película, Berardo não se propõe a construir essa dinâmica; direcionando a câmera para André e sua jornada. Todavia, utilizando-se de um dos conflitos de Antão, a cineasta sintetiza o modo como direcionamos nossos ressentimentos em forma de violência. Expondo, assim, que todos nós temos nossos bodes expiatórios.</p>
			<p>Enquanto Antão se escondia na igreja, verificando se o louco não estava por perto, Sá Maria o chama, assustando-o (<xref ref-type="fig" rid="f9">figura 9</xref>). Ressentido por perder a pose de valente, ele canaliza e transforma esse sentimento em violência contra André Louco. Desse modo, Berardo recorta um fato da novela e o transforma, criando outra cena original (<xref ref-type="fig" rid="f10">figura 10</xref>).</p>
			<p>Após fugir da prisão, a comunidade expulsa André, e é Antão que o leva para fora da cidade. Ao atravessarem um rio, Antão afoga o louco, gargalhando e repetindo: “Quem é que tem medo de louco?”.</p>
			<p>
				<fig id="f9">
					<label>Figura 9:</label>
					<caption>
						<title>Antão se assustando </title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2317-9511-tradterm-38-291-gf9.jpg"/>
					<attrib>Fonte: <italic>André Louco</italic> (1990: 07:44/16:30) </attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>
				<fig id="f10">
					<label>Figura 10:</label>
					<caption>
						<title>Antão afogando André</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2317-9511-tradterm-38-291-gf10.jpg"/>
					<attrib>Fonte: <italic>André Louco</italic> (1990: 10:24/16:30)</attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>André é levado para um sítio, sendo acorrentado ao tronco e abandonado (<xref ref-type="fig" rid="f11">figura 11</xref>). Ressalta-se que há uma ruptura narrativa, quebrando a coesão, pois em nenhum momento temos informação sobre o lugar e as pessoas que ali estão, ou qual a conexão delas com André Louco. Essa lacuna propicia certa confusão caso o receptor não tenha lido a novela <italic>a priori</italic>. Situação que se agrava após a chegada da comitiva; visto que André é içado na cozinha, preso a um colete de couro, dando início a um processo de tortura movido pela ignorância. Maltratado e com os ferimentos expostos às moscas, um dos homens conclui que André está ‘entupido de demônio’. Juntos, jogam creolina nas feridas do louco. Urrando de dor e içado pelo colete de couro, André se debate em “polichinelos diabólicos”, até cessar.</p>
			<disp-quote>
				<p>“- As bichera tá tudo morta - exclamou o baiano. E com elas, André.</p>
			</disp-quote>
			<p>Santo André Louco, mártir, orai por ele” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">ÉLIS 1978</xref>: 49).</p>
			<p>
				<fig id="f11">
					<label>Figura 11:</label>
					<caption>
						<title>André Louco acorrentado ao tronco</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2317-9511-tradterm-38-291-gf11.jpg"/>
					<attrib>Fonte: <italic>André Louco</italic> (1990: 11:41/16:30) </attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>E se é por meio de sombras distorcidas e ângulos indiretos que André nos é apresentado, também é dessa forma que ele se retira e morre ao final da película (<xref ref-type="fig" rid="f12">figura 12</xref>).</p>
			<p>
				<fig id="f12">
					<label>Figura 12:</label>
					<caption>
						<title>Morte de André</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2317-9511-tradterm-38-291-gf12.jpg"/>
					<attrib>Fonte: <italic>André Louco</italic> (1990: 14:45/16:30) </attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>Apesar de apresentar dois estereótipos imediatos (as marcas vitimárias e a violência/expulsão coletiva), Berardo utiliza-se de outro foco narrativo ao realizar a transmutação, negligenciando a <italic>construção</italic> da crise da indiferenciação. Portanto, a câmera se direciona para a personagem André em detrimento das interações sociais da comunidade, buscando a catarse na exposição da fragilidade humana. Nesse aspecto, Rosa Berardo se recusa a transpor uma realidade maniqueísta redutora, desenvolvendo uma percepção para além do bem e do mal; expondo a banalidade da violência social, a qual todos compartilhamos em algum grau - seja por dinâmicas miméticas situacionais ou pela reprodução da violência intrínseca às estruturas de poder, condicionadas pelo modo de produção da vida material.</p>
			<p>Quanto ao terceiro estereótipo (crime indiferenciador), pode-se argumentar que a morte do filho do Valentim se enquadra. Mas a película não visa se aprofundar nesse debate. Assim, há uma crise, um crime, uma indicação de conflito social e intui-se que André é o culpado por tudo. Dinâmica exemplificada no ressentimento e vingança de Antão. </p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>4. Considerações finais</title>
			<p>O processo de tradução intersemiótica exercido por Rosa Berardo pauta-se no texto literário, realizando um recorte e rearranjo de signos. Dessa forma, ela (re)cria outro original a partir da combinação e síntese, seja entre cenas da novela ou entre um recorte factual e uma proposta criativa dialógica, concebendo novos símbolos e significados.</p>
			<p>O texto bernardiano é um ensaio sobre as interações sociais de uma comunidade interiorana do Brasil e de como seus habitantes reagem à presença de André, um homem mentalmente instável; enquanto a película desenvolve um caráter sintético, com enfoque na construção da imagem e martírio do louco.Essa divergência do foco narrativo está relacionada à retirada do narrador-personagem, alterando o ponto de vista segundo a intencionalidade de cada autor. Cabe ressaltar que “a fidelidade ao original deixa de ser o critério maior de juízo crítico, valendo mais a apreciação do filme como nova experiência que deve ter sua forma, e os sentidos nela implicados, julgados em seu próprio direito” (<xref ref-type="bibr" rid="B17">XAVIER 2003</xref>: 62). Isso significa que a tradução deve criar seu próprio mundo ficcional autossustentável, uma vez que “a operação tradutora como trânsito criativo de linguagens nada tem a ver com fidelidade, pois ela cria sua própria verdade [...] onde se processa o movimento de transformação de estruturas e eventos” (<xref ref-type="bibr" rid="B13">PLAZA 2003</xref>: 1). Portanto, “ao cineasta o que é do cineasta, e ao escritor o que é do escritor” (<xref ref-type="bibr" rid="B17">XAVIER 2003</xref>: 62).</p>
			<p>Ampliando a discussão, temos que o bode expiatório girardiano constitui-se da canalização da violência coletiva contra um indivíduo ou grupo específico, atribuindo-lhe a responsabilidade pela crise social. Destarte, tanto a novela quanto a tradução cinematográfica apresentam o mecanismo do bode expiatório, apesar de divergirem na forma de explorar as interações sociais.</p>
			<p>A novela contextualiza e desenvolve os conflitos miméticos, explorando todos os estereótipos persecutórios do bode expiatório. A película, no entanto, renuncia à construção dos estereótipos em detrimento de outra perspectiva do foco narrativo.</p>
			<p>Assim, a ótica de Berardo possui divergências da novela literária, mas sustenta-se por si só (apesar da ruptura narrativa no plano final), explorando novas configurações a partir das especificidades semióticas de sua mídia.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<ack>
			<title>Agradecimentos</title>
			<p>O presente trabalho foi realizado com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Agradeço, também, à professora Doutora Maria Eugênia Curado pelas orientações, conselhos e inúmeras contribuições.</p>
		</ack>
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							<given-names>L. G.</given-names>
						</name>
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					<chapter-title>Prefácio</chapter-title>
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>ÉLIS</surname>
							<given-names>B.</given-names>
						</name>
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					<source>Ermos e Gerais</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Martins Fontes</publisher-name>
					<year>2005</year>
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			<ref id="B13">
				<mixed-citation>PLAZA, J. Tradução intersemiótica. São Paulo: Perspectiva, 2003.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>PLAZA</surname>
							<given-names>J.</given-names>
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					<source>Tradução intersemiótica</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Perspectiva</publisher-name>
					<year>2003</year>
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			<ref id="B14">
				<mixed-citation>PELLEGRINI, T. Narrativa verbal e narrativa visual: possíveis aproximações In: PELLEGRINI, T. et al. Literatura, cinema e televisão. São Paulo: Editora Senac, 2003.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
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							<surname>PELLEGRINI</surname>
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					<chapter-title>Narrativa verbal e narrativa visual: possíveis aproximações</chapter-title>
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							<surname>PELLEGRINI</surname>
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						<etal/>
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					<source>Literatura, cinema e televisão</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Editora Senac</publisher-name>
					<year>2003</year>
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			<ref id="B15">
				<mixed-citation>ROCHA, J. C. C. Culturas shakespearianas: teoria mimética e os desafios da mímesis em circunstâncias não hegemônicas. São Paulo: É realizações , 2017.</mixed-citation>
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					<source>Culturas shakespearianas: teoria mimética e os desafios da mímesis em circunstâncias não hegemônicas</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>É realizações</publisher-name>
					<year>2017</year>
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			<ref id="B16">
				<mixed-citation>TELES, G. M. A síntese su/realista de Bernardo Élis. In: ÉLIS, B. Melhores contos: Bernardo Élis. 3º ed. São Paulo: Global, 2003.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
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					<chapter-title>A síntese su/realista de Bernardo Élis</chapter-title>
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					<source>Melhores contos: Bernardo Élis</source>
					<edition>3</edition>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Global</publisher-name>
					<year>2003</year>
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			<ref id="B17">
				<mixed-citation>XAVIER, I. Do texto ao filme: a trama, a cena e a construção do olhar no cinema. In: PELLEGRINI, T. et al. Literatura, cinema e televisão. São Paulo: Editora Senac , 2003.</mixed-citation>
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							<surname>XAVIER</surname>
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					<chapter-title>Do texto ao filme: a trama, a cena e a construção do olhar no cinema</chapter-title>
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					<source>Literatura, cinema e televisão</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Editora Senac</publisher-name>
					<year>2003</year>
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			<title>Filmografia</title>
			<ref id="B18">
				<mixed-citation>ANDRÉ Louco. Direção: Rosa Berardo. Cidade de Goiás: Orion Cinema e Vídeo e CPCE/UnB, 1990. 16:30 min. Son. p&amp;b, curta-metragem em película 35mm. Disponível em: &lt;<comment>Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://vimeo.com/236498928">https://vimeo.com/236498928</ext-link>
					</comment>&gt; Acesso em: 12 jan. 2021.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="other">
					<source>ANDRÉ Louco</source>
					<comment>Direção: Rosa Berardo</comment>
					<publisher-loc>Cidade de Goiás</publisher-loc>
					<publisher-name>Orion Cinema e Vídeo e CPCE/UnB</publisher-name>
					<year>1990</year>
					<comment>16:30 min. Son. p&amp;b, curta-metragem em película 35mm</comment>
					<comment>Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://vimeo.com/236498928">https://vimeo.com/236498928</ext-link>
					</comment>
					<date-in-citation content-type="access-date" iso-8601-date="2021-01-12">Acesso em: 12 jan. 2021</date-in-citation>
				</element-citation>
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		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>Ressalta-se que a <bold>expressão</bold> dos conflitos miméticos é determinada historicamente, sendo condicionada pelo modo de produção e reprodução da vida material e pelas contradições sociais que dela decorrem.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>Bernardo Élis reagrupou os contos de <italic>Ermos e Gerais</italic> (1944) e <italic>Caminhos e Descaminhos</italic> (1965) em dois volumes, respeitando o ‘espaço ficcional’. O primeiro, publicado em 1975, sob o título de <italic>Caminhos dos Gerais</italic>; e o segundo, contendo a novela que deu nome ao livro, intitulado <italic>André Louco</italic> — edição utilizada no presente artigo.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p>Essas marcas de oralidade, que variam entre as personagens, estão presentes na película.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p>O uso de sombras, como recurso estético, é uma característica importante na composição da iconografia da tradução cinematográfica de Rosa Berardo — ver <xref ref-type="fig" rid="f1">figura 1</xref>.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>5</label>
				<p>Rosa Berardo recria essa cena (ver <xref ref-type="fig" rid="f8">figura 8</xref>), reinterpretando-a a partir da combinação e síntese. Assim, na película, esse momento se torna o ápice da crise indiferenciadora.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>6</label>
				<p>A crise social, primeiro estereótipo, tende a apagar/misturar as diferenças hierárquicas e funcionais, homogeneizando os sujeitos no plano da violência. Assim, a multidão procura a ação e, não conseguindo identificar ou agir sobre as causas originárias da crise, procura “uma causa acessível e que satisfaça seu apetite de violência” (<xref ref-type="bibr" rid="B6">GIRARD 2004</xref>: 23). Nesse sentido, o ‘crime indiferenciador’ é imputado a um bode expiatório a fim de diferenciar a multidão do ‘culpado’, unificando o coletivo pelo ódio e violência à vítima expiatória.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn7">
				<label>7</label>
				<p>Percebe-se, aqui, um exemplo de como a determinação histórica condiciona o mecanismo mimético: a morte do filho do Valentim não causou indignação nos habitantes, mas o aborto sofrido pela mulher do escrivão, que possui status social, sim — mesmo que André não tenha sido o responsável pela confusão.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn8">
				<label>8</label>
				<p>O mecanismo do bode expiatório, ou mecanismo vitimário, “permite que uma comunidade em crise recupere ou preserve seu equilíbrio. Isso é eficaz apenas se a comunidade conseguir dissimular para si mesma a verdadeira natureza do que está fazendo” (<xref ref-type="bibr" rid="B11">KIRWAN 2015</xref>: 127), cessando a escalada epidêmica da violência ao transformar a luta de ‘todos contra todos’ em ‘todos contra um’, resguardando a coesão do tecido social.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn9">
				<label>9</label>
				<p>Informações disponibilizadas por Rosa Berardo, no vídeo: <italic>SOBRE MEU PRIMEIRO FILME, ANDRÉ LOUCO</italic>. Disponível em: &lt;<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://www.youtube.com/watch?v=SalQy-oh7_g">https://www.youtube.com/watch?v=SalQy-oh7_g</ext-link>&gt; Acesso 10 jan. 2021.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn10">
				<label>10</label>
				<p>Usamos o termo <italic>voz-over</italic> de acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B17">Xavier (2003</xref>: 68).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn11">
				<label>11</label>
				<p>“André, desde mocinho, tinha um gênio insuportável [...] Deu no delegado, nos bate-paus, saiu pelas ruas dando tiros nas paredes. Todo mundo fechou as portas” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">ÉLIS 1978</xref>: 4).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn12">
				<label>12</label>
				<p>Frase reproduzida na película, aos 08:29 min.</p>
			</fn>
		</fn-group>
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