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				<journal-title>Revista de Tradução e Terminologia</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Revista de Tradução e Terminologia</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="ppub">2317-9511</issn>
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				<publisher-name>Centro Interdepartamental de Tradução e Terminologia da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.11606/issn.2317-9511.v40p250-275</article-id>
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					<subject>Articles</subject>
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				<article-title>Entre a domesticação e a estrangeirização: análise das estratégias de tradução em “Sejamos todos feministas”</article-title>
				<article-title xml:lang="en">Between domestication and foreignization: an analysis of translation strategies used in “We should all be feminists”</article-title>
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						<surname>Koglin</surname>
						<given-names>Arlene</given-names>
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					<label>1</label>
					<institution content-type="original">Universidade Federal de Pernambuco. E-mail: arlenekoglin@yahoo.com.br</institution>
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			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
				<day>21</day>
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				<year>2022</year>
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			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<month>12</month>
				<year>2021</year>
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			<volume>40</volume>
			<fpage>250</fpage>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>Este artigo discute as estratégias de tradução empregadas no ensaio “Sejamos todos feministas”, da escritora Chimamanda Adichie, no par linguístico inglês-português brasileiro. Ademais, examina teoricamente as implicações ideológicas das soluções tradutórias adotadas em trechos escolhidos segundo dois parâmetros: estranhamento durante a leitura do texto de chegada e evidência de passagens, no texto fonte, com teor nitidamente ideológico. Com base nas teorias de <xref ref-type="bibr" rid="B13">Schleiermacher (2007</xref>), <xref ref-type="bibr" rid="B15">Venuti (1995</xref>) e <xref ref-type="bibr" rid="B11">Niranjana (1992</xref>, 2010), partiu-se da hipótese de que o texto de chegada tenderia à domesticação através de apagamentos ou de adaptação de estereótipos descritos pela autora no texto fonte. Nos trechos selecionados, a análise demonstrou que a domesticação ocorreu nos níveis estrutural, lexical, cultural, social, ideológico e político, o que confirma nossa hipótese.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>Abstract</title>
				<p>This paper discusses the translation strategies used to translate the book entitled “We should all be feminists” by Chimamanda Adichie in the language pair English-Brazilian Portuguese. Additionally, it examines the ideological implications of the translation choices used in the excerpts, which were selected based on two criteria: a) strangeness while reading the target text and b) source segments with evidence of clearly ideological content. Drawing on <xref ref-type="bibr" rid="B13">Schleiermacher (2007</xref>), <xref ref-type="bibr" rid="B15">Venuti (1995</xref>) e <xref ref-type="bibr" rid="B11">Niranjana (1992</xref>, 2010) theories, we hipothesized that the target text would tend to be domesticated by means of deletions or adaptation of stereotypes described by the author in the source text. In the selected passages, our analysis has shown that domesticating strategies were used in structural, lexical, cultural, social, ideological and political levels, which confirm our hypothesis.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Estratégias de tradução</kwd>
				<kwd>domesticação</kwd>
				<kwd>estrangeirização</kwd>
				<kwd>invisibilidade</kwd>
			</kwd-group>
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				<title>Keywords:</title>
				<kwd>translation strategies</kwd>
				<kwd>domestication</kwd>
				<kwd>foreignization</kwd>
				<kwd>invisibility</kwd>
			</kwd-group>
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	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução</title>
			<p>O texto que hoje se conhece pelo nome <italic>“We should all be feminists”</italic> (FOURTH STATE, 2014) tem origem na segunda aparição da escritora e poetisa Nigeriana Chimamanda na plataforma TEdx Talk (LONDRES, 2012) para proferir uma palestra com o mesmo título da referida obra. Com mais de cinco milhões de acessos, a palestra de 30 minutos dessa autora não só se tornaria referência para o debate acerca do feminismo em nossos dias, como também viria a conferir-lhe visibilidade mundial ao despertar leitores e comunidades afins para a terceira onda global do feminismo, iniciada em 1990. </p>
			<p>O título, aclamado na época pelos principais periódicos internacionais (<italic>The Telegraph, The Independent, The Guardian</italic>), também viria a ser escolhido como o livro do ano por aqueles mesmos canais. Trata-se, portanto, de uma obra de reconhecida relevância para o mercado editorial e para a agenda do feminismo, destacando-se tanto pelo seu valor artístico como por seu viés político e ideológico.</p>
			<p>Diante do exposto, este artigo dedica-se a analisar e a discutir as estratégias de tradução aplicadas a excertos do ensaio <italic>Sejamos todos feministas</italic>, no par linguístico inglês - português brasileiro (EN - PT BR). Além disso, propõe-se a refletir teoricamente acerca das implicações ideológicas das escolhas tradutórias nos excertos selecionados para análise. </p>
			<p>Parte-se da hipótese de que o texto de chegada tenderá à domesticação por meio de apagamentos ou da adaptação de estereótipos descritos por Chimamanda no texto fonte. Conforme apontado por Santos e Romanelli, observa-se ainda, no contexto brasileiro, traduções que incorporam não apenas apagamentos, como também traços linguístico-culturais da língua de chegada (<xref ref-type="bibr" rid="B12">SANTOS; ROMANELLI, 2016</xref>).</p>
			<p>A seleção dos excertos foi realizada com base em dois critérios: a) estranhamento durante a leitura do texto de chegada com base no conceito de impressões, de <xref ref-type="bibr" rid="B6">Berman (2017</xref>) e b) presença de trechos, no texto fonte, com teor claramente ideológico. A análise é conduzida à luz das estratégias tradutórias discutidas por <xref ref-type="bibr" rid="B13">Schleiermacher (2007</xref>) e <xref ref-type="bibr" rid="B15">Venuti (1995</xref>), além de <xref ref-type="bibr" rid="B11">Niranjana (1992</xref>, 2010), que similarmente a Venuti defende uma estratégia estrangeirizante e, portanto, aberta ao transporte do resíduo.</p>
			<p>Para tanto, o artigo está dividido em quatro seções. Primeiramente, discutiremos as noções e conceitos de estratégias de tradução num panorama histórico geral para logo em seguida abordar as estratégias de tradução conforme Schleiermacher, Venuti e Niranjana. Na sequência, tem-se uma seção descrevendo a metodologia empregada, a qual será sucedida pela análise reflexivo-teórica dos dados selecionados e pelas considerações finais, respectivamente.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>1. Estratégias de tradução</title>
			<p>Em <italic>Translation Strategies and Tactics</italic> (2010: 412), Gambier destaca que falar em estratégias de tradução implica considerar as ambiguidades conceituais que o termo carrega no âmbito dos Estudos da Tradução. Além de ser utilizado de forma distinta, o termo ‘estratégia’ também parece competir com diversos outros, tais como <italic>procedimentos, técnicas, operações, mudanças, métodos, substituições</italic>. </p>
			<p>Por um lado, o histórico disciplinar dos pesquisadores, o propósito de sua investigação e o escopo de seus estudos respondem, em grande parte, por tamanha variação terminológica. Por outro lado, as transformações psicolinguísticas e linguístico-textuais ocorridas no âmbito dos Estudos da Tradução evidenciaram sobremaneira tanto esta variação terminológica quanto o próprio conceito de estratégia a partir de dois questionamentos principais: o que acontece quando um tradutor transforma um texto de partida em um texto de chegada e de que forma este agente processa significados, intenções, alusões (<xref ref-type="bibr" rid="B8">GAMBIER, 2010</xref>: 412).</p>
			<p>A maioria das publicações sobre estratégias de tradução trata do tipo de texto a traduzir ou do tipo de problema tradutório a ser resolvido (categorias estas combináveis). São de natureza prescritiva (como se deve traduzir isto ou aquilo?), muito mais do que descritiva, ou seja, descrever e explicar o fenômeno tradutório de maneira objetiva e científica. Desta forma, encontram-se orientações para traduzir textos literários, peças teatrais, óperas, canções, poesia, livros infantis, gibis, propaganda, discursos políticos, documentos jurídicos, cinema, etc., que prescrevem como lidar com as especificidades de cada gênero. </p>
			<p>Ainda segundo <xref ref-type="bibr" rid="B8">Gambier (2010</xref>), embora na maioria dos casos existam de cinco a sete estratégias tradutórias, que ele próprio não chega a nomear, raramente os autores adotam a mesma nomenclatura ou definição para um mesmo tipo de estratégia. <xref ref-type="bibr" rid="B5">Barbosa (2004</xref>:23), por exemplo, retoma as estratégias a partir de Vinay e Darbelnet e as nomeia como empréstimo, decalque e tradução literal em caso de tradução direta ou transposição, modulação, equivalência e adaptação na tradução indireta. Já em termos de definição, se para alguns “adaptar” significa propor um equivalente cultural, para outros a mesma estratégia trata da maneira mais livre de se traduzir determinado texto. </p>
			<p>Pode-se ilustrar melhor esta questão da falta de consistência terminológica/conceitual revisitando, ainda que de forma não exaustiva, o que diz a literatura sobre transposição, por exemplo. Elencada como uma das quatro estratégias de tradução oblíqua (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Barbosa, 2004</xref>), a transposição é considerada obrigatória em muitos casos devido à estrutura morfossintática da língua de chegada e consiste em, grosso modo, na não observância de algum critério da tradução literal, ou seja, em um afastamento da forma do texto na língua original (TLO), no plano sintático. Explica <xref ref-type="bibr" rid="B5">Barbosa (2004</xref>): </p>
			<disp-quote>
				<p>Um significado que era expresso no TLO por um significante de uma determinada categoria gramatical (parte do discurso) passa a ser expresso, no texto de língua de tradução (TLT), por um significante de outra categoria gramatical, sem que, com isso, fique alterado o conteúdo, ou a mensagem, do TLO. (<xref ref-type="bibr" rid="B5">BARBOSA, 2004</xref>: 28)</p>
			</disp-quote>
			<p>Barbosa afirma que a transposição pode ser uma escolha do tradutor (havendo outras possibilidades de tradução) ou seu único meio de traduzir (se não existirem outras opções de tradução).</p>
			<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="B10">Newmark (1995</xref>), o tradutor só dá início à transposição quando já tomou decisões importantes quanto à forma de reescritura, o que ocorre após duas ou três leituras de todo o texto fonte para perceber a intenção do autor, sentir o tom da linguagem e ter marcado as palavras ou passagens difíceis. Muitas vezes, o fato de existir mais de uma opção disponível para uma tradução demonstra que a transposição não é um procedimento obrigatório. Esse procedimento será obrigatório unicamente quando for essencial para que “a tradução se atenha às normas da LT” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">BARBOSA 2004</xref>: p. 67). O fato de Barbosa ressaltar a não obrigatoriedade desse procedimento parece indicar que a autora não incentiva uma liberdade excessiva por meio da transposição.</p>
			<p>A maioria das tipologias não explica os critérios que as norteiam; tampouco oferecem uma análise conceitual detalhada e não dão conta de explicar ou de diferenciar uma estratégia da outra, nem como justificar o número e os nomes dos diferentes tipos para as estratégias. A implicação direta desta não uniformidade ou falta de padronização é a dificuldade de comparar as diferentes classificações, aplicá-las na prática ou mesmo ensiná-las (<xref ref-type="bibr" rid="B8">GAMBIER, 2011</xref>).</p>
			<p>Levando isso em consideração, neste artigo optou-se por conduzir a análise à luz das estratégias de tradução propostas por <xref ref-type="bibr" rid="B13">Schleiermacher (2007</xref>) e <xref ref-type="bibr" rid="B15">Venuti (1995</xref>), além de <xref ref-type="bibr" rid="B11">Niranjana (1992</xref>, 2010). A escolha por esse grupo de autores se deu pelo fato de suas propostas teóricas tocarem em aspectos de ordem política, cultural e ideológica, e também por se embasarem em duas estratégias que ultrapassam o âmbito linguístico: domesticação ou estrangeirização, conforme será detalhado nas seções subsequentes. </p>
			<sec>
				<title>1.1. Estratégias de Tradução em Schleiermacher</title>
				<p>Em <italic>“Sobre os diferentes métodos de tradução”</italic> (1813), o teórico alemão Friedrich Schleiermacher abre espaço para uma produtiva discussão acerca da tensão estranhamento-domesticação que seria retomada por Venuti dois séculos mais tarde. Longe de se circunscrever à Teoria da Tradução, sua teorização toca em pontos de ordem política e cultural ao abordar o modo como o leitor acessa o texto, qual seja da maneira como o autor o concebeu. Neste sentido, Schleiermacher defende que a tradução seja propositadamente portadora de um patrimônio cultural distinto daquele onde está inserido o leitor, devendo, para este fim, preservar determinados aspectos do texto original. </p>
				<p>O projeto tradutório de Schleiermacher prevê o que ele chamou de uma aproximação do leitor com o autor. Caberia ao tradutor tornar próximos autor e leitor, dando a este uma “compreensão e uma apreciação tão completa quanto possível, proporcionando-lhe a mesma apreciação que a do primeiro, sem tirá-lo de sua língua materna” (SCHLEIERMACHER, 2001: 43). </p>
				<p>Para tal fim, Schleiermacher afirma que haveria dois caminhos para o tradutor: levar o leitor até o autor ou trazer o autor até o leitor. No primeiro caso, o tradutor substituiria a compreensão da língua de partida: tentaria transmitir aos leitores a mesma imagem, a mesma impressão que ele próprio teve através do conhecimento da língua de partida da obra, de como ela é, e buscaria, pois, levá-los à posição dela, na verdade, estranha para eles. </p>
				<p>No segundo caso, por sua vez, o tradutor deveria fazer como se o autor da língua de partida discursasse na língua de chegada para falantes da língua de chegada. Desse modo, a tradução empurraria o autor diretamente para dentro do mundo dos leitores da língua de chegada e o tornaria igual a eles (SCHLEIERMACHER, 2001).</p>
				<p>A proposta de Schleiermacher traz em si o desejo do ganho cultural por meio da tradução e a estratégia preferida por ele, como já dissemos, é a distanciadora. Assim, seu texto se configura como um elogio a essa atividade linguística, pois, para ele, a “verdadeira função histórica da tradução” seria fazer com que “cada um pudesse apreciar o que os mais diferentes períodos trouxeram de bonito tão pura e perfeitamente possível do estrangeiro” (SCHLEIERMACHER, 2001: 83).</p>
				<p>Nessa mesma direção, <xref ref-type="bibr" rid="B15">Venuti (1995</xref>) advoga em favor do uso da estratégia estrangeirizante por acreditar que todo ato de tradução é transformativo e criativo, quase nunca transparente e invariavelmente interpretativo. </p>
			</sec>
			<sec>
				<title>1.2. Estratégias de Tradução em Venuti</title>
				<p>Em <italic>The Translator’s Invisibility: A History of Translation</italic> (1995, segunda edição em 2008), o tradutor e teórico norte-americano Lawrence Venuti preocupa-se em denunciar a atual situação de invisibilidade do tradutor nas culturas britânica e norte-americana. No capítulo intitulado <italic>Invisibility,</italic> o autor afirma que o objetivo do livro é tornar o tradutor mais visível, de modo a combater e mudar as condições sob as quais a tradução é teorizada, estudada e praticada hoje, particularmente em países de língua inglesa (2008: 13). </p>
				<p>A ideia da invisibilidade diz respeito a pelo menos dois fenômenos que se determinam mutuamente: (i) o efeito de transparência no próprio discurso, fruto da manipulação da língua de tradução feita pelo tradutor, o que leva os leitores a encararem a tradução de um texto estrangeiro como se tivesse sido originalmente escrito na língua de chegada; e (ii) o critério segundo o qual as traduções são produzidas e avaliadas, o que faz com que uma tradução seja considerada boa quando sua leitura é fluente, quando a ausência de peculiaridades linguísticas ou estilísticas a faz parecer transparente, dando a impressão de refletir a personalidade ou a intenção do autor estrangeiro ou a essência do sentido do texto de partida - em outras palavras, dando a impressão de não ser de fato uma tradução, mas sim o próprio original (2008: 2).</p>
				<p>O efeito de transparência camufla as numerosas condições sob as quais a tradução é produzida, a começar pela intervenção crucial do tradutor. Quanto mais fluente a tradução, mais invisível se torna o tradutor e, como é lícito supor, mais visível o autor do texto estrangeiro ou o significado deste (VENUTI, 2008: 1). Para Venuti, um texto (traduzido) fluente é aquele que apresenta características como sintaxe linear, sentido unívoco (ou ambiguidade controlada) e linguagem atual, que emprega - no caso das culturas britânica e norte-americana - o inglês padrão e evita polissemia, arcaísmos, gírias, jargões, mudanças abruptas de tom ou dicção e outras soluções que chamem a atenção para a materialidade da língua, para a opacidade das palavras. Venuti argumenta que a invisibilidade do tradutor, portanto, é em parte um efeito estranho de sua manipulação da língua, um auto-aniquilamento que resulta do próprio ato da tradução como ele é concebido e praticado hoje (1995: 111-112). </p>
				<p>Venuti retoma os dois tipos de estratégia tradutória delineados por Friedrich Schleiermacher na célebre conferência <italic>Über die verschiedenen Methoden des Übersetzens</italic> [Sobre os diferentes métodos tradução], de 1813, já citados neste trabalho. Quase dois séculos depois, em um contexto de hegemonia cultural anglo-americana que traz, entre outras consequências, uma baixa demanda de traduções de literatura ficcional para a língua inglesa, Venuti acrescenta um componente ideológico aos dois métodos de Schleiermacher e os denomina estrangeirização (o método de distanciamento, que leva o leitor da tradução até o autor do original), e domesticação (o que aproxima o autor do original do leitor da tradução por meio da estratégia de fluência, descrita no início desta seção). </p>
				<p>Assim como Schleiermacher, Venuti também preconiza o método de distanciamento, mas o faz por motivos políticos, recomendando seu emprego como forma de resistir ao predomínio das estratégias domesticadoras na cultura tradutória de língua inglesa. Para ele, a domesticação envolve uma redução etnocêntrica do texto estrangeiro aos valores da cultura receptora (2008: 15), produzindo traduções estilisticamente transparentes, fluentes e invisíveis, com o objetivo de minimizar o caráter estrangeiro do texto traduzido. A estrangeirização, por sua vez, impõe uma pressão etnodesviante sobre tais valores [da cultura receptora] para registrar as diferenças linguísticas e culturais do texto estrangeiro (VENUTI, 2008: 15). </p>
				<p>A adoção desse método leva à seleção de textos estrangeiros e de estratégias tradutórias normalmente excluídas pelos valores culturais dominantes na língua de tradução (VENUTI, 1998: 242), combatendo, assim, a ideologia domesticadora do mundo anglófono. Por isso mesmo Venuti também se refere ao método estrangeirizante como uma estratégia de resistência, por ser um estilo de tradução que foge à fluência e cria distanciamento, com vistas a tornar visível a presença do tradutor ao ressaltar a identidade estrangeira do texto-fonte e resguardá-la da dominação ideológica da cultura receptora.</p>
				<p>Além da dominação ideológica, a invisibilidade do tradutor é também atribuída à marginalização da tradução e do tradutor. Venuti explica que a invisibilidade, </p>
				<disp-quote>
					<p>portanto, é em parte um efeito estranho de sua manipulação da língua, um auto-aniquilamento que resulta do próprio ato da tradução como ele é concebido e praticado hoje [...]. Entretanto, os tradutores não podem senão se opor a esta invisibilidade, não apenas porque ela constitui uma mistificação de todo o projeto da tradução, mas também porque ela parece estar relacionada ao baixo status ainda atribuído ao seu trabalho (<xref ref-type="bibr" rid="B15">VENUTI 1995</xref>: 111-112).</p>
				</disp-quote>
				<p>Assim como Venuti aborda a questão da invisibilidade dos tradutores em geral a partir de um viés político (e mercadológico), teóricas e tradutoras feministas têm se empenhado em assegurar a visibilidade feminina ao trazerem para suas abordagens teóricas a relação entre gênero e tradução. </p>
			</sec>
			<sec>
				<title>1.3. Estratégias de Tradução em Niranjana </title>
				<p>Professora, tradutora e feminista teórica da tradução pós-colonial, Niranjana argumenta que a tradução no Ocidente tende ao normativo, para a descoberta de soluções aceitáveis. Similarmente a Venuti, Niranjana advoga em favor da estratégia estrangeirizante. Essa estudiosa não apenas defende o transporte da diferença por meio da liberação do resíduo, como também aborda questões relativas ao gênero (feminismo), ideologia e a construção da identidade. </p>
				<p>Embora a teoria de tradução de Niranjana concorde com a de Venuti em muitos aspectos, a principal contribuição dessa teórica aos estudos da tradução diz respeito à inserção de um viés não apenas ideológico (por meio de leis, instituições e estereótipos), como também de gênero (feminista) em sua abordagem teórica. </p>
				<disp-quote>
					<p>Mais influenciada que Venuti pela desconstrução, porém, as estratégias de Niranjana não só alienam, mas suplementam interpretações tradicionais, oferecendo novos modos de repensar não apenas a tradução, mas a história, a evolução cultural e a formação de identidade. Para Niranjana, não se trata de escolher a representação fluente ou estrangeira, mas sim de questionar toda a problemática da própria representação (<xref ref-type="bibr" rid="B9">GENTZLER, 2009</xref>: 222).</p>
				</disp-quote>
				<p>Para Niranjana, as escolhas de tradução contribuem para a criação de representações e modificação da identidade de determinados grupos sociais. Em função disso, a teórica propõe em sua abordagem a estratégia de re-tradução como forma de resistência e de subversão das identidades formadas no colonialismo. Na sua obra, <italic>Siting Translation: History, Post-structuralism, and the Colonial</italic>, <xref ref-type="bibr" rid="B11">Niranjana (1992</xref>) nos convida, enquanto tradutoras, a tomar medidas intervencionistas para evitar deturpações e empobrecimento da escrita feminina. </p>
				<p>Considerando as ponderações teóricas, na próxima seção apresentamos a metodologia de seleção dos dados bem como de análise. </p>
			</sec>
		</sec>
		<sec sec-type="methods">
			<title>2. Metodologia</title>
			<p>A partir da leitura em língua portuguesa do ensaio “<italic>Sejamos todos feministas”</italic> (Cia das Letras, 2015), ou seja, de uma tradução EN-PT(BR), doravante referida como TC (texto de chegada), buscou-se refletir sobre o estranhamento encontrado em determinados trechos deste produto através de uma análise teórico-reflexiva. À maneira proposta por <xref ref-type="bibr" rid="B6">Berman (2017</xref>), as “impressões” causadas pela leitura da tradução são importantes como ponto de partida e modelam o processo analítico posterior. Segundo o autor, não se é naturalmente leitor de traduções: torna-se um. Para tanto, o ato crítico depende de que se deixe o original totalmente de lado para que se possa empreender o longo e paciente trabalho da leitura e releitura da tradução ou das traduções no intuito de verificar se o texto traduzido funciona na língua receptora, se tem consistência imanente fora de qualquer relação com o original. É precisamente desta releitura que poderão aflorar impressões de zonas textuais não só bem-acabadas, mas de uma escrita que é uma escrita de tradução, ou de zonais textuais problemáticas, em que o texto traduzido parece se enfraquecer, contradizer, parecer demasiado fácil, muito fluente. Deixar-se invadir, modelar por essas impressões é dar base à crítica que virá. </p>
			<p>Dessa perspectiva, procedeu-se à leitura do texto original (We should all be feminists: Anchor Books, 2015, ebook), de agora em diante referido por TF (Texto Fonte). De posse do material linguístico selecionado tanto do TC quando do TF, foram analisadas as estratégias de tradução operadas no âmbito destes excertos, à luz dos conceitos de Schleiermacher (levar o autor até o leitor ou o leitor até o autor), Venuti (estrangeirização-domesticação) e Niranjana (desconstrução por meio da estrangeirização), conforme abordado na seção de Análise a seguir.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>3. Análise das estratégias de tradução</title>
			<p>Este trabalho objetiva analisar e discutir as estratégias de tradução utilizadas em trechos da obra “Sejamos todos feministas”, de autoria da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, no par linguístico inglês - português brasileiro. Salienta-se, contudo, que o propósito desta análise não é criticar ou julgar a tradução, mas sim refletir teoricamente sobre as implicações ideológicas que as escolhas tradutórias podem ter. </p>
			<p>Se por um lado as perspectivas mais tradicionais e prescritivas de tradução consideram-na uma atividade impessoal e transparente que deveria apreender “significados supostamente estáveis de um(a) autor(a)” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">ARROJO, 1994</xref>: 147, tradução nossa), teorias contemporâneas de tradução passaram a “reconhecer os ecos inevitáveis da voz do(a) tradutor(a) no texto traduzido” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">ARROJO, 1994</xref>: 148, tradução nossa). </p>
			<p>Isso posto, na sequência são apresentados cinco quadros com excertos (TF e TC) selecionados para análise neste trabalho, com destaque para as passagens mais expressivas para a reflexão e discussão das estratégias empregadas. O <xref ref-type="table" rid="t1">quadro 1</xref>, a seguir, contém um excerto em que Chimamanda descreve a busca por uma vaga para estacionar o carro em grandes centros urbanos, como Lagos, Nova Iorque ou Londres. </p>
			<p>
				<table-wrap id="t1">
					<label>Quadro 1:</label>
					<caption>
						<title>Excerto 1 da obra “Sejamos Todos Feministas” (p. 16-17)</title>
					</caption>
					<table>
						<colgroup>
							<col/>
							<col/>
						</colgroup>
						<thead>
							<tr>
								<th align="center">Texto Fonte (TF)</th>
								<th align="center">Texto de Chegada (TC)</th>
							</tr>
						</thead>
						<tbody>
							<tr>
								<td align="left">1. As in most big cities, finding parking in the evenings can be difficult, so <bold>these young men make a business out of finding spots</bold>, and even when there are spots available - of guiding you into yours with much gesticulating, and promising to “look after” your car until you get back.</td>
								<td align="left"> Como na maioria das grandes cidades, é difícil encontrar uma vaga para estacionar à noite, então <bold>esses caras se viram como podem</bold>. Mesmo quando não há nenhuma vaga disponível, eles manobram o carro e, com gestos largos e teatrais, prometem tomar conta do veículo até você voltar.</td>
							</tr>
						</tbody>
					</table>
				</table-wrap>
			</p>
			<p>Nessa passagem, é possível observar a estratégia domesticadora no trecho em destaque a partir da escolha de tradução de “Young men” por “caras” e “make a business out of finding spots” por “se viram como podem”. Se por um lado tais escolhas preservam o tom da oralidade, que é marca de enunciação na obra de Chimamanda, por outro lado trazem fluidez e transparência ao texto de chegada de modo que deixam os leitores em paz, tanto quanto possível, e levam a autora até eles (SCHLEIERMACHER, 1838/1963, 1838/1977; <xref ref-type="bibr" rid="B15">VENUTI, 1995</xref>). </p>
			<p>Enquanto no texto fonte o trecho “<bold>these young men make a business out of finding spots”</bold> traz um tom mais informativo e descritivo, o trecho traduzido tende a uma generalização. No português brasileiro, “caras” é uma forma de denominar pessoas de quem se omite ou se desconhece o nome. Essa escolha revela o caráter de marginalização, na cultura de chegada, dos indivíduos cujo trabalho é buscar vagas de estacionamento na rua, que adicionalmente é reforçada pela escolha “se viram como podem”. Do ponto de vista ideológico, a escolha domesticadora contribui para a propagação de representações estereotipadas da identidade de determinados grupos sociais (<xref ref-type="bibr" rid="B11">NIRANJANA, 1992</xref>, 2010).</p>
			<p>A utilização de estratégia domesticadora também pode ser observada nos próximos excertos que constituem a sequência narrativa do excerto 1.</p>
			<p>
				<table-wrap id="t2">
					<label>Quadro 2:</label>
					<caption>
						<title>Excertos 2 e 3 da obra “Sejamos Todos Feministas” (p. 17)</title>
					</caption>
					<table>
						<colgroup>
							<col/>
							<col/>
						</colgroup>
						<thead>
							<tr>
								<th align="center">Texto Fonte (TF)</th>
								<th align="center">Texto de Chegada (TC)</th>
							</tr>
						</thead>
						<tbody>
							<tr>
								<td align="left">2. I was impressed with the particular theatrics of <bold>the man (1)</bold> who found us a parking spot that evening. And so as we were leaving, I decided to leave him a tip.</td>
								<td align="left">Impressionada com o empenho <bold>do sujeito</bold> que descolou uma vaga para nós naquela noite, decidi lhe dar uma gorjeta.</td>
							</tr>
							<tr>
								<td align="left">3. I opened my bag, put my hand inside my bag, <underline>brought out my money <bold>that I had earned from doing my work</bold></underline>, and I gave it to <bold>the man (2)</bold>. And he, <bold>this man (3)</bold> who was very grateful and very happy, took the money from me, looked across at Louis and said, &quot;Thank you, <bold>sah</bold>!&quot; </td>
								<td align="left">Abri a bolsa, peguei o dinheiro e <bold>lhe</bold> dei. E <bold>ele</bold>, feliz e grato, pegou o meu dinheiro, olhou para o meu amigo e disse: “Muito obrigado, <bold>senhor!</bold>” </td>
							</tr>
						</tbody>
					</table>
				</table-wrap>
			</p>
			<p>Nos dois excertos fonte, observa-se o uso repetido e intencional de “man” em três momentos para se referir ao homem cujo trabalho é buscar vagas de estacionamento na rua. Embora a substituição pronominal ou por sinonímia seja usual em inglês, Chimamanda não a faz provavelmente com o intento de realçar o contraste entre o masculino e o feminino. Já no texto de chegada, optou-se por este recurso. Ao escolher não manter a repetição e se utilizar de uma domesticação estrutural, a tradução deixou de causar um estranhamento no leitor por meio da liberação de resíduos (<xref ref-type="bibr" rid="B11">NIRANJANA, 1992</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B15">VENUTI, 1995</xref>). Além disso, a escolha tradutória pode desviar a atenção do leitor para a questão homem versus mulher que faz parte da estratégia discursiva/ideológica de Chimamanda no texto fonte.</p>
			<p>Outro aspecto que chama atenção é o apagamento do trecho “that I had earned from doing my work” que, nesse caso, caracteriza o dinheiro usado por Adiche para pagar o homem que havia conseguido a vaga. Pode parecer uma informação óbvia ou até mesmo desnecessária no contexto de chegada, porém não o é no contexto cultural nigeriano descrito por Chimamanda no texto fonte, em que mulheres ainda não podem ir sozinhas a bares e restaurantes respeitáveis, participar de reuniões familiares ou ter posições de liderança. E, portanto, liberar esse resíduo permitiria transportar a diferença (<xref ref-type="bibr" rid="B11">NIRANJANA, 1992</xref>). </p>
			<p>Como destaca <xref ref-type="bibr" rid="B7">Diaz-Cintas (2012</xref>: 291), a tradução entre línguas nunca é neutra e a concepção idílica de tradução como uma ponte que conecta culturas precisa ser revisada urgentemente. Está provado que a tradução também pode “enfatizar diferenças, perpetuar os estereótipos errados e deliberadamente desinformar e, portanto, destruir as pontes que supostamente deveria construir”.</p>
			<p>A estratégia de natureza domesticadora também está presente na tradução de “Sah” (final do excerto 3), uma palavra em língua inglesa interpretável como “sir”, mas também conhecida por significar, coloquialmente, “E aí, cara?” (como em “Suh, dude!”), segundo o <italic>Urban Dictionary</italic><xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref>. Ao traduzir o trecho como “Muito obrigado, senhor!”, a tradução traz à tona resquícios do coronelismo, ausente da realidade dos contextos falantes de língua inglesa, mas muito marcante no contexto brasileiro. Como se não bastasse para o flanelinha ser um sujeito socialmente e economicamente desfavorecido, ele ainda precisa se dirigir ao outro como “senhor”. Não lhe é permitido se dirigir a este outro de igual para igual e expressar o seu agradecimento pela gorjeta na forma de “E aí, cara, valeu!”. É preciso reforçar a sua condição de subalterno também na linguagem (“Valeu, <italic>doutor</italic>!”, “Tá bem cuidado aí, <italic>patrão</italic>!”). </p>
			<p>Entende-se que este exemplo não contribui diretamente para a discussão geral do machismo e da questão de gênero pretendidas pelo conjunto da obra, visto que tanto no TF quanto no TC Chimamanda está excluída da conversa, mas destacamos o fato linguístico para demonstrar que houve uma domesticação no nível cultural, configurando uma manifestação casa grande x senzala de subserviência econômica que eliminou por completo a relação de igual para igual entre o amigo de Chimamanda e o homem que procura por vagas para estacionar o carro na rua, apreensível no TF.</p>
			<p>Outro exemplo de domesticação cultural pode ser observado no excerto a seguir, em que “the man” tem como solução de tradução “para o flanelinha”.</p>
			<p>
				<table-wrap id="t3">
					<label>Quadro 3:</label>
					<caption>
						<title>Excerto 4 da obra “Sejamos Todos Feministas” (p. 16-17)</title>
					</caption>
					<table>
						<colgroup>
							<col/>
							<col/>
						</colgroup>
						<thead>
							<tr>
								<th align="center">Texto Fonte (TF)</th>
								<th align="center">Texto de Chegada (TC)</th>
							</tr>
						</thead>
						<tbody>
							<tr>
								<td align="left">4. Louis looked at me, surprised, and asked, &quot;Why is he thanking me? I didn't give him the money.&quot; <underline>Then I saw realization dawn on Louis' face</underline>. <bold>The man (4)</bold> believed that whatever money I had, had ultimately come from Louis. Because Louis is <underline><bold>a man (5)</bold></underline>.</td>
								<td align="left">Surpreso, Louis me perguntou: “Por que ele está me agradecendo? Não fui eu quem deu o dinheiro”. Percebi então, pela expressão de meu amigo, <underline>que a ficha tinha caído</underline>. Para <bold>o flanelinha</bold>, qualquer dinheiro que eu pudesse ter certamente provinha de Louis. Porque Louis é <bold>homem</bold>. </td>
							</tr>
						</tbody>
					</table>
				</table-wrap>
			</p>
			<p>A substituição de “the man” por para “o flanelinha” não só leva o texto até o público de chegada (SCHLEIERMACHER, 1838/1963, 1838/1977; <xref ref-type="bibr" rid="B15">VENUTI, 1995</xref>), como gera uma leitura com implicação social, econômica e ideológica, que dista da natureza da discussão que a autora vinha propondo para a situação verídica vivenciada por ela dentro da agenda discussão de gênero/machismo. </p>
			<p>A palavra “flanelinha” claramente nos remete para questões sociais, econômicas presentes na rotina urbana do leitor brasileiro, conforme atesta <xref ref-type="bibr" rid="B14">Silva (2017</xref>). </p>
			<disp-quote>
				<p>Entendemos que independente da denominação empregada - flanelinha, guardador, pastorador ou vigia de carros -, é indiscutível o fato de que o surgimento da atividade exercida por esses sujeitos se insere nesse amplo contexto social, econômico, político e porque não dizer cultural, que envolve as diversas transformações ocorridas, sob a lógica capitalista, no espaço urbano e no mercado de trabalho dos países subdesenvolvidos, [...] (<xref ref-type="bibr" rid="B14">SILVA, 2017</xref>: 34).</p>
			</disp-quote>
			<p>Ao enfatizar o elemento social por meio da escolha flanelinha em substituição as repetições nominais expressas em “man”, a tradução desvia a atenção do leitor para o fato de que quem pagou a gorjeta foi a mulher e o não reconhecimento se deu por um homem, expresso explicitamente por “the man” no texto fonte. Nesse caso, a domesticação imprime, ao texto fonte, valores da língua de chegada e “fornece aos leitores a experiência narcisista de reconhecer a sua própria cultura na cultura do outro” (<xref ref-type="bibr" rid="B15">VENUTI, 1995</xref>: 15, tradução nossa).</p>
			<p>Ainda no mesmo excerto, observamos outra instância de invisibilidade resultante da adaptação do texto-fonte à cultura-alvo quando a frase “<underline>Then I saw realization dawn on Louis' face</underline>.” é traduzida por “Percebi então, pela expressão de meu amigo, <underline>que a ficha tinha caído</underline>.”. Se por um lado a expressão “cair a ficha” inscreve um tom de informalidade e oralidade característicos do texto fonte, por outro lado deixa o texto de chegada fluente e transparente, o que contribui para tornar o texto aceitável na cultura de chegada e adaptado à estrutura discursiva da língua de chegada (<xref ref-type="bibr" rid="B15">VENUTI, 1995</xref>).</p>
			<p>A tendência de escolhas tradutórias que não apenas reproduzem o tom de oralidade do texto fonte, mas também aproximam o público alvo do texto é similarmente constatado por Carneiro (2017). </p>
			<disp-quote>
				<p>No caso da tradução, ao final da transcrição da fala do amigo Louis, a tradutora empresta um Oi? próprio do registro oral dos jovens brasileiros quando querem mostrar que não compreendem e não concordam com determinado posicionamento. Tal escolha certamente contribui para aproximar o público do texto. (CARNEIRO, 2017: 327)</p>
			</disp-quote>
			<p>A inserção de “<italic>Oi?”</italic> mais uma vez deixa o leitor da tradução em uma posição confortável, em que é possível reconhecer, por meio dessa estrutura discursiva fluente e transparente, “a sua própria cultura na cultura do outro” (<xref ref-type="bibr" rid="B15">VENUTI, 1995</xref>: 15).</p>
			<p>Do ponto de vista linguístico, é possível deduzir, com base nos excertos analisados, que a tradução em português (TC) parece estar endereçada a um leitor urbano e jovem, evidenciando estratégias de domesticação. Em “esses caras se viram como podem” (excerto 1), “descolou uma vaga para nós” (excerto 2), “a ficha tinha caído” (excerto 4) e “o flanelinha” (também excerto 4), o leitor brasileiro urbano e talvez não muito jovem desta tradução (para dar conta de “a ficha”) se depara com um texto muito confortável e transparente para o seu lugar de leitura, além de culturalmente localizado. </p>
			<p>Talvez o termo mais emblemático dentre esses exemplos seja o próprio flanelinha, esta figura usual nas ruas de grandes centros urbanos, que pode se tornar inconveniente em alguns contextos por meio da tentativa de pequenas extorsões, constrangimentos, e até mesmo ameaças. Esta escolha lexical resultante de uma estratégia de tradução domesticadora evidencia um dado de implicação social, econômica e ideológica, que dista da natureza da discussão que a autora vinha propondo para a situação verídica vivenciada por ela dentro da agenda de discussão de gênero/machismo. </p>
			<p>Ao introduzir o elemento social e substituir todas as repetições nominais expressas em “man”, aceitas em língua inglesa, a tradução desvia a atenção do leitor para o fato de que quem pagou a gorjeta foi a mulher. Além disso, pode-se argumentar na direção de uma domesticação cultural resultante desta escolha lexical, visto que o termo ‘flanelinha’ remete a um contexto tipicamente brasileiro, como se Chimamanda tivesse nascido no Brasil, morasse aqui e tivesse concebido este texto para um leitor brasileiro, familiarizado com aquela figura. O leitor mais desavisado poderá até fazer a leitura como se o livro tivesse sido escrito por autor(a) brasileiro(a).</p>
			<p>O leitor de mais de 40 anos no Brasil certamente recorda da época em que as ruas eram equipadas com telefones públicos chamados de “orelhões”, operados mediante a inserção de uma ficha de metal em orifício específico, que literalmente “caía” em determinado compartimento no momento em que alguém atendesse à ligação no número discado. Cair a ficha, solução tradutória para o verbo inglês “realize”, passível de outras traduções menos marcadas culturalmente, é uma escolha que se afina com o conceito de fluência de Venutti, soando natural, culturalmente localizado, transmitindo ao leitor sensação de familiaridade. Schleiermacher também pode ser referenciado aqui, pois o texto foi trazido até o leitor, que não necessita despender esforço para interagir com o trecho.</p>
			<p>Essa mesma tendência de trazer o texto até o leitor pode ser observada no <xref ref-type="table" rid="t4">quadro 4</xref>, a seguir, cujo excerto traz à tona a situação vivenciada pelas mulheres ao expressarem emoções como a raiva, por exemplo. Chimamanda ilustra seu ponto de vista com dois fatos ocorridos com amigas suas, americanas, no contexto do ambiente corporativo. </p>
			<p>O quinto excerto (<xref ref-type="table" rid="t4">Quadro 4</xref>) trata de um desses eventos. Bem paga e uma das duas únicas mulheres a compor a equipe de uma empresa de publicidade, uma das amigas desabafa sobre o quanto se sentiu desprezada ao ver que um comentário seu, ignorado durante uma reunião de trabalho, ganhou a atenção e o elogio da/o chefe quando feito por um colega do sexo masculino.</p>
			<p>
				<table-wrap id="t4">
					<label>Quadro 4:</label>
					<caption>
						<title>Excerto 5 da obra “Sejamos Todos Feministas” (p. 22)</title>
					</caption>
					<table>
						<colgroup>
							<col/>
							<col/>
						</colgroup>
						<thead>
							<tr>
								<th align="center">Texto Fonte (TF)</th>
								<th align="center">Texto de Chegada (TC)</th>
							</tr>
						</thead>
						<tbody>
							<tr>
								<td align="left">5. She wanted to speak up, to challenge her boss. But she didn’t. Instead, after the meeting, she went to the bathroom and cried, then called me to vent about it. She didn’t want to speak up because she didn’t want to seem aggressive. She let her resentments <bold>simmer</bold>.</td>
								<td align="left"> Ela queria se posicionar e enfrentar a chefe, mas ficou quieta. Depois da reunião, foi chorar no banheiro e me ligou para desabafar. Ela não disse o que pensava para não parecer agressiva. Deixou o ressentimento <bold>ferver em banho-maria</bold>. </td>
							</tr>
						</tbody>
					</table>
				</table-wrap>
			</p>
			<p>Pouco antes da fala que deu origem ao ensaio “Sejamos Todos Feministas”, Chimamanda tinha publicado um artigo sobre a condição de ser jovem e ser mulher em Lagos, no qual um conhecido seu identificou certo tom de raiva não negado pela autora na época. Inspirada neste episódio, em seu texto, ela recupera a importância e o poder que historicamente a raiva demonstra em operar mudanças positivas com a finalidade de denunciar o quanto a sociedade não espera e não aprova que as mulheres expressem raiva - pelo tanto que isso pode ser ameaçador ou inadequado.</p>
			<p>No excerto fonte apresentado no <xref ref-type="table" rid="t4">Quadro 4</xref>, Chimamanda se utiliza do verbo “simmer” para descrever a forma como a amiga lidou com o ressentimento, o qual foi traduzido por “ferver em banho-maria”. Interpretada literalmente, a expressão “ferver em banho-maria” significa cozinhar ou derreter algo em água fervente ou, de forma metafórica, “deixar para lá”, “procrastinar”, “aguardar”. Por outro lado, “simmer” remete para o ato de cozinhar em fogo brando, reduzir em volume, ou, idiomaticamente, para arrefecer, acalmar. Embora a tradução tenha preservado o tom de oralidade característico da autora e até mesmo o campo semântico dos dois termos, a estratégia domesticadora resultou num efeito de sentido que implica na minimização do sentimento vivido pela publicitária, por sugerir que o acontecido não a impactou, ou ainda porque “simmer”, no que tange ao processo de reduzir por evaporação e, portanto, a uma ideia de sublimação, estaria em relação completamente oposta ao de preservar ou recalcar, expressa por “ferver em banho-maria”. </p>
			<p>Ademais, a domesticação linguística verificada na solução tradutória do trecho desencadeia também uma domesticação ideológica, visto que torna invisível o estereótipo e o embate social e de gênero travado de maneira simbólica na arena do ambiente corporativo. Nesse caso, a estratégia de domesticação não apenas torna o texto de chegada fluente, transparente e, consequentemente, aceitável e adaptado à estrutura discursiva da língua de chegada (<xref ref-type="bibr" rid="B15">VENUTI, 1995</xref>), como pode contribuir para a homogeneização do discurso e disseminação de estereótipos, justamente o contrário do que as falas de Chimamanda tratam.</p>
			<disp-quote>
				<p>Os sentidos das falas de Chimamanda abrem a perspectiva para a compreensão da diferença, do tratamento do africano e seu continente pelo olhar ocidental homogeneizador e da imersão na estereotipização contínua e discriminação das identidades culturais inferidas pelos inúmeros instrumentos de controle às pessoas. Nesse sentido, Chimamanda adquire força cultural e traz o alerta para esses problemas da contemporaneidade inseridos na sociedade. (<xref ref-type="bibr" rid="B3">ALVES; ALVES, 2012</xref>: 1)</p>
			</disp-quote>
			<p>Considerando esses aspectos constitutivos do discurso de Chimamanda, em que a compreensão da diferença e os problemas sociais contemporâneos estão no cerne, parece que não se trata apenas de escolher entre estratégias de tradução que priorizem a representação fluente ou estrangeira, mas também de questionar a problemática da própria representação (<xref ref-type="bibr" rid="B11">NIRANJANA, 1992</xref>, 2010). </p>
			<p>Por fim, o sexto e último excerto (<xref ref-type="table" rid="t5">Quadro 5</xref>) submetido à análise neste trabalho se dedica a examinar a parte do trecho inicial de <italic>“Sejamos Todos Feministas</italic>”. Nesse excerto, a autora recorda sentir-se aborrecida com os romances lidos na adolescência e publicados pela editora inglesa Mills &amp; Boon.</p>
			<p>
				<table-wrap id="t5">
					<label>Quadro 5:</label>
					<caption>
						<title>Excerto 6 da obra “Sejamos Todos Feministas” (p. 10)</title>
					</caption>
					<table>
						<colgroup>
							<col/>
							<col/>
						</colgroup>
						<thead>
							<tr>
								<th align="center">Texto Fonte (TF)</th>
								<th align="center">Texto de Chegada (TC)</th>
							</tr>
						</thead>
						<tbody>
							<tr>
								<td align="left">6. I must have read every single Mills &amp; Boon romance published before I was sixteen. And each time I try to read those books called “classic feminist texts,” I get bored, and I struggle to finish them.</td>
								<td align="left"> (...) devo ter lido toda a coleção <bold>água-com-açúcar</bold> publicada pela Mils and Boon antes dos dezesseis anos. E toda vez que tentava ler os tais livros clássicos sobre feminismo, ficava entediada e mal conseguia terminar.</td>
							</tr>
						</tbody>
					</table>
				</table-wrap>
			</p>
			<p>Como pode ser visto no <xref ref-type="table" rid="t5">Quadro 5</xref>, o trecho fonte não apresenta qualquer juízo de valor no sentido de apontar que se trata de uma literatura menor, de leveza ingênua ou descomprometida. A tradução, por outro lado, opta por um termo marcadamente pejorativo em língua portuguesa ao trazer a descrição “água-com-açúcar”. Além de não ter motivação linguística no texto fonte para a inserção dessa expressão, a estratégia da domesticação insere uma opinião que pode sugerir algo bobo e romântico. </p>
			<p>A domesticação linguística - e que também pode ser considerada de ordem ideológica - conduz o leitor a uma interpretação do TC que inexiste no TF. Além disso, priva o leitor de investigar por iniciativa própria a que tipo de publicação se dedica a referida editora caso sinta necessidade de esclarecer, individualmente, por que razão esse tipo de literatura entediava a jovem Chimamanda. Em último caso, uma nota de rodapé resolveria a questão cultural de informar aos leitores brasileiros que a referida editora era especialista no gênero que por aqui chamamos de “água com açúcar”, sem relacionar à autora esta avaliação ou opinião.</p>
			<p>Como apontado por Niranjana, as escolhas de tradução contribuem para a criação de representações e a modificação da identidade de determinados grupos sociais. Portanto, similarmente a Venuti, defende a estratégia estrangeirizante, que resista à convenção e que seja aberta ao transporte da diferença por meio da liberação de resíduos.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações finais</title>
			<p>Embora existam diversas tentativas de descrever, enumerar e aplicar estratégias de tradução, o que se vê na prática é que diferentes autores, dependendo do período histórico e da abordagem a que se afiliam, propõem estratégias específicas para lidar com o problema da tradução. Este trabalho utilizou-se das estratégias tradutórias conforme pensadas por Schleiermacher (1813), <xref ref-type="bibr" rid="B15">Venuti (1995</xref>) e <xref ref-type="bibr" rid="B11">Niranjana (1992</xref>, 2010) para a análise teórico-reflexiva. Nossa hipótese era de que o texto traduzido tenderia à domesticação, a qual pôde ser confirmada nos exemplos analisados. </p>
			<p>A análise dos excertos demonstrou a prevalência da estratégia de levar o texto até o leitor, segundo Schleiermacher (1838/1977), ou de domesticação, segundo <xref ref-type="bibr" rid="B15">Venuti (1995</xref>). A domesticação se deu nos níveis estrutural, lexical, cultural, social, ideológico e político. O uso predominante dessa estratégia levou à amenização e/ou apagamentos da questão de gênero/machismo, que é abordado por Chimamanda de forma marcante e linguisticamente explícita no TF. </p>
			<p>O apagamento na tradução, por sua vez, contribui para disseminar estereótipos relativos à imagem da mulher e de seu papel na perspectiva de uma sociedade patriarcalista. As imagens construídas por meio da tradução, principalmente estereótipos negativos, podem consciente e inconscientemente ser internalizadas pelo público leitor do contexto de chegada (<xref ref-type="bibr" rid="B9">GENTZLER; NIRANJANA, 2009</xref>), o que gera impactos sociais, culturais e ideológicos. </p>
			<p>Cabe ainda dizer que a tradução da obra traz ao leitor um produto fluente, privando-o de testemunhar a sensação de estar consumindo um produto cultural enunciado de outro lugar, por alguém distinto da sua cultura. Se por um lado as traduções são textos complexos que possibilitam aos tradutores várias escolhas para apoiar ou resistir às visões literárias e ideológicas predominantes, por outro lado, observa-se que os tradutores tendem a &quot;se esconder&quot; em seu trabalho, negando a própria voz em favor dos autores e/ou estilo da cultura receptora (VENUTI, 1998). No contexto brasileiro, observam-se ainda traduções que incorporam não apenas apagamentos, como também traços linguístico-culturais da língua de chegada (<xref ref-type="bibr" rid="B12">SANTOS; ROMANELLI, 2016</xref>).</p>
			<p>Para concluir, as estratégias predominantemente domesticadoras empregadas na tradução da obra de Chimamanda nos convidam fortemente à re-tradução como forma de resistência (<xref ref-type="bibr" rid="B11">NIRANJANA, 1992</xref>) e de subversão das representações estereotipadas não apenas da mulher, como também da identidade brasileira. </p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<ref-list>
			<title>Referências bibliográficas</title>
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					<year>2012</year>
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