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			<journal-id journal-id-type="publisher-id">tradterm</journal-id>
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				<journal-title>Revista de Tradução e Terminologia</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Revista de Tradução e Terminologia</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="ppub">2317-9511</issn>
			<issn pub-type="epub">2317-9511</issn>
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				<publisher-name>Centro Interdepartamental de Tradução e Terminologia da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.11606/issn.2317-9511.v26i0p161-177</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>Articles</subject>
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				<article-title>“Relato de um certo oriente” de Milton Hatoum: a (in)visibilidade dos tradutores</article-title>
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					<trans-title>“Relato de um certo oriente” by Milton Hatoum: the translators’ (in)visibility</trans-title>
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						<surname>Queiroz</surname>
						<given-names>Ana Patrícia Cavalcanti</given-names>
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					<xref ref-type="aff" rid="aff1">*</xref>
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					<label>*</label>
					<institution content-type="original">Mestranda em Estudos da Linguagem - Linguística pelo do Programa de Pós-graduação em Letras (PPGL) da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). E-mail: anapatriciacqueiroz@hotmail.com.</institution>
					<institution content-type="orgdiv1">Programa de Pós-graduação em Letras</institution>
					<institution content-type="orgname">Universidade Federal do Amazonas</institution>
					<email>anapatriciacqueiroz@hotmail.com</email>
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			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
				<day>08</day>
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				<year>2023</year>
			</pub-date>
			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<month>12</month>
				<year>2015</year>
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			<volume>26</volume>
			<fpage>161</fpage>
			<lpage>177</lpage>
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				<license license-type="open-access" xlink:href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/" xml:lang="pt">
					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>Este artigo se propõe a evidenciar o nível de visibilidade de Ellen Watson e John Gledson nas traduções para a língua inglesa da obra <italic>Relato de um certo oriente</italic>, escrito por Milton Hatoum. A obra foi traduzida para diversas línguas e tem Ellen Watson como a responsável pela versão intitulada <italic>The tree of the seventh heaven</italic>, publicada nos Estados Unidos, em 1994. A publicada na Inglaterra contou com a revisão da Watson e de John Gledson e recebeu o título <italic>Tale of a certain orient</italic>. Por meio da análise, observamos as decisões tomadas pelos tradutores em ambas versões ao se depararem com palavras típicas da região norte do Brasil. Limitamos nossa análise ao nível das palavras devido a uma questão de recorte metodológico, o que não diminui a importância dos outros níveis.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>Abstract</title>
				<p>This article`s goal is evidencing how visible Ellen Watson and John Gledson are on the translations to English of the book <italic>Relato de um certo oriente</italic> by Milton Hatoum. This work has been translated to several languages. Watson is responsible for the version entitled <italic>The tree of the seventh heaven</italic>, published in the USA, in 1994. The one published in England entitled <italic>Tale of a certain orient</italic> had Watson and Gledson`s revision. By means of the analysis, we observed the decisions taken by the translators on both versions when it came to typical words from the North of Brazil. We analyzed only the word level due to a methodological specificity, which does not diminish the importance of the other levels.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Equivalência</kwd>
				<kwd>domesticação</kwd>
				<kwd>estrangeirização</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Equivalence</kwd>
				<kwd>Domestication</kwd>
				<kwd>Foreignization</kwd>
			</kwd-group>
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				<table-count count="7"/>
				<equation-count count="0"/>
				<ref-count count="12"/>
				<page-count count="17"/>
			</counts>
		</article-meta>
	</front>
	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>1. Introdução</title>
			<p>Podemos dizer com <xref ref-type="bibr" rid="B12">Yallop (2001</xref>) que não há nada idêntico, nem dois seres humanos, nem duas árvores, nem duas pedras, nem duas digitais. Da mesma forma, não há duas línguas idênticas. Todas são únicas. Ainda segundo o autor, se tudo é único, encontrar equivalência é uma tarefa problemática.</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B8">Nida e Taber (1982</xref>) defendem que cada língua tem características distintivas na capacidade de formação de palavras, no padrão de ordenamento das frases, nas técnicas de conectar as frases, nos marcadores discursivos e que a riqueza de vocabulário varia de acordo com o foco cultural, com as especialidades das pessoas.</p>
			<p>Portanto, traduzir torna-se um processo de escolhas. O tradutor precisa decidir entre preservar a cultura da língua-fonte ou da alvo. Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B6">Ladmiral (1980</xref>), o tradutor ou recria as particularidades estilísticas do texto-fonte ou as substitui radicalmente por traços estilísticos que possuam função equivalente na língua-alvo. <xref ref-type="bibr" rid="B11">Venuti (1995</xref>) diz que as opções dadas pelo filósofo e teólogo Friedrich Schleiermacher são as mais decisivas: o tradutor deixa, na medida do possível, ou o autor ou o leitor, em paz. Em outras palavras, ou ele leva o leitor até o autor ou o autor até o leitor.</p>
			<p>Decidir quem deixar em paz pode ser visto como escolher entre os tipos de tradução abordados por Venuti: o estrangeirizador e o domesticador. O autor defende a tradução estrangeirizadora como um ato de resistência, como uma forma de o tradutor deixar de ser invisível. No entanto, ele mesmo deixa claro que, para que uma tradução seja aceita pela maioria das editoras, pelos críticos e pelos leitores, ela precisa ser fluente, natural, transparente a ponto de não aparentar ser uma tradução, mas o “original”. Ela deve ser reconhecível, clara, familiar aos leitores-alvo de maneira que eles acessem livremente os grandes pensamentos presentes no original. Dessarte, o tradutor precisa ser invisível (<xref ref-type="bibr" rid="B11">VENUTI 1995</xref>).</p>
			<p>Este artigo se propõe a evidenciar o nível de visibilidade dos tradutores da obra <italic>Relato de um certo oriente</italic>, escrito por Milton Hatoum. Perguntamo-nos quais decisões foram tomadas pelos tradutores quando se depararam com palavras típicas da região norte do Brasil e se tais decisões afetaram o sentido das palavras em questão.</p>
			<p>Publicado em 1989, esse romance trata do retorno de uma mulher, após muito tempo ausente, à casa onde morava na sua infância, em Manaus, com o objetivo de recuperar o que fora perdido. Constitui-se de diferentes vozes que se revezam no decorrer dos oito capítulos. Os narradores são a filha adotiva de Emilie (a quem o autor não deu nome), Hakim, o fotógrafo Dorner, o marido de Emilie e sua amiga, Hindié Conceição.</p>
			<p><italic>Relato de um certo oriente</italic> foi traduzido para diversas línguas. A responsável pela tradução para o inglês foi Ellen Watson. Em seguida, ela e John Gledson realizaram uma revisão e publicaram uma versão na Inglaterra. O título da versão americana é <italic>The tree of the seventh heaven</italic> (uma expressão encontrada no livro) e o da britânica é <italic>Tale of a certain orient</italic>.</p>
			<p>No processo de análise, encontramos problemas de equivalência nos níveis das palavras e das frases, dentre outros. No entanto, por uma questão de recorte metodológico, ateremo-nos ao nível das palavras, o que não diminui a importância dos outros níveis.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>2. A questão da Equivalência</title>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B1">Bell (1991</xref>) defende que traduzir algo é, por essência, alterar a forma. Portanto, os tradutores precisam levar a singularidade das línguas em consideração. Eles precisam ser preparados para lidar com as diferenças culturais existentes entre leitores de contextos sociais e culturais diferentes, para fazer toda mudança necessária em vez de forçar a estrutura da língua-fonte sobre a alvo. Portanto, eles devem encontrar alguma forma de equivalência.</p>
			<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="B9">Nida (2004</xref>), existem dois tipos de equivalência: a formal e a dinâmica. A formal é a tradução palavra-por-palavra, frase-por-frase, conceito-por-conceito. Nesse tipo de tradução, tenta-se reproduzir a forma e o conteúdo da língua-fonte o mais literal possível. O segundo tipo - a dinâmica - baseia-se no princípio da equivalência de efeito. Por meio dela, procura-se causar nos leitores da língua-alvo o mesmo efeito que há naqueles da língua-fonte. A relação entre eles e a mensagem deve ser a mesma, mesmo que para isso seja necessário modificar a forma e/ou o conteúdo.</p>
			<p>Se relacionarmos a teoria da equivalência dinâmica de Nida com o ato de deixar alguém em paz, podemos dizer que a equivalência formal deixa o autor em paz, enquanto a dinâmica, os leitores do texto traduzido. Tanto <xref ref-type="bibr" rid="B1">Bell (1991</xref>) quanto <xref ref-type="bibr" rid="B9">Nida (2004</xref>) defendem que a tradução deve ser natural, deve ser adequada à cultura-alvo. Já <xref ref-type="bibr" rid="B11">Venuti (1995</xref>) se posiciona a favor da tradução estrangeirizadora, chamada por ele de <italic>resistência</italic>.</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B11">Venuti (1995</xref>) propõe dois métodos de tradução: o domesticador e o estrangeirizador. O texto traduzido com o primeiro método passa por original, é fluente. Os tradutores substituem os contextos ideológicos, sociais e culturais da língua-fonte pelos da língua-alvo. Esse processo os torna invisíveis, visto que eles priorizam a intenção do autor e a adapta à cultura-alvo. Podemos comparar esse método com a tradução naturalizadora de <xref ref-type="bibr" rid="B10">Rónai (1981</xref>). Nela, a obra é adaptada ao máximo à cultura-alvo. Dela são retiradas as características exóticas, a impressão de refletir uma realidade diferente da dos leitores-alvo.</p>
			<p>Em oposição, temos o método estrangeirizador. Por meio dele, as diferenças linguísticas e culturais presentes na língua-fonte e na alvo são registradas. O texto é como uma passagem para um país do exterior. Ao fazermos a comparação, esse método pode ser relacionado com a tradução identificadora de <xref ref-type="bibr" rid="B10">Rónai (1981</xref>). Nela, é mantido o que a língua-fonte tem de diferente, exótico, genuíno. É acentuada, a todo momento, o que o autor chama de “origem alienígena” (<xref ref-type="bibr" rid="B10">RÓNAI 1981</xref>: 21).</p>
			<p>Como já mencionamos, <xref ref-type="bibr" rid="B11">Venuti (1995</xref>) defende a estrangeirização. Ele encoraja a visibilidade dos tradutores e alega que, apenas por meio desse método, o etnocentrismo, o racismo e o narcisismo cultural podem ser evitados. Ele chama esse tipo de tradução de <italic>resistência</italic>, não apenas por evitar a fluência, mas também por desafiar a cultura da língua-alvo.</p>
			<p>Vale mencionar que não pretendemos fazer julgamento de valor, posicionar um método acima do outro. Afinal, ambos possuem pontos positivos e negativos. Textos domesticados são mais aceitos devido a sua fluidez e clareza. Contudo, seus leitores não têm acesso a outras culturas. No que concerne aos estrangeirizados, podemos dizer que eles não são fluentes, transparentes. Eles evidenciam a voz do tradutor e causam estranhamento nos leitores. No entanto, conduzem os leitores a novas culturas.</p>
			<p>Nas versões para o inglês da obra <italic>Relato de um certo oriente,</italic> é possível observar os dois tipos de tradução: a domesticadora e a estrangeirizadora.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>3. Relato de uma certa tradução</title>
			<p>O romance analisado neste artigo possui palavras e expressões típicas do norte do Brasil. Nesta seção, apresentaremos os excertos nos quais algumas dessas palavras estão presentes, seguidos da análise de suas traduções, cujo objetivo é evidenciar o nível de visibilidade dos tradutores Watson e Gledson.</p>
			<sec>
				<title>3.1. Tajás</title>
				<p><italic>Tajás</italic> são plantas naturais do Brasil e de áreas próximas, na América do Sul e Central. Seu gênero é <italic>Caladium Bicolor</italic>. Esse termo foi traduzido de duas formas: <italic>white lilies</italic> e <italic>caladium</italic>. A primeira se trata de plantas de bulbo, e a segunda é hiperônimo de Tajás. Os excertos com o termo são apresentados <xref ref-type="table" rid="t1">abaixo</xref>:</p>
				<p>
					<table-wrap id="t1">
						<table>
							<colgroup>
								<col/>
								<col span="2"/>
								<col/>
							</colgroup>
							<thead>
								<tr>
									<th align="left">I - Texto-fonte (<xref ref-type="bibr" rid="B3">HATOUM 2004</xref>: 13-4, grifo nosso):</th>
									<th align="left" colspan="2">Texto-alvo 1 (<xref ref-type="bibr" rid="B2">HATOUM 1994</xref>: 7, grifo nosso):</th>
									<th align="left">Texto-alvo 2 (<xref ref-type="bibr" rid="B4">HATOUM 2007</xref>: 6, grifo nosso):</th>
								</tr>
							</thead>
							<tbody>
								<tr>
									<td align="left">[...] Emilie chegou depois, e todos se afastaram para que ela visse Soraya Ângela sentada entre os <bold>tajás brancos</bold> e com um giz vermelho à mão esquerda rabiscando no casco da tartaruga Sálua a última letra de um nome tão familiar.</td>
									<td align="left" colspan="2">[…] Then Emilie rushed in, and everyone stepped back so that she could see Soraya Ângela squatting in the <bold>white lilies</bold>, a chunk of red chalk in her left hand, completing the last stroke of a very familiar name on Sálua the turtle`s shell.</td>
									<td align="left">[…] Then Emilie rushed in, and everyone stepped back so that she could see Soraya Ângela squatting in the <bold>white lilies</bold>, a chunk of red chalk in her left hand, completing the last stroke of a very familiar name on Sálua the tortoise`s shell.</td>
								</tr>
								<tr>
									<td align="left" colspan="4"> </td>
								</tr>
								<tr>
									<td align="left" colspan="2"><bold>II - Texto-fonte (</bold><xref ref-type="bibr" rid="B3">HATOUM 2004</xref><bold>: 46, grifo nosso):</bold></td>
									<td align="left" colspan="2"><bold>Texto-alvo 1 (</bold><xref ref-type="bibr" rid="B2">HATOUM 1994</xref><bold>: 48, grifo nosso) = Texto-alvo 2 (</bold><xref ref-type="bibr" rid="B4">HATOUM 2007</xref><bold>: 48, grifo nosso):</bold></td>
								</tr>
								<tr>
									<td align="left" colspan="2">[...] Dormira na casa de um compadre que conheceu no rio Purus: uma palafita pintada de rosa e verde, cercada por latas de querosene entulhadas de <bold>tajás</bold>, <bold>açucenas</bold> e flores do mato. [...] </td>
									<td align="left" colspan="2">[…] He had slept at the home of a friend he`d met on the river Purus: a pink-and-green hut on stilts, surrounded by <bold>caladiums</bold>, <bold>white lilies</bold>, and jungle plants potted in kerosene cans. […] </td>
								</tr>
								<tr>
									<td align="left" colspan="4"> </td>
								</tr>
								<tr>
									<td align="left" colspan="2"><bold>III - Texto-fonte (</bold><xref ref-type="bibr" rid="B3">HATOUM 2004</xref><bold>: 91, grifo nosso):</bold></td>
									<td align="left" colspan="2"><bold>Texto-alvo 1 (</bold><xref ref-type="bibr" rid="B2">HATOUM 1994</xref><bold>: 110, grifo nosso) = Texto-alvo 2 (</bold><xref ref-type="bibr" rid="B4">HATOUM 2007</xref><bold>: 108, grifo nosso):</bold></td>
								</tr>
								<tr>
									<td align="left" colspan="2">[...] Imantada por uma voz melodiosa, quase encantada, Emilie maravilhava-se com a descrição da trepadeira que espanta inveja, das folhas malhadas de um <bold>tajá</bold> que reproduz a fortuna de um homem [...]. </td>
									<td align="left" colspan="2">[…] Spellbound by Anastácia`s melodious voice, Emilie marveled at her descriptions of the climbing plants that was said to drive away envy, the mottled leaves of a <bold>caladium</bold> that multiplied a man`s fortune […].</td>
								</tr>
							</tbody>
						</table>
					</table-wrap>
				</p>
				<p>No primeiro exemplo, o texto-alvo é fluente, uma vez que o termo foi traduzido como w<italic>hite lilies</italic>, uma planta que, por ser nativa da Europa, Ásia e América do Norte, é conhecida por ambos leitores-alvo: os americanos e os britânicos. Contudo, vale ressaltar que, por mais que ambas as plantas sejam brancas, traduzir <italic>tajás brancos</italic> como <italic>white lillie</italic> aparenta ter diminuído ou até eliminado a tropicalidade do contexto-fonte.</p>
				<p>Em contrapartida, no segundo exemplo, o termo w<italic>hite lilies</italic> é utilizado para traduzir outra palavra - <italic>açucenas</italic> -, cujo equivalente formal é, de fato, <italic>lilies</italic>. Uma vez encontrada essa equivalência, o termo <italic>tajá(s)</italic> passou a ser traduzido como <italic>caladium(s)</italic>, seu hiperônimo. Esse último, por ser um termo científico, evidencia a visibilidade dos tradutores, uma vez que interrompe a fluência e transparência dao texto-alvo.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>3.2. Aguardente</title>
				<p>De acordo com o dicionário <xref ref-type="bibr" rid="B7">Larousse Ática (2001</xref>), <italic>aguardente</italic> significa “bebida alcoólica obtida por destilação de várias plantas, raízes, frutas, etc., após sua fermentação.” Essa palavra foi traduzida por Watson e Gledson como <italic>brandies</italic> e <italic>cachaça</italic>, como veremos nos excertos <xref ref-type="table" rid="t2">abaixo</xref>:</p>
				<p>
					<table-wrap id="t2">
						<table>
							<colgroup>
								<col span="2"/>
								<col span="2"/>
							</colgroup>
							<thead>
								<tr>
									<th align="left" colspan="2">I - Texto-fonte (<xref ref-type="bibr" rid="B3">HATOUM 2004</xref>: 31, grifo nosso): </th>
									<th align="left" colspan="2">Texto-alvo 1 (<xref ref-type="bibr" rid="B2">HATOUM 1994</xref>: 29) = Texto-alvo 2 (<xref ref-type="bibr" rid="B4">HATOUM 2007</xref>: 29, grifo nosso): </th>
								</tr>
							</thead>
							<tbody>
								<tr>
									<td align="left" colspan="2">[…] depois viriam os sucos e <bold>aguardentes</bold>, e quem sabe uma refeição improvisada no meio da madrugada. [...] </td>
									<td align="left" colspan="2">[...] After that would come juices and <bold>brandies</bold> and, who knows, maybe even an improvised meal in the wee hours. […] </td>
								</tr>
								<tr>
									<td align="left" colspan="4"> </td>
								</tr>
								<tr>
									<td align="left"><bold>II - Texto-fonte (</bold><xref ref-type="bibr" rid="B3">HATOUM 2004</xref><bold>: 38, grifo nosso):</bold></td>
									<td align="left" colspan="2"><bold>Texto-alvo 1 (</bold><xref ref-type="bibr" rid="B2">HATOUM 1994</xref><bold>: 37, grifo nosso):</bold></td>
									<td align="left"><bold>Texto-alvo 2 (</bold><xref ref-type="bibr" rid="B4">HATOUM 2007</xref><bold>: 37, grifo nosso):</bold></td>
								</tr>
								<tr>
									<td align="left">--- Teu pai tem o olfato mais aguçado que um cão. Sentiu o cheiro da <bold>aguardente</bold> lá no quintal, onde o aroma do jasmim branco é muito forte.</td>
									<td align="left" colspan="2">He picked up the scent of <bold>cachaça</bold> out there in the yard, where the smell of white jasmine is overpowering!</td>
									<td align="left">He picked up the scent of <bold>
 <italic>cachaça</italic>
</bold> out there in the yard, where the smell of white jasmine is overpowering!</td>
								</tr>
							</tbody>
						</table>
					</table-wrap>
				</p>
				<p>No primeiro excerto, as pessoas estavam socializando entre amigos, na casa de um deles. Portanto, os termos <italic>aguardente</italic> ou <italic>cachaça</italic> poderiam soar crus para os leitores-alvo. Visto que ambos os termos são mais relacionados com bares do que com casas de família, utilizou-se <italic>brandies</italic>.</p>
				<p><italic>Brandy</italic> significa “conhaque” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">LAROUSSE 2001</xref>) e é feito da destilação do vinho. Essa bebida é bastante comum entre os americanos e britânicos para situações semelhantes. Portanto, os tradutores domesticaram a tradução, substituindo a cultura-fonte pela alvo, fazendo dela mais familiar aos seus leitores-alvo.</p>
				<p>No segundo exemplo, o termo é usado por uma pessoa simples e humilde com uma linguagem informal. Nesse caso, <italic>aguardente</italic> foi traduzido como <italic>cachaça</italic>. Essa decisão tornou os tradutores visíveis, uma vez que a fluência é interrompida, suas vozes são evidenciadas e os leitores-alvo são conduzidos a uma nova cultura.</p>
				<p>O uso <italic>per se</italic> do termo <italic>cachaça</italic> é suficiente para o texto-alvo não se passar por original, pois é um termo que pode causar estranhamento por não ser comum na cultura e na língua-alvo. Mesmo assim, após a revisão, ele foi colocado em itálico, o que aparenta eliminar qualquer impressão de transparência e fluência.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>3.3. Cidade Flutuante</title>
				<p>Em ambas versões, o termo <italic>Cidade Flutuante</italic> é substituído por um equivalente formal, porém recebe, em sua primeira menção, uma definição no corpo do texto, cuja tradução para português é “construída sobre enormes troncos de árvores, na água, perto do porto”. Segue o <xref ref-type="table" rid="t3">excerto</xref>:</p>
				<p>
					<table-wrap id="t3">
						<table>
							<colgroup>
								<col/>
								<col/>
							</colgroup>
							<thead>
								<tr>
									<th align="left"><bold>I - Texto-fonte (</bold><xref ref-type="bibr" rid="B3">HATOUM 2004</xref><bold>: 35, grifo nosso):</bold></th>
									<th align="left"><bold>Texto-alvo 1 (</bold><xref ref-type="bibr" rid="B2">HATOUM 1994</xref><bold>: 34) = Texto alvo 2 (</bold><xref ref-type="bibr" rid="B4">HATOUM 2007</xref><bold>: 34, grifo nosso):</bold></th>
								</tr>
							</thead>
							<tbody>
								<tr>
									<td align="left">Todos se reuniam na copa do casarão rosado, com a exceção de meu pai, que se ilhava no quarto ou ia passear na <bold>Cidade Flutuante</bold> [...].</td>
									<td align="left">On Christmas Eve everyone gathered in the kitchen to help with the preparations, except Father, who would shut himself up in his room or go to spend the day at <bold>Floating City - built on huge tree trunks in the water near the port -</bold> […].</td>
								</tr>
							</tbody>
						</table>
					</table-wrap>
				</p>
				<p>Observamos aqui um alto nível de visibilidade dos tradutores, pois definições não apenas quebram a fluência do texto como também conduzem os leitores-alvo ao novo, ao estranho, no caso da tradução em questão, a um tipo de cidade flutuante incomum em suas culturas.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>3.4. Caboclos</title>
				<p><italic>Caboclo</italic> pode ser entendido como “mulato de cor acobreada, descendente de índio; mestiço de branco com índio” e como “sertanejo, caipira, roceiro” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">LAROUSSE 2001</xref>). No entanto, no Amazonas, <italic>caboclo</italic> também se refere a “cara”, “homem”, “pessoa”. Seguem os <xref ref-type="table" rid="t4">excertos</xref>:</p>
				<p>
					<table-wrap id="t4">
						<table>
							<colgroup>
								<col/>
								<col/>
								<col/>
							</colgroup>
							<thead>
								<tr>
									<th align="left">I - Texto-fonte (<xref ref-type="bibr" rid="B3">HATOUM 2004</xref>: 35, grifo nosso):</th>
									<th align="left">Texto-alvo 1 (<xref ref-type="bibr" rid="B2">HATOUM 1994</xref>: 34, grifo nosso):</th>
									<th align="left">Texto-alvo 2 (<xref ref-type="bibr" rid="B4">HATOUM 2007</xref>: 34, grifo nosso):</th>
								</tr>
							</thead>
							<tbody>
								<tr>
									<td align="left">Todos se reuniam na copa do casarão rosado, com a exceção de meu pai, que se ilhava no quarto ou ia passear na Cidade Flutuante, onde ele entrava nas palafitas para conversar com os compadres conhecidos, com os <bold>caboclos recém-chegados do interior</bold>, e depois caminhava até o porto para visitar armazéns e navios.</td>
									<td align="left">On Christmas Eve everyone gathered in the kitchen to help with the preparations, except Father, who would shut himself up in his room or go to spend the day at Floating City - built on huge tree trunks in the water near the port - stepping in and out of the huts to chat with friends and newly arrived <bold>river people from the interior</bold>, after which he`d walk to the port to visit the shops and boats.</td>
									<td align="left">On Christmas Eve everyone gathered in the kitchen of the rose-red mansion to help with the preparations, except Father, who would shut himself up in his room or go to spend the day at Floating City - built on huge tree trunks in the water near the port - stepping in and out of the huts to chat with friends and newly arrived <bold>people from up river</bold>, after which he`d walk to the port to visit the shops and boats.</td>
								</tr>
								<tr>
									<td align="justify" colspan="3"> </td>
								</tr>
								<tr>
									<td align="left"><bold>II - Texto-fonte (</bold><xref ref-type="bibr" rid="B2">HATOUM 1994</xref><bold>: 83, grifo nosso):</bold></td>
									<td align="left"><bold>Texto-alvo 1 (</bold><xref ref-type="bibr" rid="B3">HATOUM 2004</xref><bold>: 100, grifo nosso):</bold></td>
									<td align="left"><bold>Texto-alvo 2 (</bold><xref ref-type="bibr" rid="B4">HATOUM 2007</xref><bold>: 98, grifo nosso):</bold></td>
								</tr>
								<tr>
									<td align="left">[...] O comportamento ético de seus habitantes e tudo o que diz respeito à identidade e ao convívio entre brancos, <bold>caboclos</bold> e índios eram seus temas prediletos. </td>
									<td align="left">[…] The ethics and behavior of the area`s inhabitants and everything about the identity and intimacy among whites, <bold>mixed-breed river people</bold>, and Indians were among his favorite themes.</td>
									<td align="left">[…] His favourite themes were the ethics and behavior of the area`s inhabitants, everything about people`s sense of identity, and the relationship between whites, <bold>mixed-breed river people</bold>, and Indians.</td>
								</tr>
								<tr>
									<td align="left" colspan="3"> </td>
								</tr>
								<tr>
									<td align="left"><bold>III - Texto-fonte (</bold><xref ref-type="bibr" rid="B2">HATOUM 1994</xref><bold>: 87, grifo nosso):</bold></td>
									<td align="left"><bold>Texto-alvo 1 (</bold><xref ref-type="bibr" rid="B3">HATOUM 2004</xref><bold>: 105, grifo nosso):</bold></td>
									<td align="left"><bold>Texto-alvo 2 (</bold><xref ref-type="bibr" rid="B4">HATOUM 2007</xref><bold>: 103, grifo nosso):</bold></td>
								</tr>
								<tr>
									<td align="left">--- Deus? - contra-atacou Emilie. -- Tu achas que as <bold>caboclas</bold> olham para o céu e pensam em Deus? São umas sirigaitas, umas espevitadas que se esfregam no mato com qualquer um e correm aqui para mendigar leite e uns trocados. </td>
									<td align="left">‘God?’ spluttered Emilie. “Do you think those <bold>half-breeds</bold> look to the sky and think of God? They`re just a bunch of flirting tramps from the jungle that fool around with anyone who comes along and then come here begging milk and spare change.</td>
									<td align="left">‘God?’ Emilie counter-attacked. ‘Do you think those <bold>half-breeds</bold> look to the sky and think of God? They`re just a bunch of hussies that`ll go off into the woods with anyone who comes along and then come here begging milk and spare change.</td>
								</tr>
							</tbody>
						</table>
					</table-wrap>
				</p>
				<p>Nos primeiros excertos, podemos observar que Watson traduziu <italic>caboclos</italic> como <italic>river people from the interior</italic> e que, após a revisão, os tradutores optaram por <italic>people from up river</italic>. Ressaltemos que o sentido mudou após a revisão, uma vez que <italic>people from up river</italic> pode ser qualquer pessoa vinda do interior, enquanto river people from the interior faz mais referência aos ribeirinhos, pessoas que residem nas margens dos rios da Amazônia. Devido aos diferentes usos da palavra <italic>caboclo</italic> no Amazonas, não há como identificar se o Hatoum fez referência aos ribeirinhos, especificamente, ou não. Podemos identificar, contudo, que ambas escolhas deixam claro que o texto foi traduzido, ou seja, as vozes dos tradutores aparecem no texto-alvo.</p>
				<p>No segundo exemplo, o termo <italic>caboclo</italic> faz referência aos mestiços de branco com índio. O termo é traduzido como <italic>mixed-breed river people</italic>, ou seja, ribeirinhos descendentes de mais de uma raça. Essa decisão mantém o sentido de miscigenação, mas apaga a especificidade da raça cabocla, uma vez que não deixa claro de quais raças os indivíduos são descendentes. Em adição, o acréscimo de <italic>river</italic> evidencia a presença dos tradutores.</p>
				<p>No que se refere ao terceiro exemplo, <italic>caboclas</italic> é traduzido como <italic>half-breeds</italic>. Visto que o termo no texto-fonte não se relaciona com a cor das mulheres, seu equivalente semântico poderia ser <italic>garotas</italic> ou <italic>mulheres</italic>.</p>
				<p>Podemos observar, nos três excertos, que o termo <italic>caboclo</italic>, desconhecido pelos leitores-alvo, foi evitado. Isso poderia levar a um baixo nível de visibilidade dos tradutores se não fossem as paráfrases, as quais facilitam a compreensão ao mesmo tempo em que torna notável a voz dos tradutores. Vale mencionar que, no segundo excerto, o sentido é generalizado e que no terceiro, a tentativa de fluência aparenta causar perda semântica e de efeito.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>3.5. Cristão</title>
				<p><italic>Cristão</italic> significa “adj. 1. relativo ou pertencente ao cristianismo. 2. Conforme a doutrina e a moral do cristianismo. - s.m. 1. Pessoa que segue o cristianismo. 2. Criatura humana; pessoa” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">LAROUSSE 2001</xref>). Esse termo é traduzido como <italic>Christian</italic> por Watson e como <italic>someone</italic> na versão revisada, como veremos <xref ref-type="table" rid="t5">abaixo</xref>:</p>
				<p>
					<table-wrap id="t5">
						<table>
							<colgroup>
								<col/>
								<col/>
								<col/>
							</colgroup>
							<thead>
								<tr>
									<th align="left">I - Texto-fonte (<xref ref-type="bibr" rid="B3">HATOUM 2004</xref>: 91, grifo nosso):</th>
									<th align="left">Texto-alvo 1 (<xref ref-type="bibr" rid="B2">HATOUM 1994</xref>: 110, grifo nosso):</th>
									<th align="left">Texto-alvo 2 (<xref ref-type="bibr" rid="B4">HATOUM 2007</xref>: 108, grifo nosso):</th>
								</tr>
							</thead>
							<tbody>
								<tr>
									<td align="left">[…] ‘E existem ervas que não curam nada’, revelava a lavadeira, ‘mas assanham a mente da gente. Basta tomar um gole do líquido fervendo para que o <bold>cristão</bold> sonhe uma única noite muitas vidas diferentes.’</td>
									<td align="left">[…] ‘Then there are the herbs that don`t cure anything but stir up a person`s mind. All it takes is one sip of steaming liquid for a <bold>Christian</bold> to dream many different lives in a single night.’</td>
									<td align="left">[…] ‘Then there are the herbs that don`t cure anything but whip a person`s mind into a frenzy. All it takes is one sip of steaming liquid for <bold>someone</bold> to dream many different lives in a singles night.’</td>
								</tr>
							</tbody>
						</table>
					</table-wrap>
				</p>
				<p>Na obra, esse termo não tem relação com o sentindo religioso. Não se trata de um cristão, mas sim de uma pessoa. Na primeira versão, o sentido original é perdido, visto que Watson o traduziu como <italic>Christian</italic>. Na versão revisada, os tradutores aparentam ter tido maior preocupação com o sentido do termo na cultura-fonte ao traduzi-lo como <italic>someone</italic>. Dessa forma, o texto-alvo flui melhor, o que minimiza a visibilidade dos tradutores.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>3.6. Graviola</title>
				<p>A graviola (<italic>Annona muricata</italic>) é originária das Antilhas. Ela é do mesmo gênero da cherimoia (<italic>Annona cherimola</italic>) e é conhecida, na língua inglesa, como <italic>soursop</italic> (<italic>Annona muricata</italic>). O termo <italic>graviola</italic> foi traduzido como <italic>cherimoya</italic>, na primeira versão, e como <italic>graviola</italic>, na versão revisada. Seguem os <xref ref-type="table" rid="t6">excertos</xref>:</p>
				<p>
					<table-wrap id="t6">
						<table>
							<colgroup>
								<col/>
								<col/>
								<col/>
							</colgroup>
							<thead>
								<tr>
									<th align="left">I - Texto-fonte (<xref ref-type="bibr" rid="B3">HATOUM 2004</xref>: 89, grifo nosso):</th>
									<th align="left">Texto-alvo 1 (<xref ref-type="bibr" rid="B2">HATOUM 1994</xref>: 108, grifo nosso):</th>
									<th align="left">Texto-alvo 2 (<xref ref-type="bibr" rid="B4">HATOUM 2007</xref>: 106, grifo nosso):</th>
								</tr>
							</thead>
							<tbody>
								<tr>
									<td align="left">[...] O aroma das frutas do ‘sul’ vaporava, se colocadas ao lado do cupuaçu ou da <bold>graviola</bold>, frutas que, segundo Emilie, exalavam um odor durante o dia, e um outro, mais intenso, mais doce, durante a noite. [...]</td>
									<td align="left">[…] The aroma of fruits from the south vanished if they were placed near the cupuassu or <bold>cherimoya fruit</bold>. According to Emilie, capuassu and cherimoya exuded one smell during the day and another, more intense, aroma during the night. […]</td>
									<td align="left">[…] The aroma of fruits from the south vanished if they were placed near the <italic>cupuaçu</italic> or <bold>
 <italic>graviola fruit</italic>
</bold> . According to Emilie, <italic>cupuaçu</italic> and <italic>graviola</italic> exuded one smell during the day and another, sweeter, aroma during the night. […]</td>
								</tr>
							</tbody>
						</table>
					</table-wrap>
				</p>
				<p>Na primeira versão, g<italic>raviola</italic> foi traduzida como <italic>cherimoya</italic>. Essa fruta é nativa da América do Sul, mas já é cultivada em diversos outros países, inclusive nos EUA. A tradutora aparenta ter levado em consideração o fato de os leitores-alvo serem mais familiarizados com a cherimoia do que com a graviola. Com essa decisão, ela mantém o tropicalismo, sem, contudo, causar estranheza aos leitores-alvo. O sentido e o efeito originais não foram afetados, afinal as frutas são bastante semelhantes.</p>
				<p>Em contrapartida, na versão revisada, o termo é mantido sem tradução, em itálico. Dessa forma, o exótico é preservado e os leitores-alvo são conduzidos a uma outra cultura. A presença do tradutor é invisível na primeira versão, porém nitidamente visível na segunda.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>3.7. Gato Maracajá</title>
				<p>O gato maracajá (<italic>Leopardus wiedii</italic>) é nativo das Américas Sul e Central. Em inglês, ele é chamado de <italic>Margay</italic> ou de <italic>Tree Ocelot</italic>, mas não é um animal amplamente conhecido. Em ambas versões, <italic>gato maracajá</italic> é traduzido como <italic>polecat</italic>, chamado popularmente no Brasil de tourão ou toirão. Seguem os <xref ref-type="table" rid="t7">excertos</xref>:</p>
				<p>
					<table-wrap id="t7">
						<table>
							<colgroup>
								<col/>
								<col/>
							</colgroup>
							<thead>
								<tr>
									<th align="left">I - Texto-fonte (<xref ref-type="bibr" rid="B3">HATOUM 2004</xref>: 37, grifo nosso):</th>
									<th align="left">Texto-alvo 1 (<xref ref-type="bibr" rid="B2">HATOUM 1994</xref>: 37) = Texto-alvo 2 (<xref ref-type="bibr" rid="B4">HATOUM 2007</xref>: 37, grifo nosso):</th>
								</tr>
							</thead>
							<tbody>
								<tr>
									<td align="left">[...] Meu pai dizia que era um cheiro mais enjoativo que o do <bold>gato maracajá</bold>. [...]</td>
									<td align="left">[…] My father Said Hindié smelled nastier than a <bold>polecat</bold>. […]</td>
								</tr>
							</tbody>
						</table>
					</table-wrap>
				</p>
				<p>Posto que o gato maracajá não seja conhecido por parte dos leitores-alvo, os tradutores encontraram um animal familiar à cultura-alvo, que também tivesse mal odor. Substituir o gato pelo toirão não aparenta ter causado perda semântica alguma, afinal ambos animais são fétidos. Portanto, a fluência do texto é mantida.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>3.8. Empréstimos</title>
				<p>Além de paráfrases e definições, as versões americana e britânica também contam com diversas palavras sem tradução que auxiliam da condução dos leitores-alvo à cultura-fonte. Podemos listar algumas, além das já mencionadas: <italic>jaguatirica</italic>, <italic>tapioca, biribás, pitomba, jacareúba, paricá-rama, sapupira</italic> e <italic>crajiru</italic>.</p>
				<p>Na primeira versão, Watson não adicionou explicação alguma às palavras, nem as colocou em itálico. Na segunda, já revisada por ela e por Gledson, os itálicos foram colocados e um glossário foi adicionado no fim do livro com o significado de diversas palavras regionais, específicas da cultura brasileira e/ou amazonense.</p>
				<p>Como já mencionamos, registrar as diferenças linguísticas e culturais aumenta a visibilidade dos tradutores. Isso já ocorre na primeira versão, dado que o simples uso desses termos já minimiza a transparência e a fluência do texto-alvo. Na segunda, com o itálico e o glossário, tal transparência é anulada e não há como o texto-alvo se passar por original. Dessarte, a visibilidade dos tradutores fica evidente.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>4. Considerações Finais</title>
			<p>Por meio da análise das duas traduções de <italic>Relato de um certo oriente</italic> de Milton Hatoum, observamos uma oscilação entre a tradução domesticadora e a estrangeirizadora. Podemos dizer que a versão revisada por Watson e Gledson é mais revolucionária, uma vez que aparenta ter prezado mais as peculiaridades, tropicalismo e exoticidade da cultura e da língua-fonte, como no caso do termo <italic>graviola</italic>. No entanto, é válido enfatizar que algumas decisões causam perda semântica, como no caso do termo <italic>caboclas</italic>, cuja tradução poderia ser <italic>mulheres</italic> ou <italic>garotas</italic>.</p>
			<p>Como fora mencionado, o ato de traduzir é um processo de escolhas. Se levar o autor aos leitores-alvo, o tradutor se torna invisível. Se fizer o oposto, torna-se visível. Watson e Gledson aparentam ter optado pelo equilíbrio, ora adaptaram, ora revolucionaram. Esse equilíbrio é comum em traduções, visto que encontrar equivalentes formais ou até mesmo dinâmicos e semânticos pode ser uma tarefa problemática, uma vez que todas as línguas são únicas.</p>
			<p>Podemos adicionar que as traduções da obra preservam a tropicalidade amazônica, o caráter exótico e alienígena da língua e da cultura-fonte, sem eliminar definitivamente a fluência e a naturalidade do texto. Dessa forma, as versões não correram o risco, ou pelo menos correram menos risco, de serem negadas pelas editoras, as quais prezam pela transparência, por traduções que aparentem ser os originais.</p>
			<p>Em suma, Watson e Gledson não foram radicais em suas decisões. Não domesticaram ou estrangeirizaram o texto por completo. Facilitaram a leitura do público-alvo, aumentaram as chances de aceitabilidade pelas editoras, mas não se omitiram nem perderam as oportunidades de conduzir os leitores-alvo a alguns passeios pelo Amazonas.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
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			<title>Referências bibliográficas</title>
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