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				<journal-title>Revista de Tradução e Terminologia</journal-title>
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			<issn pub-type="ppub">2317-9511</issn>
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				<publisher-name>Centro Interdepartamental de Tradução e Terminologia da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.11606/issn.2317-9511.v27i0p321-326</article-id>
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					<subject>Articles</subject>
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			<title-group>
				<article-title>Entre a impotência e o milagre: a Tradução H.O.O.Q. ou Je vous carmemirandise le mouton sans problème</article-title>
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					<trans-title>Between impotence and miracle: translation H.O.O.Q. or Je vous carmemirandise le mouton sans problème</trans-title>
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						<surname>Scheibe</surname>
						<given-names>Fernando</given-names>
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					<label>*</label>
					<institution content-type="original">Doutor em Literatura (PPGLit/UFSC) e tradutor - fescheibe@gmail.com</institution>
					<institution content-type="orgdiv1">PPGLit</institution>
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			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
				<day>04</day>
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				<year>2023</year>
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			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<month>09</month>
				<year>2016</year>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>A especificidade da tradução de quadrinhos é uma impotência: a de lidar com um texto, em sentido lato, que tece imagens e palavras, mas só poder mexer nas palavras. Este ensaiotenta lançar alguma luz, ainda que obscura, sobre essa aporia a partir de uma experiência excepcional: a de contar com um autor disposto a redesenhar seu texto para que a tradução funcione.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>Abstract</title>
				<p>The specificity of comic book translation is an impotence: to deal with a text, understood in the broadest sense, that weaves images and words, being allowed only to change the words. This essay attempts to shed some light, albeit obscure, on this quandary by telling and showing an exceptional experience: that of having an author willing to redesign his text to make a translator happy.</p>
			</trans-abstract>
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				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>quadrinhos</kwd>
				<kwd>noção barthesiana de texto</kwd>
				<kwd>Philippe Geluck</kwd>
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				<title>Keywords:</title>
				<kwd>comic books</kwd>
				<kwd>Barthes’s notion of text</kwd>
				<kwd>Philippe Geluck</kwd>
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		<disp-quote>
			<p>“...será funâmbulo se passar...”</p>
			<p>Philippe Petit</p>
		</disp-quote>
		<p>A tradução é uma práxis (<xref ref-type="bibr" rid="B6">MARX 2004</xref>), e toda práxis tem fogo no rabo. O tradutor modifica um texto e é modificado por ele. Desse processo dialético, o que surge nunca é <italic>a</italic> síntese, mas <italic>um</italic> sintoma (do texto, da relação língua de partida/língua de chegada, da época, do percurso, do trabalho, das trocas, das políticas editoriais, das neuroses - quando não psicoses - do tradutor...)</p>
		<p>A especificidade da tradução de quadrinhos é esta: você está diante de um texto (<xref ref-type="bibr" rid="B1">BARTHES 1984</xref>), em sentido lato, que <italic>tece</italic> imagens e palavras. Desse texto, a princípio, você só vai mexer nas palavras. Normalmente, isso não chega a ser um problema. Mas pode se transformar num verdadeiro pesadelo (para o tradutor) quando o autor se mete a poetar, ou seja, a tecer uma relação não apenas entre as imagens e os significados das palavras, mas também com seus significantes.</p>
		<p>Aí o bicho pega, o circo pega fogo. É claro que, sempre mui dialeticamente, o pesadelo pode virar um sonho delicioso: se você encontra um belo sintoma (o que outros chamam de solução). Só que às vezes... Para exemplificar essa situação, usarei uma exceção. Ou duas.</p>
		<p>Todos sabem que o chiste ocorre muitas vezes no jogo entre significado e significante. Os famosos trocadalhos do carilho. Se você vai traduzir quadrinhos humorísticos, prepare-se para rir, mas também para sofrer. Ri muito traduzindo <italic>A Bíblia segundo o gato</italic>, de Philippe Geluck e Deus (<xref ref-type="bibr" rid="B3">GELUCK 2013</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B5">2014</xref>). Também sofri um bocado.</p>
		<p>Em alguns casos, mal ou bem, acho que consegui dar conta de refazer os trocadilhos (que o leitor deste ensaio compre o livro e julgue por si mesmo). Mas o pesadelo se recusou a virar sonho quando me deparei com este maldito <xref ref-type="fig" rid="f1">calembur</xref>:</p>
		<p>
			<fig id="f1">
				<graphic xlink:href="2317-9511-tradterm-27-321-gf1.jpg"/>
			</fig>
		</p>
		<p>Deus e seu companheiro carneiro tinham passado horas tentando achar um nome para o primeiro homem, já então crescidinho mas ainda anônimo. Desistem, vão pra cama, e eis que o nome surge milagrosamente a partir do sumiço da escova de dentes [<italic>brosse à dents</italic> - sendo que <italic>à dents</italic> é homófono de <italic>Adam</italic> e <italic>brosse</italic> sozinha é escova]do carneiro. E agora, José? Pensa cabecinha, pensa.</p>
		<p>Pensei tanto (um fedor só!) que encontrei um sintoma. Em vez de escova de dentes, penteadão! Sou ou não sou um gênio? Só que a escova não aparecia (já que tinha sumido), enquanto um <italic>penteadão</italic> faz logo pensar em algo meio espalhafatoso...</p>
		<p>E foi então que aconteceu o milagre. Através do gerente editorial da Nemo, o impagável Arnaud Vin, entrei em contato com Deus (Geluck) e, pasmem, na mesma hora ele se propôs a redesenhar a prancha. Infelizmente minha caixa de e-mails bugou e perdi nossa correspondência, mas lembro que ele disse algo como: Je vous carmemirandise le mouton numa boa! <xref ref-type="fig" rid="f2"><italic>Et voilà</italic>, <italic>fiat</italic></xref>:</p>
		<p>
			<fig id="f2">
				<graphic xlink:href="2317-9511-tradterm-27-321-gf2.jpg"/>
			</fig>
		</p>
		<p>Outra pedra no meu caminho era esta <xref ref-type="fig" rid="f3">arraia dentro do aquário</xref>:</p>
		<p>
			<fig id="f3">
				<graphic xlink:href="2317-9511-tradterm-27-321-gf3.jpg"/>
			</fig>
		</p>
		<p>Não vou entrar em detalhes sobre a puberdade de Adão (Eva ainda não tinha sido inventada), mas o meu problema era o seguinte: <italic>raie</italic> além de querer dizer arraia, também quer dizer - como aponta o <italic>outro tesouro da língua francesa</italic>, o dicionário bob de <italic>argot -</italic> rego, ou, se preferirem, cu (na verdade, foi o Arnaud que, antes do bob, me alertou para isso). Como já estava aberto o precedente, recorri ao demiurgo e, mais uma vez, operou-se o <xref ref-type="fig" rid="f4">milagre da transmutação</xref>:</p>
		<p>
			<fig id="f4">
				<graphic xlink:href="2317-9511-tradterm-27-321-gf4.jpg"/>
			</fig>
		</p>
		<p>Trata-se, como já disse, de um <italic>exemplo excepcional</italic>. Normalmente a gente se vira com as palavras e as imagens que estão ali. Também não sei que conclusão tirar disso. Fiquei com vontade de compartilhar esta que foi uma experiência única e deliciosa. Aproveito para agradecer mais uma vez ao Geluck, ao Arnaud, ao meu irmão francês Dominique Nédellec, de quem roubei a epígrafe deste texto (<xref ref-type="bibr" rid="B7">NÉDELLEC 2015</xref>), e também ao tradutor inglês do <italic>Gato,</italic> Alan Ward (<xref ref-type="bibr" rid="B4">GELUCK 2013a</xref>), cuja “pegada” muito me inspirou (sobretudo a ideia de fazer notas do tradutor xingando o autor toda vez que ele usava um jogo de palavras intraduzível); e pra vender meu peixe: leiam <italic>A Bíblia</italic>, irmãos, <italic>segundo o gato.</italic></p>
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			<title>Referências bibliográficas</title>
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				<mixed-citation>BARTHES, R. De l’oeuvre au texte. In:Le bruissement de la langue. Paris: Seuil, 1984: 69-77 (publicado originalmente em 1971 na Revue d’Esthétique).</mixed-citation>
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					<publisher-loc>Paris</publisher-loc>
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					<comment>(publicado originalmente em 1971 na Revue d’Esthétique)</comment>
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				<mixed-citation>DUCHAMP, M. L.H.O.O.Q. 1919. Centre national d’art et de culture Georges Pompidou. Propriétaire: Parti communiste français.</mixed-citation>
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					<publisher-name>Propriétaire: Parti communiste français</publisher-name>
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				<mixed-citation>GELUCK, P. La Bible selon le chat. Paris: Casterman, 2013.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>GELUCK, P. A Bíblia segundo o gato. Tradução de Fernando Scheibe. São Paulo: Nemo, 2014.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>MARX, K. Manuscritos econômico-filosóficos. Tradução de Jesus Ranieri. São Paulo: Boitempo, 2004.</mixed-citation>
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