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				<journal-title>Revista de Tradução e Terminologia</journal-title>
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				<publisher-name>Centro Interdepartamental de Tradução e Terminologia da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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					<subject>Interview</subject>
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				<article-title><italic>TradTerm</italic> entrevista: Paulo Bezerra</article-title>
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					<trans-title>TradTerm interviews: Paulo Bezerra</trans-title>
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					<institution content-type="original">Marina Darmaros é mestra em Jornalismo Internacional pela Rossisski Universitet Drujbi Narodov e doutoranda no programa de Literatura e Cultura Russa da USP. Sua pesquisa atual, orientada pela Prof. Dra. Elena Vássina, está voltada ao cotejo da obra original de Jorge Amado com suas traduções para o russo na extinta União Soviética. Contato: marina.darmaros@usp.br</institution>
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			<p>Um dos pioneiros na tradução do russo no Brasil, Paulo Bezerra fala sobre o ofício e o legado de Boris Schnaiderman para todas as letras no Brasil. “Boris deixou aos tradutores um legado que considero essencial: sempre reler suas próprias traduções e reformular o que perceber necessário. Essa concepção do texto traduzido como algo inacabado é uma de suas importantes contribuições para uma teoria da tradução”</p>
		</disp-quote>
		<p><bold>Marina Darmaros:</bold> Quando recebeu o Prêmio Púchkin, você falou em entrevista sobre a vontade de publicar um livro sobre o ofício do tradutor, misto de memórias e reflexão. Como anda esse projeto?</p>
		<p><bold>Paulo Bezerra</bold>: O projeto caminha, ainda que devagar. Tenho refletido muito sobre o tema, dado palestras, publicado artigos, pesquisado teóricos da tradução russos, brasileiros, além de <italic>Poética do traduzir</italic> de H. Meschonnic e <italic>Tradução, ato desmedido</italic>, de Boris Schnaiderman. Já tenho até o esboço de um futuro capítulo que se chamará “O conflito entre a ordem linguística e a ordem poética”, que é o núcleo de minha concepção de tradução de ficção, na qual se fundem teoria literária, linguística e poética. Esse esboço de capítulo integra meu posfácio à última edição de <italic>Crime e castigo</italic>, reedição amplamente revista, com muitas correções, que preparei para comemorar o sesquicentenário do romance.</p>
		<p><bold>Marina Darmaros:</bold> Quais tradutores do russo causaram em você a maior impressão em termos de, por exemplo, inventividade ou senso de humor, habilidade para transpor situações difíceis de lidar na tradução russo- português? Poderia citar exemplos?</p>
		<p><bold>Paulo Bezerra:</bold> Até recentemente havia pouquíssimos tradutores de russo no Brasil, mas hoje temos uma safra de bons tradutores. Não dá para mencionar todos, por isso me limito a alguns. Dos uspianos que tenho lido, destaco a ótima tradução que Noé Policarpo fez de <italic>Homens interessantes e outras histórias</italic> de Nikolai Leskóv, assim como a boa tradução de <italic>Gente pobre</italic> de Dostoiévski efetuada por Fátima Bianchi. Os dois foram bastante criativos e resolveram a contento os desafios que a linguagem lhes impôs. Dos mais recentes, gosto do jeito de traduzir da Denise de Sales, que, com sua tradução (em parceria com Elena Vasilevitch) de <italic>Contos de Kolimá</italic> do dificílimo Varlam Chalámov, começa a despontar como uma grande tradutora. Li outros editados pela Editora 34, alguns com boas soluções tradutórias, mas como li apenas um livro de cada um desses últimos, preciso ler novas traduções dos mesmos para poder fazer algum juízo de valor. Aqui no Rio, Sônia Branco, professora de russo da UFRJ, fez uma boa tradução de <italic>Os cossacos</italic> de Tolstói. Também aqui do Rio merece destaque o ótimo trabalho de Rubens Figueiredo na tradução de Tolstói, trabalho de fôlego que só os obstinados conseguem realizar.</p>
		<p><bold>Marina Darmaros:</bold> Poderia comentar o legado deixado por Boris à tradução do russo no Brasil?</p>
		<p><bold>Paulo Bezerra:</bold> Boris dizia que não existe tradução perfeita, o que significa: o tradutor nunca deve se dar por satisfeito com o trabalho realizado. Isto quer dizer que o tradutor deve ir ao fundo do poço na busca da expressão mais adequada na língua de chegada, garimpar cada palavra em seu devido contexto, procurar o tom adequado à expressão e, ao término do trabalho, reler o texto com cuidado, avaliar o resultado e proceder às alterações que descobrir necessárias. Boris deixou aos tradutores um legado que considero essencial: sempre reler suas próprias traduções e reformular o que perceber necessário. Disso se conclui que todo texto traduzido é um produto aberto, suscetível de modificações. E Boris sempre fez alterações em cada reedição de suas traduções. Essa concepção do texto traduzido como algo inacabado é uma de suas importantes contribuições para uma teoria da tradução, e vejo isto com um de seus legados.</p>
		<p><bold>Marina Darmaros:</bold> Você tem uma metodologia na hora de traduzir? Como ela se transformou no decorrer de sua experiência como tradutor?</p>
		<p><bold>Paulo Bezerra:</bold> Parto sempre do princípio de que o maior desafio do tradutor são as falas das personagens. Essas falam de acordo com seu nível de escolaridade, de conhecimento, segundo sua pertença a um meio sociocultural, bem como o seu estado de sanidade mental e até em conformidade com seus laços afetivos com determinados ambientes. Por isso, antes de começar a traduzir uma obra de ficção, leio separadamente as falas de cada personagem e assim, ao iniciar a tradução, já tenho uma ideia da singularidade de cada fala. A isso fui levado por uma descoberta: ao estudar as obras de Dostoiévski para traduzi-las, descobri que cada personagem tem seu próprio modo de falar, às vezes até uma sintaxe diferenciada, como acontece com o senhor Golyádkin em <italic>O duplo</italic>, Lújin e Porfiri Petróvitch, o juiz de instrução em <italic>Crime e castigo</italic>, o príncipe Michkin em <italic>O idiota</italic>, Smierdyakóv e a mulher do capitão Snieguirióv em <italic>Os irmãos Karamázov</italic>. Em suma, todas essas personagens falam de modo diferente, ainda que as diferenças não sejam muito acentuadas.</p>
		<p><bold>Marina Darmaros:</bold> Você tem métodos especificamente para se abster de domesticar demais as obras enquanto verte, ou pelo contrário, dessa maneira, criar maior empatia no leitor? Ou para, por exemplo, manter repetições ou quaisquer outros elementos formais? O que, em sua opinião, compõe a tradução perfeita do russo para o português - ou, pelo menos, a “ideal”, ou a “melhor possível”?</p>
		<p><bold>Paulo Bezerra:</bold> O tradutor deve pautar-se pelo velho e bom adágio: nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Nem domesticar demais a obra, sob pena de desnaturar o contexto, nem se prender excessivamente ao texto, senão se pode cair na tentação de literalidade, prejudicando a obra como produto estético e tornando-a algo pesado, estranho e incompreensível ao leitor na língua de chegada. A empatia com o leitor não se dá pela domesticação do texto, mas pela descoberta do tom adequado à sua recriação na língua de chegada. As repetições, em Dostoiévski, por exemplo, fazem parte do estilo do autor. Suprimi-las na tradução significa traí-lo no que ele tem de mais peculiar. A meu ver, a melhor tradução é aquela que o leitor lê sem perceber que está lendo tradução.</p>
		<p><bold>Marina Darmaros:</bold> As críticas geradas por alguns tradutores mais antigos sobre o uso feito por você de termos tipicamente brasileiros (como &quot;a morte da bezerra&quot;, por exemplo, mas também outros) o incomodam? Como responde a essas críticas?</p>
		<p><bold>Paulo Bezerra:</bold> Não, se as críticas vierem de quem conhece bem o russo. As críticas, quando sinceras e pertinentes, só ajudam. Mas criticar tradução requer conhecimento profundo das línguas de partida e de chegada e, em se tratando de ficção, conhecer a riqueza proverbial das duas línguas e ter a devida sensibilidade para julgar o contexto de um provérbio ou dito popular. Quando se traduz um provérbio ou expressão idiomática, traduz-se o sentido, o espírito do contexto e não as expressões literais. O Boris Schnaideiman, nosso exemplo maior de tradutor de russo, sempre elogiou publicamente essas minhas soluções e as considerava ótimas saídas tradutórias. Quanto a críticas, tenho a dizer que traduzo para o leitor brasileiro na língua desse leitor e ademais estou absolutamente seguro de que os provérbios e expressões idiomáticas que emprego correspondem semanticamente ao original russo. Tomemos como exemplo a origem de <italic>dumat o tsariê Gorokhe</italic>, o equivalente russo de “pensando na morte da bezerra”, que empreguei na tradução de <italic>Crime e castigo</italic>. A língua russa é riquíssima em provérbios, ditos e expressões idiomáticas oriundas da literatura oral (fábulas, ditos, contos populares, etc.) e escrita. É o caso da expressão <italic>Pri tsariê Gorokhe</italic> (literalmente, <italic>No tempo do rei ervilha</italic>), título da fábula do rei parvo, em cuja remotíssima época o mundo era povoado de silvanos, bruxas e sereias, corriam rios de leite com as margens cobertas de creme, perdizes assadas sobrevoavam os campos, etc. Essa fábula foi recriada na literatura russa em 1856 no poema de Piotr Andrêievitch Vyázemski (1792-1878), que acrescentou à história tantos elementos fantasiosos novos que acabam deixando o leitor moderno boquiaberto, mergulhado em devaneios. No português de Portugal, <italic>Pri tsariê Gorokhe</italic> se traduz como “No tempo do rei velho”, “No tempo dos afonsinhos”, mas pode ser traduzido para o português brasileiro como “No tempo que galinha tinha dentes”, “No tempo do onça”, “No tempo que se amarrava cachorro com linguiça”, etc. Já <italic>dumat o tsariê Gorokhe</italic> (<italic>pensar no rei Gorokh</italic>) significa pensar em coisas fantasiosas, fora da realidade, fantasiar, devanear, ou pensar na morte da bezerra. Em <italic>Crime e castigo</italic> o contexto é claro. Raskólnikov está pensando no assassinato da velha como coisa séria, tenta reunir ideias que correspondam ao seu plano, mas divaga, não encontra um norte. E diz: “Eu aqui pensando numa coisa dessas e com medo de bobagens! (...) Pensando bem, eu ando falando pelos cotovelos. É por não fazer nada que ando falando pelos cotovelos.... Foi nesse último mês que aprendi a matraquear, varando dias e noites deitado num canto pensando... na morte da bezerra. O que é mesmo que estou indo fazer?” Em <italic>Dicionário de expressões populares da língua portuguesa</italic> (ED. MARTINS FONTES 2010: 668), João Gomes da Silveira define “pensar na morte da bezerra” como “estar distraído, pensativo, alheio ao que se passa ao redor; ficar apreensivo, pensar em fantasias”. Traduzir é também interpretar, auscultar o espírito do contexto, achar o tom, como dizia Boris. A meu ver, interpretação do espírito do contexto na referida passagem de <italic>Crime e castigo</italic> justifica o emprego de “pensando na morte da bezerra”. Mais um exemplo. Numa passagem de <italic>Os irmãos Karamázov</italic> (EDITORA 34 2008: 736), a personagem Grúchenka narra a visita que fizera na prisão ao seu ciumento namorado Mítia (Dmitri) e a reação dele quando ela lhe contou que levara pastelões para o polaco, seu antigo caso amoroso, que estava doente. Ela relata: “Mas Mítia levantou-se com quatro pedras nas mãos...”. No original está assim: “A Mitia-to vskotchil s rugatelstvami”, o que ao pé da letra quer dizer: Mas Mítia levantou-se de um salto com xingamentos”. No original russo o verbo <italic>vskotchit</italic> tem como primeiro significado “pular, investir contra alguém” em atitude agressiva e, na frase citada, vem reforçado pelo substantivo plural “xingamentos”. Em português do Brasil, “levantar-se com quatro pedras nas mãos” significa levantar-se com atitudes ou palavras agressivas. A linguagem literária é por natureza metafórica, baseada em imagens, a realização de seu potencial imagético e metafórico cria a condição poética, que, como diz Meschonnic, é da ordem do contínuo e induz no leitor aquilo que Paul Valéry chamava de “estado poético”, ou seja, aquele estado que permite ao leitor entrar em empatia com o texto lido em sua própria língua sem experimentar a sensação de estar lendo tradução.</p>
		<p><bold>Marina Darmaros:</bold> Qual obra considera ter sido a mais difícil de verter até hoje? </p>
		<p><bold>Paulo Bezerra:</bold> 
 <italic>O duplo</italic> de Dostoiévski. Trata-se da tradução de uma personagem que sofre de um forte distúrbio mental e desdobramento de personalidade, o ritmo de sua fala corresponde ao funcionamento de seu sistema nervoso e sua linguagem é de tal forma desestruturada que em várias passagens chega à quase intradutibilidade. Traduzir a fala de uma personagem de consciência desdobrada é traduzir sua linguagem igualmente desdobrada na fala de um presumível interlocutor, tresdobrada nas falas de outros interlocutores eventuais e imaginários; o ritmo dessa fala é o ritmo do pensamento truncado, sinuoso e descontínuo da personagem, que ora parece interrogar, ora exclamar, ora dizer algo cujo sentido se embaralha na ponta da língua e o discurso deixa sempre uma forte sensação de inacabamento, de lacuna a ser preenchida, bem como uma grande interrogação para o leitor. A fala de Golyádkin é construída numa pontuação tão truncada, sinuosa e descontínua quanto o fluxo do seu pensamento, o que pode levar o leitor habituado às normas padrão de escrita à falsa sensação de impropriedade dessa pontuação. O que está em jogo é o que chamo de coerência do tradutor na recriação das formas de discurso. Seria antinatural que uma personagem com uma psique desestruturada como Golyádkin falasse uma linguagem fluente e clara. O ritmo de sua fala traduz seu modo de perceber o mundo e os homens, segue o ritmo de funcionamento do seu sistema nervoso.</p>
		<p><bold>Marina Darmaros:</bold> O que é traduzir Dostoiévski? Quais são os maiores desafios do tradutor de Dostoiévski?</p>
		<p><bold>Paulo Bezerra:</bold> Dostoiévski não foi só um transgressor da ideologia dominante no mundo russo e em sua literatura; foi sobretudo um transgressor das normas da linguagem literária tradicional. Traduzi-lo sem transgredir tais normas significa trair o espírito de seu estilo. Este é um dos grandes desafios que encontro para traduzi-lo. Ele foi o maior artífice da representação da crise do homem e sempre representou suas personagens em estado de crise. É extraordinário como ele constrói a representação dessa crise: quando ela se desencadeia, a linguagem da personagem entra em crise, sua sintaxe se torna descontínua, atabalhoada, as palavras se atropelam (é o que se vê em Golyádkin em <italic>O duplo</italic>, em Míchkin no prelúdio do ataque epiléptico em <italic>O idiota,</italic> em alguns momentos da crise de Raskólnikov em <italic>Crime e castigo</italic>, na fala de Smierdyakóv durante sua discussão com Ivan, Aliócha e os outros na sala do velho Karamázov, só para citar alguns exemplos). O que caracteriza a linguagem e sobretudo a sintaxe de Dostoiévski é a presença constante de algo movediço, daquilo que Dmitri Likhatchóv classificou como <italic>zíbkost</italic>, isto é, instabilidade do estilo e das palavras, sobretudo na sintaxe. Ademais, ele usa à exaustão as partículas expletivas <italic>mol</italic>, <italic>dieskat</italic>, que ora introduzem um indireto livre nas falas das personagens, ora aparentam não dizer nada, mas exigem do tradutor a máxima competência para recriá-las em sua língua de chegada. Portanto, essas peculiaridades, somadas àquelas que comentei na pergunta anterior e, reitero, à recriação das falas das personagens, constituem o maior desafio para traduzir Dostoiévski.</p>
		<p><bold>Marina Darmaros:</bold> Há alguma obra que não tenha traduzido ainda e que gostaria de traduzir?</p>
		<p><bold>Paulo Bezerra:</bold> Sim, Evguiéni Oniégin. Faz anos que o venho traduzindo em conta-gotas, e avancei pouquíssimo. Evguiéni Oniéguin não pode ser traduzido como se traduz um romance, por mais complexo que este seja. Para traduzi- lo, o tradutor precisa se encontrar em estado poético, naquele estado em que o mais importante não é só compreender, mas também sentir a linguagem do outro, isto é, entrar em empatia com ele, compenetrar-se de seu espírito e tentar captar o que ele sente ao escrever, captar as nuances de sua personalidade. Assim é possível vivenciar o que Púchkin vivencia, compenetrando-se do espírito de sua linguagem em todas as suas nuances, do seu tom coloquial, que arrasta o leitor para dentro do texto num quase bate- papo, como naquela passagem do canto II, na qual o narrador de Púchkin diz num coloquialismo leve e íntimo: “Oniéguin, meu bom camarada,/Nasceu nas margens do Nievá,/Onde e você leitor, quiçá/Tenha nascido ou brilhado;/Por lá outrora andei também:/Mas o norte não me faz bem”.</p>
		<p>Além desse procedimento de vivenciar o espírito e a linguagem de Evguiéni Oniéguin, é preciso que o tradutor se deixe levar por seu encadeamento e pela naturalidade coloquial de suas rimas. O pior é que a linguagem é muito simples, e é justo nessa simplicidade que reside o grande desafio.</p>
		<p><bold>Marina Darmaros:</bold> Gostaria de traduzir algum autor contemporâneo russo? Qual?</p>
		<p><bold>Paulo Bezerra:</bold> Já traduzi vários: Óssip Maldelstam (<italic>O rumor do tempo</italic>), Tchinguiz Aitmátov (<italic>O navio branco</italic>) Andriêi Bítov (<italic>A casa de Púchkin</italic>), Nikolai Dejnióv (<italic>Em ritmo de concerto</italic>) e Borís Akúnin (<italic>A rainha do inverno</italic>). Ainda não traduzi nenhum pós-soviético. Aliás, deles eu só traduziria alguém que fosse notável.</p>
		<p><bold>Marina Darmaros:</bold> Você acredita que a maior difusão dos estudos de teorias da tradução no Brasil recentemente pode ter contribuído para uma melhora nas novas traduções do russo?</p>
		<p><bold>Paulo Bezerra:</bold> Não posso dizer nada, pois não sei até que ponto os novos tradutores estudam teoria da tradução. Só posso falar de minha experiência. Acho que para traduzir ficção é bom que o tradutor conheça teoria literária e teoria da tradução. Por exemplo, <italic>Poética do traduzir</italic> de Meschonnic e, se traduzir do russo, é indispensável ler <italic>Tradução, ato desmedido</italic> de Boris Schnaiderman. Para mim, Bakhtin tem sido indispensável na tradução de Dostoiévski.</p>
		<p><bold>Marina Darmaros:</bold> No Brasil, as novas traduções diretas do russo têm amainado a “invisibilidade do tradutor”, o qual é também mais notável no caso das obras vertidas do russo que de outras línguas. Mesmo assim, com as dificuldades impostas pelo russo como língua menos difundida no país e com as dificuldades que os poucos departamentos de russo têm passado, a produção voltada a sua literatura em estudos da tradução é modesta. Poderia comentar?</p>
		<p><bold>Paulo Bezerra:</bold> Essa presença modesta dos autores russos nos cursos de tradução deve-se ao fato de que a maioria esmagadora dos professores dos cursos de tradução não sabe russo e, portanto, não tem condições de usar como objeto de sua disciplina textos de língua que desconhece. Já temos muitas obras traduzidas do russo, cujas qualidades estéticas e linguísticas dariam uma boa matéria para cursos de tradução. A visibilidade ou invisibilidade do tradutor depende de duas coisas: da qualidade das obras que ele traduz e do prestígio que seu trabalho adquire junto ao público e às editoras, a ponto de ele poder exigir seu nome na capa do livro por ele traduzido.</p>
		<p><bold>Marina Darmaros:</bold> Como explicar os momentos “de quase intradutibilidade” de Dostoiévski de que você falou anteriormente, em entrevista?</p>
		<p><bold>Paulo Bezerra:</bold> Isso demandaria um artigo à parte. Acho que no conjunto de meu texto expliquei um pouco essa questão.</p>
		<p><bold>Marina Darmaros:</bold> Há em você, durante o ofício tradutório, algum embate interior na recriação da linguagem original contra a atualização da obra?</p>
		<p><bold>Paulo Bezerra:</bold> O tradutor é um homem do seu tempo, logo, não pode fugir às linguagens que predominam em sua época. Mas, como já afirmei, ele deve seguir o adágio “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”. Não pode arcaizar demais sob pena de obrigar seu leitor a constantes consultas aos dicionários, nem modernizar muito sob pena de trair as formas e valores do contexto da obra. Por exemplo; não posso traduzir a expressão russa govorit <italic>skorogovórkoi</italic>, bastante frequente em Dostoiévski, como “falar feito metralhadora” se na época de Dostoiévski, o contexto da obra, não existe metralhadora. Daí traduzir como “matraquear” porque na vida russa existe ou existia matraca.</p>
		<p><bold>Marina Darmaros:</bold> Desde o início dos anos 2000, principalmente, novas levas de tradutores do russo vêm surgindo, mas muitos desses ainda se dedicam à literatura russa pré-soviética. Como se pode explicar esse fenômeno?</p>
		<p><bold>Paulo Bezerra:</bold> Em parte pelo desconhecimento da melhor literatura produzida no período soviético. Não vejo outra razão.</p>
		<p><bold>Marina Darmaros:</bold> Você lê o trabalho desses novos tradutores? Como avalia essas obras? Quais seus pontos fortes e fracos?</p>
		<p><bold>Paulo Bezerra:</bold> Em verdade ainda não fiz esse estudo.</p>
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