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				<journal-title>Revista de Tradução e Terminologia</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Revista de Tradução e Terminologia</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="ppub">2317-9511</issn>
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				<publisher-name>Centro Interdepartamental de Tradução e Terminologia da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.11606/issn.2317-9511.v39p5-20</article-id>
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					<subject>Articles</subject>
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				<article-title>As traduções latinas antimedievais da obra de Aristóteles: o caso Leonardo Bruni</article-title>
				<article-title>The antimedieval Latin translations of Aristotle: the case of Leonardo Bruni</article-title>
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						<surname>Lindo</surname>
						<given-names>Luiz Antônio</given-names>
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					<institution content-type="original">Professor de Filologia Românica (graduação), professor-orientador nos programas LETRA, Italiano e Prolam (pós-graduação) na USP.</institution>
					<institution content-type="orgname">USP</institution>
					<country country="BR">Brasil</country>
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			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
				<day>15</day>
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				<year>2022</year>
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			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<season>Jan-Jun</season>
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			<volume>39</volume>
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			<lpage>20</lpage>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>A tradução para o latim da obra aristotélica, completada na Idade Média, foi marcada pelo método literalista, considerado por leitores filósofos e teólogos da época o mais adequado para transmitir da maneira mais fiel possível o conteúdo do original. Durante o Renascimento, o método medieval sofreu uma crítica vigorosa de humanistas, com destaque para Leonardo Bruni, que, com seu método de traduzir inspirado no estilo eloquente da literatura latina clássica, procurou renovar a forma de apresentação do texto aristotélico, aproximando-o do gosto do Renascimento. O confronto entre as duas escolas de tradução, a medieval e a humanista, mostra como maneiras distintas de utilização do legado cultural podem contribuir para o processo de intelectualização de uma época.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>Abstract</title>
				<p>The Latin translation of Aristotle, performed in the Middle Ages, followed the literalist method, regarded as faithful for philosophers and theologians of the time. However, many years later, the method underwent a powerful criticism from humanists, particularly from Leonardo Bruni, who, with focus in the eloquence of early Latin rhetoric and literature, reformulated the translation of the Aristotelian text, bringing it closer to the mood of the Renaissance. The confrontation between the two schools of translation, the medieval and the humanist, shows how different ways of using the cultural legacy can play a role in the process of intellectualization of an age.</p>
			</trans-abstract>
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				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>tradução medieval</kwd>
				<kwd>tradução humanista</kwd>
				<kwd>Leonardo Bruni</kwd>
				<kwd>papel cultural da tradução</kwd>
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				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Medieval translation</kwd>
				<kwd>humanist translation</kwd>
				<kwd>Leonardo Bruni</kwd>
				<kwd>cultural role of translation</kwd>
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		<p>A cultura filosófica medieval deu um passo decisivo rumo à maturidade no fim do século XIII, quando a tradução em latim da obra de Aristóteles achava-se concluída<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref>. É preciso dizer, porém, que até que isso acontecesse, o tom da tradução medieval já se fizera sentir muitos séculos antes, com Boécio (<italic>c</italic>. 480-524 ou 525) e com Cassiodoro (<italic>c.</italic> 490-585). O primeiro devotou parte de sua vida à execução de um projeto de tradução (e comentário) de filósofos gregos que, decerto por força maior (a sua condenação à morte), restou limitado à parte lógica da obra de Aristóteles conhecida pelo nome de <italic>Organon</italic><xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref>. Cassiodoro, por sua vez, reuniu um grupo de tradutores num mosteiro na Calábria denominado sugestivamente <italic>Vivarium</italic>, dedicado à conservação da cultura greco-latina, em que se fizeram traduções do grego para uso dos monges, de textos como as homilias de Crisóstomo sobre os Hebreus, o Flávio Josefo latino e a <italic>Historia Ecclesiastica Tripartita</italic>.</p>
		<p>A tradução medieval do <italic>corpus</italic> aristotélico empreendida em prol do aprimoramento dos estudos teológicos e filósoficos deu origem ao chamado Aristóteles latino<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>3</sup></xref>, fruto da cooperação de gerações de tradutores<xref ref-type="fn" rid="fn4"><sup>4</sup></xref>, dentre os quais se destacam Roberto Grosseteste (1168-1253), bispo de Lincoln, e Guilherme de Moerbeke (1215-35-c.1286)<xref ref-type="fn" rid="fn5"><sup>5</sup></xref>, sobre os quais falaremos mais detidamente. Figura de proa do pensamento do século XIII inglês<xref ref-type="fn" rid="fn6"><sup>6</sup></xref>, o primeiro se notabilizou por traduzir do grego <italic>A Ética a Nicômaco</italic> e parte do <italic>De Caelo</italic>; o segundo, notavelmente prolífico, revisou ou traduziu o conjunto da obra aristotélica, incluindo <italic>A Política</italic> e a <italic>Poética</italic>, que até então eram desconhecidas em latim. As traduções mais populares (salvo no caso das obras lógicas) das muitas que desde o século XII até meados do XIII eram conhecidas como o <italic>corpus vetustius</italic> saíram dos escrínios geridos por Moerbeke. A nova coleção dada à luz pelos tradutores medievais suplantou as mais antigas e se firmou como o padrão para os estudiosos até o Renascimento. Vale lembrar que Santo Tomás de Aquino fez uso das versões latinas de Moerbeke, dominicano como ele, em seus estudos e comentários do Estagirita<xref ref-type="fn" rid="fn7"><sup>7</sup></xref>.</p>
		<p>Abaixo segue uma lista parcial das principais traduções de Aristóteles realizadas por Grosseteste e Moerbeke:</p>
		<p>
			<list list-type="bullet">
				<list-item>
					<p>Grosseteste: <italic>De Caelo</italic> (parte) (<italic>c</italic>. 1220-35), <italic>Ética a Nicômaco</italic> (1246-47?).</p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>Moerbeke: <italic>Categorias</italic> (1266), <italic>De Interpretatione</italic> (1268), <italic>Analíticos Posteriores</italic> (<italic>c</italic>. 1269), <italic>Sophistici Elenchi</italic> (<italic>c</italic>. 1269), <italic>Física</italic> (<italic>c</italic>. 1260-70), <italic>Meteorológica</italic> (<italic>c</italic>. 1260), <italic>De Anima</italic> (antes de 1268?), <italic>Metafísica</italic> (antes de 1272), <italic>A Política</italic> (1260?), <italic>Retórica</italic> (antes de 1270), <italic>Poética</italic> (1278).</p>
				</list-item>
			</list>
		</p>
		<p>O método de tradução adotado por ambos era o literal, ou seja, o texto grego era transposto para o latim, de preferência palavra a palavra, se possível na mesma ordem e mediante o emprego de um vocabulário consistente.</p>
		<p>P. Thillet observa que:</p>
		<disp-quote>
			<p>a tradução do <italic>De Fato ad Imperatores</italic> [de Alexandre de Afrodísia], como todas as traduções devidas a Guilherme de Moerbeke, segue a norma palavra a palavra. De maneira geral, cada vocábulo grego dá origem a um único equivalente latino; os casos são modificados, em razão da diferença de construção gramatical entre o latim e o grego: enquanto <italic>hépomai</italic> se constrói com um dativo, <italic>sequor</italic>, que a traduz, será construída com o acusativo, ou com <italic>ad</italic> seguido do acusativo. Entretanto, as equivalências verbais não são sempre respeitadas: Moerbeke não evita traduzir um infinitivo por um verbo no modo pessoal (<italic>einai</italic> = <italic>sit</italic>); encontram-se numerosas transposições desse tipo. (<xref ref-type="bibr" rid="B1">ALEXANDRE DE AFRODÍSIA 1963</xref>: 36)</p>
		</disp-quote>
		<p>O mesmo se pode dizer com respeito à tradução de Roberto Grosseteste. Roger Bacon, que foi seu pupilo, afirma ter sido o mestre um exímio conhecedor de ciências, dentre as quais as matemáticas, a astronomia, a óptica, a economia e as ciências experimentais, fato corroborado pelas obras que deixou acerca de várias dessas disciplinas. Esses conhecimentos, aliados ao da língua grega, no qual se qualificava no mais alto grau<xref ref-type="fn" rid="fn8"><sup>8</sup></xref>, fizeram dele, a par de uns poucos mais com o mesmo gabarito intelectual, um tradutor preparadíssimo para transpor ou fazer transpor para o latim a sabedoria aristotélica. Sobre o seu modo de traduzir deixou indicações em seus comentários às obras que traduziu que ajudam a conhecer os problemas enfrentados pelos tradutores medievais. Tirando proveito da experiência acumulada, no prefácio ao Comentário ao <italic>De Angelica Ierarchia,</italic> do Pseudo-Dionísio Areopagita, ele apõe notas filológicas importantes sobre as diferenças entre o grego e o latim e sobre etimologia, e elabora ainda uma crítica do texto. Não lhe passa despercebida, por exemplo, a presença na escrita das vogais longas <italic>omega</italic> e <italic>eta</italic>, as quais não constam da escrita latina: “Na escrita grega, diz, são duas as vogais que pela forma de escrever são assinaladas sempre como longas, o que não se observa na escrita latina.”<xref ref-type="fn" rid="fn9"><sup>9</sup></xref> Sobre o assunto ele ainda discorre amplamente. Certas peculiaridades de algumas letras gregas não devem passar em branco:</p>
		<disp-quote>
			<p>A letra <italic>Beta</italic>, que escrevemos <italic>b</italic>, soa no grego mais suave e não forte e com os lábios juntos, mas da maneira como fazemos com a consonante <italic>v. Delta</italic>, para a qual temos <italic>d</italic>, soa mais branda, de maneira similar à da pronúncia da última letra da palavra <italic>capud.</italic> Quanto ao <italic>theta,</italic> para o qual usamos <italic>t</italic>, entre eles tem um som aspirado que incluímos nos seus nomes em meio à sílaba: <italic>Matheus</italic>. (<italic>apud</italic><xref ref-type="bibr" rid="B9">FRANCESCHINI 1933-1934</xref>: 75)</p>
		</disp-quote>
		<p>Uma outra aspirada grega merece a sua atenção: “Também a letra <italic>Chi</italic>, que consideramos como <italic>c</italic> aspirado, não se forma na sua língua tocando inteiramente o palato, mas pelo ar expelido a pouca distância.” (<italic>apud</italic><xref ref-type="bibr" rid="B9">FRANCESCHINI 1933-1934</xref>: 75) É preciso também descrever os ditongos gregos, já que para a correta pronúncia no idioma helênico é preciso conhecê-los, bem como os fonemas, particularidades essas que não podem ser ignoradas pelos tradutores: “A escrita grega possui ditongos que não possui a latina, como <italic>ai, ei, oi, oy</italic> (=ou), <italic>yi</italic> (=ui). O ditongo <italic>ai</italic> soa como <italic>e, ei</italic> e <italic>oi</italic> como <italic>i, oy</italic> como a vogal <italic>u</italic>, <italic>yi</italic> como <italic>i</italic>.” (<italic>apud</italic><xref ref-type="bibr" rid="B9">FRANCESCHINI 1933-1934</xref>: 75). Um caso em grego que recebe uma atenção especial é o das palavras compostas, que em latim por vezes devem ser desdobradas em expressões complexas, o que pode acarretar prejuízo na apreensão do significado original:</p>
		<disp-quote>
			<p>É preciso saber ainda que o grego possui grande número de palavras compostas sem correspondentes em latim. Daí ser necessário que os tradutores em língua latina desmembrem as palavras compostas únicas em mais de uma palavra em latim, embora não consigam assim expressar com propriedade ou na plenitude do significado o pensamento do autor, tal como expressa a palavra única do idioma grego. (<italic>apud</italic><xref ref-type="bibr" rid="B9">FRANCESCHINI 1933-1934</xref>: 75)</p>
		</disp-quote>
		<p>O tradutor deve se esforçar para traduzir <italic>de verbo ad verbum</italic>, sabendo de antemão da dificuldade que enfrenta quando se lhe depara uma expressão indivisível em grego, embora o latim exija a divisão. Grosseteste tem plena consciência de que os textos de grandes autores são obra de espíritos superiores, que cumpre pôr à disposição daqueles que estejam aptos a compreendê-los. Por isso, a tradução literal é defendida em nome da boa compreensão do texto-fonte:</p>
		<disp-quote>
			<p>Sabendo-se igualmente que a tradução latina se faz sobretudo palavra a palavra [<italic>de verbo ad verbum</italic>], na medida em que se trata de transferir o pensamento, amiúde é necessário que muitas palavras sejam ambíguas e multíplices tais como não podem ser no idioma grego. (<italic>apud</italic><xref ref-type="bibr" rid="B9">FRANCESCHINI 1933-1934</xref>: 75)</p>
		</disp-quote>
		<p>O resultado de todo esse cuidado supõe situar a língua do texto-fonte acima da do texto-alvo, ou seja, o grego acima do latim. A observância dos procedimentos de rigorosa fidelidade ao original pretende cumprir o prometido, qual seja o da conservação, até onde for possível, das significações originais. Entretanto, fazê-lo implica geralmente impor um sacrifício aos predicados literários do texto traduzido, visto que o estilo do original contém geralmente não só o pensamento do autor, mas também a graça do discurso<italic>.</italic> Como nota E. <xref ref-type="bibr" rid="B9">Franceschini (1933-1934</xref>: 77) “a propriedade da língua latina deve ser pois quase absolutamente desprezada; a tradução deve deixar intacto o estilo do original para que sejam ressaltados ao máximo a <italic>mens auctoris</italic> e a <italic>venustas sermonis</italic>”. Como resultado, as traduções, prossegue Franceschini, “não passam de revestimentos latinos de segmentos que continuam gregos, auxílio preciosíssimo para a reconstrução dos originais, mas de nenhum ou escassíssimo valor literário e frequentemente de significado obscuro” (<xref ref-type="bibr" rid="B9">FRANCESCHINI 1933-1934</xref>: 77). Para as traduções realizadas por Moerbeke valem praticamente as mesmas considerações. G. Rudberg, ao estudar o texto latino da <italic>História dos Animais</italic>, nota que</p>
		<disp-quote>
			<p>as traduções de Guilherme de Moerbeke são traduções literais. Ele procura, tanto quanto possível, reproduzir palavra a palavra do texto grego; seu princípio básico é <italic>verbum e verbo</italic>, segundo o testemunho de seus contemporâneos. Sua língua, por isso, é pesada, rústica, amiúde quase incompreensível; isto vale tanto para a sua tradução da <italic>História dos Animais</italic> quanto para a da <italic>Retórica</italic> e da <italic>Política,</italic> estas últimas, como se sabe, já antes publicadas. (<xref ref-type="bibr" rid="B21">RUDBERG 1908</xref>: 27)</p>
		</disp-quote>
		<p>A “dureza” da tradução de Moerbeke, para os padrões latinos, já dera motivo à crítica que lhe dirigira o seu contemporâneo Roger Bacon. Para este, “Willielmus Flemingus”, que “agora brilha”, recai no mesmo erro de outros tradutores, porém sabe ainda menos ciências e línguas que aqueles: “Embora seja conhecido de todos os letrados de Paris, nada traz de novo ao conhecimento da língua grega, a qual presume saber. E por isso traduz tudo de maneira enganosa e corrompe a sabedoria dos latinos.” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">BACON 1859</xref>: 472)</p>
		<p>Não todos, porém, pensavam assim. Um testemunho antigo, contrariando Bacon, reflete a opinião geral dos escritores medievais acerca da tradução de Moerbeke:</p>
		<disp-quote>
			<p>Wilhelmus Brabantinus... traduziu todos os livros de filosofia natural e moral e a <italic>Metafísica</italic> do grego para o latim, palavra a palavra [<italic>verbum verbo</italic>], os quais são agora utilizados nas escolas, às instâncias do irmão Santo Tomás de Aquino. (HERVORD, <italic>apud</italic><xref ref-type="bibr" rid="B6">BRUNS 1802</xref>: 45)</p>
		</disp-quote>
		<p>C. Vansteenkiste, em seu estudo sobre a <italic>Elementatio Theologica</italic> de Proclo, traduzida por Moerbeke segundo os preceitos consagrados na tradução medieval, procura amenizar a crítica dirigida aos defeitos em geral apontados na tradução literal. Para ele, o qualificativo <italic>litteralis</italic> ou <italic>facta ad litteram</italic>, embora cercado de alguma ambiguidade, “não significa servilismo”; e nem</p>
		<disp-quote>
			<p>prosseguir de palavra em palavra, conservando a mesma ordem, na tradução do grego, nem conservar toda construção grega, ou fazer uso do caso grego, nem verter a mesma palavra sempre pela mesma palavra. É verdadeiramente literal no sentido próprio de reproduzir tudo, até o mínimo (exceto certamente algumas minúcias), à maneira latina; e ainda conservar a construção geral das frases gregas, assim que nada que se acha em grego pereça no latim, e também manter inalterado o sentido onde duas ou várias interpretações sejam possíveis. Esta pois é a recompensa maior das versões da Idade Média, que não torciam o texto num sentido, com a exclusão de outros, de maneira a conservar a eventual ambiguidade ou pelo menos as dificuldades do texto original. (<xref ref-type="bibr" rid="B26">VANSTEENKISTE 1952</xref>: 503)</p>
		</disp-quote>
		<p>Como acentua Vansteenkiste, por mais que o modo de traduzir medieval não caia no gosto atual, na Idade Média ele</p>
		<disp-quote>
			<p>permitia aos principais comentadores, como se deu com Santo Tomás de Aquino, apreender o sentido genuíno de Aristóteles ou de outros, que em versão literal - não livre ou perifrástica, como a maioria das atuais - pudesse haver do próprio texto de Aristóteles e de outros autores. (<xref ref-type="bibr" rid="B26">VANSTEENKISTE 1952</xref>: 503)</p>
		</disp-quote>
		<p>A contestação severa à literalidade em matéria de tradução virá mais tarde no Humanismo, em que Leonardo Bruni figurará entre os principais mentores. Bruni não só critica os antecessores, mas também propõe um novo modo de traduzir do grego, para cujo sucesso se empenha com todas as suas forças. Esta última iniciativa, animada pelo espírito de oposição ao medieval como um todo, característico dos novos tempos dominados pela mentalidade renascentista, teve, porém, de enfrentar a tradição tradutória medieval, a qual estabelecera em bases sólidas o conceito de <italic>fidus interpres</italic> como um intermediário confiável entre o autor e o leitor ou o comentador imperito na língua do primeiro. Já muito antes dos tradutores dos séculos XII e XIII, Boécio, ele mesmo eminente tradutor do grego, ao dar início a essa tradição já receava pôr-se em desacordo com Cícero<xref ref-type="fn" rid="fn10"><sup>10</sup></xref>, ciente que estava das dúvidas levantadas por São Jerônimo a propósito das dificuldades enfrentadas pelo método de tradução <italic>ad verbum</italic><xref ref-type="fn" rid="fn11"><sup>11</sup></xref>. Mesmo assim, ele resolve adotar os preceitos literais para o texto não sagrado, tendo sido o primeiro a fazê-lo<xref ref-type="fn" rid="fn12"><sup>12</sup></xref>. O prestígio deste método só fez aumentar até João Escoto Erígena (séc. IX), que nem por isso deixa de se desculpar por adotá-lo<xref ref-type="fn" rid="fn13"><sup>13</sup></xref>.</p>
		<p>Como se depreende das confissões de culpa dos tradutores Boécio e Erígena, a tradução literal não gozava de unanimidade nos tempos medievais. Pelo menos não enquanto se fez presente a tradição latina, tal como nos tempos de Boécio e Erígena, quando ainda se estava sob a influência das normas herdadas de Roma antiga, quais sejam as da eloquência latina dirigida pelo ideal da <italic>latinitas</italic><xref ref-type="fn" rid="fn14"><sup>14</sup></xref>, tão cara a inúmeros autores, entre eles Cícero, não à toa proponente das recomendações atrás vistas no sentido de se respeitar o preceituado na retórica escolar para a escrita artística. Ilustra de maneira singular esse fato saber que o primeiro impulso para dar alma a essa tradição veio da tradução por Lívio Andrônico (séc. III a. C.) da <italic>Odisseia</italic> de Homero em latim. A este primeiro exercício de pena na literatura latina o crítico italiano Scevola Mariotti dedicou um ensaio onde nota que os historiadores latinos, ao se perguntarem sobre os introdutores das diferentes formas de arte no mundo romano, deveriam ter incluído em sua resposta, além dos poetas, os tradutores, visto que “o iniciador de sua literatura [latina] fora o inventor [grifado no original] da tradução artística...com um fim artístico desinteressado.” (<xref ref-type="bibr" rid="B17">MARIOTTI 1952</xref>: 16). Fruto precoce da venustas latina, a Odyssea liviana representa o primeiro monumento literário latino ou mesmo o lançamento da pedra fundamental de uma construção magistral que seguiria ativa por vários séculos. Para Mariotti, a obra foi concebida com grande dose de liberalidade no que tange à comunicação translinguística dos conteúdos: “Várias passagens, nota o crítico, mostram que a fidelidade do tradutor concedia-se licenças muito mais amplas do que as permitidas a um moderno.” (<xref ref-type="bibr" rid="B17">MARIOTTI 1952</xref>: 42); “Com a sua liberdade de propósitos, prossegue ele, o tradutor podia impor no geral uma certa marca pessoal à própria obra, marca que ainda podemos perceber bem.” (<xref ref-type="bibr" rid="B17">MARIOTTI 1952</xref>: 44); E ainda: “É característico da mentalidade de Andrônico que, como mostram os frag. 8 e 12, a tradução se tornava mais livre onde se tratava de uma tradição romana pré-literária, fossem os poemas religiosos ou de poesia sentenciosa.” (<xref ref-type="bibr" rid="B17">MARIOTTI 1952</xref>: 46). Por fim, conclui, “vimos que Andrônico, ao traduzir Homero, procurava alcançar maior expressividade sobretudo mediante o uso de expedientes retóricos e acentuando a solenidade e o pathos de seu modelo.” (<xref ref-type="bibr" rid="B17">MARIOTTI 1952</xref>: 57)</p>
		<p>Quando, na década de 1420, logo, cerca de 1.700 anos depois, Leonardo Bruni anexa à sua tradução da Ética a Nicômaco o pequeno tratado intitulado De Interpretatione Recta, no qual dá a conhecer o seu pensamento sobre os princípios que devem reger a boa tradução, ele está fazendo eco às premissas observadas tanto por Lívio Andrônico no campo da tradução, quanto pelos grandes nomes da literatura latina clássica. Uma diferença é que, enquanto os antigos, dentre eles Cícero, defendem em geral uma tradução livre para poesia e literatura/retórica, Bruni o faz expressamente para textos científicos.</p>
		<p>A produção intelectual de Bruni fez dele um dos escritores mais prolíficos do século XV, com uma obra que abrange da tradução à biografia e à história<xref ref-type="fn" rid="fn15"><sup>15</sup></xref>. Como tradutor, seu propósito, assim o declara, foi o de “reorientar o pensamento latino à luz dos contatos com os textos gregos recentemente descobertos” (<italic>Apud</italic><xref ref-type="bibr" rid="B5">BOTLEY 2004</xref>: 5). As suas traduções de Aristóteles concentraram-se nos então chamados <italic>Libri morales,</italic> com destaque para a <italic>Ética a Nicômaco</italic><xref ref-type="fn" rid="fn16"><sup>16</sup></xref>. São estas as traduções que na época provocaram celeuma, por conterem uma crítica contundente aos tradutores medievais.</p>
		<p>Lidar com Aristóteles representa um desafio particular para Bruni, considerando que tem de enfrentar não só a sólida tradição estabelecida por seus antecessores, mas também as dificuldades impostas pelo próprio texto do filósofo, aparentemente avesso aos encantos do beletrismo, ao menos nos seus textos considerados esotéricos<xref ref-type="fn" rid="fn17"><sup>17</sup></xref>. Ciente disto, Bruni abre um parêntese inusitado no <italic>De Interpretatione Recta</italic>, quando insiste em considerar o pensador grego um autor eloquente que trata a sua matéria como um retórico.</p>
		<disp-quote>
			<p>E Aristóteles?, pergunta. Acaso não busca também ele, do mesmo modo [em alusão a Platão], os ornamentos do falar? Maravilhosamente, por certo, e muito abundantemente, a ponto de eu mesmo ser obrigado com frequência a admirar que, em meio às discussões mais sutis, estivesse presente num filósofo tanto cuidado com tais coisas.<xref ref-type="fn" rid="fn18"><sup>18</sup></xref>
			</p>
		</disp-quote>
		<p>Neste mesmo trabalho ele cita elocuções da facúndia aristotélica disseminadas pela <italic>Ética a Nicômaco,</italic> a exemplo das passagens X, VIII, 7; II, I, 4; II, IV, 3-6 desta obra. O fato é que esta crença um tanto paradoxal acerca do estilo típico de Aristóteles sempre levantou dúvidas. O que a teria inspirado? A primeira hipótese é de que se vale da autoridade de Cícero. Se o escritor latino é o mestre inconteste em matéria de retórica, então, quando ele julga Aristóteles eloquente, este é indubitavelmente eloquente. E, por conseguinte, a autoridade de Cícero e do Estagirita corrobora e prestigia a opinião de Bruni. Pode ser. Porém, à vista do que se sabe sobre a obra restante do filósofo grego supérstite, é mais do que razoável pensar que Bruni, de propósito ou não, mira as composições exotéricas, dadas por perdidas, de que só restam alguns fragmentos<xref ref-type="fn" rid="fn19"><sup>19</sup></xref>. De qualquer maneira, pretende que a sua tradução “retórica” justifica-se por estar calcada em texto igualmente retórico. Afinal, parece pensar, o que esperar de um texto grego clássico, senão um exemplo notável do melhor estilo literário? Sendo assim, pretende comportar-se ele também como um <italic>fidus interpres</italic>. E um tradutor fiel peculiar que não dispensa apresentar as suas razões para defender uma determinada versão do processo tradutório.</p>
		<p>O suposto fidelismo de Bruni tem o aval de Remigio Sabbadini, que ao definir os níveis de literalidade da tradução humanista o classifica entre os tradutores que seguem o método “largamente literal”<xref ref-type="fn" rid="fn20"><sup>20</sup></xref>, ou seja, pouco mais ou menos literal e, como tal, tendendo mais para o literal do que para o retórico ou “estilístico”. Isto mesmo é o que sugere Bruni de si mesmo, quando diz: “Afirmo, pois, que a essência toda da tradução consiste em traduzir corretamente (<italic>recte traducatur</italic>) o que foi escrito em outra língua.” (<xref ref-type="bibr" rid="B16">BRUNI 2011</xref>: 19). É provável que a sua convicção de que traduzia fielmente o suposto estilo flórido de Aristóteles fosse outra, se não acreditasse que praticava uma forma de tradução literal em maior ou menor grau.</p>
		<p>O alvo no pequeno tratado de Bruni é um “ele” sobre o qual não restam dúvidas: trata-se de Roberto Grosseteste. O “antigo tradutor” que ele pretende superar, refutando-o, não teria percebido o quanto “os livros em grego (estavam) plenos de elegância, de suavidade, e de um inestimável ornato” (<xref ref-type="bibr" rid="B16">BRUNI 2011</xref>:19), ou seja, o quanto exibiam predicados literários no mais alto grau. Por isso, confessa, “me condoía comigo mesmo e me angustiava vê-los em latim maculados e desfigurados por tamanha escória de tradução.” (BRUNI 2011:19). E assim, nesse tom, ele leva adiante o seu misto de refutação e exprobração dos procedimentos medievais de tradução.</p>
		<p>O seu método de traduzir tal como o expõe compreende três passos: conhecimento da língua de partida, conhecimento da língua de chegada e conhecimento da matéria. Pontos ele procura elucidar com uma profusão de exemplos, tanto os positivos que ilustram o seu modo de pensar, quanto os negativos que revelam os defeitos das traduções latinas que não passariam pelo seu crivo. A seu ver, os maiores defeitos do tradutor consistem em não entender corretamente o texto original ou em reproduzi-lo canhestramente; e também em não conservar a harmonia e a propriedade do discurso original.</p>
		<p>Hanna-Barbara Gerl entende que, enquanto tradução alternativa à de Grosseteste, cuja transmissão durava já 170 anos, a de Bruni possui uma força peculiar que falta na outra. Para esta autora, uma comparação entre os dois mostra que a versão de Bruni possui</p>
		<disp-quote>
			<p>um estilo mais livre, vocabulário mais rico, mas essencialmente [é] menos precisa, e mesmo em alguns pontos falsa. Em matéria de análise filosófica do texto, as traduções de Grosseteste, comparadas à tradução eloquente e superficial de Bruni, têm substancialmente mais serventia. (<xref ref-type="bibr" rid="B10">GERL 1981</xref>: 19-20)</p>
		</disp-quote>
		<p>Aos olhos da filóloga, as qualidades apontadas na tradução <italic>ad verbum</italic> não podem sobre-exceder as da tradução humanista, cujo objetivo é unir <italic>sapientia</italic> e <italic>eloquentia</italic> na busca do “novo Aristóteles”<italic>.</italic> Por isso, diz ela,</p>
		<disp-quote>
			<p>o texto antigo seria - de acordo com a restrição que lhe faz Bruni - inadequado do ponto de vista verbal, em razão da orientação servil ao sentido do texto original e da excessiva grecização, enquanto o de Bruni produziu de fato uma latinização em estilo elegante e, no entanto, com realce do sentido, de molde a introduzir uma nova compreensão de Aristóteles. (<xref ref-type="bibr" rid="B10">GERL 1981</xref>:20)</p>
		</disp-quote>
		<p>Independentemente do lado que se assume nesta controvérsia em torno do melhor método de tradução, se o medieval ou o humanista, o que a embasa, do ponto de vista da eficácia, é a questão da fidelidade aos significados de um texto versus a da liberdade na sua interpretação.</p>
		<p>De modo geral, é preciso ter em conta que a tradução realizada por Grosseteste procura reproduzir <italic>ipsis litteris</italic> o texto original, de maneira que cada elemento lexical e composicional conste da reprodução latina. Obviamente, tal empresa exige grande esforço de compreensão do texto-fonte, vale dizer, primeiramente da substância semântica (o aparato conceitual) implantada no léxico, a fim de que o pensamento do autor, ao ser transposto para a língua de chegada, seja comunicado na íntegra; além disso, cumpre obedecer na transposição o quanto possível a composição sintática original, o que implica reproduzir na medida do possível a mesma ordem de palavras. Os obstáculos enfrentados pela tradução - inerentes aliás à diversidade gramatical translinguística - são acentuados neste caso pela excessiva pressão exercida sobre o nível gramatical da língua de chegada. A solução adotada neste método visa, como está claro, beneficiar antes de tudo os leitores seletos de textos filosóficos e teológicos, em que a compreensão do pensamento tem primazia sobre a forma por que é transmitido. Cumpre lembrar que os tradutores que adotam o método o fazem em consonância com o espírito da época.</p>
		<p>A modalidade de tradução <italic>ad sensum</italic> adotada por Bruni, herdeira da tradição estilística latina, moldada pelos clássicos da antiguidade, privilegia a harmonia da língua de chegada sobre a da língua de partida, pondo-a a serviço dos seus contemporâneos, cujo gosto se orienta pela ideia de literatura como <italic>ars bene dicendi</italic> da escola quintiliana/ciceroniana<xref ref-type="fn" rid="fn21"><sup>21</sup></xref>, portanto em respeito ao <italic>ornatus</italic> transparente numa forma bem acabada. O problema enfrentado nesse tipo de tradução é o de transmitir o conteúdo numa forma bela sem adulterá-lo.</p>
		<p>Isto posto, para se compreender a guinada no método de tradução feita por Bruni é preciso levar em conta, por um lado, o esforço em larga escala feito pelo Humanismo no sentido de restaurar a tradição da <italic>latinitas</italic> romana erguida em obediência à hierarquia dos estilos e da gramática na composição literária; por outro lado, deve-se considerar a renovação da prática tradutória introduzida por Manuel Crisolora, entre os anos de 1397 a 1400, período em que este foi encarregado do ensino público e oficial de grego então implantado em Florença<xref ref-type="fn" rid="fn22"><sup>22</sup></xref>. A escola de tradução assim formada alimentou a linha teórica subjacente ao modelo de tradução humanista, caracterizado pela ênfase na tradução <italic>ad sententiam</italic> que privilegia tanto a perfeita compreensão gramatical do texto de base<xref ref-type="fn" rid="fn23"><sup>23</sup></xref> quanto o cuidado com a forma.</p>
		<p>Para que se possa entender melhor o contexto em que toma forma a nova escola de tradução, convém não perder de vista também o fato de que o quadro geral das humanidades vinha sendo dirigido, sob a batuta da filologia, no interesse da compreensão das especificidades humanas contidas em exemplos expressivos dos textos clássicos, o que implicava uma revalorização da tradição antiga. Pode-se bem discernir nesse movimento de renovação dos estudos literários o peso então representado pela atividade tradutória, a qual nele se encaixa como um dos setores ativados pela filologia humanista no sentido de se refazer o quadro de saberes à disposição dos eruditos daquele tempo.</p>
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			<ref id="B23">
				<mixed-citation>SCHWARZ, W. The meaning of fidus interpres in medieval translation. Journal of Theological Studies, 1944, pp. 73-78</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
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							<surname>SCHWARZ</surname>
							<given-names>W.</given-names>
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					<article-title>The meaning of fidus interpres in medieval translation</article-title>
					<source>Journal of Theological Studies</source>
					<year>1944</year>
					<fpage>73</fpage>
					<lpage>78</lpage>
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			<ref id="B24">
				<mixed-citation>TROILO, S. Due traduttori dell’Etica Nicomachea: Roberto di Lincoln e Leonardo Bruni. Atti del Reale Istituto Veneto di Scienze Lettere ed Arti, 1931-1932, XCI, 2, pp. 275-305</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
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							<surname>TROILO</surname>
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					<article-title>Due traduttori dell’Etica Nicomachea: Roberto di Lincoln e Leonardo Bruni</article-title>
					<source>Atti del Reale Istituto Veneto di Scienze Lettere ed Arti</source>
					<season>193-</season>
					<year>1932</year>
					<volume>XCI</volume>
					<issue>2</issue>
					<fpage>275</fpage>
					<lpage>305</lpage>
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				<mixed-citation>UEBERWEG, F.; PRAECHTER, K. Grundriss der Geschichte der Philosophie des Altertums Die Philosophie des Altertums. Berlim: S. Mittler &amp; Sohn, 1926</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
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					<source>Grundriss der Geschichte der Philosophie des Altertums Die Philosophie des Altertums</source>
					<publisher-loc>Berlim</publisher-loc>
					<publisher-name>S. Mittler &amp; Sohn</publisher-name>
					<year>1926</year>
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				<mixed-citation>VANSTEENKISTE, C. Procli Elementatio Theologica translata a Guilelmo de Moerbeke notae de methodo translationis. Tijdschrift voor Philosophie, 3, 1952, pp. 503-546</mixed-citation>
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							<surname>VANSTEENKISTE</surname>
							<given-names>C.</given-names>
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					<article-title>Procli Elementatio Theologica translata a Guilelmo de Moerbeke notae de methodo translationis</article-title>
					<source>Tijdschrift voor Philosophie</source>
					<volume>3</volume>
					<year>1952</year>
					<fpage>503</fpage>
					<lpage>546</lpage>
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		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>Além das obras do pensador grego ou das a ele então atribuídas, passaram a ser conhecidas em latim a dos seus comentadores, como Simplício, Amônio, Temístio e Eustrátio, além de Averróis. Pode-se dizer que o movimento tradutório então deflagrado pelas traduções de Aristóteles faz parte do processo de intelectualização da cultura ocidental levada a efeito na Idade Média, da mesma maneira que mais tarde a retradução do mesmo filósofo pelos humanistas, mormente por Leonardo Bruni, representou uma intensificação do mesmo processo.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>Entre 510 e 520 ele traduziu para o latim as <italic>Categorias</italic>, <italic>De Interpretatione, Analíticos Anteriores, Tópicos, Sophistici Elenchi</italic> e a <italic>Isagoge</italic> de Porfírio. Ficaram de fora os <italic>Analíticos Posteriores</italic>.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p>No todo este <italic>corpus</italic> compreende mais de 2.000 manuscritos datados entre o século IX e o XVI. A sua organização nos tempos modernos vem sendo efetuada desde o século XIX. <italic>Cf.</italic> B. G. DOD. Aristoteles latinus (<italic>apud</italic><xref ref-type="bibr" rid="B14">KRETZMANN et al 2008</xref>: 45 ss.)</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p>Dos tradutores medievais que trabalharam desde meados do século XII até 1295, 17 são hoje conhecidos, 15 outros permanecem anônimos. <italic>Ibidem,</italic> p. 53.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>5</label>
				<p>Tanto Grosseteste quanto Moerbeke valeram-se de colaboradores que trabalharam sob o seu comando. Num trecho de seu comentário a <italic>De Angelica Ierarchia,</italic> o bispo de Lincoln deixa registrada essa colaboração: “Atribua-se tanto a mim quanto a meus colaboradores a interpretação do livro <italic>De Angelica Ierarchia</italic>” (<italic>apud</italic><xref ref-type="bibr" rid="B9">FRANCESCHINI 1933-1934</xref>: 13)</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>6</label>
				<p>Grosseteste deixou escritos científicos, comentários sobre Aristóteles e trabalhos de teologia grega, comentários sobre livros da Bíblia, obras em filosofia, etc. Entre os escritos religiosos, merecem destaque os seus <italic>Dicta,</italic> coleção de breves escritos teológicos. <xref ref-type="bibr" rid="B18">MCEVOY, <italic>in Robert Grosseteste</italic>, 2000</xref>, traz uma lista da obra de Grosseteste.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn7">
				<label>7</label>
				<p>Apoiado em várias autoridades Johann Bunder (m. 1557) registra os laços de cooperação entre o filósofo e o tradutor: “Guilelmus Brabantinus de Moerbeka traduziu do grego para o latim todos os livros naturais e morais de Aristóteles às instâncias do beato Tomás de Aquino” (citado por A. <xref ref-type="bibr" rid="B13">JOURDAIN 1843</xref>: 68)</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn8">
				<label>8</label>
				<p>Como ressalta E. Franceschini, Grosseteste conhecia perfeitamente aquela língua, a ponto de “glosar, por vezes, nos comentários, palavras latinas com os termos gregos correspondentes e de tentar a reconstrução do texto original de frases e títulos que só conhecia em versões latinas; e também por poder dar esclarecimentos sobre a gramática grega, sobre os gêneros, sobre os casos, sobre construções características da língua, sobre as composições frequentes de duas ou mais palavras, sobre as diversas possibilidades de significado de uma mesma expressão, sobre a etimologia de muitas locuções, sobre as diferenças linguísticas entre o grego e o latim”. <italic>Op. cit.,</italic> p. 12.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn9">
				<label>9</label>
				<p>Prefácio ao <italic>Commentarius in De Angelica Ierarquia</italic>, partes do qual são reproduzidas <italic>in</italic> FRANCESCHINI, <italic>op. cit.</italic> Em <xref ref-type="bibr" rid="B11">GRABMANN, I, 1926</xref>, também há uma reprodução do mesmo texto às páginas 465-466.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn10">
				<label>10</label>
				<p>O literato romano, <italic>in De Optimo Genere Oratorum</italic>, confessa ter traduzido dois discursos de Ésquino e de Demóstenes não como “um tradutor, mas como um orador. Os pensamentos, declara, continuam os mesmos, assim como os torneios e figuras; as palavras são conformes ao uso de nossa língua. Não achei ser necessário reproduzir palavra a palavra; mas conservei o tom e o valor das expressões. Achei que era preciso satisfazer o leitor não contando peça por peça, mas por assim dizer pesando a soma em bloco.” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">CÍCERO 1921</xref>: V, 14)</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn11">
				<label>11</label>
				<p>Na <italic>Epístola</italic> (<italic>a Pamáquio sobre o melhor método de traduzir</italic>) 57, 5, 2, S. Jerônimo defende a tradução <italic>ad sensum</italic> para textos profanos, escorando-se para tanto nas lições de Cícero.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn12">
				<label>12</label>
				<p>Não sem antes desculpar-se, como diz, “que nesta (série de traduções) um tradutor fiel não tema fazer-se culpado por reproduzir o expresso e o comparado palavra a palavra”. (<italic>Apud</italic><xref ref-type="bibr" rid="B23">SCHWARZ 1944</xref>: 73)</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn13">
				<label>13</label>
				<p>Fazendo-o no prefácio à tradução de <italic>De Caelesti Ierarchia</italic> de Pseudo-Dionísio Areopagita: “Donde muito receio incorrer em grande falta por ser um tradutor fiel.” (Citado <italic>in</italic> SCHWARZ, <italic>op. cit.,</italic> p. 73)</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn14">
				<label>14</label>
				<p>O sentido da palavra aqui mencionada é o da <italic>Retórica a Herênio</italic> (IV, 12, 17), onde aparece com valor retórico pela primeira vez: “<italic>Latinitas</italic> é o que conserva a linguagem pura e isenta de todo erro.” Embora tivesse razões para fazer uso frequente do termo, Cícero só o emprega duas vezes, em cartas a Ático. Ao longo da história os gramáticos romanos lhe emprestaram valor primeiramente gramatical, mas não só, pois ele se amplia até expressar a noção de “conjunto de obras e escritores latinos”. <italic>Vide</italic> o estudo M. C. Díaz y Díaz, “<italic>Latinitas - sobre la evolución de su concepto”</italic>, <italic>Emerita</italic>, 1951<italic>.</italic></p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn15">
				<label>15</label>
				<p>Como biógrafo ocupou-se de Cícero e Demóstenes; como historiador escreveu comentários à Primeira Guerra Púnica, enveredou por temas gregos, extraídos da <italic>Hellenica</italic> de Xenofonte, além de compor <italic>De Bello Italico Adversus Gothos Gesto libri IV</italic>, compilado de Procópio. Vale ainda lembrar que a sua intervenção no debate sobre a origem do <italic>volgare</italic> ajudou a clarear o espaço reservado ao tema no Renascimento.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn16">
				<label>16</label>
				<p>Saliente-se que as traduções feitas por Bruni partem todas de textos disponíveis em versões latinas medievais.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn17">
				<label>17</label>
				<p>A opinião de que as obras acroamáticas de Aristóteles não primam pela eloquência tem prevalecido entre os intelectuais desde o Renascimento. Como diz <xref ref-type="bibr" rid="B5">Botley (2004</xref>: 45), “a eloquência não é uma das virtudes comumente atribuídas pelos <italic>scholars</italic> modernos às obras que restaram de Aristóteles”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn18">
				<label>18</label>
				<p><italic>De Interpretatione Recta,</italic> tradução de M. FURLAN, 2011, p. 32. Segui esta versão, inserindo algumas alterações. Juízo semelhante Bruni emite em <italic>Ad Petrum Paulum Histrum Dialogus</italic>, <italic>apud</italic> E. GARIN, <italic>Prosatori Latini del Quattrocento,</italic> p. 58. Quanto à atribuição de eloquência aos textos de Aristóteles, tem-se um exemplo antigo em Cícero, que assim o faz, porém em referência aos primeiros trabalhos do filósofo grego ainda em circulação na Roma republicana. <italic>Cf. Academica</italic>, II, 119, onde Aristóteles esbanja “flumen orationis aureum” perante o sábio estoico.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn19">
				<label>19</label>
				<p>Supõe-se que certas obras de Aristóteles, compostas nos estágios iniciais de seu desenvolvimento intelectual e redigidas na forma de diálogo, podiam apresentar um estilo elegante. Entretanto, constituem um item específico passível de ser atestado somente através de uma “análise microscópica”, como pondera K. PRAECHTER 1926: 359. Os eventuais <italic>Diálogos</italic> constam do catálogo das obras de Aristóteles proposto por Diógenes Laércio, <italic>Vidas e Opiniões dos Filósofos Eminentes</italic>, 5, 22 ss.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn20">
				<label>20</label>
				<p>“Em conclusão temos quatro métodos de traduzir, que formam quatro gradações, e são: 1º) tradução estritamente literal com Filelfo; 2º) tradução largamente literal com Guarino, Giustinian, Beccaria, Bruni, Scarperia; 3º) tradução literal estilística com Lapo; 4º) tradução amplificada e retórica com Barbaro e Acciaioli.” (<xref ref-type="bibr" rid="B22">SABBADINI 1896</xref>: 135)</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn21">
				<label>21</label>
				<p>Em resumo, trata-se dos ensinamentos ministrados no <italic>Orator</italic> e no <italic>De Oratore</italic> de Cícero e na <italic>De Institutione Oratoria</italic> de Quintiliano.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn22">
				<label>22</label>
				<p>Crisolora foi acolhido com honras pela <italic>intelligentsia</italic> florentina ávida por dominar as letras gregas clássicas. G. Pesenti, baseado em referências seguras, dá uma ideia da atmosfera então criada em torno do sábio bizantino: “Coluccio Salutati (1331-1406) foi o primeiro dentre os que, como Nicolò Niccoli (<italic>c.</italic> 1364-1437), Palla Strozzi (1372-1462), Antonio Corbinelli (m. em Roma em 14 de agosto de 1425), Roberto Rossi e Jacopo d’Angelo, encorajaram a Senhoria a convidar Crisolora para ensinar grego no <italic>Studio</italic> florentino, cujo ensino trienal (1397-1400) iniciou a gloriosa renascença grega florentina.” (<xref ref-type="bibr" rid="B20">PESENTI 1931</xref>: 85-86)</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn23">
				<label>23</label>
				<p>Crisolora argumentava que a tradução estritamente literal (<italic>ad verbum</italic>) <italic>minime valet</italic>, devendo-se preferir a que respeita a frase como um todo, a verdadeiramente fiel, no seu entender. Eis o que diz a respeito o seu pupilo Cencio de’ Rustici: “Mas ao falar da natureza do tradutor, o divino Manuel, homem sem dúvida divino, dizia que a tradução em latim palavra a palavra (<italic>ad verbum</italic>) praticamente carece de valor. Pois afirmava ele que isso é não só absurdo, mas também perverte o sentido da frase grega. Ao invés disso, deve-se traduzir o sentido (<italic>ad sententiam</italic>); de maneira que quem se dá o trabalho nesse tipo de coisas deve impor-se a regra de jamais alterar a propriedade do grego.” (<italic>Apud</italic><xref ref-type="bibr" rid="B4">BERTALOT 1975</xref>, 2: 133)</p>
			</fn>
		</fn-group>
	</back>
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