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				<journal-title>Revista de Tradução e Terminologia</journal-title>
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				<publisher-name>Centro Interdepartamental de Tradução e Terminologia da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.11606/issn.2317-9511.v40p1-10</article-id>
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					<subject>Articles</subject>
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				<article-title>Apresentação</article-title>
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				<year>2022</year>
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				<year>2021</year>
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		<p>Muito já se falou sobre cultura nos Estudos da Tradução. Segundo o que se pode depreender de alguns dos artigos deste volume, trata-se de um dos principais temas da área. E mesmo que o pesquisador não se interesse explicitamente sobre o tema, ele é inescapável e incontornável. Afinal, a tradução, como objeto cultural material humano, como texto, já é, por si, um fenômeno intercultural. </p>
		<p>Mas seria apenas uma relação entre duas culturas, a fonte e a meta? Claramente não. Então, de quantas culturas estamos falando? Não sabemos. Não sabemos porque o texto traduzido numa mesma língua, entre duas línguas, entre sistemas multimodais diferentes é o corolário de um sujeito. E esse sujeito é múltiplo. Múltiplo em suas relações consigo mesmo, com as experiências que teve e mantém, ou não, com diversas culturas. É múltiplo também com o outro. Múltiplo em suas relações com seu professor, no caso de um aprendiz, com seu cliente, no caso de um tradutor profissional, com suas instituições, em todos os casos. E esse outro também é múltiplo. Como falar sobre isso? É muito difícil. Mas não impossível.</p>
		<p>Então, vamos lá. Para falar de tradução e cultura, não há como não tratar de partida de um assunto fundamental: o original. Não há como fugir dele. Ele é o ponto de partida da tradução, é o que a estimula, independentemente da demanda (política, econômica ou sabe-se lá qual): ele é a sua origem. Do mesmo modo, é ele, em relação com a tradução, que faz sobressair a questão cultural. Já foi dito, em outras palavras obviamente, que a tradução já está lá no original, já está prevista. Mas o original é <italic>um</italic> original. É <italic>um</italic> texto. Seja em sistemas orais ou multimodais. É <italic>um</italic> texto. </p>
		<p>Como se sabe, todo texto é aberto. Então, como podemos falar d<italic>O</italic> original? Tautologicamente, <italic>o</italic> original é <italic>um</italic> original. E isso faz toda a diferença. É <italic>um</italic> porque existe somente na leitura, na interpretação e na relação agenciadas por um sujeito múltiplo. É esse <italic>um</italic> original construído pelo sujeito tradutor que é uma leitura, uma interpretação ou uma relação. E é esse <italic>um</italic> que dá origem àquela <italic>uma</italic> tradução construída por seu leitor; e, somente aí, pode-se falar dela como leitura, interpretação ou relação. Esta confusão aparece implícita ou explicitamente em quase todos os textos da área que lemos, muitos deles sobre tradução literária. </p>
		<p>É preciso lembrar que toda leitura, interpretação ou relação implica <italic>um estar (d)entre</italic>, em que é patente uma indeterminação incondicional já dada de antemão por diferenças enunciativas de espaço e tempo e de variáveis voláteis relacionadas. Este ponto é importante, porque é aí que podemos minar qualquer investida conservadora a respeito d<italic>O</italic> original. <italic>O</italic> original, de fato, não existe. </p>
		<p>Mas, estamos aqui falando de cultura e tradução. Retomo, a partir de agora, algumas ideias publicadas em 2009,<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref> em artigo que, após reiteradas conversas com os responsáveis, perdeu-se na internet. Algo que recupero dali me parece evidente: a cultura define-se pela identidade, mas, ao mesmo tempo, é percebida na alteridade. Há, nesse paradoxo, uma relação fundamental: como diria Culioli (2000)<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref>, identificar é levar a alteridade em consideração e depois eliminá-la; diferenciar, por sua vez, é manter a alteridade. Naquela época, pensava que a grande tensão que emergia da relação entre cultura e tradução dizia respeito ao fato de que <italic>um</italic> texto, sendo ele <italic>um</italic> original, considerando a alteridade, se estabeleceria fortemente na identidade, e ao mesmo tempo, <italic>outro</italic> texto, <italic>essa uma</italic> tradução, fazendo um duplo caminho, passaria pela alteridade, consideraria a identidade e retornaria à alteridade. Pensava que, em tradução, tanto com relação à cultura simbólica quanto com relação à material, cumpria considerar, do ponto de vista da cultura, o aspecto essencial da alteridade para identificar o fenômeno cultural e, do ponto de vista da tradução, o aspecto essencial da identidade para identificar a própria tradução como fenômeno cultural, ou seja, como alteridade.</p>
		<p>Em parte, eu tinha razão. Porém hoje, no fundo, olhando para esses dois objetos com mais maturidade, percebo que o <italic>um</italic> original não é tão diferente da <italic>uma</italic> tradução. Simplesmente porque ambos são textos. E, como textos, são apenas rastros de operações de linguagem em relação com as línguas que tentamos reconhecer e reconstruir como sujeitos culturais múltiplos que somos. Desse modo, assim como o original é um rastro, que o tradutor, com suas múltiplas agências, reconhece e interpreta, a tradução também é um rastro. Como bem pontuou Paulo Henriques Britto<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>3</sup></xref>, a partir de <italic>uma</italic> particular interpretação, a minha, esses rastros são deixados por operações linguageiras de mesma natureza. A diferença está no modo de agir sobre as variáveis implicadas no processo: na constituição de <italic>um</italic> original, tende-se a distanciar-se da(s) fonte(s), na de <italic>uma</italic> tradução, a aproximar-se. E aí não importa, em nenhuma medida, o tipo de texto com que se trabalha ou o grau de liberdade criativa, já que todo texto é uma criação. Para cada tipo, seja ele um poema ou um artigo de física, há técnicas para lidar com essas variáveis.</p>
		<p>Para construir um olhar sobre a relação entre cultura e tradução, há infinitos caminhos possíveis a partir da <italic>uma</italic> observação de <italic>um</italic> sujeito que se circunscrevem a partir da relação entre esses rastros: o rastro de um original (<italic>um</italic> texto) e o rastro de uma tradução (<italic>um</italic> texto). Parte desse infinito é o que traz este volume.<xref ref-type="fn" rid="fn4"><sup>4</sup></xref>
		</p>
		<p>A ideia de organizar este número especial surgiu de um simpósio que organizamos, <italic>Quando os opostos podem se atrair: Reunindo diferentes teorias e métodos sobre a relação entre cultura e tradução,</italic> realizado em 2019 em João Pessoa no âmbito do VII Encontro Internacional de Tradutores e XIII Encontro Nacional de tradutores, cujas apresentações estão aqui em formato de artigos. Na sequência, tivemos a ideia de homenagear o maior nome no Brasil dos Estudos da Tradução na temática ora abordada: Francis Henrik Aubert. Para engrandecer a publicação, convidamos alguns colegas para escreverem conosco sobre esse tema tão instigante: Aixelá, Williams, Witte, Reichmann, Lima, Villela, que, com ou sem colaboradores, nos presentearam com seus textos, que passaram também por pareceristas, e aos quais muito agradecemos. </p>
		<p>Graduado em Letras e Ciências Humanas pela Universidade de Oslo (1968) e Doutor em Semiótica e Linguística Geral pela Universidade de São Paulo (1975), falante fluente de inglês, francês, italiano, espanhol, norueguês e dinamarquês, Aubert é professor titular aposentado da Universidade de São Paulo e tradutor juramentado de inglês e norueguês. Possui incontáveis trabalhos publicados nas áreas de tradutologia, práticas profissionais da tradução, terminologia e linguística contrastiva. Orientou dezenas e dezenas de dissertações de mestrado e teses de doutorado em Estudos da Tradução, e supervisionou outros tantos pós-doutorados. Ocupou as mais diversas funções na administração da Faculdade de Letras, desde Chefe de Departamento até Diretor, passando por vários cargos relacionados ao Centro Interdepartamental de Tradução e Terminologia (CITRAT-USP). Foi o grande fomentador da tradução na Universidade de São Paulo; sem ele, é provável que a tradução tivesse ali passado ao largo: esteve à frente da pós-graduação <italic>lato sensu</italic> em tradução por duas décadas, até que fosse extinta; inseriu a tradução na graduação por disciplinas optativas e apresentou à Reitoria projeto de Bacharelado em Tradução, ainda em análise, com algumas contratações; foi parte entusiasmada da pós-graduação em tradução. Seus trabalhos, cujas contribuições são indescritíveis e seguem fundamentando e inspirando a pesquisa da área no Brasil, podem ser identificados em seu currículo lattes<xref ref-type="fn" rid="fn5"><sup>5</sup></xref> e em seguida encontrados na Internet, em livrarias ou sebos.</p>
		<p>Neste volume, quisemos oferecer a um público mais amplo seu texto <italic>Indagações acerca dos marcadores culturais na tradução</italic>, aqui apresentado em língua inglesa na primorosa tradução de John Milton, com revisão minuciosa de Lenita Rimoli Pisetta, queridos colegas a quem muito agradecemos. Em <italic>Inquiries on cultural markers in translation,</italic> Aubert mapeia as dificuldades teóricas e metodológicas em relação ao conceito e à identificação dos marcadores culturais e propõe encaminhamentos relacionados. Como uma espécie de síntese de seu pensamento mais recente, seu artigo é um convite irrecusável à reflexão sobre o tema. Isto é pouco frente à vasta bibliografia sobre tradução e cultura que formou muitos daqueles que hoje pensam sobre isso de norte a sul do país. Aqui deixamos, portanto, a nossa homenagem ao professor, colega e amigo querido, Francis Henrik Aubert. </p>
		<p>A tradução que apresentamos do trabalho de Roberto Mayoral Asensio, com a inestimável colaboração da colega Heloísa Pezza Cintrão, <italic>A tradução de referências culturais</italic>, traz um pequeno panorama europeu relacionado às questões culturais nos Estudos da Tradução, considerando designações e conceitos, procedimentos e estratégias sob diferentes perspectivas. Ele nos mostra como pensam diferentes escolas e grupos, quais são suas abordagens e teorias de base, indo do estruturalismo aos estudos literários. Para aqueles que desejam fundamentar-se para ensinar, argumentar, refletir sobre tradução e cultura, e mais especificamente sobre marcadores culturais, esse trabalho é leitura obrigatória.</p>
		<p>Na sequência, em seu artigo <italic>La investigación sobre los elementos culturales en los estudios de traducción. Un análisis bibliométrico</italic>, Javier Franco Aixelá propõe uma análise bibliométrica de trabalhos sobre cultura em tradução e interpretação repertoriados na base de dados por ele criada em 2001 em seu departamento, na Universidade de Alicante, e denominada BITRA (Bibliografía de Interpretación y Traducción). Inicialmente, o autor relembra os primeiros desenvolvimentos dos estudos sobre tradução e cultura na área para introduzir os seus fundamentos. Em seguida, pelo trabalho bibliométrico, mostra que os estudos culturais são um dos eixos principais dos Estudos da Tradução desde 1903 e sugere a importância central do aspecto cultural para os Estudos da Tradução.</p>
		<p>O artigo <italic>Les arbres du Brésil dans deux dictionnaires historiques: Le Dictionnaire universel de Basnage et le Vocabulario de Bluteau</italic>, de Sara Graveleau, Geoffrey Williams, Alina Villalva, traz um olhar cultural historicizado sobre as definições lexicográficas de entradas de verbetes em dicionários históricos que descrevem parte da flora brasileira, mais especificamente 31 marcadores culturais designando árvores nativas. Ao leitor interessado nos estudos lexicais, na terminologia, nas relações interculturais, nos marcadores culturais e, principalmente, na relação entre tradução, cultura e lexicografia, os autores apontam para a contribuição singular de Basnage no tratamento dos termos para a prática lexicográfica, com sua postura metodológica revolucionária de consulta a fontes e a especialistas do domínio; mostram o papel fundamental da tradução para a elaboração de definições monolíngues de marcadores culturais, as quais são elas próprias, a nosso ver, traduções intralinguais da entrada; e, finalmente, afirmam que o dicionário naqueles séculos era uma ferramenta de mediação e de informação entre textos eruditos e os leitores da época e de hoje.</p>
		<p>Sobre o mesmo tema, Sabrina de Cássia Martins e Claudia Zavaglia, no artigo <italic>O relativismo linguístico dos nomes populares das espécies da fauna e da flora</italic>, situam sua pesquisa no conjunto de estudos em tradução voltados para o discurso especializado. Tendo como foco os nomes populares em língua portuguesa que denominam as espécies da fauna e da flora, bem como sua tradução nas línguas inglesa e italiana, as autoras investigam como o processamento conceitual de falantes de línguas distintas resulta em classificações igualmente distintas, que relatam pontos de vista sobre o mundo nem sempre convergentes.</p>
		<p>A partir das teorias funcionalistas da tradução, Heidrun Witte discute particularmente o papel didático do texto-fonte para o desenvolvimento da competência cultural do tradutor-aprendiz iniciante pela tradução de textos infantis. Assim, o artigo “Adoptar perspectivas ajenas: la literatura infantil como herramienta didáctica para fomentar la orientación al receptor meta en la clase de traducción” nos leva, por exemplos e análises significativamente elucidativas, a acompanhar o despertar, por parte do aluno, de uma tomada de consciência intercultural.</p>
		<p>Numa perspectiva comparativa entre os sistemas jurídicos da França e da Alemanha, Tinka Reichmann e Taciana Cahu Beltrão apresentam, em “Direito e tradução - influências recíprocas”, aspectos da tradução e da interpretação juramentada e suas relações com a legislação e a jurisprudência, que consideram ser marcadores jurídico-culturais. Nesse contexto, as autoras discutem a juritradutologia, a atuação de tradutores e intérpretes judiciais nos dois países e a qualidade da tradução, sugerindo que deva haver um maior diálogo entre o Direito e a Tradução.</p>
		<p>No artigo <italic>Do rigorosamente vago e seu papel na tradução</italic>, Paulo Oliveira e Rafael Lopes Azize veem no conceito de tradução uma dimensão constitutivamente vaga com prioridade lógica. Para desenvolver seu pensamento e resgatar a tese do vago, tratam filosoficamente das ideias de exatidão como ideal e de vago como desvio. Em seguida, retomam alguns conceitos de Toury, em que estão implicadas as relações culturais, e a concepção de linguagem do Wittgenstein tardio para, finalmente, proporem que, na base do pensamento sobre o fazer tradutório, há a necessidade de pensar e refletir sobre como funciona a linguagem. Esse trabalho auxilia aqueles que trabalham com tradução e cultura a entender ou passar a refletir sobre o <italic>fundo</italic> de qualquer pensamento sobre essa relação: a linguagem.</p>
		<p>Também no artigo <italic>Reflexões sobre o papel do Outro nos estudos da tradução no Brasil</italic>, Timur Stein examina diferentes conceitos teóricos que poderiam sugerir uma noção da alteridade, tendo em vista o contexto dos Estudos da Tradução no Brasil. Para tanto, o autor se aproxima da tradução antropofágica de Haroldo de Campos, da abordagem psicanalítica de Maria Paula Frota e da desconstrutivista de Rosemary Arrojo, assim como de uma proposta de Mauricio Mendonça Cardozo, que entende a tradução como espaço liminar no qual ocorre o encontro com o Outro.</p>
		<p>Em <italic>Nossos corpos por nós mesmas: o processo de tradução e adaptação cultural em palimpsesto</italic>, Érica Lima discute alguns aspectos da tradução do livro <italic>Our Bodies, Ourselves</italic>. A autora apresenta o processo de tradução em três etapas: a preparação, com uma reflexão teórica que fundamenta o trabalho de tradução colaborativa e ativista e a definição da metodologia adotada, uma discussão sobre a tradução propriamente dita e, por fim, cinco depoimentos sobre os diferentes impactos que o projeto tem trazido para os estudantes que participaram da tradução. O texto apresenta, ainda, exemplos de adaptação cultural para diferentes países, em especial para a realidade brasileira.</p>
		<p>No trabalho <italic>Entre a domesticação e a estrangeirização: análise das estratégias de tradução em “Sejamos todos feministas”</italic>, Arlene Koglin discute as estratégias de tradução empregadas no ensaio “Sejamos todos feministas”, de Chimamanda Adichie. Koglin examina teoricamente as implicações ideológicas das soluções tradutórias adotadas segundo dois parâmetros: estranhamento durante a leitura do texto de chegada e evidência de passagens, no texto fonte, com teor nitidamente ideológico. A autora parte da hipótese de que o texto de chegada tende à domesticação por apagamentos ou adaptação de estereótipos descritos no texto fonte. </p>
		<p>Em <italic>Reconstruindo a fofoca: variação linguística e marcadores culturais na tradução para o espanhol mexicano do conto “O jardim selvagem” de Lygia Fagundes Telles</italic>, Zyanya Carolina Ponce apresenta os desafios e soluções da tradução do conto “O jardim selvagem”, de Lygia Fagundes Telles, para o espanhol mexicano por uma perspectiva cultural. A autora propõe uma discussão sobre as noções de marcas e marcadores culturais a partir da representação da oralidade, variação linguística e dialeto, tendo em vista a estrutura narrativa do conto, composta principalmente por diálogos. </p>
		<p>O trabalho <italic>Análise de formações colocacionais (português-francês) em resumos de artigos de energia solar fotovoltaica</italic>, de Renata Tonini Bastianello, parte dos campos da Linguística de <italic>Corpus</italic> e da Retórica Contrastiva para elaborar uma análise entre o discurso dos especialistas em energia solar fotovoltaica em artigos acadêmicos e resumos de artigos em português do Brasil e francês da França. A autora analisa as influências de cada cultura na produção e na organização do discurso especializado.</p>
		<p>Em <italic>Collocations and aviation terms: a bilingual Portuguese-English study based on corpora</italic>, Carlos Eduardo Piazentine analisa as colocações dos termos “segurança” em português e “safety” e “security” em inglês, na linguagem da aviação. O autor reflete acerca da melhor compreensão dessas unidades conceituais e traz uma discussão sobre o papel das colocações no campo da Terminologia, partindo da visão de que os termos incluem deslocamentos e perspectivas que variam de cultura para cultura. Para isso, Piazentine se baseia em dois <italic>corpora</italic> comparáveis, um de textos em português (Agência Nacional de Aviação Civil; Força Aérea Brasileira) e outro de textos em inglês (Organização de Aviação Civil Internacional).</p>
		<p>Sabrina Moura Aragão, no texto <italic>Marcadores culturais da tradução de linguagens multimodais</italic>, nos mostra, no contexto das histórias em quadrinhos, que múltiplos modos ou recursos semióticos participam da construção dos sentidos. Traz, ainda, uma contribuição para a noção de marcador cultural, incluindo aí a imagem. Mais especificamente, desdobra-a em outras três: “marcador cultural verbal”, “marcador cultural icônico” e “marcador cultural verbo-icônico”.</p>
		<p>No artigo <italic>Cultural markers in the Brazilian film O auto da Compadecida and its subtitles in English: a proposal of analysis of translation,</italic> Marcela Monteiro e Adriana Zavaglia propõem uma análise sobre a tradução de marcadores culturais nas legendas em inglês do filme <italic>O auto da compadecida</italic> (<italic>A Dog’s Will</italic>). A reflexão das autoras parte não só do textual, mas da combinação do sentido textual das traduções com o sentido produzido pelos elementos audiovisuais. Tendo em vista questões específicas, como as restrições técnicas da legendagem, Monteiro e Zavaglia propõem uma tipologia de legendas e uma tipologia de marcadores culturais específicas para esse tipo de tradução.</p>
		<p>A partir da entrevista a Isabel Pitta Machado, Lucinéa Marcelino Villela investiga o profundo envolvimento das mulheres na modalidade de tradução audiovisual, mais especificamente no campo da audiodescrição. Apresentada por Villela como uma das pioneiras da audiodescrição no Brasil, Isabel Pitta Machado, Graduada em Filosofia (UNICAMP) e Mestre em Multimeios (UNICAMP), iniciou suas atividades na área em 1999, quando passou a narrar filmes ao vivo semanalmente para os usuários do Centro Cultural Braille de Campinas, em um projeto chamado Vídeo Narrado. Em mais de 20 anos, já audiodescreveu mais de trezentos filmes ao vivo, dezenas de audiodescrições de shows, óperas, eventos diversos, além de uma produção extensa em ADs gravadas de curta metragens, longas e documentários.</p>
		<p>Como podem observar, a temática da relação entre tradução e cultura está aqui abordada de diversos pontos de vista, desde tentativas de esboçar conceitos até análise bibliométrica das produções na área, passando pela história, lexicografia, ensino, voluntariado, terminologia, multimodalidade. Mesmo que seja uma ínfima parte de tudo o que pode ser dito a respeito, convidamos todas e todos à leitura deste volume sobre Tradução e Cultura.</p>
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		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>ZAVAGLIA, A. As relações culturais na tradução de textos especializados. <italic>Linguasagem</italic> (São Paulo), v. 10, p. 1-9, 2009.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>CULIOLI, Antoine. <italic>Pour une linguistique de l’énonciation</italic>: opérations et représentations. 2. ed. rev. Paris: Ophrys, v.1, 2000.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p>BRITTO, Paulo Henriques. “Tradução e criação”. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/traducao/article/view/5534</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p>Até aqui, o texto é de autoria de Adriana Zavaglia; o que segue é de autoria das duas organizadoras.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>5</label>
				<p>
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				</p>
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