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				<journal-title>Revista de Tradução e Terminologia</journal-title>
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				<publisher-name>Centro Interdepartamental de Tradução e Terminologia da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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				<article-title>Entrevista com Isabel Pitta Machado</article-title>
				<article-title xml:lang="en">Interview with Isabel Pitta Machado</article-title>
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						<given-names>Lucinéa Marcelino</given-names>
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					<institution content-type="original">Universidade Estadual Paulista, Bauru. E-mail: lucinea.villela@unesp.br.</institution>
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				<year>2022</year>
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			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
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				<year>2021</year>
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		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução: Projeto Pioneiras da Audiodescrição Brasileira</title>
			<p>Em 2010, iniciei minha atuação como pesquisadora e docente na área de Tradução Audiovisual quando fui convidada para ministrar a disciplina Prática de Tradução para Dublagem e Legendagem em um Curso de Graduação em Letras e Tradução. Ao selecionar textos teóricos para minhas aulas, deparei-me pela primeira vez com algumas referências sobre uma modalidade de Tradução Audiovisual (TAV) bastante desconhecida para mim: audiodescrição (AD). De imediato, fiquei encantada com a possibilidade de pensar na tradução fora dos contextos tradicionais e com viés completamente ligado à inclusão, à acessibilidade e, principalmente, à promoção de bem-estar e de dignidade para uma grande parte da população normalmente invisível para nós, pesquisadores da área de Estudos da Tradução. Passei a buscar por pesquisadores brasileiros dessa área para que pudesse ter acesso a mais referências e conhecimento. Rapidamente encontrei os trabalhos desenvolvidos por Vera Lúcia Santiago Araújo, docente da Universidade Estadual do Ceará (UECE). A pesquisadora, que já tinha diversos projetos que envolviam legendagem para surdos e ensurdecidos (LSE), havia iniciado investigações e algumas orientações em audiodescrição. Em nosso primeiro encontro, a colega cearense generosamente compartilhou comigo alguns artigos e livros teóricos sobre TAV e assim, debrucei-me a estudar diversos autores espanhóis que foram e são até hoje as minhas principais referências teóricas: Jorge Díaz-Cintas, Pilar Orero, Anna Matamala e Frederic Varela Chaume. </p>
			<p>Em 2013, criei o Grupo de Pesquisa Mídia Acessível e Tradução Audiovisual (MATAV) para agregar alunos dos Cursos de Jornalismo e de Rádio e Televisão da Universidade Estadual Paulista (UNESP) que buscavam formação para produzirem um audiovisual acessível e inclusivo. Para capacitá-los em audiodescrição, iniciei minha segunda busca, dessa vez por profissionais do mercado que atuavam exclusivamente nessa área de AD. Foi assim que conheci, ainda em 2013, Lara Pozzobon, curadora e produtora do Festival Assim Vivemos, 1º Festival de Cinema Brasileiro com AD em todas as sessões. Em 2014, tive oportunidade de iniciar uma parceria frutífera com as gaúchas Mimi Aragón e Kemi Oshiro, sócias de uma empresa que atua em produções de acessibilidade em eventos ligados à área de cinema e de cultura no Rio Grande do Sul. A partir de diversos encontros e reuniões com essas profissionais, conheci Isabel Machado (Bell Machado) e, finalmente, Lívia Motta.</p>
			<p>A menção a todas essas mulheres não é mera coincidência. Após dez anos de muita pesquisa em Tradução Audiovisual e Tradução Audiovisual Acessível, posso afirmar que o rápido desenvolvimento e expansão da audiodescrição no Brasil ocorreram graças ao protagonismo de mulheres que de forma incessante têm implantado o recurso de norte a sul desse país gigante. O contato e a convivência que desde 2013 tenho mantido com alguns pesquisadores europeus em AD inevitavelmente me fizeram comparar suas produções, teorias e práticas com a AD brasileira. Desde a formação do profissional até à recepção do recurso, há grandes diferenças que vão desde o amadurecimento teórico, a inovação tecnológica e os investimentos governamentais, como ocorre na Europa, até à visão da AD como recriação artística e carregada de humanismo, como é defendido por diversos profissionais no Brasil. Não é à toa, que em alguns estados do Brasil, como São Paulo e Rio de Janeiro, há uma preferência por audiodescritores narradores formados em Artes Cênicas e Dublagem. </p>
			<p>E, assim, instigada com o profundo envolvimento das mulheres nessa modalidade de TAV, no final de 2020, decidi desenvolver um projeto com ênfase nas pioneiras da audiodescrição no Brasil. Minhas hipóteses eram de que a) a AD brasileira foi desenvolvida em grande parte por mulheres advindas de diversas áreas das Ciências Humanas, b) as pioneiras em audiodescrição buscaram formação teórica e sofreram influência estrangeira (europeia e americana) e c) existe uma AD brasileira, com características culturais específicas que se diferem da audiodescrição europeia e norte americana.</p>
			<p>Para comprovar minhas hipóteses, entrevistei até o momento cinco pioneiras em audiodescrição por meio remoto<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref>. Para todas as entrevistas, foi utilizado o mesmo roteiro com questões que buscaram identificar as primeiras experiências das entrevistadas com audiodescrição, suas áreas de formação, influências teóricas, marcos históricos da AD no Brasil, as características culturais e nacionais do recurso de acessibilidade e, por fim, as razões de termos em nosso país um envolvimento maior das mulheres na AD.</p>
			<p>Apresentarei a seguir a entrevista realizada em agosto de 2021 com Isabel Pitta Ribeiro Machado, Graduada em Filosofia (UNICAMP) e Mestre em Multimeios (UNICAMP). Em 1999, Bell Machado, sem nunca ter ouvido falar em audiodescrição, começou a narrar ao vivo semanalmente filmes para os usuários do Centro Cultural Braille de Campinas em um projeto chamado Vídeo Narrado. Em mais de 20 anos, já audiodescreveu mais de trezentos filmes ao vivo, dezenas de audiodescrições de shows, óperas, eventos diversos, além de uma produção extensa em ADs gravadas de curta metragens, longas e documentários.</p>
			<p>Ao longo de nossa conversa, Bell Machado confirmou que as características culturais brasileiras são refletidas na poeticidade da nossa audiodescrição. Afirmou enfaticamente que preferiu não buscar nenhum tipo de contato com profissionais e pesquisadores de audiodescrição fora do país, suas influências advêm dos estudos em Cinema e em Filosofia. Defende acima de tudo uma verdadeira pedagogia do olhar.</p>
			<p><bold>Lucinéa Villela-</bold> Qual foi seu primeiro contato com a audiodescrição e quando ocorreu?</p>
			<p><bold>Bell Machado</bold>: Em 1999, em Campinas, Maria Eduarda Leme, coordenadora do Centro Cultural Louis Braille, iniciou o projeto Vídeo Narrado e quem narrava os filmes era Maria Cristina Loyola Martins. Esse projeto consistia em exibições de filmes de longa metragem em fitas de vídeo para pessoas cegas ou com algum tipo de deficiência visual. Eu cursava o 1º ano da Graduação em Filosofia e já era professora de História do Cinema no MIS de Campinas e a convite de Eduarda Leme, assumi o trabalho de narrar filmes todas as semanas para dez alunos inicialmente, e Maria Cristina passou a se dedicar ao ensino de locomoção para pessoas com deficiência visual no próprio Centro Cultural Braille. No mesmo ano, iniciei com os usuários do Centro Cultural Braille pesquisas sobre filósofos iluministas cujo objeto de estudo era a investigação das metáforas óticas e a construção do conhecimento por meio dos sentidos.</p>
			<p>Um dos primeiros filmes que narrei foi <italic>Central do Brasil</italic>, em uma sala de vídeo onde à tarde fazia um calor escaldante, diante de uma pequena televisão de tubo. Com um controle remoto na mão, fazia as pausas enquanto descrevia para atender à enxurrada de perguntas que as pessoas com deficiência visual faziam durante o filme e, às vezes, também para dar tempo de descrever ou pensar no que seria descrito, pois até 2008 todos os filmes eram narrados ao vivo, sem roteiro prévio. Todos os filmes que escolhi ou que eram sugeridos pelo grupo eram filmes que conhecia muito bem e o fato de ser professora de História de Cinema norteava-me para uma descrição não só das imagens, mas da maneira como elas eram mostradas. Com isso, percebi que aquelas pessoas desconheciam totalmente as diferentes maneiras que as imagens podiam ser mostradas. Elas não conheciam os movimentos de câmera e suas significações simbólicas. Passaram a se interessar e perguntar detalhes das cenas e fui aprendendo, então, que cada um deles tinha uma intimidade do olhar. O maior desafio na época foi fazer as narrações, hoje denominadas simultâneas, da série <italic>Harry Potter</italic> e <italic>Senhor dos Anéis</italic>. Certamente, eu já havia assistido ao menos três vezes cada filme, nos cinemas e em videocassete, mas nem sequer pensava em elaborar os roteiros de audiodescrição de cada um, pois, além de narrar um filme diferente por semana, meu trabalho no Centro Cultural Braille era voluntário e eu tinha outras responsabilidades profissionais fora dali.</p>
			<p>Em 2004, Eduarda Leme, eu e alguns usuários com deficiência visual do Centro Cultural Braille pesquisamos softwares de leitores de telas e inscrevemos o projeto para participar do 1º Edital para formação de Pontos de Cultura no Brasil, um projeto de inclusão cultural e digital, do Programa Cultura Viva<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>3</sup></xref>. O nome do Ponto “Cinema em Palavras” foi sugerido por Eduarda Leme e prontamente aceito por mim. O projeto foi contemplado pelo Ministério da Cultura e continuei como coordenadora de 2005 a 2011. Em 2005, o projeto foi agraciado com o Prêmio Cidadão RAC-CPFL, com o título de “Cinema para Cegos”, uma premiação aos protagonistas de ações de responsabilidade social.</p>
			<p>O cinema, a filosofia e a audiodescrição de filmes foram meus fios condutores para a busca de um entendimento maior sobre o efeito plural do olhar sobre as imagens e sobre as formas pelas quais elas podem ser transformadas em palavras, por meio do recurso de acessibilidade audiodescrição.</p>
			<p>Posteriormente em minha dissertação<xref ref-type="fn" rid="fn4"><sup>4</sup></xref> sugeri possibilidades de uma educação visual para pessoas com deficiência visual no cinema. Para tal, foi organizado em Campinas um curso de cinema com o objetivo de criar uma base de argumentação sustentada pela tríade conhecimento da linguagem cinematográfica, conhecimento da audiodescrição e formas de aplicabilidade para o público com deficiência visual. Além disso, minha pesquisa de mestrado traz reflexões que, referenciadas por depoimentos dos participantes com deficiência visual do curso de cinema, se desdobram sobre questões como a construção do conhecimento a partir de Denis Diderot, Voltaire, David Hume e Vilém Flusser; a escrita e a palavra na construção da imagem poética e artística no cinema de Manoel de Barros; o cinema por Rubens Machado Jr, Ismail Xavier, André Bazin, Eduardo Nunes e Helder Mendoza. E ainda apresento três ensaios inspirados em filmes de Andrei Tarkovsky, Akira Kurosawa e Abbas Kiarostami. Um dos objetos de estudo foi a sequência da escadaria de Odessa, no filme <italic>Encouraçado Potemkin</italic>.</p>
			<p><bold>Lucinéa Villela-</bold> Como se deu sua formação em audiodescrição? Quais os modelos ou padrões que foram seguidos no começo de sua atuação?</p>
			<p><bold>Bell Machado</bold>- Estudei na Faculdade de Educação com o Prof. Milton de Almeida que me convidou para ser sua orientanda, quando estudávamos o Cinema Persa e as formas do olhar. Essa formação me deu um lastro. Posteriormente, estudei Cinema e Filosofia, mas na audiodescrição propriamente dita posso dizer que não tive nenhum modelo.</p>
			<p>A minha escola foi a Filosofia e o Cinema. A minha formação foi dada por Denis Diderot, porque na <italic>Carta sobre os Cegos</italic> ele investigava como a pessoa iria ressignificar algo; por Voltaire, porque ele usava as metáforas óticas em <italic>Cândido</italic>; por Hume quando diz que isso é belo porque me dá prazer ou isso me dá prazer porque eu achei belo.</p>
			<p>A minha escola era o Cinema Silencioso dos primórdios, desde Lumière, Porter e Griffith; era o Expressionismo Alemão, para falar do medo, do jogo das sombras a partir de Siegfried Kracauer. Depois o Construtivismo Russo, que é um dos objetos de estudo da minha Dissertação, do Eisenstein e Vertov. E estudei o Realismo Poético Francês, o Realismo Italiano, a Nouvelle Vague, o Cinema Novo de Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos, o Cinema Marginal e, por fim, os cinemas contemporâneos. Então, a minha escola foi o cinema, a linguagem cinematográfica. Quando eu falo que a linguagem cinematográfica para mim é um lastro para a audiodescrição no cinema é porque criar uma memória do imaginário cinematográfico na mente da pessoa que não enxerga é fundamental para a fruição dela e para a inclusão cultural.</p>
			<p>Eu nunca li nada de nenhum audiodescritor brasileiro, eu nem sabia que isso existia até 2008, quando ocorreu o 1º Encontro de Audiodescrição do Brasil, na Pinacoteca do Estado em SP, onde todos os pioneiros se encontraram. A partir dali eu comecei a compartilhar roteiros e ver o trabalho dos brasileiros. Até o evento em Recife, acho que em 2017, eu nunca estudei nenhum autor estrangeiro de audiodescrição, porque tudo que me traziam era da linguística e havia uns vícios de inclusão que eu sempre discordei. Eu só fui estudar os outros, fora do Brasil, depois quando fui conhecer a Josélia Neves<xref ref-type="fn" rid="fn5"><sup>5</sup></xref>, que eu adoro porque ela trabalha com produção poética.</p>
			<p>Estudei os brasileiros que participaram do 1º Curso de Especialização em Audiodescrição, em Juiz de Fora, como Eliana Franco, Lívia Motta e Vera Lúcia Santiago Araújo. E estudei os que vieram depois deles também, Iracema Vilalonga, o Francisco Lima, mas na verdade eu não me pautei neles. Ninguém me influenciou e até hoje ninguém me influencia. A não ser meus amigos, audiodescritores pioneiros. Eu leio os roteiros deles, a gente conversa, pois é uma construção mais coletiva, até o pessoal mais novo me influencia. Mas como base, na primeira década, ninguém me influenciou.</p>
			<p><bold>Lucinéa Villela:</bold> Quais funções você desempenha e para quais modalidades você audiodescreve?</p>
			<p><bold>Bell Machado</bold>: A primeira função que desempenho é na pesquisa de linguagens artísticas, para mim é uma condição sine qua nom, sou pesquisadora em primeiro lugar. Sou também roteirista, pois estudei Filosofia e Cinema. Como estudei Fonoaudiologia, trabalho com locução ao vivo ou gravada. Em 2008, conheci Cláudia Cotes, que era presidente da ONG Vez da Voz. Há 20 anos ela é fonoaudióloga da Globo em Campinas, me ensinou todas as técnicas de locução e depois fui me aperfeiçoando. Desempenho a função de revisora, quando tem projetos grandes de longa metragem, sou chamada para fazer revisão.</p>
			<p>Sou produtora, tenho uma empresa que organiza e faz a gestão de AD. Também trabalho na direção e na edição da AD e, finalmente, atuo como formadora em cursos de audiodescrição desde 2008. Ou seja, trabalho em todas as etapas.</p>
			<p> Vale dizer que eu sempre trabalho com consultores, desde que existia o Vídeo Narrado. Eu jamais gravei ou trabalhei sem a consultoria porque eu aprendi dessa forma, ninguém precisou me dizer que as pessoas com deficiência visual teriam o direito, para mim a questão é anterior, é a pluralidade do olhar de quem enxerga e de quem não enxerga. E nós nunca vamos saber o que é não enxergar, pois filosoficamente isso é impossível. Por isso eu não posso trabalhar sem um consultor de deficiência visual.</p>
			<p>Eu trabalho nas seguintes modalidades: cinema, festivais de teatro, museus, turismo, literatura (audiobooks), moda e, mais recentemente, obras pictóricas.</p>
			<p>Participei em 2020, durante a pandemia, de um projeto chamado Cartas em Torno da Sobrevivência (ou da Poesia da Sobrevivência). Foi um projeto de dois semestres de 2020, em plena pandemia gravei em casa dentro do armário, pois não estávamos saindo. Era a leitura de cartas de poetas trocadas nessa época da pandemia, cartas escritas à mão. Eu fui estudar grafologia, alguns cegos nem pensavam sobre isso, que as letras escritas à mão podiam ser diferentes e diziam algo de seu autor. Ao mesmo tempo que eu narrava as cartas, semanalmente, eu descrevia algumas fotos que eles tiravam em cada postagem e a caligrafia. Não só você dá voz para a escrita, para a poesia, para um autor, mas também para a forma da escrita.</p>
			<p><bold>Lucinéa Villela:</bold> Ao contrário de outros países, há uma tendência no Brasil de ter audiodescrição ao vivo para cinema. Qual sua opinião sobre isso?</p>
			<p><bold>Bell Machado</bold>: Eu não tenho muito ideia do que acontece fora do Brasil. Eu sempre fiz ao vivo, faz poucos anos que a gente tem AD gravada, agora com os equipamentos das salas de cinema, eu acho que vai ficar tudo mais fácil. Eu sempre gostei da AD ao vivo. Na época do Centro Cultural Braille, eu fazia ao vivo, sem roteiro, nem pensava em fazer roteiro. Eu já conhecia todos os filmes e fazia um pré-roteiro. Hoje em dia, mesmo que seja ao vivo, a gente faz um roteiro e a partir das deixas você vai narrando.</p>
			<p>Vale lembrar que a Lara e Graciella Pozzobon têm esse pioneirismo em AD ao vivo.</p>
			<p><bold>Lucinéa Villela</bold>: Minha percepção é de que fazer AD de cinema ao vivo no Brasil, acima de tudo, tem a ver com uma limitação financeira.</p>
			<p><bold>Bell Machado</bold>: Sim, tenho certeza. Trabalhei a vida inteira e fazia convênios com os cinemas de Campinas para me passarem as versões dubladas para eu fazer a AD. As salas não tinham equipamento e como eu já tinha o equipamento de AD, eu podia fazer, mas quando não tinha, fazia ao vivo mesmo, com som bem baixo, em pé na primeira fileira.</p>
			<p>Temos um governo que demorou para aprovar a obrigatoriedade da AD na televisão e depois as coisas continuaram no mesmo ritmo. Eu acho que a questão financeira foi de fato um grande entrave para a evolução da AD no Brasil porque os pioneiros trabalham fortemente com qualidade, com pesquisa, com atuação, mas a gente precisa gostar mesmo, porque ninguém que eu conheça está rico com AD.</p>
			<p><bold>Lucinéa Villela</bold>: O fato de as audiodescrições no Brasil não terem sido gravadas dificulta o registro histórico delas e sua catalogação. O que pode existir são alguns roteiros.</p>
			<p><bold>Bell Machado</bold>: Não tem gravação mesmo. Na minha dissertação, eu coloquei uma lista com os nomes de todos os filmes que eu audiodescrevi no Centro de Cultura Braile desde 1999.</p>
			<p>Em 2004, já tinha o Festival do Minuto, depois em 2006, a Mostra Cinema e Direitos Humanos e o Cine BR em Movimento. Eles mandavam os filmes para audiodescrição e fazíamos relatos de sessão com fotografias, mas não havia preocupação com o registro da AD. Não temos nem roteiro e nem gravação, para resumir.</p>
			<p><bold>Lucinéa Villela:</bold> Qual foi um marco na história da audiodescrição no Brasil nesses últimos 20 anos?</p>
			<p><bold>Bell Machado</bold>: Há um marco que foi a Lei 10.098, de dezembro de 2000, a lei sobre a obrigatoriedade da audiodescrição na televisão brasileira.</p>
			<p>Outro marco extremamente relevante foi o 1º Encontro de Audiodescrição na Pinacoteca do Estado de São Paulo, em 2008, porque os audiodescritores se encontraram e a partir dali começamos a compartilhar nossos saberes. Tinha pouquíssima gente nesse evento. Para mim foi marcante principalmente porque a Cláudia Cotes me convidou para a Vez da Voz e a gente começou a gravar as entrevistas do Telelibras com audiodescrição, LIBRAS, legenda e legenda da audiodescrição. Então ali eu a conheci e comecei a trabalhar profissionalmente. </p>
			<p>Depois, em 2016 ocorreu a publicação da Norma Brasileira 16452: Acessibilidade na Comunicação - Audiodescrição, as chamadas Normas Técnicas para audiodescrição no Brasil. Eu fui convidada para colaborar com essas normas. Embora precisem de revisão, foi um marco importante porque precisávamos de normas para que os canais televisivos não começassem a fazer de qualquer forma.</p>
			<p><bold>Lucinéa Villela:</bold> Há uma audiodescrição brasileira? Quais suas características? </p>
			<p><bold>Bell Machado</bold>: Fazem muito a pergunta sobre as características do cinema brasileiro contemporâneo, eu não consigo defini-lo com uma homogeneidade, uma unicidade, um perfil. Há muitos Brasis no Cinema Brasileiro. O último grande movimento do cinema brasileiro foi o Cinema Novo com o Glauber Rocha e o Nelson Pereira dos Santos.</p>
			<p>Na audiodescrição, eu também não vejo uma característica única. Existem nuances de escolhas tradutórias mais técnicas ou mais poéticas, e vemos algumas mais artísticas. Talvez quem é de fora, faça uma radiografia. Muita gente de fora ou amigos daqui dizem que a nossa AD é “boa”. Acho que sem juízo de valores há as mais técnicas, que se atém mais ao objeto, as menos verborrágicas, menos poéticas, seja na imagem estática ou em movimento, e há aquelas que realizam uma tradução mais intersemiótica. Acho interessante que muitos querem a objetividade da imagem, mas ela procura em nós a subjetividade. Há um grande equívoco nos audiodescritores que acreditam na verdade da imagem e em uma tradução objetiva. O olhar não é neutro, pois o olhar parte da subjetividade da realidade, que nunca é neutra.</p>
			<p>Eu posso dizer de um modo geral, que a audiodescrição brasileira é mais livre. E como para mim, a arte não deve servir a nada, eu acho a nossa audiodescrição uma maravilha porque ela é livre. Ela se comunica com liberdade. Daí, temos também a língua portuguesa que é maravilhosa. Tanto que a Letícia Schwartz tem uma pesquisa interessante sobre os roteiros das audiodescrições estrangeiras que chegam ao Brasil, se a gente pode utilizá-los para adaptar para a AD brasileira e não somente traduzir. Ela afirma que tem que ser um audiodescritor, ele tem que trazer a língua estrangeira (no caso, o inglês) para cá, porque a gente vai conseguir adequar, não basta ser um tradutor sem formação em AD, porque ele pode matar a unidade descritiva. Esse é um caminho mais fácil. Traduzir o que vem pronto.</p>
			<p>No Brasil, basta ver os grandes movimentos artísticos e a música, não tem nada igual. A gente tem um caldo cultural aqui. E quando você tem audiodescritores que conhecem a sua cultura, eles revelam na AD uma outra obra. A meu ver, a AD é uma criação, é uma recriação artística. Então nós temos uma audiodescrição muito rica.</p>
			<p><bold>Lucinéa Villela</bold>: Nesse sentido, para cada país há aspectos culturais muito ricos que podem levar à formação de sua própria audiodescrição. Ou seja, a AD está atrelada à cultura de chegada.</p>
			<p><bold>Bell Machado</bold>: Sim, a AD sendo uma tradução, teoricamente falando, revela por meio das palavras a cultura, que está impregnada no sentido da palavra. A poeticidade da palavra é muito forte na tradução da imagem.</p>
			<p>Você tem razão, a questão cultural reflete na poeticidade da palavra do audiodescritor. Mas o Milton Santos fala uma coisa que eu carrego sobre a sabedoria do pobre. Segundo ele, pobre é sábio porque ele tem a experiência da escassez. A experiência do que ele vale realmente. Isso é uma coisa que dá uma noção de cidadania, portanto, uma noção de alteridade do Platão, de se colocar no lugar do outro, eu acho que isso faz um indivíduo brasileiro mais potente no sentir o outro. Portanto, quando ele vai traduzir uma imagem, ele tem um acervo simbólico daquelas imagens que, se bem utilizado, ele pode fazer um roteiro de audiodescrição inovador.</p>
			<p><bold>Lucinéa Villela</bold>: Você acha que as mulheres são as protagonistas na audiodescrição brasileira? Por quê?</p>
			<p><bold>Bell Machado</bold>: No Brasil, eu lembro que a maioria das mulheres pioneiras da audiodescrição estava ligada à questão acadêmica (Vera Lúcia Santiago Araújo, Lívia Motta e Eliana Franco), pode ter uma relação com o ensino.</p>
			<p>Talvez também a relação da mulher com o humanismo, com o colocar-se no lugar do outro, pois seu lugar já é tão duro. Ela tem que dar conta da sua vida, da sua família e do seu sustento. Eu acho que é um movimento histórico da própria mulher em buscar seu trabalho sempre tentando percorrer um caminho, uma missão que esteja ligada em buscar saber o que está acontecendo com os outros.</p>
			<p>Eu acho que a mulher pode ser uma grande protagonista na AD porque em certo sentido, as coisas que lhe dão prazer estão ligadas a ela de uma forma solitária. Nós somos solitárias, uma relação é solitária, um ato sexual é solitário. Vejo por mim, quando comecei a estudar AD e a fazer o Mestrado, em três anos eu me separei. Na história das mulheres, elas têm que optar entre uma coisa ou outra. E eu acho que elas encontraram na audiodescrição uma liberdade que lhes satisfaz.</p>
			<p>A audiodescrição é muito humana, o que eu acho lindo na audiodescrição é tentar entender o olhar do outro que não enxerga. Como ele cria a ilusão, como ele viaja, como é sua fruição. Eu acho que todas essas mulheres pioneiras em audiodescrição que conheço são apaixonadas pelo olhar do outro, por saber como o outro está. Por isso que a gente se deu muito bem na pandemia. Nós demos as mãos, trabalhamos muito de graça e por muito pouco, a gente não parou de trabalhar.</p>
			<p><bold>Lucinéa Villela</bold>: Eu observei nas outras entrevistas que mesmo que vocês vivam profissionalmente da audiodescrição, o grande prazer que ela proporciona não é o financeiro, certo?</p>
			<p><bold>Bell Machado</bold>: A audiodescrição não paga todas as nossas contas, mas nós temos outras contas para acertar com o mundo e é isso que nos sustenta. Melhor dizendo: a audiodescrição não dá conta de nossa vida financeira, mas nós queremos outras contas. São essas contas que nos deixam livres.</p>
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	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>Foram entrevistadas as seguintes audiodescritoras entre setembro de 2020 até setembro de 2021: Lívia Motta, Kemi Oshiro, Maria Emília Aragón (Mimi Aragón), Lara Pozzobon e Bell Machado.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p>O Cultura Viva é um programa da Secretaria de Programas e Projetos Culturais do Ministério da Cultura do Brasil (MinC) que busca financiar práticas culturais pré-existentes de grupos e associações culturais por meio do repasse direto de recursos. Na época, o programa era coordenado por Célio Turino e o ministro era Gilberto Gil.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p>Dissertação defendida no Programa de Mestrado em Multimeios do Instituto de Artes da Unicamp: <italic>A parte invisível do olhar: audiodescrição no cinema: a constituição das imagens por meio das palavras - uma possibilidade de educação visual para a pessoa com deficiência visual no cinema.</italic></p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>5</label>
				<p>Josélia Neves tem licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, Mestrado em Estudos Ingleses, com uma tese em Legendagem para Surdos, pela Universidade de Surrey Roehampton (Londres) e Universidade de Aveiro. Especialista em Legendagem, Legendagem para surdos, Audiodescrição, Transcriação áudio-táctil e Comunicação multissensorial. Atualmente é Professora na Hamad bin Khalifa University, no Catar, no Mestrado em Tradução Audiovisual. É membro do grupo de investigação internacional TransMedia e membro do Conselho Diretor da European Association for Studies in Screen Translation.</p>
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