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				<journal-title>Revista de Tradução e Terminologia</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Revista de Tradução e Terminologia</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="ppub">2317-9511</issn>
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				<publisher-name>Centro Interdepartamental de Tradução e Terminologia da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.11606/issn.2317-9511.v36i0p5-22</article-id>
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					<subject>Articles</subject>
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				<article-title>Traduções do feminino em Persuasion, de Jane Austen</article-title>
				<article-title xml:lang="en">Translations of the feminine in Persuasion, by Jane Austen</article-title>
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					<contrib-id contrib-id-type="orcid">https://orcid.org/0000-0003-2468-0584</contrib-id>
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						<surname>Silvestre</surname>
						<given-names>Marcela Aparecida Cucci</given-names>
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						<surname>Lima</surname>
						<given-names>Jonathan Gustavo Pessoa Cavalcanti de</given-names>
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					<xref ref-type="aff" rid="aff2">**</xref>
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				<label>*</label>
				<institution content-type="orgname">Universidade Federal do Rio Grande do Norte</institution>
				<email>mcsilvestre@ect.ufrn.br</email>
				<institution content-type="original">Doutora em Estudos Literários pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho - Campus de Araraquara. Professora Associada do curso de Ciências e Tecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. E-mail: mcsilvestre@ect.ufrn.br.</institution>
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				<label>**</label>
				<institution content-type="orgname">Universidade Federal do Rio Grande do Norte</institution>
				<email>jogu_@ufrn.edu.br</email>
				<institution content-type="original">Graduando em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. E-mail: jogu_@ufrn.edu.br</institution>
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			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
				<day>29</day>
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				<year>2021</year>
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			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
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			</pub-date>
			<volume>36</volume>
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			<lpage>22</lpage>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>Estudos recentes indicam que o conceito de tradução tem sido repensado no sentido de se atribuir ao ato tradutório uma dimensão artística e subjetiva. Com isso, a questão da obrigação de fidelidade ao texto original, que por muito tempo foi central nas discussões sobre a boa qualidade das traduções, é colocada em suspeição. Os Estudos da Tradução manifestam um interesse crescente sobre o papel cultural do texto traduzido e da figura do tradutor na sociedade. A associação dos Estudos da Tradução com a Crítica Literária Feminista busca detectar e comparar como os tradutores lidam com as ocorrências presentes no texto-fonte e a sua recriação no texto traduzido. Com base nos aspectos teóricos apontados, a presente pesquisa propõe uma análise descritiva e comparativa entre a obra <italic>Persuasion</italic> (1818), da escritora inglesa Jane Austen, e duas traduções para o português brasileiro, produzidas por Celina Portocarrero (<xref ref-type="bibr" rid="B3">L&amp;PM, 2017</xref>) e Roberto Leal Ferreira (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Martin Claret, 2012</xref>), observando a importância da interferência do tradutor e de suas concepções socioculturais no processo de produção de sentido dos textos traduzidos.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>Abstract</title>
				<p>Recent studies show a re-evaluation of the concept of translation so that its artistic and subjective dimensions are accepted. Thus, the obligation of fidelity to the original text, which, for a long time, was central during discussions about the good quality of translations, is put under suspicion. Translation Studies express growing interest in the cultural role of the translated text and the figure of the translator in society. The association between Translation Studies and Feminist Literary Criticism aims to detect and compare how the translators deal with some excerpts in the source-text and their recreation in the translated texts. Based on the theoretical aspects mentioned, the study proposes a descriptive and comparative analysis between Persuasion (1818), by the English writer Jane Austen, and two translations into Brazilian Portuguese, produced by Celina Portocarrero (<xref ref-type="bibr" rid="B3">L&amp;PM, 2017</xref>) and Roberto Leal Ferreira (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Martin Claret, 2012</xref>), observing the importance of the translators’ interference and their sociocultural concepts in the production processes of text meaning in translated texts.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Estudos Descritivos da Tradução</kwd>
				<kwd>Literatura de autoria feminina</kwd>
				<kwd>Crítica Literária Feminista</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Descriptive Translation Studies</kwd>
				<kwd>Female Authorship Literature</kwd>
				<kwd>Feminist Literary Criticism</kwd>
			</kwd-group>
			<counts>
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	<body>
		<sec>
			<title><bold>1. Traduções do feminino em <italic>Persuasion</italic>, de Jane Austen</bold></title>
			<p>Para muitos, a atividade da tradução ainda se resume somente à transposição de um texto que está em uma determinada língua para outra língua. Porém, estudos mais recentes da área indicam que o conceito de tradução tem sido repensado no sentido de se atribuir ao ato tradutório uma dimensão artística e subjetiva.</p>
			<p>Com isso, a questão da obrigação de fidelidade ao texto original, que, por muito tempo, foi central nas discussões sobre a boa qualidade das traduções, é colocada em suspeição, permitindo inclusive que conceitos como o da visibilidade do tradutor e da tradução como recriação ganhem relevância. <xref ref-type="bibr" rid="B8">Lefevere (2007</xref>: 11), por exemplo, compreende a tradução como uma reescrita do texto original e complementa: “toda reescritura, qualquer que seja a sua intenção, reflete uma ideologia e uma poética e, como tal, manipula a literatura para que ela funcione dentro de uma determinada sociedade e de uma determinada forma”. Assim, se o ato de escrever parte do lugar de fala do autor e a tradução entra em cena como uma reescrita do texto realizada por outro sujeito e para outro público, as concepções socioculturais presentes no discurso literário do texto original podem se apresentar de maneiras distintas no texto traduzido.</p>
			<p>Isso acontece porque, durante o processo tradutório, além das questões linguísticas que fazem parte das escolhas do tradutor, os fatores culturais e ideológicos também são considerados inerentes a essa tarefa. Parte-se do preceito de que a linguagem está diretamente relacionada à posição social de um enunciador, e o tradutor, ao estar obrigatoriamente inserido em um determinado contexto social, encontra-se regido por normas, princípios e valores que refletem esse contexto. Desse modo, sendo a tradução uma reconstrução de discurso, as competências linguísticas de quem traduz seriam inevitavelmente atravessadas por aspectos sociais que, por sua vez, podem recair sobre o texto-alvo.</p>
			<p>Nos últimos tempos, a área da tradução vem ocupando um lugar de destaque nas Ciências Humanas. Sua importância vai muito além do simples oferecimento de textos originalmente escritos em línguas estrangeiras em outras línguas. Mais do que isso, trata-se de uma ferramenta essencial que estabelece o contato direto entre culturas e maneiras diferentes de enxergar a realidade, permitindo uma rica troca de experiências entre as pessoas.</p>
			<p>E, apesar de ser considerada uma das atividades mais antigas da Humanidade, a tradução ainda não parece ter alcançado uma concepção consistente baseada em princípios e diretrizes universais, capazes de estabelecer as bases teóricas sólidas para sua sistematização. Somente na segunda metade do século XX a tradução passa a ter reconhecimento acadêmico, dando origem aos Estudos da Tradução, que “começaram com uma decisão de suspender temporariamente as tentativas de definir uma teoria de tradução, procurando em primeiro lugar aprender mais a respeito dos procedimentos de tradução” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">GENTZLER 2009</xref>: 109).</p>
			<p>Com o objetivo de estudar sistematicamente a tradução e suas correlações com a linguagem, os Estudos da Tradução cativaram diferentes escolas de pensamento, cada uma propondo abordagens de acordo com as particularidades dessas áreas. Inicialmente, a obrigatoriedade de equivalência entre texto-fonte e texto-alvo ocupava o centro dos debates, mas logo essa discussão foi sendo superada pelo surgimento de uma série de teorias pós-modernas da linguagem, no fenômeno que ficou conhecido como virada cultural, que trouxe aos Estudos da Tradução um interesse crescente sobre o papel cultural do texto traduzido e da figura do tradutor na sociedade. Como consequência, as discussões sobre equivalência abriram espaço a questões mais amplas como aquelas abordadas nos Estudos Descritivos da Tradução (a serem explorados a seguir), na Teoria de Escopos, que prioriza a função do texto traduzido e na Tradução Cultural, que se debruça sobre as transformações que ocorrem em um texto quando inserido na nova cultura por meio da tradução. Para Munday:</p>
			<disp-quote>
				<p>Translation studies is the academic discipline related to the study of the theory and phenomena of translation. By its nature it is multilingual and also interdisciplinary, encompassing any language combinations, various branches of linguistics, comparative literature, communication studies, philosophy and a range of types of cultural studies including postcolonialism and postmodernism as well as sociology and historiography<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref>. (<xref ref-type="bibr" rid="B10">2010</xref>: 1)</p>
			</disp-quote>
			<p>Ao aliar-se a diversas áreas do conhecimento para alcançar seus objetivos, os Estudos da Tradução passam a contar com um vasto arsenal de abordagens e metodologias. Chama a atenção um desses novos paradigmas de análise que é voltado ao produto da tradução, à sua função e ao processo tradutório propriamente dito, abandonando a postura prescritiva e o juízo de valores: trata-se dos Estudos Descritivos da Tradução, uma abordagem de cunho descritivo que permite trabalhar produtos culturais de maneira mais holística. Tal abordagem tem como ponto de partida o pensamento dos Formalistas Russos sobre o uso de métodos científicos aplicados a produtos culturais (<xref ref-type="bibr" rid="B11">PYM 2017</xref>: 131), bem como a Teoria dos Polissistemas, que compreende o produto cultural (as traduções, por exemplo) como pertencente a um contexto mais geral integrado por outros sistemas, assim desempenhando importante papel no desenvolvimento de sistemas culturais. Nessa perspectiva, o texto é compreendido como um evento comunicativo proveniente do acúmulo de repertório intelectual e da posição sociocultural de quem escreve, compondo o discurso literário presente na obra que, por sua vez, torna-se uma via de transmissão cultural e ideológica.</p>
			<p>Uma das relações mais efetivas dos Estudos da Tradução se deu com a Crítica Literária Feminista, cuja preocupação é de “revisar conceitos previamente tidos como universais e restaurar uma perspectiva feminina ampliando o conhecimento da mulher em geral e sua contribuição para a cultura como um todo” (<xref ref-type="bibr" rid="B6">CALDAS 1987</xref>: 832).</p>
			<p>Para Elaine Showalter, renomada representante da Crítica Literária Feminista anglo-americana, essa área de pesquisa está dividida em dois tipos. Enquanto o primeiro se baseia na História e trabalha com as questões ideológicas na obra literária, além de estudar as imagens e os estereótipos femininos, o segundo tipo, a que Showalter dá o nome de “Ginocrítica” e que servirá de suporte teórico ao presente trabalho, inclui principalmente a psicodinâmica da criatividade feminina e o estudo da trajetória de escritoras e suas obras. Para Showalter, a utilização do termo Ginocrítica refere-se mais amplamente à cultura feminina pois “incorpora idéias sobre o corpo, a linguagem e a psique da mulher, que são interpretadas em relação aos contextos sociais em que ocorrem” (<xref ref-type="bibr" rid="B9">LOBO 1999</xref>: 45-46).</p>
			<p>A partir da aproximação entre essas diferentes áreas é possível detectar, por exemplo, uma clara relação de poder entre as posições do tradutor e do autor e entre a mulher e o homem, já que:</p>
			<disp-quote>
				<p>os tradutores, como as mulheres, seriam uma categoria oprimida pela ideologia dominante - o machismo, no caso das mulheres, e o culto ao original, no caso dos tradutores. Não seria coincidência, observam eles, que historicamente tenha havido tantas mulheres se ocupando do trabalho de tradução, e relativamente tão poucas mulheres autoras de obras literárias reconhecidas como canônicas (<xref ref-type="bibr" rid="B5">BRITTO 2012</xref>: 23).</p>
			</disp-quote>
			<p>A associação dos Estudos da Tradução com a Crítica Literária Feminista busca detectar e comparar como os tradutores lidam com as ocorrências presentes no texto-fonte e a sua recriação no texto traduzido. Como consequência, a nova área se volta para tentar compreender como a tradução lida com as questões de gênero em textos de autoria feminina. Tais questões, ao mesmo tempo em que proporcionam reflexão e discussão sobre como a linguagem pode ser excludente e patriarcal, também propõem novas formas de interpretação de textos escritos por mulheres, “desconstruindo os procedimentos da crítica masculina e instaurando referentes que induzam os leitores (homens e/ou mulheres) a questionar a própria modalidade de leitura e a ideologia inscrita no texto” (<xref ref-type="bibr" rid="B13">ZINANI 2006</xref>: 33).</p>
			<p>Diante dessa preocupação, surge no Canadá um grupo de estudiosas de tradução e feminismo mais radicais, interessadas em desafiar a ideia de “invisibilidade” do tradutor e defendendo que, “ao traduzir um texto machista, a tradutora feminista consciente deve subverter o sentido do original, a fim de atacar o machismo em suas fontes” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">BRITTO 2012</xref>: 24). Com isso, as traduções feministas propriamente ditas têm por objetivo não somente denunciar a presença de traços da linguagem patriarcal nos textos, mas, principalmente, desafiar a própria ideia de autoria e fidelidade, alterando de forma intencional o sentido de certos trechos.</p>
			<p>Entretanto, essa visão mais radical da Tradução Feminista tem sido criticada por vários estudiosos da área, no sentido de que, ao subverter o sentido de textos originais com o intuito de desbancar seu caráter patriarcal, a tradutora feminista estaria, por sua vez, igualmente tentando impor a sua perspectiva ideológica às obras. Arrojo, por exemplo, acredita que, mesmo entendendo a necessidade de as tradutoras lutarem pelo poder e assumirem o controle dos significados dos textos, deve-se buscar uma teoria da tradução mais pacifista, baseada na colaboração respeitosa entre autor e tradutor. Para ela, “the recognition of such a need, which is one of the most revolutionary insights we can learn from contemporary thought, does not have to be associated to the death, the destruction, or even the betrayal of the ‘original’” (<xref ref-type="bibr" rid="B1">ARROJO 1995</xref>: 74)<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref>.</p>
			<p>Apesar da existência de abordagens extremas como essas que tentam apagar marcas da ideologia patriarcal dos textos e se afastam do objetivo do presente artigo, é fato que a tradução, a partir dessa mudança de perspectiva, passou a ser concebida como uma atividade política, de caráter crítico, enquanto os tradutores assumiram a posição de recriadores do texto literário, já que, como quaisquer outros leitores, também interpretam o texto original a partir de seus próprios valores e crenças.</p>
			<p>No Brasil, a discussão em torno dos Estudos da Tradução aliados aos Estudos Feministas ainda ocorre em espaços muito restritos. Em uma busca no Portal de Periódicos da CAPES sob o filtro “tradução e gênero” foi encontrado um total de trinta e três artigos produzidos durante o período de 2008 a 2018. Tais dados não só evidenciam a escassez de estudos na área como também sugerem a necessidade de maior produção científica voltada às traduções literárias sob esse prisma no contexto brasileiro.</p>
			<p>Diante dessa justificativa e com base nos aspectos teóricos abordados até o momento, a presente pesquisa propõe uma análise descritiva e comparativa entre a obra <italic>Persuasion</italic> (1818), da escritora inglesa Jane Austen, e duas traduções para o português brasileiro, produzidas por Celina Portocarrero (<xref ref-type="bibr" rid="B3">L&amp;PM, 2017</xref>) e Roberto Leal Ferreira (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Martin Claret, 2012</xref>). A primeira tem um repertório de traduções em parceria com diversas editoras nacionais. <italic>Persuasion</italic> e <italic>Pride and Prejudice</italic> foram as únicas obras de Austen que ela traduziu, enquanto Ferreira assinou, além do romance em questão, a tradução de <italic>Sense and Sensibility</italic>, <italic>Pride and Prejudice</italic>, <italic>Mansfield Park</italic>, <italic>Emma</italic> e <italic>Northanger Abbey</italic>.</p>
			<p>Sabe-se que o último trabalho de Jane Austen foi <italic>Persuasion,</italic> publicado um ano após o falecimento da autora e que teve o título escolhido por Henry, irmão e editor de Jane, inspirado nos nomes dos seus primeiros trabalhos. O enredo é ambientado em uma pequena cidade inglesa, onde a burguesia começava a perder relevância diante da ascensão social pelo trabalho, exemplificado na obra pela classe naval. Nesse contexto, o leitor é apresentado à família Elliot, composta por Sir Walter e suas três filhas, além de entrar em contato com os dilemas que surgiram a partir do falecimento da matriarca, já que vai caber ao pai a tarefa de conduzir a família e manter a posição de privilégio social que tanto preza, enfrentando dificuldades financeiras e tentando casar as meninas com pares à altura de seu status.</p>
			<p>A análise se desenvolveu em torno de dois eixos principais. O primeiro deles diz respeito às descrições de algumas personagens femininas na obra, uma vez que é a partir das descrições que são configurados os paradigmas de como as personagens são lidas ao longo da narrativa, determinando seus comportamentos, o que se pode esperar delas, o que motivam suas ações, suas aparências e demais características. O segundo ponto foca em um diálogo, já no clímax da trama, entre Anne e o Capitão Harville, em que o ponto de vista feminista da personagem principal é declarado mais abertamente.</p>
			<p>Paralelamente, a análise também se debruçou sobre as duas traduções da obra. Desde o início, Portocarrero propõe um texto que se mostra mais próximo à língua-alvo, fazendo com que a leitura da narrativa seja mais fluida para o leitor contemporâneo. Além disso, sua tradução realça uma visão mais atenta às questões feministas, mantendo proximidade também com aspectos culturais presentes na sociedade brasileira do século XXI. Já Ferreira, apesar de igualmente prezar pela fluidez da leitura, apresenta um texto que parece alternar entre a aproximação com a língua-fonte e com a língua-alvo. Suas escolhas lexicais compõem, ao longo da tradução, um vocabulário de registro mais elevado, que se justifica pelo estilo de época da narrativa. Contudo, em determinados momentos, esse registro é interrompido por expressões coloquiais do português moderno, quebrando a proposta inicial. Com relação às questões de gênero, que são de grande relevância no conjunto da obra de Austen, alguns excertos da tradução de Ferreira parecem incorrer em um distanciamento da orientação feminista da autora, o que pode ser interpretado como ausência de preocupação com o tema.</p>
			<p>Apesar disso, nota-se que, de maneira geral, as duas traduções escolhidas acompanham a escrita do texto-fonte no que tange às descrições das personagens femininas, no sentido de preservar a posição do narrador na valorização e exaltação dessas figuras, enquanto que as personagens masculinas, em sua maioria, mostraram-se mais limitadas, apagadas, até mesmo caricatas e apresentando falhas de caráter. Isso pode ser verificado na descrição do pai de Anne tanto no original como nas traduções vistas na <xref ref-type="table" rid="t1">Tabela 1</xref>:</p>
			<disp-quote>
				<p>Vanity was the beginning and the end of Sir Walter Elliot's character; vanity of person and of situation. He had been remarkably handsome in his youth; and, at fifty-four, was still a very fine man. Few women could think more of their personal appearance than he did, nor could the valet of my new made lord be more delighted with the place he held in society. He considered the blessing of beauty as inferior only to the blessing of a baronetcy; and the Sir Walter Elliot, who united these gifts, was the constant object of his warmest respect and devotion. His good looks and his rank had one fair claim on his attachment; since to them he must have owed a wife of very superior character to any thing deserved by his own (<xref ref-type="bibr" rid="B2">AUSTEN 2016</xref>: 10).</p>
			</disp-quote>
			<p>
				<table-wrap id="t1">
					<label>Tabela 1:</label>
					<caption>
						<title>Tabela comparativa de trechos de traduções 1</title>
					</caption>
					<table>
						<colgroup>
							<col/>
							<col/>
						</colgroup>
						<thead>
							<tr>
								<th align="center">PORTOCARRERO</th>
								<th align="center">FERREIRA</th>
							</tr>
						</thead>
						<tbody>
							<tr>
								<td align="left">A vaidade era o começo e o fim da personalidade de Sir Walter Elliot; vaidade por seu aspecto e por sua posição. Fora extraordinariamente bonito na juventude e, aos 55, era ainda um homem muito atraente. Poucas mulheres se preocupariam mais com a aparência pessoal do que ele, e nem o criado de qualquer recém-sagrado lorde se encantaria mais com seu lugar na sociedade. Considerava a bênção da beleza apenas inferior à benção do título de Baronete, e ser Sir Walter Elliot, que reunia tais dons, era o constante objetivo de seu mais caloroso respeito e admiração. Sua boa aparência e posição eram razões válidas para sua dedicação, já que a elas se devia uma esposa de personalidade muito superior a tudo o que, pela sua, teria merecido (PORTOCARRERO 2017: 16).</td>
								<td align="left">A vaidade era o começo e o fim da personalidade de sir Walter Elliot; vaidade de pessoa e de condição social. Fora notavelmente bem-apessoado na juventude; e, aos cinquenta e quatro anos de idade, ainda era um homem muito atraente. Poucas mulheres se ocupavam mais da aparência pessoal do que ele, nem um valete de algum fidalgo recém-criado estaria mais deslumbrado com a posição que ocupava na sociedade. Considerava o dom da beleza apenas inferior ao dom de Baronete; e sir Walter Elliot, que reunia ambos os dons, era o objeto constante do mais caloroso respeito e devoção. Sua boa aparência e sua fidalguia tinham direitos razoáveis à sua afeição, pois devia a estas ter-se casado com uma mulher muito superior ao que ele próprio merecia (FERREIRA 2012: 11).</td>
							</tr>
						</tbody>
					</table>
				</table-wrap>
			</p>
			<p>O leitor é apresentado a um patriarca de origem nobre, mas que tem a personalidade moldada por características que fogem ao espectro da nobreza de caráter. A futilidade de sir Walter aponta para o declínio moral da sociedade burguesa, autocentrada e superficial, que ambienta a narrativa de <italic>Persuasion</italic>
 <bold>.</bold> Como se pode notar nas traduções, embora diferentes em estilo uma da outra, ambas correspondem amplamente ao texto-fonte na leitura da personagem, enfatizando os traços negativos de sua personalidade egoísta, preconceituosa e vaidosa, sempre preocupado em manter as aparências e pouco afeito às preocupações da vida prática.</p>
			<p>Assim como no original, as traduções também evidenciam o uso de recursos como a ironia e a comicidade nas formas de apresentação de Sir Walter, conforme aparece exemplificado nos trechos destacados acima. Nota-se, aqui, grande compatibilidade entre ambas as traduções na descrição da personagem masculina e sua depreciação, embora o mesmo não vá se repetir na descrição de Lady Elliot, a primeira personagem feminina a aparecer na narrativa.</p>
			<p>Ao estabelecer uma comparação entre as personalidades do marido e de Lady Elliot, o excerto acima deixa clara a superioridade da mulher em relação a Sir Walter e ridiculariza a excessiva importância que ele dá a atributos pouco importantes para a formação do caráter de uma pessoa. Nesse sentido, as características positivas que são esperadas de um nobre vão ser atribuídas à sua esposa que, embora não tenha nascido em uma família tradicional, corresponde mais à nobreza de caráter valorizada pelo narrador. Assim é considerada a falecida mãe de Anne, Lady Elliot, personagem lembrada em diversos momentos da trama e cuja descrição se mostra de grande relevância para a compreensão da obra.</p>
			<p>A voz narradora que invoca Lady Elliot apresenta a matriarca da família como uma mulher amável e sensível, possuidora de um caráter gentil e uma conduta quase irreparável. Também regida por princípios como fidelidade e retidão, ela conseguiu promover a respeitabilidade da família por todos os anos em que esteve casada, graças à maneira bem-humorada com que suavizava ou até mesmo escondia os defeitos do marido.</p>
			<p>Além de todas as qualidades necessárias à mulher de seu tempo, Lady Elliot mostrou também sua face racional e prática, ao ser capaz de gerenciar as finanças da casa com moderação e planejamento, atitude que, além de revelar quem, de fato, liderava a família, também reforçou a percepção de dependência do marido em relação a ela, como mostra o seguinte trecho: “While Lady Elliot lived, there had been method, moderation, and economy, which had just kept him within his income; but with her had died all such right-mindedness, and from that period he had been constantly exceeding it” (<xref ref-type="bibr" rid="B2">AUSTEN 2016</xref>: 14)<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>3</sup></xref>.</p>
			<p>Por essa razão, sua ausência se mostra tão determinante no desencadeamento dos problemas financeiros da família, já que era Lady Elliot quem regia a casa, cuidava da economia e das meninas e. É após seu falecimento que a família entra em processo de falência, devido à falta de pagamento das dívidas e aos elevados gastos do baronete e de Elizabeth, irmã mais velha de Anne.</p>
			<p>Uma leitura atenta permite ao leitor inferir que a importância da caracterização da personagem Lady Elliot reside no fato de que muitas de suas qualidades também serão atribuídas à filha ao longo do texto. Diante disso, pode-se afirmar que, logo no início da trama, as principais características de Anne foram descritas apenas de maneira indireta, uma vez que suas opiniões e sentimentos não são revelados pelo narrador. Tal estratégia de espelhamento entre mãe e filha pode ter sido adotada no sentido de mostrar o apagamento da personagem principal em relação ao seu núcleo familiar, pois, como foi possível notar no primeiro capítulo, a heroína quase não possui voz ou qualquer poder sobre a própria vontade, permanecendo em segundo plano até que sua figura tenha sido devidamente situada em meio à sociedade e à família. É como se a personagem feminina simplesmente não tivesse importância enquanto não fosse formalmente inserida em uma relação social como o casamento. Tal situação evidencia o contexto de silenciamento das mulheres na sociedade, principalmente as solteiras, bem como sua completa dependência em relação à autoridade familiar e às convenções do matrimônio. Com esse recurso foi possível estender o leque de características atribuídas a Anne mesmo antes de a personagem ter sua voz ouvida, o que vai ocorrer somente no segundo capítulo.</p>
			<p>Apesar dessas correlações entre as personagens observadas no original, as traduções para o português das descrições iniciais de Lady Elliot revelam a existência de diferentes leituras da conduta dessa personagem na juventude, o que poderia invalidar os argumentos defendidos acima, tanto sobre o espelhamento nos comportamentos de mãe e filha como sobre a valorização das personagens femininas:</p>
			<disp-quote>
				<p>Lady Elliot had been an excellent woman, sensible and amiable; whose judgement and conduct, <italic>if they might be pardoned the youthful infatuation which made her Lady Elliot</italic>, had never required indulgence afterwards. - She had humoured, or softened, or concealed his failings, and promoted his real respectability for seventeen years (<xref ref-type="bibr" rid="B2">AUSTEN 2016</xref>: 10, grifos nossos).</p>
			</disp-quote>
			<p>
				<table-wrap id="t2">
					<label>Tabela 2:</label>
					<caption>
						<title>Tabela comparativa de trechos de traduções 2</title>
					</caption>
					<table>
						<colgroup>
							<col/>
							<col/>
						</colgroup>
						<thead>
							<tr>
								<th align="center">PORTOCARRERO</th>
								<th align="center">FERREIRA</th>
							</tr>
						</thead>
						<tbody>
							<tr>
								<td align="left">Lady Elliot fora uma excelente mulher, sensível e amável, cujo julgamento e conduta, <italic>se perdoada a paixonite juvenil que a tornou Lady Elliot,</italic> nunca mais mereceram qualquer censura. Ela desculpou, amenizou ou ocultou as falhas do marido, sustentando a sua real respeitabilidade ao longo de dezessete anos (PORTOCARRERO, 2017: 16, grifos nossos).</td>
								<td align="left">Lady Elliot fora uma excelente mulher, sensata e carinhosa, cujo julgamento e conduta, <italic>se lhes forem perdoadas as paixões de juventude que fizeram dela lady Elliot,</italic> nunca mais tiveram de ser tratados com indulgência. Passou por cima, não deu atenção nem escondeu durante dezessete anos os defeitos do marido, e promoveu a sua real respeitabilidade (FERREIRA, 2012: 11, grifos nossos).</td>
							</tr>
						</tbody>
					</table>
				</table-wrap>
			</p>
			<p>Como se pode notar na tradução de Portocarrero (<xref ref-type="table" rid="t2">Tabela 2</xref>) que acompanha a ideia do texto original, a única “falha” de conduta atribuída à matriarca da família deveu-se a uma paixonite juvenil que a levou a se casar com Sir Walter. O emprego do vocábulo “paixonite”, no singular, não abre margem para leituras que divergem sobre quantos amores foram vividos por ela até o momento de seu casamento. Por um lado, tal opção valoriza a determinação da personagem sobre a escolha do marido, já que foi o único homem de sua vida, e corrobora a ideia de que a caracterização de Lady Elliot introduz a história da filha, anunciando a fiel determinação de Anne pelos seus sentimentos em relação a Frederick, sua paixão juvenil, que vai se confirmar no decorrer da obra. Por outro lado, é preservada a reputação de Lady Elliot, uma vez que a sociedade do século XIX não aprovaria uma mulher que tivesse tido várias paixões.</p>
			<p>Contrariamente, Ferreira, ao trazer em seu texto o vocábulo “paixões”, no plural, permite uma interpretação diferente daquela proposta pelo texto-fonte e influencia, de maneira direta, a imagem da personagem em questão, que pode ser lida como alguém que, além desse, teve também outros amores. Sendo assim, a escolha da palavra no plural pode resultar em um processo de depreciação do caráter dessa personagem feminina, no sentido de que ela pode ter se envolvido com vários homens, o que seria altamente reprovável na sociedade da qual fazia parte. Com isso, sua atitude não a definiria mais como uma personagem tão determinada e virtuosa, além de invalidar a hipótese de que Anne seria espelho da mãe.</p>
			<p>Nesse caso, pode-se verificar claramente que as escolhas lexicais de Ferreira tiveram um impacto importante na interpretação do sentido do trecho analisado, afetando particularmente as concepções referentes às personagens femininas da tradução em relação ao texto original. Com isso, a visão do tradutor não correspondeu à subversão estética de Austen, cuja construção de personagens constitui um discurso que desafia, em si, o meio patriarcal, ao fazer uso de uma nova perspectiva para criticar esse sistema e questionar sua validade.</p>
			<p>Assim, em se tratando de um texto literário de autoria feminina que responde criticamente ao seu meio de produção e contexto social, é necessário dedicar atenção às manifestações desse discurso quando reproduzido em novas culturas por meio de traduções. <xref ref-type="bibr" rid="B12">Simon (1996</xref>: 2) argumenta que uma tradução atenta às questões de gênero é fruto de um procedimento que não se mantém fiel somente ao autor ou ao leitor, mas ao projeto de escrita, no qual o tradutor se aliaria à autora da obra para uma colaboração na construção do texto traduzido.</p>
			<p>O segundo eixo do trabalho a ser analisado trata do clímax da narrativa que, durante um diálogo entre Anne e o Capitão Harville, amigo de Frederick, sintetiza o conflito de gêneros característico da obra e perpassa temas como educação e literatura, expondo as perspectivas do homem e da mulher a respeito de cada um deles:</p>
			<disp-quote>
				<p>- But let me observe that all histories are against <italic>you</italic> - all stories, prose and verse. If I had such a memory as Benwick, I could bring you fifty quotations in a moment on my side of the argument, and I do not think I ever opened a book in my life which had not something to say upon woman’s inconstancy. Songs and proverbs, all talk of woman’s fickleness. But perhaps you will say, these were all written by men.</p>
			</disp-quote>
			<disp-quote>
				<p>- Perhaps I shall. Yes, yes, if you please, no reference to examples in books. Men have had every advantage of us in telling their own story. Education has been theirs in so much higher of a degree; the pen has been in their hands. I will not allow books to prove anything.</p>
			</disp-quote>
			<disp-quote>
				<p>- But how shall we prove anything?</p>
			</disp-quote>
			<disp-quote>
				<p>- We never shall. We never can expect to prove anything upon such a point (<xref ref-type="bibr" rid="B2">AUSTEN 2016</xref>: 208, grifo nosso).</p>
			</disp-quote>
			<p>
				<table-wrap id="t3">
					<label>Tabela 3:</label>
					<caption>
						<title>Tabela comparativa de trechos de traduções 3</title>
					</caption>
					<table>
						<colgroup>
							<col/>
							<col/>
						</colgroup>
						<thead>
							<tr>
								<th align="center">PORTOCARRERO</th>
								<th align="center">FERREIRA</th>
							</tr>
						</thead>
						<tbody>
							<tr>
								<td align="left">- Mas deixe-me observar que todas as histórias são contra a <italic>senhorita</italic>… todas as histórias, prosa e verso. Se eu tivesse tão boa memória quanto Benwick, poderia num instante apresentar-lhe cinquenta citações a favor do meu argumento e não acredito ter jamais aberto um livro na vida que não tivesse algo a dizer a respeito da inconstância feminina. Canções e provérbios, todos falam da volubilidade das mulheres. Mas talvez vá me dizer que foram todos escritos por homens.</td>
								<td align="left">- Permita-me, porém, observar que todas as histórias estão contra <italic>vocês</italic>… todas as narrativas, em prosa e em verso. Se eu tivesse a memória de Benwick, poderia dar-lhe rapidamente cinquenta citações a meu favor, e acho que jamais abri um livro na vida que não tivesse algo a dizer sobre a inconstância das mulheres. Canções e provérbios falam todos da volubilidade feminina. Mas talvez você vá dizer que todos eles foram escritos por homens.</td>
							</tr>
							<tr>
								<td align="left">- Talvez sim. Sim, sim, por favor, sem referências a exemplos em livros. Os homens sempre tiveram vantagens sobre nós ao contar sua própria história. Sempre receberam um grau muito maior de instrução, a pena sempre esteve em mãos masculinas. Não permitirei que livros provem o que quer que seja.</td>
								<td align="left">- Talvez eu dissesse. Sim, sim, por favor, sem referências a livros. Os homens tiveram todas as vantagens contra nós, ao contarem sua própria história. Tiveram sempre uma educação muito superior, a pena sempre estava em suas mãos. Não admito que os livros provem coisa nenhuma.</td>
							</tr>
							<tr>
								<td align="left">- Mas como poderemos provar algo?</td>
								<td align="left">- Mas como provaremos alguma coisa?</td>
							</tr>
							<tr>
								<td align="left">- Nunca poderemos. Nunca poderemos provar coisa alguma em assuntos como este (PORTOCARRERO 2017: 236, grifo nosso).</td>
								<td align="left">- Jamais provaremos nada numa questão como essa (FERREIRA 2012: 277, grifo nosso).</td>
							</tr>
						</tbody>
					</table>
				</table-wrap>
			</p>
			<p>Assim como mostra a <xref ref-type="table" rid="t3">Tabela 3</xref>, logo no momento inicial em que Harville se reporta à protagonista, surge uma discordância fundamental entre as traduções. Trata-se da aplicação do pronome pessoal “you” que, em inglês, pode ser utilizado para referenciar um ou mais indivíduos, tendo, portanto, a mesma grafia no singular e no plural. Diferentemente de Ferreira, que opta pelo pronome de tratamento “vocês”, no plural, a tradução de Portocarrero aposta na forma singular de outro pronome de tratamento, “senhorita”, aparentemente levando em consideração o fato de que o diálogo se estabelece apenas entre duas personagens, indicando a existência de um único interlocutor nessa passagem. Com isso, as diferentes estratégias dos tradutores serão responsáveis por proporcionar leituras distintas do excerto.</p>
			<p>Ao evitar o pronome “você”, mais atual e informal, a tradução de Portocarrero confirma a confluência com o texto-fonte, valendo-se de uma linguagem mais adequada à cultura e época do original. Entretanto, o uso de “senhorita”, no singular, pode determinar que a discussão em questão, apesar de estar relacionada a temas de interesse feminino, parece restrita somente a Harville e Anne, inviabilizando parcialmente a leitura de que a personagem principal estaria agindo como instrumento de representação feminina na obra.</p>
			<p>Ferreira faz a escolha pela forma plural, que favorece o entendimento de que o confronto acontece de maneira mais ampla do que somente entre as opiniões das personagens da obra, ou seja, percebe-se estar diante de um conflito entre homens e mulheres em geral. Dessa maneira, a tradução de Ferreira destaca o caráter representativo da figura de Anne em relação a todas as mulheres, situando a protagonista como representante das causas femininas na obra e escolhendo-a para atuar na posição de espelho de um grupo. É nesse papel que Anne se coloca para discutir com o Capitão, em condição de igualdade, personificando o discurso de contestação da estrutura patriarcal que relega as mulheres ao segundo plano na sociedade.</p>
			<p>Ao analisar as ocorrências deste estudo pode-se perceber que, a partir da obra original de Austen, conhecida pela relevância das personagens femininas e valorização da perspectiva das mulheres em relação a temas que lhes são caros, os tradutores assumiram, à sua maneira, uma postura de conservação das estratégias discursivas constituintes do texto-fonte, como as construções sintáticas e escolhas de vocabulário. No entanto, tais tomadas de decisão não parecem ter sido adotadas de forma consciente e intencional por nenhum dos dois tradutores com o intuito de expressar a mesma preocupação com as questões feministas veiculadas no texto-fonte, já que, em cada uma das passagens analisadas, um tradutor diferente deixou de seguir a proposta original quanto ao enfoque feminino da obra.</p>
			<p>Além disso, verificou-se que as diferentes versões de uma mesma obra são obtidas graças a materializações diversas das interpretações de cada tradutor, uma vez que, a simples opção por um vocábulo ou outro permite gerar múltiplos entendimentos do texto. Dessa forma, é possível observar a importância da interferência do tradutor e de suas concepções socioculturais no processo de produção de sentido dos textos traduzidos. Como consequência, o trabalho do tradutor passa a ter mais relevância do que a simples transposição de textos de uma língua para outra.</p>
			<p>Tal fato reforça a necessidade de novos estudos de traduções sob uma perspectiva feminista, capazes de promover a revisitação e valorizar obras literárias de autoria feminina e suas traduções, além de propor uma redefinição do trabalho do tradutor também como criador.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>Os Estudos de Tradução são uma disciplina acadêmica relativa ao estudo da teoria e do fenômeno da tradução. Por natureza, é uma disciplina multilíngue e interdisciplinar, abrangendo quaisquer combinações entre línguas, vários ramos da linguística, literatura comparada, estudos de comunicação, filosofia e uma gama de tipos de estudos culturais incluindo o Pós-colonialismo e o Pós-modernismo bem como a Sociologia e a Historiografia (tradução nossa).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>O reconhecimento de tal necessidade, que é um dos conhecimentos mais revolucionários que nós tivemos a partir do pensamento contemporâneo, não tem de estar associado à morte, à destruição ou mesmo à traição do ‘original’ (tradução nossa).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p>Enquanto Lady Eliot viveu, havia método, moderação, e economia, o que manteve seus gastos dentro do orçamento; mas, com ela, morrera toda a retidão, e a partir daquele período, ele excedia constantemente suas despesas (tradução nossa).</p>
			</fn>
		</fn-group>		
        <ref-list>
			<title>Referências</title>
			<ref id="B1">
				<mixed-citation>ARROJO, R. Feminist, “orgasmic” theories of translation and their contradictions. TradTerm, São Paulo, v. 2, 1995, p. 67-75.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>ARROJO</surname>
							<given-names>R.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<article-title>Feminist, “orgasmic” theories of translation and their contradictions</article-title>
					<source>TradTerm</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<volume>2</volume>
					<year>1995</year>
					<fpage>67</fpage>
					<lpage>75</lpage>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B2">
				<mixed-citation>AUSTEN, J. Persuasion. London: Arcturus, 2016.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>AUSTEN</surname>
							<given-names>J.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Persuasion</source>
					<publisher-loc>London</publisher-loc>
					<publisher-name>Arcturus</publisher-name>
					<year>2016</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B3">
				<mixed-citation>AUSTEN, J. Persuasão. Trad. Celina Portocarrero. Porto Alegre: L&amp;PM, 2017. </mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
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							<surname>AUSTEN</surname>
							<given-names>J.</given-names>
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					<source>Persuasão</source>
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							<surname>Portocarrero</surname>
							<given-names>Celina</given-names>
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					<publisher-loc>Porto Alegre</publisher-loc>
					<publisher-name>L&amp;PM</publisher-name>
					<year>2017</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B4">
				<mixed-citation>AUSTEN, J. Persuasão . Trad. Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Martin Claret, 2012.</mixed-citation>
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							<surname>AUSTEN</surname>
							<given-names>J.</given-names>
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					<source>Persuasão</source>
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							<surname>Ferreira</surname>
							<given-names>Roberto Leal</given-names>
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					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
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			<ref id="B5">
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					<source>A tradução literária</source>
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					<source>Crítica literária feminista</source>
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					<year>1987</year>
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					<conf-sponsor>Simpósio de literatura comparada</conf-sponsor>
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					<conf-name>1o e 2oUFMG</conf-name>
					<conf-date>1987</conf-date>
				</element-citation>
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							<surname>GENTZLER</surname>
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					<source>Teorias Contemporâneas da Tradução</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Madras</publisher-name>
					<year>2009</year>
				</element-citation>
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					<source>Tradução, reescrita e manipulação da fama literária</source>
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					<publisher-loc>Bauru</publisher-loc>
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					<year>2007</year>
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					<chapter-title>A dimensão histórica do feminismo atual</chapter-title>
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					<source>Literatura e feminismo: propostas teóricas e reflexões críticas</source>
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					<source>Introducing Translation Studies: theories and applications</source>
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							<surname>SIMON</surname>
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					<source>Gender in Translation: cultural identity and politics of transmission</source>
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				<mixed-citation>ZINANI, C. J. A. Literatura e gênero: a construção da identidade feminina. Caxias do Sul: Educs, 2006.</mixed-citation>
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							<surname>ZINANI</surname>
							<given-names>C. J. A.</given-names>
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					<source>Literatura e gênero: a construção da identidade feminina</source>
					<publisher-loc>Caxias do Sul</publisher-loc>
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