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          <journal-title>TradTerm</journal-title>
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          <publisher-name>São Paulo SP: Universidade de Sao Paulo Faculdade de Filosofia Letras e Ciencias Humanas Centro Interdepartamental de Traducao e Terminologia</publisher-name>
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        <article-id pub-id-type="doi">10.11606/issn.2317-9511.v25i0p83-96</article-id>
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            <subject>Artigos</subject>
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          <article-title>Tradução como ferramenta de intermediação cultural a exemplo da obra Histórias da Noite (Erzähler der Nacht), de Rafik Schami</article-title>
          <trans-title-group xml:lang="en">
            <trans-title>Translation as a cultural mediation tool by the example of Rafik Schami’s Damascus Nights (Erzähler der Nacht)</trans-title>
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              <given-names>Fernando Martins de</given-names>
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          <institution content-type="original">Mestrando do programa de Estudos da Tradução pela Universidade de São Paulo. Graduado em Letras (Português/Alemão) pela mesma universidade.</institution>
          <institution content-type="orgname">Universidade de São Paulo</institution>
          <institution content-type="orgdiv1">Estudos da Tradução</institution>
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        <author-notes>
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          E-mail: 
            <email>fernando.toledo@usp.br</email>
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          <season>Agosto</season>
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        <fpage>83</fpage>
        <lpage>96</lpage>
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            <license-p>Via Atlântica utiliza a Licença Creative Commons Attribution que permite o compartilhamento do trabalho com reconhecimento da autoria e publicação  inicial neste veículo – Attribution-NonCommercial-NoDerivates 4.0 International              
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        <abstract>
          <title>Resumo:</title>
          <p>Com a ascensão da literatura intercultural em diversas partes do mundo, o diálogo entre as culturas se faz cada vez mais necessário, de modo a promover a convivência e a compreensão da existência do Outro e de Si próprio. O desdobramento desta questão vem sendo paulatinamente construído no contexto recente brasileiro por meio da tradução de obras de autores estrangeiros, permitindo o acesso a outras formas culturalmente condicionadas de percepção de mundo e de realidade. Em uma primeira instância do artigo em questão, o conceito de tradução é abordado como uma ferramenta que fomenta o intercâmbio cultural através de sua intermediação. O debate acerca desta questão é ilustrado em um segundo momento, cuja obra Histórias da Noite (original alemão: Erzähler der Nacht), de Rafik Schami, escritor sírio exilado na Alemanha, será utilizada como objeto de análise.</p>
        </abstract>
        <trans-abstract xml:lang="en">
          <title>Abstract:</title>
          <p>Given the advancement of the intercultural literature in many parts of the world, the dialog among cultures has become increasingly more necessary in order to promote the conviviality and the comprehension of the existence of the Other and the Self. The unfolding of this matter has been progressively built in the recent Brazilian context through the translation of foreign authors’ works, granting an access to other culturally-conditioned ways of world conception and reality. In a first moment of the present article, translation is viewed as a cultural transfer tool, given its support in favor of the cultural exchange. The discussion around this matter is illustrated in a second moment, where the book Histórias da Noite (English: Damascus Nights; German: Erzähler der Nacht), by Rafik Schami, Syrian writer who is now exiled in Germany, will be used as our object of study.</p>
        </trans-abstract>
        <kwd-group xml:lang="pt">
          <title>Palavras-chave:</title>
          <kwd>tradução intercultural</kwd>
          <kwd>intermediação cultural</kwd>
          <kwd>Rafik Schami</kwd>
          <kwd>Migrantenliteratur</kwd>
        </kwd-group>
        <kwd-group xml:lang="en">
          <title>Keywords:</title>
          <kwd>intercultural translation</kwd>
          <kwd>cultural intermediation</kwd>
          <kwd>Rafik Schami</kwd>
          <kwd>Migrantenliteratur</kwd>
        </kwd-group>
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      </article-meta>
    </front>
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      <sec>
        <title>1. Introdução</title>
        <p>Em um contexto sociopolítico e antropológico, o século XX foi marcado fortemente pelas ondas migratórias, principalmente devido à existência de regimes totalitários e de conflitos armados. O exílio em massa fez com que comunidades culturalmente diferentes entrassem em contato e eventualmente gerassem frutos a partir dessa convivência, como é o caso da literatura intercultural. De modo a difundir esse diálogo entre culturas, a tradução atua como responsável pela intermediação entre duas visões de mundo distintas.</p>
        <p>No entanto, o trabalho presente possui o objetivo de constatar o modo como esta intermediação se manifesta. Para efetuarmos a análise em questão, far-se-á uso de um aparato teórico que inclui desde a contribuição de Aubert (
          <xref alt="2006" rid="ref-2" ref-type="bibr">2006</xref>) sobre os marcadores culturais, discussões de autores engajados com relações interculturais (
          <xref alt="CHIELLINO 2010" rid="ref-6" ref-type="bibr">CHIELLINO 2010</xref>; 
          <xref alt="SCHAMI 1998" rid="ref-11" ref-type="bibr">SCHAMI 1998</xref>, 2010), de críticos literários (
          <xref alt="AMIN 2000" rid="ref-1" ref-type="bibr">AMIN 2000</xref>; 
          <xref alt="KHALIL 1994" rid="ref-8" ref-type="bibr">KHALIL 1994</xref>, 1995) e estudiosos da área de estudos culturais (
          <xref alt="KATAN 2009" rid="ref-7" ref-type="bibr">KATAN 2009</xref>; RÖSCH 2010; 
          <xref alt="SEYHAN 2001" rid="ref-15" ref-type="bibr">SEYHAN 2001</xref>, 2005). Os trechos em inglês e em alemão que serão eventualmente utilizados foram traduzidos pelo autor deste artigo.
        </p>
        <p>Tendo o aparato teórico em mente, uma breve análise da obra 
          <italic>Erzähler der Nacht</italic>, do sírio Rafik Schami, traduzida em 2013 sob o título “
          <italic>Histórias da Noite</italic>”, será realizada, em que se pretende observar os níveis em que os marcadores culturais se encontram na obra, assim como suscitar o debate acerca da natureza da literatura intercultural. Justificativa para a escolha deste autor é trazer parte das discussões acerca de sua obra, dado que desconhecemos publicações sobre ele nos círculos acadêmicos brasileiros.
        </p>
      </sec>
      <sec>
        <title>2. Transferência e mediação cultural: um debate do entre-mundos</title>
        <p>A partir do momento em que se observa a existência de duas culturas distintas, podem-se observar suas caracterizações a partir de suas singularidades inerentes. Aubert (
          <xref alt="2006" rid="ref-2" ref-type="bibr">2006</xref>) define essas características como marcadores culturais, presentes em todas as línguas e ancoradas em algum aspecto intrínseco de uma cultura. Entendendo-se a tradução como um ato de comunicação (
          <xref alt="KATAN 2009" rid="ref-7" ref-type="bibr">KATAN 2009</xref>), os marcadores culturais exigem, portanto, a atenção do tradutor, que assume a responsabilidade de transmitir aspectos da cultura-fonte para uma cultura-meta.
        </p>
        <p>Entretanto, é válido se perguntar 
          <italic>o que</italic> se encontra nesses marcadores culturais. Embora sejam mais evidentes ao nos depararmos com um texto que traz diferenças e particularidades oriundas de um grupo cultural, os marcadores culturais não estão situados somente no plano lexical. Segundo Aubert (
          <xref alt="2006" rid="ref-2" ref-type="bibr">2006</xref>), eles também podem ser encontrados nos planos semântico e extralinguístico, acarretando uma ordenação da forma de visão e percepção de mundo de uma determinada cultura. Considerando que cada cultura é singular em sua existência e norteada a partir de um conjunto de percepções de mundo, a referencialidade se revela como elemento fundamental para esse processo .
        </p>
        <p>Conforme Aubert aponta, a singularização acarreta a diferenciação entre culturas:</p>
        <disp-quote>
          <p>Poder-se-ia afirmar que a própria existência de uma marca cultural depende, fundamentalmente, de tal diferenciação ou contraste; que não se trataria de algo pré-existente – inerente ou imanente – e sim condicionado, e dependente, para existir, de cada situação específica de diferenciação e contraste. Ainda que não queiramos ser tão taxativos, resta que a identificação da marca cultural vincula-se à linguística externa e (b) à situação discursiva. Nesse sentido, não é um fenômeno da 
            <italic>língua</italic> (
            <italic>langue</italic>), e sim da 
            <italic>fala</italic> (
            <italic>parole</italic>), e, mesmo nesse plano, não de qualquer situação de fala, mas apenas daquelas que compreendem um elemento de diferenciação/contraste. (
            <xref alt="AUBERT 2006" rid="ref-2" ref-type="bibr">AUBERT 2006</xref>: 33)
          </p>
        </disp-quote>
        <p>Ao registrar os marcadores culturais na literatura, a transmissão se estenderá por via do processo tradutório, garantindo a preservação da memória cultural e sua sobrevivência, tal como Benjamin (
          <xref alt="2001" rid="ref-4" ref-type="bibr">2001</xref>[1921]) afirma em seu ensaio “A tarefa do tradutor”. A esta ponte intercultural atribui-se a aproximação entre indivíduos da cultura de partida e de chegada, podendo mesmo criar uma literatura de diálogo, de permuta e de fusão (RÖSCH 1998).
        </p>
        <p>A transferência cultural por meio da tradução é, entretanto, um processo que exige cautela, dado que o intermediador cultural assume uma responsabilidade que pode garantir a sobrevivência de uma cultura na outra, ou até mesmo o apagamento de uma das partes, caso a interação entre culturas não seja observada e uma delas impere sobre a outra. De acordo com Schami (2010: 110, tradução nossa), o processo de transferência cultural pode ser observado como uma ponte que “liga as duas margens de um rio e toca ambos os lados, sem pertencer a um deles”. O espaço da ponte é caracterizado por um hibridismo cultural, configurando-se como um terceiro espaço, no qual a interação cultural se manifesta. É um espaço de transição que deve ser ocupado pelo intermediador cultural, que auxiliará a comunicação entre os dois polos. Schami aponta para a necessidade do intermediador em permanecer nessa ponte, nesse entre-mundos, sem se dirigir para um ou para o outro lado, mas sempre tendo ambas as margens em vista.</p>
        <p>Entretanto, esse diálogo só se revela como possível quando o tradutor se localiza em algum ponto intermediário desta ponte. Britto (2010) afirma que o tradutor ora aproxima-se de uma extremidade, ora de outra, sem se mostrar como pertencente a uma cultura específica e ignorando a outra. Para ele, o objetivo da mediação cultural não é a predominância de uma ou de outra cultura, e sim o convívio harmônico entre elas, em que a presença de uma se dá dentro da outra, que a assimilará em suas diferenças e particularidades:</p>
        <disp-quote>
          <p>Para que o tradutor possa agir como mediador cultural e não como protetor da pureza de sua cultura, tem de haver um pressuposto básico: o de que as culturas podem interagir sem que uma seja engolida pela outra. (BRITTO 2010: 141)</p>
        </disp-quote>
        <p>Seyhan (
          <xref alt="2001" rid="ref-15" ref-type="bibr">2001</xref>), por sua vez, observa o papel da tradução não somente como pertinente ao plano linguístico, abarcando concomitantemente uma abordagem histórica que visa a uma observação de uma equação cultural sujeita às variáveis de tempo e lugar. Desta forma, os tradutores seriam aqueles inseridos nas duas culturas e capazes de compreender os desafios históricos que gravitam em torno das culturas em questão (Id., 2005), de modo que possam se situar devidamente nesta ponte, determinando o grau que a transferência cultural se efetuará e que a memória cultural seja preservada.
        </p>
        <p>O conceito de memória cultural diz respeito a um conjunto de registros e experiências de uma comunidade que compartilha uma cultura comum, podendo ser de diversas naturezas, tal como aponta Seyhan (
          <xref alt="2001" rid="ref-15" ref-type="bibr">2001</xref>: 15, tradução nossa), como “linguística, religiosa, institucional, migracional, diaspórica, étnica, ou alguma combinação destas”. No caso de autores exilados, trata-se de uma pequena comunidade, proveniente de culturas diferentes daquela existente na sociedade em que esta comunidade está fisicamente inserida. A este fenômeno, Seyhan dá o nome de “comunidades paranacionais” (
          <italic>paranational communities</italic>). Estas comunidades são caracterizadas fundamentalmente pela desterritorialização: o espaço físico da cultura-fonte não está presente, e sua sobrevivência é garantida pelo espaço da linguagem, a “
          <italic>paper language</italic>” (Ibid.: 26), por meio da qual a articulação de um coletivo distante e um programa político se manifestam em prol da salvaguarda de sua identidade e cultura.
        </p>
        <p>Este processo de conservação de uma cultura revela-se como trabalho árduo, porém recompensador, dado que um espaço de preservação é encontrado na cultura-meta, permitindo o trabalho de (re)pensar questões provenientes da cultura-fonte. Em seu ensaio sobre a importância da mediação cultural, Rafik Schami afirma que “o exílio não é somente amargo. O exílio nos faz destemidos, abre caminhos e ferimentos, exige muito trabalho laborioso, mas também agracia com as duas mãos” (SCHAMI 2010: 115 – tradução nossa).</p>
        <p>Exilado na Alemanha desde 1971, Schami se dedica a trazer à tona questões referentes ao convívio entre indivíduos oriundos de diferentes grupos culturais. Por meio de uma linguagem simples, Schami (
          <xref alt="1998" rid="ref-11" ref-type="bibr">1998</xref>) desenvolve uma literatura cuja função é estabelecer uma oferta de diálogo. Em seguida, pretendemos apresentar brevemente o projeto sociocultural de Rafik Schami por meio de sua literatura, além de traçarmos algumas considerações sobre mediação cultural por meio da tradução de uma de suas obras.
        </p>
      </sec>
      <sec>
        <title>3. Rafik Schami e “
          <italic>Histórias da Noite</italic>”: a convivência entre culturas por meio da tradução
        </title>
        <p>Um dos expoentes da vertente literária alemã 
          <italic>Migrantenliteratur</italic> 
          <sup>
            <xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref>
          </sup> , Rafik Schami (1946- ) é conhecido e respeitado autor na Alemanha por sua obra de caráter multicultural (
          <xref alt="KHALIL 1994" rid="ref-8" ref-type="bibr">KHALIL 1994</xref>). Em uma sociedade atualmente marcada pelo fluxo de migrações, principalmente na segunda metade do século XX, Schami se estabeleceu em solo alemão como exilado político. A partir da década de 80, começou a escrever em alemão 
          <sup>
            <xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref>
          </sup> e se caracterizou como contador profissional de histórias para crianças e adultos. Proveniente de uma cultura considerada periférica aos olhos do Ocidente, ele se encontra em uma perspectiva que o permite observar a maioria, esta que por sua vez não percebe as particularidades de sua própria cultura, dado que estão inseridas nela (SCHAMI, 2010).
        </p>
        <p>Amin (
          <xref alt="2000" rid="ref-1" ref-type="bibr">2000</xref>) analisa o papel de Schami como contador de histórias e ressalta seu esforço em retomar esta tradição, que desde o advento da mídia moderna vem perdendo significado, mesmo em sua cultura de origem 
          <sup>
            <xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref>
          </sup> . Schami atua, desta forma, como intermediador cultural ao apresentar sua cultura para o mundo ocidental, garantindo sua existência e sobrevivência. De acordo com Aubert (
          <xref alt="2006" rid="ref-2" ref-type="bibr">2006</xref>), como mencionado anteriormente, o contraste e diferenciação são elementos necessários para a percepção da presença de uma cultura distinta. Ao afirmar que esse contraste ultrapassa o plano lexical, instalando- se também no plano semântico e mesmo extralinguístico, pode-se pensar na análise de Iman Osman Khalil sobre a pluralidade cultural na obra de Schami, na qual ela aponta para sua orientação aos modelos de narrativa oral árabes como modelo de abordagem teórico representado de forma literária (
          <xref alt="KHALIL 1994" rid="ref-8" ref-type="bibr">KHALIL 1994</xref>: 202). Esta tradição é, por sua vez, um exemplo de marcador cultural da obra de Schami e pode ser evidenciada em “
          <italic>Histórias da Noite</italic>”. Neste livro, encontramos a presença de histórias orais dos mais diversos estilos: narrativas, anedotas, fofocas etc., além de acontecimentos históricos. Este labirinto de histórias interligadas faz com que a influência do clássico oriental “
          <italic>As Mil e Uma Noites</italic>” seja incontestável (
          <xref alt="AMIN 2000" rid="ref-1" ref-type="bibr">AMIN 2000</xref>: 212). Em um plano estrutural, Amin observa a obra de Schami como detentora de três características que funcionam como alicerce de seu estilo híbrido:
        </p>
        <disp-quote>
          <p>Quanto à primeira, ele emprega extensamente sub-tramas digressivas, parte de a técnica de histórias intercaladas, a qual coincide com as narrativas orientais. (...) No que diz respeito à segunda, seu estilo é caracterizado pelo uso de diálogo e discurso direto dentro dos contos de fadas, o que dá vida ao conto, tornando- o mais imediato e mais autêntico. É importante adicionar que os contos de Schami, tal como ele próprio ressalta, devem ser narrados. De fato, ele deseja que elas sejam sentidas por uma audiência, cuja resposta ativa se torna indispensável para a “produção” da história. (Ibid.: 215)</p>
        </disp-quote>
        <p>Considerando a existência do leitor como também ouvinte destas histórias, Schami assinala que a transferência cultural somente se dará quando os indivíduos pertencentes à cultura-meta abrirem seus olhos e ouvidos para a outra cultura, recebendo-a como diferente em sua natureza, sem uma agressão e/ou intimidação cultural. Um exemplo da convivência entre culturas é representada pelo livro 
          <italic>Erzähler der Nacht</italic>, cujo título traduzido no Brasil é “
          <italic>Histórias da Noite”</italic> 
          <sup>
            <xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref>
          </sup> .
        </p>
        <p>Em “Histórias da Noite” é narrada a história de Salim, um cocheiro de Damasco, conhecido por suas histórias fascinantes. No entanto, em um encontro inesperado com sua fada, “que fez de suas palavras empoeiradas, enrijecidas, uma árvore fabulosa de palavras” (SCHAMI 2013:33), ela lhe tirou a voz por ele não ter mensurado suas histórias, exagerando-as e não as contando da forma devida e correta. Para obter novamente o dom da fala – e o de narrar histórias, consequentemente -, ele deve ser presenteado com sete narrativas de seus amigos, que carregam consigo passados diferentes e posições diferentes na sociedade síria da época, caracterizada no texto como um tempo de censura, perseguição e instabilidade política (
          <xref alt="SEYHAN 2001" rid="ref-15" ref-type="bibr">SEYHAN 2001</xref>:43).
        </p>
        <p>Ao levantar questões pertinentes à sua cultura de origem e à história em um ambiente que os leitores-ouvintes muitas vezes desconhecem, Schami, como intermediador entre as culturas, leva o seu público a um universo diferente. Fazendo uso de uma linguagem simples, Schami apresenta noções e visões de mundo de uma cultura diferente daquela para a qual ele escreve. No entanto, Schami retrata esse mundo de forma que não seja percebido como um exotismo que escapa da capacidade de compreensão do leitor. Para isso, Schami faz uso de elementos culturais da cultura que o alberga para construir sua narrativa. Um exemplo é a forte influência da tradição alemã das 
          <italic>Märchen</italic> ao introduzir elementos oriundos dos contos de fada. Khalil (1995) analisa a natureza dos contos de Schami em suas apresentações e ressalta o papel dos leitores/ouvintes para a o processo de criação literária.
        </p>
        <disp-quote>
          <p>Seus contos de fadas não são necessariamente orientais, e sim uma fusão de motivos de contos, sagas e lendas em uma forma de conto de fada, a qual ele chama de “o outro conto de fadas” (“das andere Märchen”). (...) Ele conversa com a audiência e sabe, por meio de perguntas e respostas, como atrair os ouvintes e como encorajá-los a participar na criação do texto. (KHALIL 1995: 522)</p>
        </disp-quote>
        <p>Schami se empenha em apresentar sua cultura de uma forma simples, porém não necessariamente domesticada, muito menos sem reduzi-la a clichês. Para isso, ele faz uso de artifícios já conhecidos por seu público para criar uma ponte entre as culturas. Chiellino (
          <xref alt="2010" rid="ref-6" ref-type="bibr">2010</xref>: 78), que juntamente com Schami integrou um movimento de literatura multicultural, o 
          <italic>Südwind-Literatur</italic>, afirma que apesar da leitura multicultural exigir mais de um leitor monolíngue, o intermediador cultural (no caso, o autor, porém também podemos estender esta denominação ao domínio dos tradutores) deve mostrar o caminho para propiciar uma sensibilidade diante das diversas culturas 
          <sup>
            <xref ref-type="fn" rid="fn5">5</xref>
          </sup> .
        </p>
        <p>Fazendo uso das considerações de Aubert (
          <xref alt="2006" rid="ref-2" ref-type="bibr">2006</xref>), temos em primeira instância o plano lexical, que contribui para situar o leitor em um universo diferente do seu. Apesar da tradução dos termos, inclusive topônimos, observa-se que o leitor é levado para dentro de um universo diferente, em que as especiarias lhes oferecem “cor e atmosfera locais” (
          <xref alt="KATAN 2009" rid="ref-7" ref-type="bibr">KATAN 2009</xref>: 80). Um exemplo desta ambientação é a descrição de uma típica cafeteria, que serve “café iemenita (...), áraque libanês, (...) grãos egípcios e (...) tabaco de cachimbo da Lataquia”, além “(...) do narguilé esplêndido (...) [e] favas cozidas”, que por “algumas piastras, comia-se uma porção deliciosa desse prato suculento e de difícil digestão” (SCHAMI 2013: 109). Ao caracterizar o ambiente “exótico” para os leitores de culturas ocidentais, o leitor é transportado para uma realidade diferente da sua. Nos termos de Aubert (
          <xref alt="2006" rid="ref-2" ref-type="bibr">2006</xref>), trata-se aqui de uma referencialidade 
          <italic>intralinguística</italic>.
        </p>
        <p>No entanto, a individualização desta realidade não se dá unicamente na esfera lexical. Schami dedica o sexto capítulo de seu livro para caracterizar os damascenos e sua própria cidade natal, na qual “[t]oda rua tem rosto, cheiro e voz próprios” (SCHAMI 2013: 88). Ao descrever o mundo à sua volta, Schami garante ao texto sua identidade e personalidade, situando o leitor na atmosfera genuína – e, portanto, não estereotipada – da sociedade árabe da época. Embora Schami descreva sua cidade natal muitas vezes de forma nostálgica, ele faz referência, por outro lado, a diversos problemas políticos e sociais, que eventualmente acarretaram no exílio de Schami.</p>
        <p>Rafik Schami encontrou asilo na Alemanha em 1971 e somente então ele pôde se expressar abertamente por meio da literatura de forma crítica contra o governo da época, que por sua vez promovia a censura, tal como se pode observar na cena sobre a difusão da cólera: “Salim ficou surpreso. Cólera? Era só o que faltava! Tinha ouvido a notícia naquele dia pela primeira vez num programa da BBC, mas a rádio nacional desmentira. Não havia cólera, e quem disse foi um agente estrangeiro.” (SCHAMI 2013: 53); ou mesmo no que diz respeito à educação: “A escola era horrível. Um velho xeique ensinava mais com chutes e bengaladas do que com o Corão” (Ibid.: 120). Estas referências ao estilo de vida da época situam dados culturais de origem geográfica e histórica, que Aubert (
          <xref alt="2006" rid="ref-2" ref-type="bibr">2006</xref>) classifica como uma referencialidade 
          <italic>extralinguística</italic>.
        </p>
        <p>Além das dimensões intra- e extralinguística, Aubert faz menção de uma referencialidade 
          <italic>intertextual</italic>, presente em um plano estrutural, “no acervo dos dizeres, das falas, dos discursos” (
          <xref alt="AUBERT 2006" rid="ref-2" ref-type="bibr">AUBERT 2006</xref>: 30). Em “
          <italic>Histórias da Noite</italic>”, esta referencialidade pode ser encontrada na influência de “
          <italic>As Mil e Uma Noites</italic>”: a técnica de histórias intercaladas e entrelaçadas. Com relação a isto, Khalil afirma:
        </p>
        <disp-quote>
          <p>O respeito de Schami pela arte de narrar de Sheherazade é evidente. Ele usa 
            <italic>As Mil e Uma Noites</italic> como modelo e utiliza extensamente a técnica da narrativa-moldura e da história-dentro-de -história, dentro da qual ele tece com muita sagacidade e ironia inúmeras histórias fantásticas sem abandonar o domínio da realidade. (KHALIL 1995: 522)
          </p>
        </disp-quote>
        <p>A influência de “
          <italic>As Mil e Uma Noites</italic>” está presente desde a infância de Schami, quando por anos ele acompanhou pelo rádio as histórias que Sheherazade narrava para evitar que fosse morta pelo rei Shariar. O ato de narrar para garantir a sobrevivência e a continuidade da vida são características que Schami também utiliza em sua obra, de modo a levar adiante seu projeto cultural e literário. Schami transporta esse mundo particular para as culturas ocidentais por intermédio de suas obras, introduzindo uma estética clássica oriental, concedendo à obra um orientalismo que, juntamente com o modo único de narrar de Schami, resultará em um hibridismo literário multicultural.
        </p>
        <p>Como intermediador cultural, Schami direciona seu olhar para a cultura-meta, tendo em mente a cultura-fonte, promovendo eventualmente a geração de um terceiro espaço: o da convivência entre culturas e o aprendizado mútuo. O tradutor, igualmente na posição de intermediador cultural, em vista desta responsabilidade que lhe é apresentada, assume seu papel como responsável pela continuidade do projeto multicultural de Schami e, a cada tradução, mais pessoas serão levadas a uma nova realidade, novos povos e novos costumes, sejam eles nas esferas lexicais, textuais ou extratextuais.</p>
      </sec>
      <sec sec-type="conclusions">
        <title>4. Considerações finais</title>
        <p>Como fruto originado a partir da diferença entre culturas, a literatura intercultural é, portanto, responsável pelo diálogo fundamental que garantirá a existência e sobrevivência da memória cultural de algum coletivo. Suas diferenciações propiciam ao leitor o transporte para uma realidade diferente, seja no nível intralinguístico, intertextual ou extralinguístico, tal como apontou Aubert (
          <xref alt="2006" rid="ref-2" ref-type="bibr">2006</xref>). Esses níveis se fazem igualmente visíveis por meio da tradução, que se configura como uma ferramenta de difusão cultural, servindo como ponte de acesso aos leitores.
        </p>
        <p>Com base na análise aqui objetivada, a obra “
          <italic>Histórias da Noite</italic>”, de Rafik Schami, é um exemplo de uma manifestação cultural, com um olhar progressivo (
          <xref alt="CHIELLINO 2010" rid="ref-6" ref-type="bibr">CHIELLINO 2010</xref>: 80) que pretende abrir novos horizontes, (re)afirmar sua identidade, promover a integração, desconstruir estereótipos e apontar para a heterogeneidade cultural do – como amplamente difundido nas sociedades ocidentais – “mundo árabe” (
          <xref alt="AMIN 2000" rid="ref-1" ref-type="bibr">AMIN 2000</xref>: 231). Ao escrever sobre sua cultura de origem (minoritária) para outras culturas (maioritárias), Schami advoga uma autorreflexão das culturas envolvidas e objetiva uma convivência entre as culturas síria e alemã. No entanto, é somente por intermédio da tradução que o diálogo com o leitor brasileiro não falante de alemão pode ser estendido. Portanto, a tradução pode ser considerada como a responsável por garantir a continuidade de sua obra e de seu projeto cultural. Entretanto, a tradução deve ser percebida como um processo de profunda análise, dado que os elementos culturalmente condicionados nem sempre são facilmente visíveis. Fazendo uso da classificação de Aubert (
          <xref alt="2006" rid="ref-2" ref-type="bibr">2006</xref>) sobre os marcadores culturais de acordo com sua referencialidade, pudemos evidenciar que ao mostrar a presença do Outro, somos levados a um mundo diferente do nosso, seja saboreando um café iemenita, fumando um narguilé, comendo favas cozidas (referencialidade interlinguística), seja refletindo sobre questões sociopolíticas (referencialidade extralinguística), ou mesmo ao nos deixarmos encantar pela retomada de Schami do modelo de narração árabe (referencialidade intertextual).
        </p>
        <p>Finalmente, podemos depreender que a observação minuciosa destes marcadores se revela como um passo fundamental tanto no domínio da tradução quanto em reflexões socioculturais. Fez-se um recorte sobre estas questões e a ilustramos com alguns exemplos do projeto literário e social de Rafik Schami, que enxerga seu papel como mediador cultural e oferece uma chance de diálogo por meio da literatura:</p>
        <disp-quote>
          <p>Nós precisamos aqui pegar nossa única chance como mediadores de novas formas de narrar, que surgem da síntese de duas escalas de valores moralmente éticas, de duas percepções linguísticas do que foi vivenciado e frequentemente de dois pontos de vista. Em resumo, 
            <italic>a síntese entre o lá e o aqui</italic>. Munido da infinita diversidade de nossas origens culturais, eu vejo aqui uma grande chance de bater contra os limites da literatura alemã e avistar novos horizontes. (
            <xref alt="SCHAMI 1998" rid="ref-11" ref-type="bibr">SCHAMI 1998</xref>: 91)
          </p>
        </disp-quote>
      </sec>
    </body>
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            <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.fulbright.de/fileadmin/files/togermany/information/2004-">www.fulbright.de/fileadmin/files/togermany/information/2004-</ext-link> 05/gss/Roesch_Migrationsliteratur.pdf. Acesso em: 12 maio 2014.
          </mixed-citation>
          <element-citation publication-type="webpage">
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            </person-group>
            <source>Migrationsliteratur im interkulturellen diskurs</source>
            <uri>www.fulbright.de/fileadmin/files/togermany/information/2004- 05/gss/Roesch_Migrationsliteratur.pdf</uri>
          </element-citation>
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        <ref id="ref-11">      
          <mixed-citation>SCHAMI, R. 
            Damals dort und heute hier. Freiburg: Herder, 1998.</mixed-citation>
          <element-citation publication-type="book">
            <person-group person-group-type="author">
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                <surname>SCHAMI</surname>
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            <source>Damals dort und heute hier</source>
            <publisher-name>Herder</publisher-name>
            <publisher-loc>Freiburg</publisher-loc>
            <year iso-8601-date="1998">1998</year>
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          <mixed-citation>——. 
            Erzähler der Nacht. Weinheim: Beltz &amp; Gelberg, 1990.</mixed-citation>
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              <collab>_________</collab>
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            <source>Erzähler der Nacht</source>
            <publisher-name>Beltz &amp; Gelberg</publisher-name>
            <publisher-loc>Weinheim</publisher-loc>
            <year iso-8601-date="1990">1990</year>
          </element-citation>
        </ref>
        <ref id="ref-13">      
          <mixed-citation>——. Mittler zwischen den Kulturen. 
            Europa liest: Literatur in Europa. Kulturreport Ausgabe 3/2010. Stuttgart: Institut für Auslandsbeziehungen, 2010, pp.110-117.</mixed-citation>
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            <person-group person-group-type="author">
              <collab>_________</collab>
            </person-group>
            <source>Mittler zwischen den Kulturen. Europa liest: Literatur in Europa. Kulturreport Ausgabe 3/2010.</source>
            <publisher-name>Institut für Auslandsbeziehungen</publisher-name>
            <publisher-loc>Stuttgart</publisher-loc>
            <year iso-8601-date="2010">2010</year>
          </element-citation>
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        <ref id="ref-14">      
          <mixed-citation>——. 
            Histórias da noite. Tradução de Petê Rissatti. Barueri: Novo Século, 2013.</mixed-citation>
          <element-citation publication-type="book">
            <person-group person-group-type="author">
              <collab>_________</collab>
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            <person-group person-group-type="author">
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                <surname>Rissatti</surname>
                <given-names>Petê</given-names>
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              <role>Tradução</role>
            </person-group>
            <source>Histórias da noite</source>
            <publisher-name>Novo Século</publisher-name>
            <publisher-loc>Barueri</publisher-loc>
            <year iso-8601-date="2013">2013</year>
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          <mixed-citation>SEYHAN, A. 
            Writing outside the nation. Princeton: Princenton University, 2001.</mixed-citation>
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            <source>Writing outside the nation</source>
            <publisher-name>Princenton University</publisher-name>
            <publisher-loc>Princeton</publisher-loc>
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            <chapter-title>German academic exiles in istanbul: Translation as bildung of the other</chapter-title>
            <source>Nation, language, and the ethic of translation</source>
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        </ref>
      </ref-list>
      <fn-group>
        <fn fn-type="other" id="fn1">
          <label>
            <sup>1</sup>
          </label>
          <p>1Outras acepções são mencionadas por Bayer (
            <xref alt="2004" rid="ref-3" ref-type="bibr">2004</xref>), como Ausländerliteratur e Gastarbeiterliteratur, porém o debate social-literário acerca da nomenclatura não é o foco deste artigo.
          </p>
        </fn>
        <fn fn-type="other" id="fn2">
          <label>
            <sup>2</sup>
          </label>
          <p>“Alemão é minha língua literária e meu lar” (SCHAMI 2010: 113).</p>
        </fn>
        <fn fn-type="other" id="fn3">
          <label>
            <sup>3</sup>
          </label>
          <p>Seyhan (
            <xref alt="2001" rid="ref-15" ref-type="bibr">2001</xref>: 41) menciona a perda de força da arte de contar histórias por motivos políticos: “Schami acredita que a ampla disponibilidade e acessibilidade de rádios transistores e televisão não somente tornaram a arte de narrar histórias obsoleta, como também levaram facilmente o controle do Estado e a propaganda para as regiões mais distantes da Síria. Embora Schami não se considere um ‘purista’ e afirme que ele não está declarando guerra contra a televisão, ele afirma que a televisão teve uma influência prejudicial sobre os países árabes, dado que esta região teve histórica e culturalmente uma experiência muito limitada com imagens, porém uma muito abrangente com as palavras.”
          </p>
        </fn>
        <fn fn-type="other" id="fn4">
          <label>
            <sup>4</sup>
          </label>
          <p>Apesar de “Erzähler der Nacht” ser, conforme Seyhan (
            <xref alt="2001" rid="ref-15" ref-type="bibr">2001</xref>) argumenta, uma referência ao ensaio de Jorge Luis Borges de 
            <xref alt="1980" rid="ref-5" ref-type="bibr">1980</xref>, no qual o argentino, ao discorrer sobre As Mil e Uma Noites, remonta às notas do Barão von Hammer-Purgstall sobre os confabulatores nocturni, não fica claro se o título em português é uma questão tradutória, parte da escolha do tradutor, Petê Rissatti, ou se ela é justificada por motivos editoriais. No entanto, como afirmado, não é parte do escopo do presente artigo avaliar a tradução em questão.
          </p>
        </fn>
        <fn fn-type="other" id="fn5">
          <label>
            <sup>5</sup>
          </label>
          <p>“Acontece inevitavelmente que a auto-integração do protagonista se revele por meio de um idioma de forma mais fácil àqueles leitores que conhecem línguas e culturas que constituem o currículo do protagonista. Exige-se mais de um leitor monolíngue, entretanto ele pode reconhecer por intermédio da construção da obra o caminho que ele deve trilhar para se tornar um leitor interlingual e intercultural.” (
            <xref alt="CHIELLINO 2010" rid="ref-6" ref-type="bibr">CHIELLINO 2010</xref>: 78)
          </p>
        </fn>
      </fn-group>
    </back>
  </article>