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				<journal-title>Revista de Tradução e Terminologia</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Revista de Tradução e Terminologia</abbrev-journal-title>
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				<publisher-name>Centro Interdepartamental de Tradução e Terminologia da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.11606/issn.2317-9511.v28i0p223-248</article-id>
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					<subject>Articles</subject>
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				<article-title>Por que ler Jorge Amado em russo: a cultura soviética revelada na tradução de <italic>Gabriela</italic></article-title>
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					<trans-title>Why read Jorge Amado's works in Russian: Soviet culture disclosed in Gabriela's translation</trans-title>
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						<surname>Darmaros</surname>
						<given-names>Marina</given-names>
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					<xref ref-type="aff" rid="aff1"><sup>*</sup></xref>
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					<label>*</label>
					<institution content-type="original">Marina Darmaros é mestra em Jornalismo Internacional pela Rossisski Universitet Drujbi Narodov e doutoranda no programa de Literatura e Cultura Russa da USP. Sua pesquisa atual, orientada pela Prof. Dra. Elena Vássina, está voltada ao cotejo da obra original de Jorge Amado com suas traduções para o russo na extinta União Soviética. Contato: marina.darmaros@usp.br</institution>
					<institution content-type="orgdiv1">programa de Literatura e Cultura Russa</institution>
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					<email>marina.darmaros@usp.br</email>
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				<year>2023</year>
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			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
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			<volume>28</volume>
			<fpage>223</fpage>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>Jorge Amado nunca viveu em Moscou, mas teve portas abertas a sua publicação na URSS, sobretudo a partir do exílio em Praga, entre os anos 1940 e 1950, quando era membro ativo do Partido Comunista. Assim, a análise aqui apresentada da tradução de suas obras para o russo durante a União Soviética fala muito sobre a cultura, a história e a política deste país.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>Abstract</title>
				<p>The Brazilian writer Jorge Amado never lived in Moscow, but he had opened doors in the USSR to publish his works, overall after his exile in Praga, between the 1940s and 1950s, when he was an active member of the Communist Party. Thus, an analysis of his works' translations into Russian during the Soviet era talks a lot about this country's culture, history and politics.</p>
			</trans-abstract>
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				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>estudos da tradução</kwd>
				<kwd>cultura russo-soviética</kwd>
				<kwd>Jorge Amado</kwd>
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				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Translation Studies</kwd>
				<kwd>Russian-Soviet Culture</kwd>
				<kwd>Jorge Amado</kwd>
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		<sec sec-type="intro">
			<title>1. Introdução</title>
			<p>Uma análise atenta da tradução para o russo de <italic>Gabriela, cravo e canela</italic>, de Jorge Amado (1912-2001), durante a União Soviética, fala muito sobre a cultura, a história e a política deste país. O escritor baiano foi um dos estrangeiros mais lidos na URSS e, certamente, um expoente da literatura latino-americana traduzida ali. Amado nunca viveu em Moscou, mas sua filiação ao Partido Comunista a partir da década de 1930 e o exílio na Praga soviética e em Paris, entre 1947 e 1952, com inúmeras visitas à capital russa, certamente lhe renderam prestígio e aumentaram suas possibilidades de publicação<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref> no - agora extinto - país.</p>
			<p><italic>São Jorge dos Ilhéus</italic>, publicado no Brasil em 1944, sai quatro anos depois na URSS e é a primeira obra de Jorge Amado ali, apesar da crença do escritor de que <italic>Cacau</italic> (1933) e <italic>Suor</italic> (1934) já tivessem sido publicados em russo - os títulos não o foram até a atualidade, apesar de constarem das listagens de suas obras publicadas em línguas estrangeiras no paratexto de seus livros. Amado chega a afirmar ao pesquisador William <xref ref-type="bibr" rid="B6">Rougle (1984</xref>: 51) que um amigo soviético lhe garantira a tradução<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref>.</p>
			<p>Também obscuras são as tiragens do baiano no país, que normalmente atuam como dosadoras da popularidade de um escritor. Seus livros, assim como praticamente toda a literatura estrangeira traduzida na União Soviética, não traz essa marcação no paratexto. Isso pode ser explicado, em partes, pelo fato de que, seguindo os passos da Rússia imperial, a União Soviética não entrou na Convenção de Berna, de 1886, por quase um século, e se isentava de pagar royalties exceto a raros escritores, como o comunista norte- americano Howard Fast - que, porém, deixou de recebê-los e também de ser publicado após seu rompimento com o Partido Comunista. Contudo, só para se ter uma ideia, a trilogia de <italic>Terras do sem-fim</italic>, <italic>Seara vermelha</italic> e <italic>São Jorge dos Ilhéus</italic> sai pela editora Urojai, de Kiev, com 200 mil exemplares, entre 1981 e 1984; e <italic>Tenda dos milagres</italic>, pela Raduga, de Moscou, com 300 mil cópias, em 1986. O principal tradutor de Jorge Amado na era soviética, Iúri Kalúguin, também informa, em carta ao baiano datada de 1972 (<xref ref-type="bibr" rid="B12">KALÚGUIN, 1972</xref>)<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>3</sup></xref>, que pelo menos duas de suas obras, <italic>São Jorge dos Ilhéus</italic> e <italic>Seara vermelha</italic> saíram até mesmo em Braile.</p>
			<p>A qualidade das traduções na URSS, porém, é posta em jogo, por vezes, devido a uma quase literal “corrida tradutória” que se trava no país. Conquanto estavam desobrigadas de royalties, de contratos e até da fidelidade ao original, cortando e adaptando quanto e a que propósito quisessem as obras estrangeiras, por isentas da Convenção de Berna, as editoras, ainda por cima, corriam com as traduções para serem as primeiras a publicar as obras. <italic>São Jorge dos Ilhéus</italic>, por exemplo, sai com um terço do volume original, traduzido do espanhol, e intitulado “Terra dos frutos de ouro”.</p>
			<p>Para entender o mercado de literatura estrangeira na URSS, basta verificarmos o seguinte trecho de uma ácida carta escrita em 1925 pelo escritor Kornêi Tchukóvski a sua agente em Berlim, Raíssa Lomonóssova:</p>
			<disp-quote>
				<p>(…) os tradutores são todo um bando. Cada um deles arrumou um ótimo jeito de receber livros do exterior. Todos eles têm uma prima ou ex-mulher em Berlim. Quando arranja um livro, o tradutor é pernas para que te quero, correndo até a editora - à “Misl”, à “Leningrad”, à “Vrêmia” - e enchendo de elogios seu produto. Se o produto promete 100% de lucro, as editoras se deixam seduzir, encomendam a tradução, e o tradutor, em uma tacada, traduz o livro todo em cinco ou seis noites. São costumes predatórios. A concorrência é furiosa (...) Há uns dois meses as editoras introduziram, finalmente, o “direito da primeira noite”: a primeira editora a receber algum livro informa às outras editoras em volta, e essas não têm o direito de publicar o mesmo livro. Mas isso não ajuda muito, e toda a corporação tradutória, a princípio, continua predatória (TCHUKÓVSKI apud <xref ref-type="bibr" rid="B9">MALIKOVA 2011</xref>: 38)</p>
			</disp-quote>
			<p>Já em 1929, o escritor Ossip Mandelshtam, em seu artigo “Потоки халтуры” (“Fluxos de bicos”), critica essa “fábrica de traduções”, como chama a pesquisadora Maria Emmanuilovna <xref ref-type="bibr" rid="B9">Malikova (2011</xref>: 41):</p>
			<disp-quote>
				<p>O livro estrangeiro aqui sai, de fato, sem custos. A porcentagem dos honorários que vai para a tradução e a edição desse livro, em comparação com um original, é tão nula, que não convém nem falar. Indiferente quanto à qualidade da produção, a editora tem, ao mesmo tempo, um ardente interesse em sua difusão. A leitura de literatura russa contemporânea, em comparação à traduzida, é bastante insignificante. A literatura estrangeira está, literalmente, varrendo a russa contemporânea. É bastante lucrativo e confortável às editoras ter negócios com um livro cujo autor, quando vivo, está ausente. Em primeiro lugar, não se exige sua aprovação para a própria edição; em segundo, não é preciso ter com ele uma fatigante e arriscada negociação; em terceiro, ele não reclamará sobre como o livro saiu (MANDELSHTAM apud <xref ref-type="bibr" rid="B9">MALIKOVA 2011</xref>: 37)</p>
			</disp-quote>
			<p>Essa corrida tradutória se desenrolou na Rússia ainda por muitos anos, apesar da eliminação das editoras privadas e cooperativas a partir da década de 1930 e da centralização nas estatais, e permeou também a publicação das traduções de Amado no país. Mesmo após a URSS passar a integrar o tratado de direitos autorais, a partir de 1973, Kalúguin mostra pressa e ciúmes da concorrência tradutora, característica tão presente no período pré-Convenção de Berna. Em cartas (<xref ref-type="bibr" rid="B13">KALÚGUIN 1978</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B14">1981</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B15">1982</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B16">1985</xref>), ele pede que Amado envie mais rapidamente, por meio de amigos, suas obras, para que as receba - e traduza - antes do “atrevido”<xref ref-type="fn" rid="fn4"><sup>4</sup></xref> Aleksandr Bogdanóvski e de Inna Tchejegova.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>2. Aspectos técnicos do cotejo</title>
			<p>Buscando preservar a devida distância crítica, necessária para tal análise, estabeleci como objeto de estudo o cotejamento da tradução russa de <italic>Gabriela, cravo e canela</italic> com o original. O romance de 1958 sai já em 1961 na União Soviética, e marca um <italic>turning point</italic> na obra do autor, que deixa de lado o foco nos temas sociais e se aprofunda no erotismo. A mudança coincide com momento importante de sua vida e da história soviética: os quatro anos de intervalo entre a publicação de <italic>Gabriela</italic> e da obra anterior de Amado no Brasil (<italic>Os subterrâneos da liberdade</italic>, de 1954), são marcados pelo ponto final no culto à personalidade que se promove após a morte de Stálin, em 1953, pelo discurso secreto proferido por Nikita Khrushov no 20° Congresso do Partido Comunista, em 1956, e pela desilusão e afastamento de Jorge do Partido<xref ref-type="fn" rid="fn5"><sup>5</sup></xref>.</p>
			<p>Para o cotejamento que aqui apresento, utilizei a 14° edição de <italic>Gabriela, cravo e canela</italic> em português pela Livraria Martins Editora, publicada em 1960, e sua versão em russo, Габриэла (хроника одного провинциального города), publicada em 1961 pela Издательство иностранной литературы.</p>
			<p>Meu objetivo, ao escolher as duas edições, foi aproximar-me ao máximo das primeiras versões nos dois idiomas, assim como reunir o texto-fonte ao texto de destino, e, dessa maneira, compreender os mecanismos que levaram a eventuais mudanças na tradução, em relação ao original, visto que as edições russas mais recentes já contêm algumas correções e alterações. A obra é ainda significativa por ter sido vertida por Iúri Kalúguin, um dos principais tradutores de Amado durante a União Soviética e também responsável pelo maior número de títulos do autor em russo.</p>
			<p>Procurei, neste artigo, utilizar a grafia original em russo sempre que possível, para evitar quaisquer eventuais imprecisões causadas na transliteração. Assim, realizo transliterações apenas onde necessário, restringindo-as, principalmente, às referências bibliográficas. Nomes de artigos ou livros citados no corpo do texto foram traduzidos para o português, com os originais em russo mantidos entre parênteses. Já trechos de cotejo são apresentados com o original em português, seguido da tradução de Kalúguin para o russo e da retradução do russo para o português.</p>
			<p>As traduções de títulos de livros e citações do russo e do inglês, assim como as retraduções do cotejo aqui apresentadas em português foram efetuadas por mim.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>3. Análises anteriores das traduções amadianas</title>
			<p>São poucos os pesquisadores que se dedicam às traduções russas de Amado. Na Rússia, a única a se debruçar sobre o tema é Elena Beliakova, da Universidade Estatal de Tcherepovets. Reverenciando o trabalho do ex-correspondente soviético no Brasil, Iúri Kalúguin<xref ref-type="fn" rid="fn6"><sup>6</sup></xref>, e de Inna Tiniânova, e apontando erros de Aleksandr Bogdnóvski e Liliana Brevern, a pesquisadora, porém, admite os cortes executados por seus tradutores prediletos:</p>
			<disp-quote>
				<p>Dizem agora que os livros de Amado nos tempos soviéticos saíam com cortes. Naturalmente, eram submetidas a reduções as cenas mais “naturalistas”, cujos excessos eram apontados pela crítica pré-degelo. Mas penso que essas reduções foram feitas não tanto por carolice, como para preservar as tradições da literatura russa. A literatura clássica russa é caracterizada pela castidade na descrição das relações entre o homem e a mulher. Por isso, o que para os brasileiros é um erotismo leve, para os russos é uma grande pornografia. Na língua russa inexiste toda uma gama de vocabulário literário geral referente a tais relações. O que, em português, chamam de palavras estilisticamente neutras e também de uso comum, em russo pode-se chamar ou de termos médicos<xref ref-type="fn" rid="fn7"><sup>7</sup></xref>, ou de palavrões explícitos. É preciso silenciar em algo, abrandar alguma coisa, mas isso não deformou de maneira nenhuma a recepção de Amado pelos leitores soviéticos. Pelo contrário, foi necessário pelo bem da imagem do autor, para que o leitor russo experimentasse durante a leitura dos livros de Amado a mesma sensação que os brasileiros (<xref ref-type="bibr" rid="B4">BELIAKOVA, 2010</xref>: 133-134)</p>
			</disp-quote>
			<p>Apesar de fazer um trabalho aparentemente bem-sucedido em verter para o russo uma língua e uma cultura muito distantes da sua - sobretudo em uma era em que as distâncias eram tão maiores do que na atualidade, com o advento da internet e infinitos <italic>gadgets</italic> -, e de se mostrar um escritor talentoso, Kalúguin, diferentemente do sustentado por Beliakova, comete bastantes erros também - além de fazer cortes de cunho moralista.</p>
			<p>Por exemplo, o tradutor amadiano contemporâneo Aleksandr Bogadanóvski aponta, em entrevista, para um erro em que seu predecessor, Kalúguin, troca um adjetivo por um nome próprio:</p>
			<disp-quote>
				<p>Fico pensando o quão bom Jorge Amado era como escritor, já que conseguia angariar tanto amor do leitor russo mesmo que esse o recebesse de modo fortemente deturpado. E o problema não está só nos incontáveis erros. De um de seus livros, &quot;Gabriela, cravo e canela&quot;, sai uma situação cômica. Na tradução, lê-se: &quot;Euforicos, o capitão e o doutor entraram no restaurante&quot;. Em seguida, descreve- se a farra, e dela só saem o capitão e o doutor. O Euforicos, pelo visto, foi comido por eles. Mas, na verdade, &quot;eufóricos&quot; é um adjetivo isolado [por vírgula]: significa que o capitão e o doutor estavam em um ótimo estado de espírito, de euforia. Mas o tradutor transformou o estado de euforia em personagem (<xref ref-type="bibr" rid="B11">KALASHNIKOVA, 2003</xref>)</p>
			</disp-quote>
			<p>Em sua longa e profunda pesquisa sobre a recepção da obra do baiano na Rússia, <xref ref-type="bibr" rid="B8">Beliakova (2005</xref>), ao pincelar um cotejo das traduções russas de Amado e relembrar o caso, mostra desaprovação quanto às observações de Bogdanóvski, pondo em jogo sua breve análise:</p>
			<disp-quote>
				<p>É claro que Bogdanóvski fala de Iúri Aleksandrovitch Kalúguin. É claro também que ele vê um cisco no olho do outro, mas um tronco no seu próprio, não nota. Felizmente, Aleksandr Bogdanóvski está vivo e saudável, e posso falar dele tudo o que quiser. Ele caçou em Iúri Kalúguin um único erro, mas sua própria tradução de 'Capitães da areia' literalmente abunda deles, de modo que não se sabe o que fazer: rir ou chorar das pérolas alheias</p>
			</disp-quote>
			<p>As duas obras analíticas de Beliakova compreendendo sua pesquisa acerca das publicações de Amado na Rússia<xref ref-type="fn" rid="fn8"><sup>8</sup></xref> restringem-se, porém, a esse trecho de tradução, quando o assunto é o cotejo de Kalúguin com o original. Beliakova também nos presenteia com cerca de uma dezena de páginas dedicadas a algum cotejo de traduções, mas dedica especial atenção às obras vertidas por Bogdanóvski, tornando necessário um novo olhar sobre o trabalho de Kalúguin.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>3. Principais tendências na tradução de Kalúguin da obra de Amado</title>
			<p>No cotejo que venho realizando do original em português de <italic>Gabriela, cravo e canela</italic>, com a tradução russa efetuada por Iúri Kalúguin e publicada primeiramente em Moscou (1961), pude verificar alguns padrões de casos que se repetem. Essas tendências, sobre as quais discorro em seguida apresentando mais exemplos, foram, principalmente: erros, alterações de cunho ideológico, cortes em trechos eróticos, uso de elementos estrangeirizantes, mudanças nas estruturas das orações, uma liberdade na tradução que por vezes remete às <italic>belles infidèles</italic> e a incapacidade do tradutor de transitar entre os discursos das personagens.</p>
			<sec>
				<title>3.1 Erros de tradução</title>
				<p>O primeiro exemplo aqui apresentado é o supracitado que foi disseminado pelo concorrente de Iúri Kalúguin, Aleksandr Bogdanóvski. Assim, temos no trecho original de <italic>Gabriela</italic> em português:</p>
				<disp-quote>
					<p><bold>Eufóricos</bold>, o Capitão e o Doutor apareceram cedo no Bar Vesúvio comboiando um homem de uns trinta e poucos anos, de rosto aberto e ar esportivo (<xref ref-type="bibr" rid="B2">AMADO 1960</xref>: 202)</p>
				</disp-quote>
				<p>Que foi vertido em russo para:</p>
				<disp-quote>
					<p><bold>Эуфорикос</bold>, Капитан и Доктор пришли в бар “Везувий” рано и привели с собой мужчину лет тридцати с небольшим. У него был открытое лицо и спортивный вид (<xref ref-type="bibr" rid="B3">AMADO 1961</xref>: 220)</p>
				</disp-quote>
				<p>No trecho, o estado de espírito descrito por Amado, “eufóricos”, é simplemente transliterado, de modo que se cria uma nova personagem, como apontado por Bogdanóvski. Também é curioso notar que a mesma palavra aparece anteriormente na obra, e Kalúguin a traduz de maneira menos assustadora - mas ainda errônea. Assim, no original, lê-se: “(...) o russo Jacob, a barba ruiva por fazer, despenteado, <bold>eufórico</bold>” (<xref ref-type="bibr" rid="B2">AMADO 1960</xref>: 35). Que é vertido ao russo como: “(...) встретил русского Якова с небритой рыжей бородой, нечёсаного, но <bold>в благодушном настроении</bold>” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">AMADO 1961</xref>: 37). Retraduzindo o trecho para o português, teríamos: “(...) encontrou o russo Jacob com a barba ruiva por fazer, despenteado, <bold>estado de espírito benévolo</bold>”. </p>
				<p>Esses, infelizmente, não são os únicos erros na primeira edição de <italic>Gabriela</italic> para o russo. A obra apresenta, já na primeira página após o paratexto, desencontros. No original, Amado narra a morte do amante dentista e de Sinhazinha Guedes Mendonça pelo marido, o fazendeiro Jesuíno Mendonça.</p>
				<disp-quote>
					<p>Não era dia próprio para sangue derramado. Como, porém, o coronel Jesuíno Mendonça era homem de honra e determinação, pouco afeito a leituras e a razões estéticas, tais considerações não lhe passaram sequer pela cabeça dolorida de <bold>chifres</bold> (<xref ref-type="bibr" rid="B2">AMADO 1960</xref>: 19).</p>
				</disp-quote>
				<p>O trecho é vertido em russo para:</p>
				<disp-quote>
					<p>Впрочем, полковник Жезуино Мендонса, человек чести, человек действия, не охотник до чтения, был чужд эстетике, и поэтому подобные соображения не пришли ему в голову, <bold>забитую цифрами и расчетами</bold> (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Amado 1961</xref>: 15-16). </p>
				</disp-quote>
				<p>Sua retradução, abaixo, traz forte diferença para o original:</p>
				<disp-quote>
					<p>Porém, o coronel Jesuíno Mendonça era um homem de honra, um homem de ação, não um apreciador de leituras, um estranho à estética, e por isso tais considerações não lhe passavam pela cabeça, <bold>embrutecida por números e contas</bold>. </p>
				</disp-quote>
				<p>“Chifre”, no original em português, é vertido para “цифра” (“números”, em russo), provavelmente com alguma influência da palavra francesa “chiffre” (no dicionário Porto francês-português, “símbolo”, “algarismo”). Em plenos anos 1960, é difícil pensar em como o tradutor sanaria dúvidas tão específicas, em português brasileiro, então tão raro no país, e, ainda por cima, em linguagem figurada. Mas a hipótese de uma influência - no caso, errônea - do francês surge devido ao fato de que essa era a primeira língua estrangeira de Kalúguin, o que poderia tê-lo induzido ao erro nessa ocasião. Cheguei a cogitar a possibilidade de a tradução ter sido feita com apoio da edição francesa. Mas, após ter contato com a primeira versão francesa, de 1959, pelas Éditions Segher-L'Inter, e com a análise desta pela pesquisadora Neide Ferreira Gaspar, achei-a improvável. A edição francesa de 1959 contém alterações que vão da divisão de capítulos ao título do livro e traz cortes substanciais, aos quais as breves, porém cirúrgicas, supressões russas não se equiparam.</p>
				<p>Muitos outros erros se seguem, e detenho-me a apenas alguns casos ilustrativos. Kalúguin verte, por exemplo, “gosto de sangue” (<xref ref-type="bibr" rid="B2">AMADO 1960</xref>: 20) mais de uma vez para “жажда кровопролития”(<xref ref-type="bibr" rid="B3">AMADO 1961</xref>: 16,17), expressão que, retraduzida, significaria “sede de derramamento de sangue”. Dessa maneira, o tradutor inverte a ideia expressada pelo autor acerca de memórias de um passado violento, para a vontade de um futuro violento. Já em outro fragmento, verte “roça” (<xref ref-type="bibr" rid="B2">AMADO, 1960</xref>: 20) para “роща” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">AMADO, 1961</xref>:17), o que, retraduzido, significaria “floresta”.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>3.2 Alterações de cunho ideológico</title>
				<p>O cotejo de <italic>Gabriela</italic> resultou também na verificação de mudanças de caráter ideológico. Um exemplo pode ser retirado do trecho do original, onde inicia-se um texto curto que, aos moldes de um roteiro de teatro, apresenta o “cenário” do romance. Desse texto curto, o original fala em “Um remoto passado glorioso de nobres soberbos e <bold>salafrários</bold>” (<xref ref-type="bibr" rid="B2">AMADO 1960</xref>: 21). Mas, no russo, a tradução cria um maniqueísmo inexistente no original, ao substituir “salafrários”, por “povo simples”: “из деликого прошлого надменных дворян и <bold>простого народа</bold>” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">AMADO 1961</xref>: 19), ou seja, “do passado distante de nobres soberbos e <bold>do povo simples</bold>”. </p>
				<p>Mais adiante, um trecho que remete a Lênin é suprimido, também provavelmente por motivos ideológicos. No original, Amado descreve o famigerado presépio das irmãs dos Reis:</p>
				<disp-quote>
					<p>Nos últimos anos crescera grandemente o número de artistas de cinema, principal contribuição das alunas do colégio das freiras, e os William Farnum, Eddie Polo, Lya de Putti, Rodolfo Valentino, Carlitos, Lillian. Gish, Ramon Novarro, William. S. Hart, ameaçavam seriamente dominar os caminhos das colinas. <bold>E, lá estava até mesmo VIadimir Ilitch Lenin, o temido chefe da revolução bolchevique. Fora João Fulgêncio quem cortara o retrato numa revista, entregara a Florzinha:</bold></p>
				</disp-quote>
				<disp-quote>
					<p>- Homem importante... Não pode deixar de estar no presépio (<xref ref-type="bibr" rid="B2">AMADO 1960</xref>: 78)</p>
				</disp-quote>
				<p>A tradução para o russo suprime totalmente qualquer referência ao líder soviético:</p>
				<disp-quote>
					<p>В последние годы значительно возросло число портретов киноартистов это был вклад учениц монастырской школы. В результате Вильям Фарнум, Эдди Поло, Лия де Путти, Рудольфо Валентино, Чарли Чаплин, Лилиан Гиш, Рамон Наварро, Вильям Харт не на шутку угрожали завоевать все дороги и холмы презепио (<xref ref-type="bibr" rid="B3">AMADO 1961</xref>: 84)</p>
				</disp-quote>
				<p>Retradução:</p>
				<disp-quote>
					<p>Nos últimos anos crescera consideravelmente o número de retratos de artistas de cinema, principal contribuição das alunas do colégio das freiras. Como resultado, William Farnum, Eddie Polo, Lya de Putti, Rodolfo Valentino, Charles Chaplin, Lillian Gish, Ramon Novarro, William Hart, ameaçavam seriamente dominar todos os caminhos e colinas do presépio.</p>
				</disp-quote>
				<p>Da mesma maneira, a caracterização que Amado faz do <italic>tsar</italic> como “herói da guerra”, ainda ao descrever o presépio, é apagada da tradução. No original, lê-se: “Mais adiante, <bold>heróis da guerra</bold>: o rei George V, da Inglaterra, o Kaiser, o Marechal Joffre, Lloyd George, Poincaré, o tzar Nicolau” (<xref ref-type="bibr" rid="B2">AMADO 1960</xref>: 78). A tradução, porém, requalifica o imperador como “figura política do período da Primeira Guerra”:</p>
				<disp-quote>
					<p>Дальше разместились <bold>политические деятели периода первой мировой войны</bold>: английский король Георг V, кайзер, маршал Жоффр, Ллойд Джордж, Пуанкаре, царь Николай II (<xref ref-type="bibr" rid="B3">AMADO 1961</xref>: 84)</p>
				</disp-quote>
				<p>Retraduzindo, o trecho ficaria:</p>
				<disp-quote>
					<p>Mais adiante, distribuíam-se <bold>figuras políticas do período da Primeira Guerra Mundial</bold>: o rei inglês George V, o kaiser, o marechal Joffre, Lloyd George, Poincaré, o <italic>tzar</italic> Nicolau II.</p>
				</disp-quote>
			</sec>
			<sec>
				<title>3.3 Cortes em trechos eróticos</title>
				<p>Também são notados cortes em trechos mais sensuais da obra, e de maneira curiosa. As primeiras menções parecem ter cortes mais profundos. Em seguida, vai-se amainando a censura, e trechos eróticos são vertidos na íntegra por Kalúguin. Mais para frente, novos cortes acontecem. Um dos primeiros é o que se segue, no original em português, com todo o fragmento em negrito excluído da tradução para o russo:</p>
				<disp-quote>
					<p>Ficara-lhe o desejo irritado. Agora via o corpo moreno de Gabriela, a perna saindo da cama. Mais do que via, adivinhava-o sob a coberta remendada, <bold>mal cobrindo a combinação rasgada, o ventre e os seios. Um seio saltava pela metade, Nacib procurava enxergar</bold>. E aquele perfume de cravo, de tontear (<xref ref-type="bibr" rid="B2">AMADO 1960</xref>: 189)</p>
				</disp-quote>
				<p>A tradução para o russo se apresenta da seguinte forma:</p>
				<disp-quote>
					<p>Но его желание осталось неудовлетворенным. И вот он увидел смуглую кожу Габриэлы, ее ногу, свесившуюся с постели. Он угадывал ее тело под заплатанным одеялом. И этот запах гвоздики, от которого кружится голова (...) (<xref ref-type="bibr" rid="B3">AMADO 1961</xref>: 207)</p>
				</disp-quote>
				<p>E a retradução:</p>
				<disp-quote>
					<p>Mas seu desejo continuou por satisfazer. E então ele viu a pele morena de Gabriela, sua perna pendendo na cama. Ele adivinhava seu corpo sob a coberta remendada. E aquele perfume de cravo que fazia a cabeça girar (...)</p>
				</disp-quote>
				<p>Imediatamente antes, porém, o tradutor mantém referências sensuais e à prostituição. No original (<xref ref-type="bibr" rid="B2">AMADO 1960</xref>: 189), lê-se: “[Nacib] Esperara dormir essa noite nos braços de Risoleta, nessa certeza fora ao cabaré, antegozando a sabedoria dela, de prostituta de cidade grande”. A tradução (<xref ref-type="bibr" rid="B3">AMADO 1961</xref>: 206-207) mostra-se bastante fiel: “Он ожидал, что проведет эту ночь в объятиях Ризолеты, c этой уверенностью он и пошел в кабаре, предвкушая искусные ласки проститутки большого города”.</p>
				<p>Na mesma cena, os “seios” que foram anteriormente objeto de autocensura do tradutor - ou de corte do editor, não se sabe ao certo - logo em seguida ficam liberados para tradução, como se vê nos fragmentos seguintes (<xref ref-type="bibr" rid="B2">AMADO 1960</xref>: 190; <xref ref-type="bibr" rid="B3">1961</xref>: 207). “Não buscava esconder o <bold>seio</bold>, agora visível ao luar” mantém-se como “Она не старалась прикрыть <bold>грудь</bold>, которая теперь была отчетливо видна в лунном свете”. Retraduzido para o português, a fidelidade é mantida: “Ela não buscava esconder o <bold>seio</bold>, que agora era nitidamente visível ao luar”. Imediatamente depois, o autor escreve: “Tudo podia ser, ela parecia uma criança, <bold>as coxas e os seios</bold> à mostra como se não visse mal naquilo, como se nada soubesse daquelas coisas, fosse toda inocência”. Que fica, em russo: “Она вела себя как ребенок, <bold>бедра и грудь</bold> ее были обнажены, будто она не видела в этом ничего плохого, будто ничего не знала об этих вещах и была совершенно невинной”. Retraduzindo: “Ela se comportava como uma criança, <bold>as coxas e o seio</bold> estavam nus, como se ela não visse mal naquilo, como se nada soubesse daquelas coisas e fosse toda inocência”.</p>
				<p>Da mesma maneira que “seios” e “coxas” ora são permitidos, ora cortados, algumas páginas adiante o tradutor volta a efetuar cortes em fragmentos sensuais. No original (<xref ref-type="bibr" rid="B2">AMADO 1960</xref>: 201), lê-se: “Por baixo do balcão a beliscava, <bold>passava-lhe a mão sob as saias</bold>, tocava-lhe os peitos. Gabriela ria então em surdina, era gostoso”. Na tradução (<xref ref-type="bibr" rid="B3">AMADO 1961</xref>: 219), o trecho anteriormente grifado é suprimido: “Он тайком щипал ее, прикасался к ее груди. Габриэла тихонько посмеивалась - ей было приятно”. Retraduzindo: “Ele a beliscava às escondidas, tocava seus seios”. Em seguida, trecho com teor semelhante é traduzido. A tendência se repete <italic>ad infinitum</italic>, levando a crer que tradutor ou editor - ou ambos - confiavam que cortes aqui e ali abrandariam os “naturalismos” execráveis da obra.</p>
				<p>Para situar brevemente o problema no cenário soviético, basta citar o fato de que discussões importantes foram realizadas para discutir a sensualidade na obra de Jorge Amado e sua compatibilidade com aquilo que se convencionou chamar na URSS de “literatura progressista”. Muitas dessas reuniões tinham considerável relevo, tanto que foram estenografadas. Em um desses documentos, de 1954, a que tive acesso nos arquivos estatais russos, leem-se considerações de diversos membros da União dos Escritores da União Soviética, entre eles, de Inna Tiniânova, a filha do conceituado formalista russo Iúri Tiniânov, que podem ajudar a compreender a preocupação com o abrandamento da obra amadiana na URSS:</p>
				<disp-quote>
					<p>Quando falamos sobre o naturalismo da literatura latino-americana, não citamos o outro lado da história. Sem dúvida, existe ali a influência de correntes estéticas e o deleite com o naturalismo. Mas, na literatura progressista, especialmente de Amado, o que chamamos naturalismo não é naturalismo. Existem ali cenas que soam muito bem em Amado, mas não podemos transmiti-las em russo.</p>
				</disp-quote>
				<disp-quote>
					<p>(...)</p>
				</disp-quote>
				<disp-quote>
					<p>E, tratando do erotismo de Amado, é preciso lembrar que aqui também está encravada essa percepção sensorial da vida, e é preciso dizer isso muito sutilmente sobre as obras de Amado (<xref ref-type="bibr" rid="B17">1954</xref>: 28).</p>
				</disp-quote>
			</sec>
			<sec>
				<title>3.4 Elementos estrangeirizantes</title>
				<p>A tradução de <italic>Gabriela</italic> por Kalúguin é permeada de elementos estrangeirizantes, a maior parte sem explicações no corpo do texto ou em nota de rodapé. Desde as primeiras citações, palavras que se repetem por toda a obra, como “fazendeiro” (“фазендейро”) e “jagunço” (“жагунсо”) não são transliteradas e não ganham nota de rodapé. Da mesma forma, são transliteradas sem trazer maiores explanações “сеньор” e “дона синязинья”, entre muitas outras.</p>
				<p>São inúmeras as transliterações feitas dessa maneira, que abrangem também palavras regionais, por vezes desconhecidas até de parte do público brasileiro, como “caxixe” (<xref ref-type="bibr" rid="B2">AMADO 1960</xref>: 35), que vira “кашише” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">AMADO 1961</xref>: 36), ou algumas só difundidas por outras regiões recentemente, como “tapioca” (<xref ref-type="bibr" rid="B2">AMADO 1960</xref>: 37), que vira “тапиока” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">AMADO 1961</xref>: 39). Mas os principais termos a ganhar o rodapé são alimentos e pratos, como “кускус”, “мингау” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">AMADO 1961</xref>: 39) etc.</p>
				<p>Em outra ocasião, Kalúguin usa o recurso da transliteração para “padre” (падре), ao invés da tradução, “священник”. Logradouros, nomes próprios e apelidos também são, via de regra, transliterados sem tradução ou maiores explicações no corpo do texto ou rodapé. Assim, “Banco do Brasil” (<xref ref-type="bibr" rid="B2">AMADO 1960</xref>: 32), por exemplo, fica “Банко до Бразил” (<xref ref-type="bibr" rid="B2">AMADO 1960</xref>: 33).</p>
				<p>A transliteração pura e simples, porém, pode gerar mal-entendidos em alguns casos, como acontece com “barcaça” (<xref ref-type="bibr" rid="B2">AMADO 1960</xref>: 35), que vira “баркаса” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">AMADO 1961</xref>: 36). A palavra existe no léxico russo e tem sentido náutico, enquanto, na obra amadiana, trata-se de uma espécie de plataforma com telhado onde o cacau é processado.</p>
				<p>Nomes de santos, que poderiam encontrar equivalentes em russo, também são transliterados, mas não traduzidos, como em “festas de Santo Antônio e São João” (<xref ref-type="bibr" rid="B2">AMADO 1960</xref>: 26), que vira “на организацию празднеств святого Антонио и святого Жоана” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">AMADO 1961</xref>: 26). Em outro trecho, Kalúguin novamente translitera parte do nome do santo e traduz outra parte, no caso “São Jorge” (<xref ref-type="bibr" rid="B2">AMADO 1960</xref>: 27) que aparece como “святой Жорже” <xref ref-type="fn" rid="fn9"><sup>9</sup></xref> (<xref ref-type="bibr" rid="B3">AMADO 1961</xref>: 27). O caso de “São Jorge”, especificamente, é digno de nota, pois esse é o santo padroeiro de Moscou e estampa o brasão da capital, já que seu homônimo, Iúri Dolgorúki, fundou a cidade.</p>
				<p>Kalúguin, como ressaltado anteriormente, tampouco traduz ou dá notas de rodapé para nomes próprios e apelidos, muitos deles, significativos<xref ref-type="fn" rid="fn10"><sup>10</sup></xref>. Uma exceção é “Onça”, em “Manuel das Onças”, que não é traduzido, mas transliterado como “онса” e ganha nota de rodapé.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title><bold>3.5 Estrutura, <italic>belles infidèles</italic> e trânsito entre discursos</bold></title>
				<p>Em inúmeras ocasiões, o tradutor de <italic>Gabriela</italic> busca “melhorar” o texto de Amado quebrando ou unindo orações e períodos, incluindo sujeitos ocultos, substituindo pronomes pelos nomes próprios das personagens, incluindo adjetivos para qualificar coisas ou pessoas. O soviético busca claramente fugir da tradução palavra-por-palavra, buscando dar mais “fluidez” ao texto. Essa tradução livre é, porém, uma tradição da escola russa, e não uma característica restrita a Kalúguin. Talvez estranha ao tradutor brasileiro, é verdade, mas bem estabelecida na Rússia.</p>
				<p>Assim, apenas a título de exemplo, trago um trecho que Kalúguin verte em russo muito “fluido”, em fragmento (<xref ref-type="bibr" rid="B2">AMADO 1960</xref>: 33) responsável por tornar mais longo um discurso que poderia ser encurtado: “(...) de quando em vez, um assassinato era cometido em plena rua”. A tradução (<xref ref-type="bibr" rid="B3">AMADO 1961</xref>: 34) apresenta-se da seguinte forma: “(...) правда, уже изредка, но, как и раньше, прямо на улице, у всех на глазах, они совершали убийства”. Retraduzindo: “(...) é verdade que, já de quando em vez, mas, também como antes, em plena rua, sob os olhares de todos, eles cometiam assassinatos”. Aqui, a manutenção do verbo reflexivo também faria mais sentido, como no original, por não retomar o sujeito da oração anterior desse enorme período, já que, de outra forma, acaba lhe atribuindo os assassinatos.</p>
				<p>Em outros casos, o discurso é, pelo contrário, abreviado. Enumerações são cortadas ou prolongadas - por vezes, quando sequer constituíam, originalmente, tal elemento de estilo. É o caso, por exemplo, do uso de “palacetes”, que muitas vezes torna-se uma enumeração de três ou quatro palavras na versão em russo. Assim, no original, <xref ref-type="bibr" rid="B2">Amado (1960</xref>: 20) escreve: “(...) construíam-se palacetes”. Na tradução (<xref ref-type="bibr" rid="B3">AMADO, 1961</xref>: 17), o fragmento torna-se: “(...) строились дома, коттеджи, особняки”. Retraduzindo: “(...) construíam-se casas, chalés, palacetes”. Em meu cotejamento, notei ser impossível prever qual será a resposta do tradutor ao estímulo gerado pelo original, já que outras enumerações simplesmente são abreviadas por Kalúguin.</p>
				<p>No trecho seguinte, o tradutor já incute um juízo de valor que não estava no original (<xref ref-type="bibr" rid="B2">AMADO 1960</xref>: 33): “Cruzavam essas figuras, nas ruas, nas calçadas limpas (...)” é traduzido (<xref ref-type="bibr" rid="B3">AMADO 1961</xref>: 34-35) como “Подобного рода <bold>темные</bold> личности смешивались на замощенных и чистых улицах (...)”. Retraduzindo do russo para o português, obteríamos: “Tipo semelhante de figuras <bold>sombrias</bold> se misturavam nas ruas pavimentadas e limpas (...)”.</p>
				<p>Certo é, contudo, que a busca por “fluidez” não coincidiu, necessariamente, com a busca pelo “estilo” e fidelidade ao autor. Apesar de bastante subjetivos esses conceitos, especifico: o tradutor não é capaz, por exemplo, de fazer o texto transitar entre narradores. Isso acontece, por exemplo, quando Gabriela é narradora-testemunha. Sua linguagem simples e uso de pronomes de tratamento que retratam, entre outros, certa subserviência a Nacib, não são transmitidos ao leitor russo.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>4. Considerações finais</title>
			<p>O cotejo de <italic>Gabriela, cravo e canela</italic> leva a crer que as alterações verificadas na tradução de 1961 de Iúri Kalúguin não chegam a elencar a obra no rol das refrações da literatura estrangeira realizadas na União Soviética. Afinal, se os soviéticos começaram a publicar Amado ainda quando sua escrita se encaixava, a seu modo, na definição de “literatura progressista”, não deixaram de fazê-lo mesmo com o <italic>turning point</italic> trazido em 1958 por <italic>Gabriela</italic> - que sai apenas três anos depois na URSS. E isso ocorre mesmo a despeito dos vereditos pouco promissores a que chegavam as comissões de literatura dos <italic>gatekeepers</italic> soviéticos, como vimos no caso do estenograma da União dos Escritores de 1954.</p>
			<p>A constatação é significativa, já que a literatura estrangeira teve suma importância durante o período soviético, não obstante algum pesar nesse sentido por parte dos órgãos culturais, como se pode inferir do fragmento de relatório do Departamento de Cultura do Comitê Central do PCUS, de 25 de janeiro de 1958:</p>
			<disp-quote>
				<p>Em 1956, por exemplo, foram publicados livros de 920 autores estrangeiros, o mesmo número publicado, de acordo com dados preliminares, em 1957, ou seja, 2,7 vezes mais que em 1950. A tiragem média dos livros estrangeiros nesses anos quintuplicou. Os livros de literatura de ficção compuseram 14,8% do volume total de lançamentos em 1956; 24,9% da tiragem geral; e 32,6% das folhas impressas. Nos últimos anos, aumentou o círculo de autores estrangeiros publicados. Agora, as literaturas da China, da Índia, dos países árabes estão amplamente representadas em língua russa. Restabeleceu-se um distanciamento da publicação de obras de uma série de escritores famosos (Heinrich Mann, O'Casey e outros). Publica-se mais literatura do século 20. Em periódicos, publicam-se mais materiais sobre literaturas estrangeiras.</p>
			</disp-quote>
			<disp-quote>
				<p>(...)</p>
			</disp-quote>
			<disp-quote>
				<p>Entretanto, na escolha da literatura estrangeira para lançamento por editoras soviéticas, assim como na crítica dessa e resenhas deixam-se passar erros graves, que causam prejuízo no campo da educação ideológica e do crescimento cultural dos soviéticos. Entre os livros publicados de autores estrangeiros, um grande e espaço é ocupado desmedidamente pela literatura de puro entretenimento e aventura. As editoras centrais e, sobretudo, as das repúblicas e regionais, frequentemente escolhem para receber tiragens massivas livros de gênero leve e entretenimento, que não apresentam valores ideológicos e artísticos sérios. O romance de Mayne Reid “O Cavaleiro sem cabeça”, por exemplo, saiu entre 1955 e 1957 em dezenas de edições: em Moscou (“Detgiz”, “Moskóvski rabotchii”), em Kiev, em Alma-Ata [Cazaquistão], em Baku [Azerbaijão], em Frunze [Moldávia] (duas edições), em Tashkent [Uzbequistão], em Novossibírsk, em Tchitá. Sua tiragem ultrapassou o 1,2 milhão de exemplares, e em 1957 foi reeditado com tiragens massivas em Tula e Alma Ata, em russo, e em Baku, em azeri. Mais de uma vez foram publicados “O Conde de Monte-Cristo”, “Rainha Margot”, “Os três mosqueteiros” de Dumas, “O homem invisível”, de H.G. Wells, e livros semelhantes com tiragens gerais que ultrapassam um milhão de exemplares. Injustificadamente, lançam-se com altas tiragens algumas obras clássicas que carregam incursões pela sexualidade. Assim, com tiragem de 375 mil exemplares, foi publicado em 1955 pela Goslitizdat “O Decameron”, de Boccaccio (<xref ref-type="bibr" rid="B1">AFIANI 1998</xref>: 33-38)</p>
			</disp-quote>
			<p>Além disso, certa suavização e cortes encontrados em <italic>Gabriela</italic> não são eventos isolados na literatura traduzida para o russo no período, como aponta a pesquisadora Ekaterina Olégovna Matvéeva, da Universidade Estatal de Magnitogorsk. Um exemplo é o “abrandamento”, como ela chama, da obra de J.D. Salinger em sua versão soviética de 1965, além de impropriedades na tradução para tentar aproximar a cultura ali apresentada da soviética - e afastá-la da norte-americana:</p>
			<disp-quote>
				<p>A última etapa de desenvolvimento da literatura de ficção soviética é muito contraditória: por um lado, cresce a demanda quanto à qualidade dos trabalhos, por outro, a dura censura em muito define o “entortamento” na tradução.</p>
			</disp-quote>
			<disp-quote>
				<p>Em sua tradução de 1965 [de “O apanhador no campo de centeio”], Rita Rait Kovaliova “abranda” significativamente o texto, despojando-lhe de expressões grosseiras e gírias adolescentes, e assim os leitores russos puderam conhecer esse livro, assim como, posteriormente, até estudantes em fase escolar o fizeram, enquanto o autor do original não considerava, de maneira alguma, a obra como infantil. Além disso, críticos apontaram imprecisões nessa tradução, colocando sob questão sua validade como um todo. A tentativa de aproximar o “seu” do “outro” no âmbito cultural não se mostrou bem-sucedida não apenas devido à forte censura, mas também por uma corrente de associações discrepantes entre autor e tradutor.</p>
			</disp-quote>
			<p>Nesse sentido, a tradução de <italic>Gabriela</italic>, altamente permeada por elementos estrangeirizadores, parece ter sido poupada da domesticação que acometeu o trabalho de Salinger. Mas, como na tradução do norte-americano, abundam “imprecisões”, o que remete novamente à enorme pressa dos tradutores em adquirir o “direito da primeira noite”. Para ilustrar a urgência que afligia esses tradutores, basta nos depararmos com as ofertas improváveis que estes faziam às editoras, inclusive a partir do exterior. Em carta de agosto de 1925, por exemplo, aos 70 anos de idade, o tradutor emigrante Aleksandr Mavrikievitch Volf (apud <xref ref-type="bibr" rid="B9">MALIKOVA 2011</xref>: 40), baseado em Paris, oferece à editora Vrêmia “traduções prontas de livros recém-lançados, com texto em russo literário impecável, sem necessidade de edição posterior”. A irrecusável proposta - que é, porém, declinada - ainda sugere o envio de traduções “dois ou três dias após o aparecimento do original, ou até antes de seu surgimento”.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<ref-list>
			<title>Referências bibliográficas</title>
			<ref id="B1">
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					<year>1998</year>
					<fpage>33</fpage>
					<lpage>38</lpage>
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				<mixed-citation>AMADO, Jorge. Gabriela, cravo e canela. 14° edição. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1960.</mixed-citation>
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			<title>Documentos de acesso eletrônico</title>
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					<comment>Livro on-line publicado em</comment>
					<year>2005</year>
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					<date-in-citation content-type="access-date" iso-8601-date="2016-06-20">Acesso em: 20 de junho de 2016</date-in-citation>
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			<ref id="B9">
				<mixed-citation>MALIKOVA, Maria Emmanuilovna. Shum vremeni: Istoria leningradskogo kooperativnogo izdatelstva &quot;Vremia&quot; (1922-1934) in Instituti kulturi Leningrada na perelome ot 1920-kh k 1930-m godam (2011, Coletânea eletrônica do Institut Pushkin). Disponível em: &lt;<comment>Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.pushkinskijdom.ru/LinkClick.aspx?fileticket=Bv_Fk5a7yi E%3d&amp;tabid=10460">http://www.pushkinskijdom.ru/LinkClick.aspx?fileticket=Bv_Fk5a7yi E%3d&amp;tabid=10460</ext-link>
					</comment>&gt;. Acesso em: 05 de setembro de 2016.</mixed-citation>
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							<surname>MALIKOVA</surname>
							<given-names>Maria Emmanuilovna</given-names>
						</name>
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					<source>Shum vremeni: Istoria leningradskogo kooperativnogo izdatelstva &quot;Vremia&quot; (1922-1934) in Instituti kulturi Leningrada na perelome ot 1920-kh k 1930-m godam</source>
					<year>2011</year>
					<comment>Coletânea eletrônica do Institut Pushkin</comment>
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					<date-in-citation content-type="access-date" iso-8601-date="2016-09-05">Acesso em: 05 de setembro de 2016</date-in-citation>
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			<ref id="B10">
				<mixed-citation>MATVEEVA, Ekaterina Olegovna. Khudojestveni perevod v Rossii: istoria i sovremennost. In: VI Studentcheskaia mezhdunarodnaia zaotchnaia nautchno-praktitcheskaia konferentsia &quot;Molodiojni nautchni forum: gumanitarnienauki&quot;. Disponível em: &lt;<comment>Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.nauchforum.ru/node/1566">http://www.nauchforum.ru/node/1566</ext-link>
					</comment>&gt;. Acesso em: 18 de junho de 2015.</mixed-citation>
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					<source>Khudojestveni perevod v Rossii: istoria i sovremennost</source>
					<conf-name>VIStudentcheskaia mezhdunarodnaia zaotchnaia nautchno-praktitcheskaia konferentsia &quot;Molodiojni nautchni forum: gumanitarnienauki&quot;</conf-name>
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					<date-in-citation content-type="access-date" iso-8601-date="2015-06-18">Acesso em: 18 de junho de 2015</date-in-citation>
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			<ref id="B11">
				<mixed-citation>KALASHNIKOVA, Elena. Khrabost i skromnost. Entrevista feita com o tradutor Aleksandr Sergueevitch para a revista Rússki Jurnal e publicada em 3 de abril de 2003 no mesmo, disponível no site da editora Sophia. Disponível em: &lt;<comment>Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.sophia.ru/biblio/bogdanovskij/bogdanovskij-01.shtml">http://www.sophia.ru/biblio/bogdanovskij/bogdanovskij-01.shtml</ext-link>
					</comment>&gt;. Acesso em: 7 de maio de 2015.</mixed-citation>
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					<article-title>Khrabost i skromnost. Entrevista feita com o tradutor Aleksandr Sergueevitch</article-title>
					<source>Rússki Jurnal</source>
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					<year>2003</year>
					<publisher-name>editora Sophia</publisher-name>
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					<date-in-citation content-type="access-date" iso-8601-date="2015-05-07">Acesso em: 7 de maio de 2015</date-in-citation>
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			<title>Cartas e documentos de arquivo</title>
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				<mixed-citation>KALÚGUIN, Iúri. Carta para: Jorge Amado. 14 de junho de 1972. 1 folha. Localizado em Acervo Fundação Casa de Jorge Amado.</mixed-citation>
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					<day>14</day>
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					<year>1972</year>
					<comment>1 folha</comment>
					<publisher-name>Acervo Fundação Casa de Jorge Amado</publisher-name>
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				<mixed-citation>KALÚGUIN, Iúri. Carta para: Jorge Amado . 8 de julho de 1978. 1 folha. Localizado em Acervo Fundação Casa de Jorge Amado.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
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					<day>08</day>
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					<publisher-name>Acervo Fundação Casa de Jorge Amado</publisher-name>
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				<mixed-citation>KALÚGUIN, Iúri. Carta para: Jorge Amado . 7 de dezembro de 1981. 1 folha. Localizado em Acervo Fundação Casa de Jorge Amado.</mixed-citation>
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							<given-names>Iúri</given-names>
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					<source>Carta para: Jorge Amado</source>
					<day>07</day>
					<month>12</month>
					<year>1981</year>
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			<ref id="B15">
				<mixed-citation>KALÚGUIN, Iúri. Carta para: Jorge Amado . 28 de setembro de 1982. 1 folha. Localizado em Acervo Fundação Casa de Jorge Amado.</mixed-citation>
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					<day>28</day>
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				<mixed-citation>KALÚGUIN, Iúri. Carta para: Jorge Amado . 1 de abril de 1985. 2 folhas. Localizado em Acervo Fundação Casa de Jorge Amado.</mixed-citation>
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			<ref id="B17">
				<mixed-citation>VÁRIOS AUTORES, Stenogramma zasedania v Inostrannoi komissii po obsujdeniu stati V.N. Kuteischivova &quot;Jorge Amado&quot; dlia sbórnika 'Progressívnaia literatura Latínskoi Amériki. Estenograma localizado em acervo dos Arquivos Estatais Russos de Literatura. Fundo 631, lista 26, unidade de armazenamento 4451. Data do documento: 7 de junho de 1954. 18 folhas.</mixed-citation>
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					<source>Stenogramma zasedania v Inostrannoi komissii po obsujdeniu stati V.N. Kuteischivova &quot;Jorge Amado&quot; dlia sbórnika 'Progressívnaia literatura Latínskoi Amériki</source>
					<comment>Estenograma localizado em acervo dos Arquivos Estatais Russos de Literatura. Fundo 631, lista 26, unidade de armazenamento 4451</comment>
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					<year>1954</year>
					<comment>18 folhas</comment>
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		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>A primeira publicação de Amado na URSS ocorre no mesmo ano em que este autor conhece Iliá Ehrenburg no “Congresso Mundial dos Intelectuais pela Paz”, em Wroclaw, na Polônia, em 1948, quando já se encontrava exilado em Paris. Dois anos depois, já obrigado a deixar a França e vivendo em Praga, ele recebe o “Prêmio Stálin da Paz”, em 1951.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>Enquanto a pesquisadora Elena Beliakova, da Universidade de Tcherepovets, relata que “(...) em 1934, a quinta edição da [revista] ‘Internatsionálnaia literatura’ informa os leitores sobre o lançamento dos romances de Jorge Amado ‘Cacau’ e ‘Suor’” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">BELIAKOVA 2010</xref>: 31), Rougle afirma que, em entrevista feita com o autor em 1979, perguntou-lhe sobre o caso, obtendo como resposta que “um bom amigo soviético dele lhe informou que ambas as obras foram traduzidas para o russo” (<xref ref-type="bibr" rid="B6">ROUGLE 1984</xref>: 51). Não há cópias dessas traduções impressas na Biblioteca Lênin, a maior do país, ou no acervo da Fundação Casa de Jorge Amado, de acordo com minhas pesquisas. Isso sugere que as traduções podem ter sido eventualmente feitas, mas não publicadas por motivos editoriais.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p>Parte da correspondência inédita de Jorge Amado com Kalúguin me foi gentilmente disponibilizada, em caráter de exceção, pela Fundação Casa de Jorge Amado, já que o escritor pediu que apenas 50 anos após sua morte, ocorrida em 2001, as mais de 100 mil páginas de cartas fossem disponibilizadas.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p>“Aqui apareceu recentemente um jovem tradutor - Alexandr Bogdanovski - que comporta-se muito atrevidamente: ele publicou seus (sic) traduções dos dois romances que já foram traduzidos anteriormente por mim: ‘Tenda dos milagres’ e ‘Farda fardão camisola de dormir’. Essas seus (sic) traduções são bastante (sic) falsos”, escreve o tradutor a Amado (<xref ref-type="bibr" rid="B15">KALÚGUIN, 1982</xref>).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>5</label>
				<p>Após os rumores gerados pelo discurso secreto, Amado chega a publicar, em 11 de outubro de 1956, uma carta no diário Imprensa Popular em que afirma que se sente “cercado de sangue e lama” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">PERALVA 1962</xref>: 186).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>6</label>
				<p>Iúri Kalúguin aparece por vezes com esse nome e, outras, como “Gueórgui”. Em russo, “Iúri”, assim como “Egor”, foi um apelido carinhoso para “Gueórgi” e esses foram intercambiáveis até a década de 1930, quando “Egor” e “Iúri” passam, oficialmente, de apelidos a nomes próprios (<xref ref-type="bibr" rid="B7">SUPERANSKAIA, SUSLOVA 1991</xref>: 97).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn7">
				<label>7</label>
				<p>Em russo, como em português, o trecho mostra um pudor excessivo que o torna quase incompreensível, com o uso de “termos médicos”, ao que parece, por “genitália”. No original: “То, что по-португальски называется стилистически нейтральными и в то же время общеупотребительными словами, по-русски можно назвать либо медицинским термином, либо откровенной бранью” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">BELIAKOVA 2010</xref>: 133-134).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn8">
				<label>8</label>
				<p>Uma de suas obras está disponível on-line e data de 2005, e outra, de 2010, é a versão editada da primeira publicada pelo conceituado Instituto de Latinoamerica da Academia de Ciências da Rússia (ИЛА-РАН, na sigla em russo).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn9">
				<label>9</label>
				<p>Note-se, ainda, que, apesar de transliterar o nome de Amado com base na fonética, “Жоржи” (transliterando-se de volta ao português, “Jorji”), o santo vira “Жорже” (retransliterado para o português, “Jorje”).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn10">
				<label>10</label>
				<p>O fato remete às traduções de Fiódor Dostoiévski para o português. Os nomes usados pelo russo quase sempre têm algum significado, por vezes engraçado, e seus tradutores diretos, por vezes, tentam transmiti-lo ao leitor brasileiro.</p>
			</fn>
		</fn-group>
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