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				<journal-title>Revista de Tradução e Terminologia</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Revista de Tradução e Terminologia</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="ppub">2317-9511</issn>
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				<publisher-name>Centro Interdepartamental de Tradução e Terminologia da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="publisher-id">00011</article-id>
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					<subject>Articles</subject>
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				<article-title>(Re)examinando horizontes nos estudos feministas de tradução: em direção a uma terceira onda?<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>*</sup></xref>
				</article-title>
				<article-title xml:lang="en">(Re)examining horizons in feminist translation studies: towards a third wave?</article-title>
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						<surname>Castro</surname>
						<given-names>Olga</given-names>
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						<surname>Barboza</surname>
						<given-names>Beatriz Regina Guimarães</given-names>
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					<role>Tradução</role>
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				<label>**</label>
				<institution content-type="original">Docente da Aston University</institution>
				<institution content-type="orgname">Aston University</institution>
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				<label>***</label>
				<institution content-type="original">Mestranda pela Universidade Federal de Santa Catarina</institution>
				<institution content-type="orgname">Universidade Federal de Santa Catarina</institution>
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			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
				<day>07</day>
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				<year>2022</year>
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			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
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				<year>2017</year>
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			<volume>29</volume>
			<fpage>216</fpage>
			<lpage>250</lpage>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>Os feminismos são uma dessas teorias marco cujas contribuições revelam-se em todos os âmbitos da sociedade, inclusive nos Estudos da Tradução. A materialização mais evidente dessa interação é o surgimento, nos anos 80, de uma corrente de tradução feminista no Canadá, capaz de colocar o gênero como centro do debate sobre tradução. Na atualidade, apesar das críticas e posteriores redefinições do conceito de tradução feminista, a proposta canadense continua sendo vista como paradigma da interação entre feminismos e tradução em geral. Neste artigo, proponho novas abordagens à prática de traduzir e paratraduzir a partir dos feminismos, dentro de uma terceira onda de tradução feminista. Além disso, pretendo abrir o debate (re)examinando áreas de interesse mútuo para os estudos de tradução e os feminismos no plano conceitual, historiográfico e crítico, tendo como propósito o surgimento de novas linhas de pesquisa futuras.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title><italic>Abstract</italic></title>
				<p>Feminisms are one of those framework theories that have contributed powerfully to all areas of society, including Translation Studies. The most evident outcome of this interplay is the emergence, in the 1980s, of a Feminist Translation school in Canada, which placed gender in the spotlight. Despite criticism and subsequent redefinitions of the notion of feminist translation, the Canadian school is still generally regarded as the paradigm of interaction between feminisms and translation. The aim of this article is two-fold: firstly, to advance new approaches to the practice of translation and paratranslation from a feminist perspective (within the context of a third wave of feminist translation). Secondly, to open new debates by means of (re)examining topics of mutual interest for both Translation Studies and Feminisms on a conceptual, historical and critical plane, so that subsequent studies can be fostered.</p>
			</trans-abstract>
			<trans-abstract xml:lang="es">
				<title><italic>Resumen</italic></title>
				<p>Los feminismos son una de esas teorías marco cuyas contribuciones son perceptibles en todos los ámbitos de la sociedad, incluidos los Estudios de la Traducción. La materialización más evidente de esta interacción es el surgimiento, en los 80, de una corriente de traducción feminista en Canadá, capaz de colocar el género en el centro del debate sobre traducción. En la actualidad, y pese a las críticas y posteriores redefiniciones del concepto de traducción feminista, la propuesta canadiense sigue concibiéndose por lo general como paradigma de interacción entre feminismos y traducción. En este artículo propongo nuevas aproximaciones a la práctica de traducir y paratraducir desde los feminismos, dentro de una tercera ola de traducción feminista. Además, pretendo abrir el debate (re)examinando áreas de interés mutuo para los estudios de traducción y los feminismos en el plano conceptual, historiográfico y crítico, con el propósito de que sugieran nuevas líneas de investigación futura.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Tradução feminista</kwd>
				<kwd>Paratradução feminista</kwd>
				<kwd>Ideologia</kwd>
				<kwd>Terceira onda feminista</kwd>
				<kwd>Gênero e tradução</kwd>
			</kwd-group>
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				<title><italic>Keywords:</italic></title>
				<kwd>Feminist translation</kwd>
				<kwd>Feminist paratranslation</kwd>
				<kwd>Ideology</kwd>
				<kwd>3<sup>rd</sup> wave feminism</kwd>
				<kwd>Gender and translation</kwd>
			</kwd-group>
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				<title><italic>Palabras clave:</italic></title>
				<kwd>Traducción feminista</kwd>
				<kwd>Paratraducción feminista</kwd>
				<kwd>Ideología</kwd>
				<kwd>Tercera ola feminista</kwd>
				<kwd>Género y traducción</kwd>
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		<p>No contexto das teorias pós- (pós-colonialismo, pós-modernismo, pós-estruturalismo) dos anos 70, e de um renovado interesse pelos estudos culturais, realiza-se um encontro entre os feminismos e os Estudos da Tradução (ET) que enriquece ambas as disciplinas. Uma das materializações dessa intersecção está no nascimento da escola de tradução feminista canadense. Sua contribuição aos ET foi - e é - tal que, apesar das críticas e posteriores redefinições da tradução feminista, ainda é frequente que as correntes dominantes de tradução concebam a proposta canadense como paradigma de tradução feminista e, por extensão, da interação entre feminismos e tradução.</p>
		<p>Porém, em um momento como o atual, em que os feminismos se encontram em um debate interno frente à constatação de que o feminismo de segunda onda (que inspirou a escola canadense) não serve como marco para o desenvolvimento de novas propostas, defendo que existem circunstâncias propícias para ampliar os âmbitos de estudo que surgem da interação entre ambas as disciplinas <xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref> . Primeiro, proponho reunir e reexaminar numa perspectiva crítica algumas das áreas de interesse mútuo entre essas disciplinas que, mesmo estudadas, carecem de sistematização, por terem sido eclipsadas pela centralidade (dentro das margens) da proposta canadense. Neste ponto, pretendo ir além do nível prático, incluindo o conceitual, o historiográfico, o crítico ou o profissional, oferecendo uma compreensão mais holística das intersecções entre feminismos e tradução no afã de estimular esses renovados horizontes de investigação. Segundo, proponho reexaminar o nível prático, pleiteando por novas abordagens feministas no ato de mediação ideológica intercultural que é a tradução e a paratradução (<xref ref-type="bibr" rid="B20">GARRIDO 2005</xref>), dentro do marco que nos oferece a linguística feminista da terceira onda (<xref ref-type="bibr" rid="B42">MILLS 2003</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B43">2008</xref>).</p>
		<sec sec-type="discussion">
			<title>1. O encontro entre feminismos e tradução</title>
			<p>Uma das muitas contribuições dos feminismos está na revisão crítica a que têm submetido as diferentes disciplinas científicas e humanistas, questionando seu caráter supostamente neutro e objetivo e revelando que atendiam (em uma medida diferente) aos critérios patriarcais. Porém, a revisão da tradução feminista contou, desde o começo, com uma particularidade a mais, dado que a própria disciplina se encontrava em debate interno para adaptar-se às novas concepções filosóficas da época. Assim, nesse momento a tradutologia assistia ao nascimento de enfoques que centravam o estudo da tradução no processo, e não no produto, do qual este depende:</p>
			<disp-quote>
				<p>The purpose of translation theory is to reach an understanding of the processes undertaken in the act of translation and, not, as so commonly misunderstood, to provide a set of norms for effecting the ‘perfect’ translation (<xref ref-type="bibr" rid="B6">BASSNETT 1991</xref>: 37)<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>3</sup></xref>.</p>
			</disp-quote>
			<p>Os estudos descritivos começaram a questionar as teorias centradas em enumerar técnicas de substituição linguística, passando estruturas superficiais de um texto a outro com o mínimo de interferência possível, assegurando a fidelidade à intenção do/a autor/a e do texto original. Já os novos enfoques consideraram “the orientation towards cultural rather than linguistic transfer”<xref ref-type="fn" rid="fn4"><sup>4</sup></xref> (<xref ref-type="bibr" rid="B53">SNELL-HORNBY 1990</xref>: 82), conduzindo a uma “cultural turn” ou virada cultural dos Estudos da Tradução, integrando a dimensão cultural, “making language work as a parallel system to culture instead of as an external referential entity”<xref ref-type="fn" rid="fn5"><sup>5</sup></xref> (<xref ref-type="bibr" rid="B46">NOUSS 2000</xref>: 1351).</p>
			<p>Essas novas abordagens começaram também a questionar o papel, até então neutro, objetivo e invisível, da pessoa que traduz, reivindicando seu papel ativo, pois o primeiro passo ao traduzir (ou reescrever, como dizem <xref ref-type="bibr" rid="B34">LEFEVERE E BASSNET 1990</xref>: 10) consiste em ler um texto original escrito por uma figura autoral que deve ser consciente da existência de várias (embora não infinitas) leituras e interpretações possíveis a partir de suas textualidades. Parece irreal, então, a possibilidade de produzir um texto equivalente e fiel ao original ou à autoria. Para esses novos focos, não se traduzem palavras, mas significados; e estes não se encontram nem no texto original, nem na intenção autoral, mas são fruto de negociações dentro do sistema social no qual o texto é produzido e consumido. Assim, somente se pode ser fiel à interpretação que cada tradutor/a realiza (do original ou de sua autoria) através de sua leitura.</p>
			<p>Considera-se a ideologia como um conceito importante no traduzir, entendida não como desvio da objetividade, mas como conjunto sistemático de valores e crenças compartilhadas por uma dada comunidade, que formam as interpretações e representações de mundo de cada pessoa e também de quem traduz. De fato, contemplar a ideologia como um ente alheio a quem traduz deixaria esse agente mediador e o próprio proceso fora do intercâmbio cultural. A objetividade e neutralidade são falácias interessadas, logo, a virada cultural poderia igualmente se chamar virada ideológica, pelo que as novas correntes como a Escola da Manipulação ou a Teoria dos Polissistemas defendem: “ideology rather than linguistics or aesthetics crucially determines the operational choices of translators” <xref ref-type="fn" rid="fn6"><sup>6</sup></xref> (<xref ref-type="bibr" rid="B12">CRONIN 2000</xref>: 695).</p>
			<p>Definitivamente, quando se aproximam os feminismos à tradução, esta já havia superado (ao menos no discurso teórico) o debate sobre fidelidade, equivalência e objetividade, e perguntava-se sobre questões que remetiam aos problemas culturais e ideológicos. A análise da realidade através do prisma da cultura e da ideologia já constava na agenda dos feminismos, desta forma concebendo sua relação com a tradução como mutuamente enriquecedora. Por um lado, os feminismos se alimentaram de novas óticas com o debate que se dava nos ET. Por outro, os ET souberam ver como a conexão com essa disciplina contribuía para consolidar suas propostas, mas, além disso, souberam se enriquecer com a perspectiva de gênero aplicada a afirmações como “all translation implies a degree of manipulation of the source text for a certain purpose”<xref ref-type="fn" rid="fn7"><sup>7</sup></xref> (<xref ref-type="bibr" rid="B29">HERMANS 1985</xref>: 11). Assim, os feminismos constataram que o fato de não subscrever de forma consciente uma ideologia particular em tradução implica aderir de forma inconsciente à ideologia dominante (patriarcal), aquela que possuem todas as sociedades, e que é dominante tanto em sentido numérico quanto porque apoia os interesses da classe dominante, o que a obriga a disfarçar-se e operar no nível do inconsciente (<xref ref-type="bibr" rid="B2">ALTHUSSER 1975</xref>). Por esse motivo, apresenta-se ante ao tradutor ou à tradutora como “normal”, “natural” e incontestável, atingindo assim seu propósito de dominação simbólica (<xref ref-type="bibr" rid="B7">BORDIEU 1998</xref>) que converte as e os tradutores/as “inconscientes” em ingênuos veículos de transmissão e legitimização do discurso dominante, com o prejulgamento agregado de que a ideologia é mais eficiente quando não se manifesta explicitamente como tal.</p>
			<sec>
				<title>1.1 A tradução feminista canadense</title>
				<p>Paralelamente ao desenvolvimento desse novo marco teórico-metodológico, surge uma nova corrente localizada no diálogo cultural anglo-francês do Canadá, que identifica a tradução como a conjugação entre uma teoria praticante e uma prática teorizante a partir do examinar de questões culturais e ideológicas. A tradução feminista canadense (cf. <xref ref-type="bibr" rid="B22">GODARD 1990</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B36">LOTBINIÈRE-HARWOOD 1991</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B37">FLOTOW 1991</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B38">1997</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B51">SIMON 1996</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B58">VIDAL 1998</xref>: 101-120) consiste numa corrente de trabalho e pensamento que defende a incorporação da ideologia feminista à tradução pela necessidade de articular novas vias de expressão para desmantelar a carga patriarcal da linguagem e da sociedade. O tradutor e tradutoras feministas canadenses (Howard Scott, Barbara Godard, Marlene Wildeman, Susanne de Lotbinière-Harwood e Luise von Flotow) traduziam para o inglês textos literários vanguardistas de autoras francófonas do Quebec, caracterizados por atacar desde a con(s)ciência as convenções misóginas da linguagem patriarcal e por construir uma cultura literária feminista paralela, tudo isso refletindo uma forte influência das teorias pós-modernas da linguagem. A partir desses textos, as tradutoras canadenses concebem a tradução como uma continuação do processo de criação e circulação de significados dentro de uma rede contingente de discursos. Dadas as características inerentes ao francês (que, com seu gênero gramatical explicita constantemente o sexo das e dos referentes) e ao inglês (com muitos neutros e epicenos), as tradutoras feministas inovaram para encontrar novas fórmulas de expressão que não apagassem as marcas de gênero do original (assim, por exemplo, autoras viram <italic>authers</italic> no lugar do genérico <italic>authors</italic>). As estratégias que utilizaram foram sistematizadas posteriormente como <italic>supplementing</italic>, <italic>prefacing</italic>, <italic>footnoting</italic> e <italic>hijacking the text</italic><xref ref-type="fn" rid="fn8"><sup>8</sup></xref> (<xref ref-type="bibr" rid="B37">FLOTOW 1991</xref>: 74-84), e com elas reivindicavam a visibilidade das tradutoras: “womanhandling the text in translation means replacing the modest, self-effacing translator” <xref ref-type="fn" rid="fn9"><sup>9</sup></xref>(<xref ref-type="bibr" rid="B22">GODARD 1990</xref>: 93). Entendiam a tradução como uma “rewriting in the feminine” transformada em “political activity aimed at making language speak for women”<xref ref-type="fn" rid="fn10"><sup>10</sup></xref> (<xref ref-type="bibr" rid="B36">LOTBINIÈRE-HARWOOD 1991</xref>).</p>
				<p>Fora do Canadá, essas estratégias são usadas por <xref ref-type="bibr" rid="B35">Suzanne Jill Levine (1983</xref>) ao traduzir para o inglês textos pós-modernos “oppressively male, narcissistic, misogynistic and manipulative” <xref ref-type="fn" rid="fn11"><sup>11</sup></xref> do autor latino-americano Cabrera Infante. Sua escolha é tornar-se uma “subversive scribe” <xref ref-type="fn" rid="fn12"><sup>12</sup></xref> que reescreve o texto de forma subversiva sendo fielmente infiel.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>1.2 Críticas e redefinições</title>
				<p>A contribuição dessa escola aos ET foi notável, dado que insistiu na necessidade de refletir de forma consciente e crítica sobre os elementos presentes no texto a traduzir antes de reescrevê-lo, refutou o paradigma tradicional baseado na réplica absoluta problematizando a relação TO/TT, e pleiteou por uma visibilidade tradutória. No entanto, suas estratégias foram objeto de diversas críticas <xref ref-type="fn" rid="fn13"><sup>13</sup></xref> que as acusavam de cair no “infamous double standard”<xref ref-type="fn" rid="fn14"><sup>14</sup></xref> das teorias tradicionais de tradução (<xref ref-type="bibr" rid="B3">ARROJO 1994</xref>: 149) e de aplicar uma ética hipócrita e contraditória (<xref ref-type="bibr" rid="B4">ARROJO 1995</xref>). Resumidamente, para essa autora:</p>
				<disp-quote>
					<p>they are perfectly legitimate within the political context they are so bravely fighting to construct [...] However, they are not absolutely more ‘noble’ or more justifiable than the patriarchal translations and notions they are trying to deconstruct (<xref ref-type="bibr" rid="B3">1994</xref>: 159).<xref ref-type="fn" rid="fn15"><sup>15</sup></xref>
					</p>
				</disp-quote>
				<p>Além disso, ao proclamar que seu objetivo consiste em “making language speak for women” <xref ref-type="fn" rid="fn16"><sup>16</sup></xref> em todas as circunstâncias, acabam relacionando a tradução feminista com uma atitude essencialista baseada numa cultura feminina distintiva que apaga as diferenças entre as próprias mulheres, e com uma definição universal e estável das mulheres como grupo oprimido.</p>
				<p>Então, surgiram outras concepções de tradução feminista para superar a inclinação essencialista anterior. Nesse sentido, é preciso entender as propostas que, partindo da diversidade de mulheres e experiências, exploram diversas formas de “traduzir em feminino”. Maier (<xref ref-type="bibr" rid="B23">GODAYOL 1998</xref>: 161) considera sua posição como “woman-identified translator” ou “gender-conscious translator”<xref ref-type="fn" rid="fn17"><sup>17</sup></xref>, porque suas traduções não têm por que se identificarem como mulheres, mas com mulheres. Díaz-Diocaretz também reflete sobre sua tradução feminista de Adrienne Rich (<xref ref-type="bibr" rid="B16">1985</xref>). <xref ref-type="bibr" rid="B40">Massardier-Kenney (1997</xref>), de sua parte, diretamente propõe uma “redefinition of feminist translation practice”<xref ref-type="fn" rid="fn18"><sup>18</sup></xref> que contemple estratégias baseadas na autoria e na tradutora.</p>
				<p>Apesar dessas críticas e redefinições, ainda é frequente na atualidade que, a partir das correntes dominantes nos ET, conceba-se a tradução feminista canadense como o paradigma da interação entre feminismos e tradução, o que, visto de uma perspectiva (auto)crítica, resulta contraproducente à medida que restringe o desenvolvimento produtivo de outras áreas de investigação.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec sec-type="discussion">
			<title>2. (Re)examinando horizontes: velhas e novas interações<xref ref-type="fn" rid="fn19"><sup>19</sup></xref>
			</title>
			<p>Mesmo reconhecendo que as propostas canadenses contribuíram de maneira significativa aos ET, abrindo novas e necessárias interrogações sobre o ato ideológico de traduzir que colocavam o gênero no centro do debate, e reconhecendo também que resultaram muito produtivas em seus contextos específicos, defendo que, para potencializar o debate e as interrelações dos ET com outras disciplinas, devem-se ampliar os âmbitos de estudo que possam surgir da interação daqueles com os feminismos. Uma boa forma de fazê-lo, ao meu ver, é começar a compilar em áreas temáticas alguns dos trabalhos realizados no passado sobre outras confluências entre feminismos e tradução para possibilitar uma compreensão mais íntegra da interação, e convidar a retomar com ares renovados essas áreas de estudo que incluem, além de um revisado plano prático, o plano conceitual, o historiográfico e o crítico.</p>
			<sec>
				<title>2.1.1 Metaforização da tradução</title>
				<p>Ao longo da história, recorreu-se frequentemente a metáforas para explicar o ato de traduzir. Em seu influente ensaio “The Metaphorics of Translation” (<xref ref-type="bibr" rid="B11">1992</xref>), Lori Chamberlain mostra que boa parte dos discursos teóricos sobre tradução foram baseados em concepções misóginas sobre os papéis de gênero, legitimando-os. Uma destas frequentes e conhecidas metáforas são as “belles infidèles”, expressão cunhada por Gilles Ménage no começo do século XVII, na França, para descrever que as traduções, igual às mulheres, se são bonitas (belles), serão infiéis (infidèles).</p>
				<p>O conceito de fidelidade e a preocupação com a origem/originalidade do texto de partida está presente em muitas outras metáforas que se refletem na linguagem cotidiana sobre tradução: paternidade do texto, penetração do texto de partida, tradução fiel, traição da língua, etc. O código metonímico de dupla inferioridade das mulheres e da tradução está na base da multiplicidade de outras metáforas, e surge da oposição entre o trabalho produtivo/ativo (realizado por homens e autores) e o trabalho reprodutivo/passivo (realizado por mulheres e tradutoras/es). Assim, é necessário um olhar (auto)crítico que examine outras possíveis metáforas e discursos teóricos a partir de uma perspectiva feminista. Isso deveria ser complementado com propostas de uma nova retórica da tradução que desconstrua as hierarquias entre os sexos e os textos, liberando ambos de sua carga patriarcal opressora.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>2.1.2 Novas concepções da tradução em paralelo às propostas dos feminismos</title>
				<p>Pode ser de utilidade aos discursos teóricos de tradução a aplicação de determinados conceitos centrais aos feminismos. A autora <xref ref-type="bibr" rid="B39">Martín Ruano (2006</xref>: 28) sustenta que, assim como os feminismos atuais desessencializam e questionam o conceito biológico de “mulher” como ponto de partida estável para qualquer teoria e política feminista, também se pode questionar que a tradução surja unicamente a partir de um texto original material e com significação estável (desessencializando assim a definição tradicional de tradução). Também se poderia argumentar que, assim como os feminismos se erigem como um discurso de resistência contra os valores patriarcais e neoliberais que exercem uma opressão e discriminação de gênero, a tradução pode constituir uma forma de resistência contra o “multinational capitalism and the political institutions to which the current global economy is allied” <xref ref-type="fn" rid="fn20"><sup>20</sup></xref> (<xref ref-type="bibr" rid="B57">VENUTI 2008</xref>: 18). Dessa forma, põe-se em destaque o ativismo social implícito em ambas disciplinas, superando aquelas críticas que acusavam os discursos teóricos (sobre tradução e feminismos) de permanecerem no terreno da divagação filosófica estéril.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>2.2 Plano historiográfico</title>
				<p>O passado outorga legitimidade. Se é fundamental para qualquer disciplina ter um passado, para os ET é estratégico, dada a “juventude” da disciplina entendida como tal: apenas recentemente as reflexões teóricas sobre a tradução deixaram de se ver como um ramo de outras disciplinas (linguística, literatura, filologia, etc.), para consolidar-se e estabelecer-se como área independente, embora com uma profunda vocação transdisciplinar.</p>
				<sec>
					<title>2.2.1 Reelaboração da história da tradução tendo em vista as tradutoras</title>
					<p>A construção desse passado implica examinar a historiografia da tradução. Durante longos períodos históricos, a escrita foi considerada uma atividade produtiva/masculina, o que impediu o acesso de muitas mulheres ao mundo literário como autoras. A tradução, tida como atividade reprodutiva, era percebida como feminina e, desta forma, converteu-se na válvula de escape pela qual algumas mulheres puderam entrar no mundo literário. Contudo, em alguns casos, como na Grã-Bretanha do séc. XVIII, considerava-se que apenas homens poderiam traduzir das prestigiosas línguas clássicas, confinando as tradutoras aos textos literários efêmeros e secundários em idiomas modernos (cf. <xref ref-type="bibr" rid="B1">AGORNI 2005</xref>).</p>
					<p>No entanto, houve autoras que não conseguiram reprimir sua ânsia de escrever e produziram suas próprias obras. Certas vezes, o controle ferrenho por poder autoral as levou a assinar suas obras com pseudônimos masculinos (cf. <xref ref-type="bibr" rid="B5">BARTRINA 2001</xref>, para examinar o caso de Caterina Albert, conhecida como Victor Català), ou até a apresentarem-se elas mesmas como tradutoras (<xref ref-type="bibr" rid="B31">KORD 1994</xref>: 12), como estratégia para conseguirem ver seus livros publicados, evitando a crítica social que deslegitimaria suas obras antes mesmo de começarem sua leitura. Dessa forma, a tradução atua como instrumento libertador, ao resgatar as mulheres de um silêncio imposto enquanto autoras, permitindo-as entrar no mundo literário como tradutoras, mas também como instrumento opressor, porque as condena à margem do discurso.</p>
					<p>Em todo caso, essas tradutoras/autoras se fizeram visíveis em prefácios, dedicatórias, notas de rodapé, correspondências particulares, etc., onde refletiam sobre o ato de traduzir e sobre as limitações que condicionavam sua prática. Porém, esses metatextos foram perdidos e silenciados, de forma que a concepção que metade da humanidade tinha sobre o ato de traduzir permanece excluída da história da tradução.</p>
					<p>Depois que os feminismos expuseram essa carência, uma atitude (auto)crítica dos ET deveria conduzir à recuperação desses materiais e metatextos, que trazem à tona a intervenção dessas mulheres nos movimentos culturais e intelectuais de sua época e sua forma de enfrentarem a opressão patriarcal. Com isso, contribuir-se-á para uma definição mais precisa e completa da disciplina que, de outra maneira, carece de uma parte fundamental de sua história. Nesta linha se situam os trabalhos de <xref ref-type="bibr" rid="B27">Hannay (1985</xref>), <xref ref-type="bibr" rid="B32">Krontiris (1992</xref>), <xref ref-type="bibr" rid="B49">Robinson (1995</xref>), <xref ref-type="bibr" rid="B14">Delisle (2002</xref>) e <xref ref-type="bibr" rid="B1">Agorni (2005</xref>), que completam a historiografia da tradução com as reflexões teóricas de Aphra Behn, Suzanne du Vegerre, Germaine de Staël, as tradutoras inglesas da época Tudor, Susannah Dobson, Elizabeth Carter, Jane Wilde, Clémence Royer, Albertine Necker de Saussure, Julia E. Smith, etc. No contexto espanhol mais próximo, destaca-se a recuperação da escritora e tradutora galega Emilia Pardo Bazán (cf. <xref ref-type="bibr" rid="B18">FREIRE 2006</xref>) e das tradutoras catalãs do séc. XX (cf. <xref ref-type="bibr" rid="B25">GODAYOL 2007</xref>).</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>2.2.2 Recuperação de autoras ignoradas</title>
					<p>Embora as mulheres acabassem quase sempre excluídas do papel de autoras, à medida que os feminismos democratizaram a vida pública e privada, algumas puderam publicar suas obras. Um enfoque de gênero mostra que o cânone patriarcal foi aquele que definiu tradicionalmente a estética e o valor literário, de forma a privilegiar obras de autores em detrimento das autoras, sejam estas clássicas ou atuais, próximas ou de sistemas culturais distantes. Consequentemente, muitas obras dessas escritoras estão perdidas, isto é, existem muitas autoras que não foram traduzidas apesar de terem escrito obras relevantes que, segundo os feminismos, teriam sido traduzidas se tivessem sido escritas por um autor, como ilustram <xref ref-type="bibr" rid="B48">Ríos e Palacios (2006</xref>) em sua análise da tradução para o galego da literatura irlandesa no começo do séc. XX.</p>
					<p>Os ET possuem, nesse sentido, um trabalho primordial a desenvolver, questionando o que se traduz, quem decide o que se traduz, e qual critério embasa essas escolhas, como primeiro passo para acabar com essa atitude discriminatória. A partir da tradução, também se pode contribuir para a transformação do cânone literário contemporâneo, optando abertamente por uma recuperação dos trabalhos de autoras silenciadas, o que, por sua vez, enriqueceria grandemente o campo da tradução. Em minha opinião, não se trata de colaborar com as mulheres por existirem laços de solidariedade universais, ou pelo fato de que sejam mulheres (constituindo uma atitude paternalista), mas porque suas obras são relevantes, embora essa relevância permaneça oculta por não se adequar aos critérios estipulados pelo cânone patriarcal.</p>
					<p>No que concerne à recuperação das escritoras clássicas mediante sua reescrita em outras línguas, a tradução pode servir como instrumento para contextualizá-las, incorporando comentários nos quais as/os tradutoras/es debatam sobre as razões que levaram essas obras a serem ignoradas. De fato, “recovery and commentary”<xref ref-type="fn" rid="fn21"><sup>21</sup></xref> são duas das estratégias sugeridas por <xref ref-type="bibr" rid="B40">Massardier-Kenney (1997</xref>: 59-62) em sua proposta, em que também relembra alguns dos exemplos mais notáveis de autoras recuperadas mediante sua tradução comentada. A eles se unem o trabalho de <xref ref-type="bibr" rid="B47">Rayor (1991</xref>), que traduziu e comentou dezessete poetas gregas da antiguidade, o de <xref ref-type="bibr" rid="B15">Dendrinou-Kolias (1990</xref>), ao traduzir a autobiografia de <xref ref-type="bibr" rid="B45">Elisavet Moutzan-Martinengou (1989</xref>), de Kadish junto a própria Massardier-Kenney (<xref ref-type="bibr" rid="B30">1994</xref>), com sua edição do francês de <italic>Translating Slavery</italic>, e de uma vastidão de outras tradutoras que, com suas reescritas, contribuem com a difusão de autoras silenciadas.</p>
					<p>Neste ponto, é necessário avaliar também o trabalho de ressignificação que a tradução pode oferecer a autoras feministas que, embora “canônicas” em seu contexto originário, fossem apropriadas por outros discursos. Um caso nítido são as traduções de Rosalía de Castro para o inglês, realizadas por Kathleen March, nas quais a tradutora recupera a mensagem feminista da autora, que havia sido neutralizada em seu contexto original pelas hierarquias nacionalistas patriarcais para poder uni-la mais facilmente à “causa comum” (cf. <xref ref-type="bibr" rid="B26">GONZÁLES LIAÑO 2002</xref>).</p>
					<p>Com relação às autoras pós-coloniais, distantes ou de culturas minoritárias, a tradução se torna um canal comunicativo essencial, frequentemente o único, que as autoras têm para compartilhar suas subjetividades além de suas fronteiras. Ainda assim, como sustenta <xref ref-type="bibr" rid="B54">Spivak (1993</xref>), é preciso uma grande dose de discernimento para não recair na atitude reprovável (mesmo que benévola) de traduzir tudo que venha de uma cultura minoritária, pós-colonial ou distante, para saber avaliar os riscos éticos derivados de falar por outras, e para evitar servir somente aos interesses ocidentais dos mercados de tradução, ao invés de entender a situação real na qual escrevem e inscrevem-se as textualidades originais. Além das traduções da própria Spivak da autora bengali Mahasureta Devi, neste campo se destaca o importante trabalho de <xref ref-type="bibr" rid="B56">Tharu e Lalita (1993</xref>) com a tradução de textos de autoras indianas, editados em dois volumes.</p>
					<p>Em última instância, o fato de que se traduzam textos de autoria feminina entre diferentes línguas e culturas colocará em contato experiências de mulheres muito distintas, contribuindo para dissolver a presunção patriarcal de que o homem é heterogêneo e a mulher homogênea, e a constatar que o gênero não é um princípio unificador para todas as mulheres, mas que apenas configura a identidade junto a outras variáveis. Além disso, se nos referimos especificamente à tradução de obras feministas, poderia-se analizar, a partir dos ET, em que medida a tradução tem contribuído para a expansão do movimento feminista ao redor do mundo através de traduções que colocaram em contato diferentes metodologias que antes não se conheciam.</p>
				</sec>
			</sec>
			<sec>
				<title>2.3 Plano crítico</title>
				<sec>
					<title>2.3.1 Crítica de traduções de obras feministas</title>
					<p>Apesar de todas as dificuldades que as autoras enfrentam para ter acesso à voz pública, e para que suas obras sejam traduzidas depois, à medida que os feminismos avançam, torna-se mais fácil que algumas autoras publiquem obras que, sendo magistrais, sejam traduzidas posteriormente a outras línguas. Uma análise desses materiais mostra que, por vezes, se criam traduções rigorosas e conscientes recorrendo a diferentes estratégias, que os ET poderão avaliar e utilizar em outros contextos. No entanto, em muitas outras ocorrências, a análise crítica revela a existência de traduções de livros de autoras (especialmente de autoras feministas) realizadas por “phallotranslators, inadequate interpreters of women’s writing, given an observable reliance on engrained phallocentric assumptions”<xref ref-type="fn" rid="fn22"><sup>22</sup></xref> (<xref ref-type="bibr" rid="B28">HENITIUK 1999</xref>: 473). Seja pela invisibilidade, ou por uma visibilidade que usam para apresentarem-se como objetivos e fiéis, ao invés de exporem sua posição frente ao texto, esses “falotradutores” desvirtuam o original, incorporando-o à ideologia dominante através de uma tradução patriarcal.</p>
					<p>Um dos casos mais paradigmáticos é a tradução ao inglês de <italic>Le deuxième sexe</italic>, de Simone de Beauvoir, realizada pelo zoólogo Howard Parshley, quem foi encarregado da tarefa, por considerar-se que o livro era sobre sexualidade e reprodução. A partir de trabalhos críticos sobre essa tradução (cf. <xref ref-type="bibr" rid="B52">SIMONS 2001</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B44">MOI 2004</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B10">CASTRO 2008</xref>), pode-se comprovar como o tradutor suprimiu cerca de quinze por cento do original em francês no primeiro volume, e no segundo eliminou cerca de sessenta páginas, omitindo feitos incômodos (longas seções sobre as conquistas das mulheres na história, façanhas de mulheres que desafiaram os estereótipos de gênero, tabus sobre relações lésbicas, descrições do árduo trabalho das donas de casa, etc.). Entre as sérias consequências desse comportamento, destaca-se a definição de Beauvoir como uma filósofa desconexa e intelectualmente imatura na opinião do público anglófono, e, principalmente, a troca de acusações entre feministas francófonas e anglófonas por interpretarem diferentes postulados a partir do mesmo texto, que, na realidade, chegava a sustentar teses díspares.<xref ref-type="fn" rid="fn23"><sup>23</sup></xref>
					</p>
					<p>Também se produziram tensões a partir das traduções ao inglês dos textos de Helène Cixous, Luce Irigaray e Julia Kristeva, devido a “tendency to neglect full textual explanations of concepts and rhetorical strategies”<xref ref-type="fn" rid="fn24"><sup>24</sup></xref> (<xref ref-type="bibr" rid="B51">SIMON 1996</xref>: 107), o que atenuou a recepção e compreensão das posturas do feminismo francês entre suas colegas anglo-americanas.</p>
					<p>Essas “falotraduções” não apenas afetam textos canônicos, mas também qualquer outro texto (literário) em que a autora se aparte da pretensão patriarcal. Um caso é o estudado por <xref ref-type="bibr" rid="B41">Miguélez-Carballeira (2005</xref>), sobre a tradução de Bruce Penman para o inglês do livro <italic>El amor es un juego solitario</italic>, de Esther Tusquets. No texto em espanhol, Tusquets outorga importância à fisiologia textual/sexual, mostrando o prazer feminino através de imagens textuais. Apesar disso, em <italic>Love is a Solitary Game</italic> se detectam importantes omissões e neutralizações semânticas naquelas passagens em que a autora menciona o órgão sexual feminino. Assim, “su sexo tibio, húmedo, pegajoso y fragante, su sexo flor en el pantano, su sexo nido, su sexo madriguera, en el que retroceden todos los miedos, este sexo que es para Ricardo un punto de partida...”<xref ref-type="fn" rid="fn25"><sup>25</sup></xref> se torna, em inglês, “there’s something warm, moist, clinging and fragrant, like a flower in the marsh where she wandered so long, like a nest, like the lair of an animal, something which takes away all fear. For Ricardo it is a starting point”<xref ref-type="fn" rid="fn26"><sup>26</sup></xref>. Inclusive, a descrição de uma felação centrada na visão da mulher como “mientras agita con cuidado entre dos dedos, estrecha luego en la palma de una mano firme y cálida, oprime entre sus pechos, resigue con los pezones erizados, se desliza en la boca”<xref ref-type="fn" rid="fn27"><sup>27</sup></xref> (sem mencionar sequer o pênis e outorgando ao homem uma posição passiva e ausente), transforma-se, em inglês, em “as she flipped his organ gently between two fingers, squeezed it with a firm, warm hand, and finally slid it into her mouth”<xref ref-type="fn" rid="fn28"><sup>28</sup></xref> (introduzindo uma referência explícita ao órgão sexual masculino e um “finally”<xref ref-type="fn" rid="fn29"><sup>29</sup></xref> que sugere que, da perspectiva do homem, este chega ao seu objetivo).</p>
					<p>A partir desses exemplos, demonstra-se a necessidade de uma atitude (auto)crítica nos ET para desmascarar falotraduções com as ferramentas que os feminismos proporcionam. Além disso, porém, essas ferramentas se tornam fundamentais também para revelar aqueles casos em que a tradução desempenha um papel chave na canonização de certos textos como feministas, mesmo não sendo considerados como tais em seu contexto original.</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>2.3.2 Crítica de paratraduções de obras feministas</title>
					<p>Há um espaço de análise intimamente ligado à tradução que, em geral, permanece fora do estudo da crítica: a paratradução (<xref ref-type="bibr" rid="B20">GARRIDO 2005</xref>). Este conceito, normalmente aplicado à tradução literária, desenvolve-se a partir dos elementos que envolvem e apresentam o texto, como títulos, prólogos, notas, anúncios, capa ou aspectos gráficos, que <xref ref-type="bibr" rid="B21">Genette (1987</xref>) agrupou sob o nome de paratextos e que, ao abordar a tradução de um livro, também precisam ser trasladados à cultura de chegada. Assim, provisoriamente, pode-se dizer que a paratradução é a tradução de paratextos. A paratradução não é um espaço reservado unicamente aos/às tradutores/as, mas aparecem outros/as mediadores/as (de correção de provas, de revisão linguística, de edição) que frequentemente possuem mais poder para decidir como se apresenta a obra na sociedade de chegada, atuando também conforme a uma determinada ideologia muito propensa a deixar-se influenciar por critérios econômicos. Entre todos esses paratextos, o nível icônico possui uma relevância fundamental, pois “provocará repercusións na propia textualidade e, consecuentemente, modificará a lectura que do texta meta fará o destinatario final” (<xref ref-type="bibr" rid="B60">YUSTE 2001</xref>: 850). Assim, quando os/as paratradutores/as escolhem um título ou imagem de capa, seguem uma estratégia comunicativa ideológica que</p>
					<disp-quote>
						<p>determina unha recepción, unha lectura ideolóxica e mesmo apunta ao tipo de público ao que vai dirixido. Tamén pode espectaculizar por medio desas imaxes ofrecendo tamén dese xeito adscrición xenérica, contido e argumento do libro<xref ref-type="fn" rid="fn30"><sup>30</sup></xref> (<xref ref-type="bibr" rid="B20">GARRIDO 2005</xref>: 36).</p>
					</disp-quote>
					<p>Assim sendo, embora a paratradução não apenas pertença a quem traduz, ela influencia poderosamente, sim, na recepção da tradução, e por esse motivo os ET deveriam também prestar atenção à transmissão de ideologia no nível paratextual. Novamente, uma perspectiva feminista traz à tona como de maneira nada ingênua se alteram (quiçá deturpam) os paratextos feministas do original, sobre os quais as autoras tiveram sim mais poder de decisão. Torna-se fácil ilustrá-lo ao analisar as capas de duas obras de sucesso escritas por duas escritoras explicitamente feministas da prosa contemporânea galega. Em primeiro lugar (<xref ref-type="fig" rid="f1">fig. 1</xref>), María Reimóndez e seu <italic>O club da calceta</italic> (2006), que, na edição original, apresentava-se com algumas agulhas de costura e fundo lilás (cor de conotação feminista). Na tradução para o italiano, no entanto, as agulhas de costura foram deixadas de lado, porque a imagem destaca as longas (e depiladas) pernas de uma mulher recostada em um sofá, sem corresponder a nenhuma passagem da novela. O segundo exemplo (<xref ref-type="fig" rid="f2">fig. 2</xref>) é o premiado <italic>Herba Moura</italic> (2005) de Teresa Moure. Os elementos gráficos da edição original (uma tapeçaria de vários tecidos e cores) são substituídos na primeira edição espanhola por uma imagem difusa de um rosto feminino mesclado com erva-moura; e, na segunda edição, pela imagem de uma mulher (medieval) nua, de costas, numa atitude muito sensual. Essa mesma imagem, porém mostrando todo o rosto, foi a escolhida para a edição que entitula o livro com uma conotação direta às propriedades da “erva-moura”. Na capa da tradução italiana, decidiu-se destacar um dos contextos temporais em que se desenrola a trama, com um título que coloca as três protagonistas em posição de dependência de Descartes, também personagem (<italic>Le tre donne di Cartesio</italic>).</p>
					<p>
						<fig id="f1">
							<label>Figura 1</label>
							<graphic xlink:href="2317-9511-tradterm-29-216-gf1.jpg"/>
						</fig>
					</p>
					<p>
						<fig id="f2">
							<label>Figura 2</label>
							<graphic xlink:href="2317-9511-tradterm-29-216-gf2.jpg"/>
						</fig>
					</p>
				</sec>
			</sec>
			<sec>
				<title>2.4 Plano prático: em direção a uma terceira onda?</title>
				<p>Este percurso pelas interações entre feminismos e tradução inclui também o plano prático, isto é, a contribuição dos feminismos à compreensão do comportamento tradutório no processo pelo qual um texto em uma língua se transforma em outro texto em outra língua. Diferentemente do plano crítico, não se trata de apenas analisar as soluções que (já) foram adotadas no produto, mas de estudar o processo pelo qual se adotam umas ou outras.</p>
				<sec>
					<title>2.4.1 Comportamento tradutório com relação à representação textual<xref ref-type="fn" rid="fn31"><sup>31</sup></xref> de mulheres e homens</title>
					<p>Uma das áreas de estudo consiste em analisar o comportamento tradutório nesse processo tendo em conta a representação textual/linguística de mulheres e homens nos textos, dada a estreita relação entre as práticas discursivas e sociais.</p>
					<p>As ferramentas metodológicas para levar a cabo essa análise são proporcionadas pela virada cultural ou ideológica nos ET, marco já mencionado, assim como a leitura da ideologia dominante que já se fazia pelos feminismos: se não subscrevemos conscientemente uma determinada ideologia, traduzimos (inconscientemente) conforme a dominante.</p>
					<p>Desde a virada cultural, traduzimos entre culturas, mas não podemos esquecer que as fichas com as quais jogamos a partida (da tradução) são palavras, frases, textos, discursos. É a partir disso que, além da perspectiva dos estudos culturais, para poder desmascarar como os valores culturais e ideológicos subjazem a determinados discursos, é útil a linguística crítica ou a análise crítica do discurso (cf. <xref ref-type="bibr" rid="B17">FAIRCLOUGH 1995</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B19">FOWLER <italic>et al</italic>. 1979</xref>). Porém, trata-se de examinar como a pessoa tradutora primeiramente lê e então transmite sua leitura da representação linguística de homens e mulheres no texto, para o que é mais apropriado recorrer à linguística crítica feminista, que conjuga linguística crítica com feminismo. Por esse motivo, sua avaliação está diretamente relacionada com essas duas disciplinas. E, se durante anos concebia-se uma linguística feminista da segunda onda (que as tradutoras canadenses aplicavam e tinham à sua disposição), agora se torna mais produtivo que, a partir dos ET, valorizem-se as renovadas possibilidades de análise que oferece a “third wave feminist linguistics”<xref ref-type="fn" rid="fn32"><sup>32</sup></xref> proposta por <xref ref-type="bibr" rid="B42">Mills (2003</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B43">2008</xref>).</p>
					<p>Essa linguística feminista da terceira onda parte do suposto do discurso enquanto unidade de análise, o que a aproxima da “feminist critical discourse analysis”<xref ref-type="fn" rid="fn33"><sup>33</sup></xref> de <xref ref-type="bibr" rid="B33">Lazar (2005</xref>). Assim, abandona afirmações globais sobre usos sistemáticos da linguagem para centrar-se numa análise pontual e específica de cada enunciado (pois existem diferentes posições leitoras em cada contexto); evita análises isoladas que podem dar lugar a generalizações universais sobre homens e mulheres, para realizar análises sempre contextualizadas que permitam entender rigorosamente como se estabelecem os limites de significação; e rechaça considerar as categorias mulher e homem exclusivamente, para concebê-las junto a outras variáveis (idade, raça, classe, etc.) com as quais sempre interagem.</p>
					<p>Aplicar isso à tradução cria um novo marco metodológico, que poderíamos denominar “third wave feminist translation”<xref ref-type="fn" rid="fn34"><sup>34</sup></xref>, cujo primeiro âmbito de análise consistiria em abordar a representação discursiva de mulheres e homens no texto original, sempre de forma pontual, contextualizadamente, tendo em conta a interação do gênero com outras variáveis. Essa representação discursiva pode se materializar em diferentes níveis, como a palavra (através de termos concretos ou, em alguns idiomas, do gênero linguístico) ou a frase (frases feitas, refrões, etc., nos quais não há marcas de gênero, mas implicitamente se referem a mulheres ou homens), e sempre considerando que deixam de ser elementos isolados para transformarem-se em constituintes de um discurso: isto é, tendo em conta que uma mesma palavra ou frase pode ser utilizada em dois discursos de forma que represente seu referente de modo desigual, pois nunca poderão ser lidos de forma absoluta.</p>
					<p>Uma vez abordada essa representação discursiva, surge o segundo âmbito de análise: considerar quais problemas de tradução são postos por essa representação, tendo em conta as (im)possibilidades de representação (linguística e cultural) destas e esses mesmos referentes na língua alvo, isto é, examinar os problemas de tradução entendidos em sua dimensão discursiva, embora possam se materializar em palavras ou frases. Por exemplo, problemas de tradução gerados por palavras que, dependendo do discurso, possam ter como referentes mulheres e/ou homens (“children” como “filhas”, “filhos”, “crianças”); problemas quando estamos frente a um masculino que não sabemos se tem valor genérico ou específico, sendo isso relevante para a tradução (“tios” como “uncles”, “uncles and aunts”, “aunts and uncles”, etc.); problemas quando um texto que não explicita o sexo da/o referente deve ser explicitado na língua alvo (“you’re tired” como “você está cansado” ou “cansada”); problemas quando um texto menciona explicitamente o sexo da/o referente, mas a língua alvo não requer, embora possa, torná-lo explícito (“escritora” como “writer” ou “woman writer”); ou, em geral, problemas éticos que possam surgir ao traduzir um discurso que os feminismos qualifiquem como reprovável. Mas além disso, a terceira onda convida os ET a considerar quais problemas não são postos em questão (embora existam) por ser feita uma leitura inconsciente da representação discursiva e que terão como consequência uma reescrita de acordo com a ideologia dominante. Não se trata unicamente do “Male-As-Norm-Principle”<xref ref-type="fn" rid="fn35"><sup>35</sup></xref> (<xref ref-type="bibr" rid="B8">BRAUN 1997</xref>: 3) através do qual, no caso de desconhecimento do sexo do referente, opta-se na tradução pelo masculino, a não ser que existam estereótipos no sentido oposto, pois do contrário se incorre naquilo que se consideram como erros de tradução a partir da posição hegemônica. São erros como os ilustrados por estes exemplos, extraídos de um exercício com estudantes da Universidade de Vigo <xref ref-type="fn" rid="fn36"><sup>36</sup></xref> , no qual 16 de 30 estudantes traduziram “one experiences one’s pregnancy differently, every time” <xref ref-type="fn" rid="fn37"><sup>37</sup></xref>por “un vive o seu embarazo de xeito...”<xref ref-type="fn" rid="fn38"><sup>38</sup></xref>, e 23 de 30 reescreveram “he’s a very famous gynaecologist. His patients are very happy with him”<xref ref-type="fn" rid="fn39"><sup>39</sup></xref> como “é un xinecólogo moi famoso. Os seus pacientes están moi contentos...”<xref ref-type="fn" rid="fn40"><sup>40</sup></xref>, criando situações inconcebíveis com homens grávidos e em consultas de ginecologia. Cabe aqui uma breve nota para ressaltar a necessidade de uma (auto)crítica nas teorias pedagógicas de tradução que conduza, como contesta <xref ref-type="bibr" rid="B55">Susam-Sarajeva (2006</xref>), a explorar o papel da docência na geração de atitudes críticas e conscientes sobre o que implica traduzir.</p>
					<p>A impossibilidade possível da tradução, no dizer de <xref ref-type="bibr" rid="B24">Godayol (2000</xref>: 123), requer procurar táticas provisórias para resolver temporariamente esses problemas. Nesta terceira fase, a mais sugestiva, os feminismos expõem aos ET a necessidade de uma atitude (auto)crítica para desenvolver novos debates de nível prático que apresentem a tradução do gênero dentro do marco da tradução feminista da terceira onda. Um desses debates propõe a tradução não sexista (cf. <xref ref-type="bibr" rid="B9">CASTRO 2006</xref>), que avalia como as políticas de planejamento linguístico de gênero afetam a tradução. Assim, a partir de uma leitura consciente e não dominante da representação discursiva de mulheres e homens, a tradução não sexista propõe estratégias de reescrita que considerem o contexto da tradução (função do texto, público, tipo de representação linguística, pares linguísticos, limitações de cada tipologia textual como poesia, tradução juramentada, dublagem, etc.), mas que também valorizem os intertextos da língua alvo (o uso cada vez maior de linguagem não sexista na língua alvo ao escrever textos originais). Considerando contextos e intertextos, as estratégias de tradução não sexista estão determinadas pela contingência discursiva, e por isso exigem uma reflexão constante e possuem uma validade unicamente provisória.</p>
					<p>Em todo caso, a terceira onda da tradução feminista agrega também duas novas dimensões à leitura e transmissão ideológica da representação discursiva de mulheres e homens. Primeiro, dado seu interesse no contexto, convida a examinar não somente textos literários (como até agora se tem feito, quase exclusivamente, tanto pela escola canadense como pelas propostas posteriores), mas toda tipologia textual: neste sentido, são interessantes as análises de <xref ref-type="bibr" rid="B13">De Marco (2006</xref>) para a tradução audiovisual, e de <xref ref-type="bibr" rid="B50">Sánchez (2007</xref>) sobre a tradução do discurso científico. Porém, além da tradução literária, científica e audiovisual, vivemos atualmente na era das comunicações globais, o que implica que estejam cada vez mais presentes em nossas vidas outro tipo de traduções. Isso abre uma nova interrogação, já que muitos desses documentos são de autoria desconhecida, e outros sequer se apresentam como traduções aos nossos olhos. Então, seria preciso analisar também como esses dois condicionamentos afetam (ou não) a leitura e reescrita discursiva do gênero.</p>
					<p>Segundo, dado seu interesse no discurso (e na palavra apenas como parte constituinte de um discurso que adquire significação em seu conjunto), seria necessário analisar como a ideologia também afeta (ou não) a leitura e reescrita dos elementos discursivos que possuem como referentes mulheres e homens. Até agora foi teorizado e praticado tradução a partir de textos de ideologia explícita e conscientemente feminista (escola canadense, Díaz-Diocaretz, etc.) ou de ideologia explicitamente misógina (Levine). É momento de se perguntar como abordar a representação discursiva de mulheres e homens quando os textos não expressam abertamente uma ideologia determinada. Isso conduz a novas perguntas: Que leituras a terceira onda da tradução feminista pode realizar para desmascarar a ideologia quando esta não é patente? Se não é explícita, significa que é inconsciente (logo, dominante)? Com base em que deve se constituir a ética da tradução?</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>2.4.2 Comportamento paratradutório com relação à representação textual e paratextual de mulheres e homens</title>
					<p>Geralmente, considera-se que as e os tradutores são as/os principais operadores do processo de tradução, mas com frequência sua capacidade de escolha está subordinada às decisões funcionais tomadas por outros/as agentes mediadores/as: os/as paratradutores/as (pessoas encarregadas da correção de provas, revisão linguística, edição, intermediação com cliente, cliente, patrocinador/a, agência de tradução, etc.), que frequentemente possuem mais poder para intervir no processo. Esses/as paratradutores/as se encarregam de revisar a tradução (normalmente adequando-a, mas não sempre, à sua ideologia consciente ou inconsciente), embora, no final, seja o/a tradutor/a quem deve se responsabilizar publicamente pelas escolhas da tradução. Desta forma, uma análise a partir do marco da terceira onda da tradução feminista ficará manca a menos que questione também o papel das e dos paratradutores em dois aspectos. Primeiro, ao recomendar ou exigir uma determinada leitura e reescrita tradutória dos elementos discursivos que representam mulheres e homens. Segundo, em sua própria interpretação e possível revisão desses elementos tal e qual aparecem na reescrita tradutória, quando as ideologias de ambos/as profissionais não coincide. Ambos os pontos estão ilustrados, no contexto alemão e austríaco, em um interessante trabalho de <xref ref-type="bibr" rid="B59">Wolf (2006</xref>).</p>
					<p>Além dessas relações de poder entre quem traduz e quem paratraduz elementos textuais (ou discursivos), na tradução literária existem também uma série de espaços paratextuais que devem ser traduzidos e/ou criados para acompanhar o texto. Não há dúvida do quão benéfico seria para os ET abrir-se para esse novo campo de análise, para examinar o processo pelo qual os/as paratradutores/as adotam uma decisão ou outra na hora de trasladar aqueles elementos paratextuais (ou paradiscursivos) que verbal ou icônicamente representam mulheres e homens.</p>
				</sec>
			</sec>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>3. Conclusões</title>
			<p>Ao longo deste artigo, apresentei diferentes áreas de análise pelas quais se pode potencializar o debate entre os ET e os feminismos, a partir de uma perspectiva (auto)crítica. Somente essa perspectiva permitirá avaliar as inter-relações passadas e construir sobre elas novos horizontes produtivos. Por um lado, superando a (dominante) proposta da tradução feminista canadense para alimentar-se de novas aproximações práticas ao processo de tradução e paratradução contidas na terceira onda da tradução feminista. Por outro, potencializando as inter-relações também num plano conceitual, crítico e historiográfico, entre muitos outros possíveis. Tantos que, por questão de espaço, foram deixados fora campos de análise não menos importantes, como poderiam ser as diferenças entre mulheres e homens com relação à tradução a partir de uma perspectiva neurobiológica e neurolinguística (uma disciplina ainda muito jovem e recente, sem resultados concludentes); a influência de uma subjetividade feminina ou masculina na tradução (se o sexo é ou não um fator que influencia na leitura e reescrita feita pela tradutora ou tradutor); a influência do sexo no tipo de tradução (os tipos de textualidades mais traduzidas por mulheres e homens, se haverão diferenças significativas); ou as condições de trabalho nas quais se desempenha a profissão a partir de um enfoque de gênero (porcentagem de tradutoras e tradutores que trabalham sob contrato ou que são autônomos/as em tradução literária ou não literária, porcentagem das e dos que têm licenciatura ou pós-graduação em tradução, doenças decorrentes do trabalho que afetam tradutoras e tradutores, etc.). Como se pode verificar, são muitas as linhas reflexivas que podem ser estabelecidas sobre os estudos de tradução a partir de sua interação com os feminismos, o que sem dúvida permitirá continuar potencializando interessantes debates nos próximos anos.</p>
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			</ref>
			<ref id="B58">
				<mixed-citation>VIDAL CLARAMONTE, Carmen África. El futuro de la traducción: últimas teorías, nuevas aplicaciones. Valencia: Alfons Magnànim, 1998.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>VIDAL CLARAMONTE</surname>
							<given-names>Carmen África</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>El futuro de la traducción: últimas teorías, nuevas aplicaciones</source>
					<publisher-loc>Valencia</publisher-loc>
					<publisher-name>Alfons Magnànim</publisher-name>
					<year>1998</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B59">
				<mixed-citation>WOLF, Michaela. “The Female State of Art: women in the ‘translation field’”. En: PYM, Anthony; SHLESINGER, Miriam; JETTMAROVÁ, Zuzana (eds.). Sociocultural Aspects of Translating and Interpreting. Amsterdã e Filadélfia: Benjamins, 2006. pp. 129-141.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>WOLF</surname>
							<given-names>Michaela</given-names>
						</name>
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					<chapter-title>The Female State of Art: women in the ‘translation field’</chapter-title>
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							<surname>PYM</surname>
							<given-names>Anthony</given-names>
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							<surname>SHLESINGER</surname>
							<given-names>Miriam</given-names>
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							<surname>JETTMAROVÁ</surname>
							<given-names>Zuzana</given-names>
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					<source>Sociocultural Aspects of Translating and Interpreting</source>
					<publisher-loc>Amsterdã e Filadélfia</publisher-loc>
					<publisher-name>Benjamins</publisher-name>
					<year>2006</year>
					<fpage>129</fpage>
					<lpage>141</lpage>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B60">
				<mixed-citation>YUSTE FRÍAS, José. “Traducir en la red: textos nuevos para nuevas traducciones”. En: BARR, Anne; RUANO, Rosario Martín; TORRES, Jesús (eds.). Últimas corrientes teóricas en los estudios de traducción y sus aplicaciones. Salamanca: Universidad Salamanca, 2001. pp. 848-857.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
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							<surname>YUSTE FRÍAS</surname>
							<given-names>José</given-names>
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					<chapter-title>Traducir en la red: textos nuevos para nuevas traducciones</chapter-title>
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							<surname>BARR</surname>
							<given-names>Anne</given-names>
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							<surname>RUANO</surname>
							<given-names>Rosario Martín</given-names>
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					<source>Últimas corrientes teóricas en los estudios de traducción y sus aplicaciones</source>
					<publisher-loc>Salamanca</publisher-loc>
					<publisher-name>Universidad Salamanca</publisher-name>
					<year>2001</year>
					<fpage>848</fpage>
					<lpage>857</lpage>
				</element-citation>
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		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>*</label>
				<p>N. da T.: Artigo originalmente publicado no periódico MonTi. Monografías de Traducción e Interpretación (<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.e-revistes.uji.es/index.php/monti/article/view/1644">http://www.e-revistes.uji.es/index.php/monti/article/view/1644</ext-link>) em 2009. Foram utilizados os resumos em espanhol e inglês do original, sendo apenas aquele em português uma tradução minha.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>N. da A.: Utilizo o termo disciplina por razões práticas, embora com reserva, dado que as múltiplas relações que tanto os feminismos quanto os ET travam com outras áreas do conhecimento fariam ser mais preciso chamá-las de interdisciplinas ou transdisciplinas.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p>N. da T.: “O propósito da teoria da tradução é chegar a uma compreensão do processo envolvido no ato de tradução e não, como erroneamente se costuma entender, providenciar um conjunto de normas para realizar a tradução ‘perfeita’.” Desta em diante traduzo todas as citações do artigo.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p>N. da T.: “a orientação em direção mais a uma transferêcia cultural do que linguística”</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>5</label>
				<p>N. da T.: “fazendo a linguagem funcionar como um sistema paralelo à cultura ao invés de uma entidade referencial externa”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>6</label>
				<p>N. da T.: “a ideologia, mais que a linguística ou a estética, determina crucialmente as escolhas operacionais dos tradutores”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn7">
				<label>7</label>
				<p>N. da T.: “toda tradução pressupõe um nível de manipulação do texto fonte para um certo propósito”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn8">
				<label>8</label>
				<p>N. da A.: Massadier-Kenney (1997) demonstra que as estratégias canadenses não são invenções, mas readaptações de outras estratégias usadas (inquestionavelmente) durante séculos.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn9">
				<label>9</label>
				<p>N. da T.: “manejar o texto como mulher, em tradução, significa substituir a tradutora modesta e despretensiosa”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn10">
				<label>10</label>
				<p>N. da T.: “reescrita no feminino — atividade política focada em fazer a linguagem falar por mulheres”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn11">
				<label>11</label>
				<p>N. da T.: “opressivamente masculinos, narcisistas, misóginos e manipuladores”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn12">
				<label>12</label>
				<p>N. da T.: “escriba subversiva”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn13">
				<label>13</label>
				<p>N. da A.: Outras críticas patriarcais simplesmente as ridicularizam sem trazer argumentos convincentes.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn14">
				<label>14</label>
				<p>N. da T.: “infame padrão duplo”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn15">
				<label>15</label>
				<p>N. da T.: “elas são perfeitamente legítimas no contexto político em que estão lutando tão bravamente para construir [...] No entanto, não são absolutamente mais 'nobres' ou mais justificáveis que as traduções e noções patriarcais que estão tentando desconstruir”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn16">
				<label>16</label>
				<p>N. da T.: “fazer a linguagem falar por mulheres”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn17">
				<label>17</label>
				<p>N. da T.: “tradutora que se identifica com mulheres - tradutora com consciência de gênero”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn18">
				<label>18</label>
				<p>N. da T.: “redefinição da prática feminista de tradução”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn19">
				<label>19</label>
				<p>N. da T.: As seções 2.1.1 e 2.1.2 estão presentes aqui em sua forma resumida pela própria autora.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn20">
				<label>20</label>
				<p>N. da T.: “capitalismo multinacional e as instituições políticas com as quais a atual economia global se alia”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn21">
				<label>21</label>
				<p>N. da T.: “recuperação e comentário”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn22">
				<label>22</label>
				<p>N. da T.: “falotradutores, inadequados intérpretes da escrita de mulheres, devido a uma observável dependência em suposições falocêntricas enraizadas”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn23">
				<label>23</label>
				<p>N. da A.: Desde 1999, ano do cinquentenário da obra, as acadêmicas feministas exigiam da editora Random House uma segunda tradução da obra ao inglês. Finalmente, em 2006, Jonathan Cape (com os direitos apenas para o âmbito britânico) anunciou uma nova tradução de Constance Borde e Sheila Malovany-Chevallier.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn24">
				<label>24</label>
				<p>N. da T.: “tendência a negligenciar explicações de conceitos e estratégias retóricas integralmente”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn25">
				<label>25</label>
				<p>N. da T.: “seu sexo morno, úmido, pegajoso e fragrante, seu sexo flor no pântano, seu sexo ninho, seu sexo toca, no qual todos os medos retrocedem, este sexo que é para Ricardo um ponto de partida...”</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn26">
				<label>26</label>
				<p>N. da T.: “há algo morno, úmido, pegajoso e fragrante, como uma flor no pântano onde ela vagou por tanto tempo, como um ninho, como a toca de um animal, algo que leva embora todo o medo. Para Ricardo é um ponto de partida”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn27">
				<label>27</label>
				<p>N. da T.: “enquanto agita com cuidado entre dois dedos, aperta logo na palma de uma mão firme e cálida, pressiona entre seus peitos, alisa com os mamilos eriçados, desliza na boca”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn28">
				<label>28</label>
				<p>N. da T.: “enquanto ela sacudia o órgão dele gentilmente entre dois dedos, apertou-o com uma mão firme e morna, e finalmente o deslizou até sua boca”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn29">
				<label>29</label>
				<p>N. da T.: “finalmente”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn30">
				<label>30</label>
				<p>N. da T.: “determina uma recepção, uma leitura ideológica e até aponta ao tipo de público a que se dirige. Também pode espetacularizar por meio dessas imagens, oferecendo também desse jeito adscrição genérica, conteúdo e enredo do livro.”</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn31">
				<label>31</label>
				<p>(N. da A.) Embora defenda uma mudança do texto ao discurso como unidade de análise, utilizo a noção de textual como oposta à paratextual.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn32">
				<label>32</label>
				<p>N. da T.: “linguística feminista da terceira onda”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn33">
				<label>33</label>
				<p>N. da T.: “análise de discurso crítica feminista”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn34">
				<label>34</label>
				<p>N. da T.: “tradução feminista da terceira onda”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn35">
				<label>35</label>
				<p>N. da T.: “Princípio-Do-Masculino-Como-Norma”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn36">
				<label>36</label>
				<p>N. da A.: Trabalho empírico realizado com estudantes da matéria de Tradução e cultura inglês/galego (Lic. Tradução, Universidade de Vigo) em 2005/06.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn37">
				<label>37</label>
				<p>N. da T.: “as pessoas vivem sua gravidez diferentemente, toda vez”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn38">
				<label>38</label>
				<p>N. da T.: “cada um vive sua gravidez do jeito”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn39">
				<label>39</label>
				<p>N. da T.: “ele é um ginecologista muito famoso. Suas pacientes estão muito contentes com ele”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn40">
				<label>40</label>
				<p>N. da T.: “é um ginecologista muito famoso. Seus pacientes estão muito satisfeitos”.</p>
			</fn>
		</fn-group>
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