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				<journal-title>Revista de Tradução e Terminologia</journal-title>
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					<subject>Book Review</subject>
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				<article-title>Sense in Translation: Essays on the Bilingual Body</article-title>
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					<institution content-type="original">Doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. E-mail: ciro.lubliner@gmail.com</institution>
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						<surname>RABOURDIN</surname>
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				</person-group>. <source><italic>Sense in Translation</italic>: Essays on the Bilingual Body</source>. <publisher-loc>Londres</publisher-loc>: <publisher-name>Routledge</publisher-name>, <year>2020</year>, <size units="pages">104 p</size>.</product>
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		<p>O livro <italic>Sense in Translation: Essays on the Bilingual Body</italic>, da professora e pesquisadora francesa Caroline Rabourdin, é composto por seis ensaios, a maioria deles fruto de comunicações apresentadas em eventos realizados no continente europeu.</p>
		<p>O tema agregador da obra parte da experiência pessoal da autora: uma francesa residente na Inglaterra (onde realizou seu doutorado, na <italic>University of the Arts London</italic>). Essa condição fez com que Rabourdin notasse as características e a própria constituição de um <italic>corpo bilíngue.</italic></p>
		<p>Graduada em arquitetura, a autora busca refletir sobre as relações entre tradução e espaço, diferenciando, ao mesmo tempo em que aproximando, a “tradução linguística” da “tradução espacial”. Assim, a linguagem é considerada uma prática corpórea que é realizada nas ações as mais cotidianas, perspectiva desbravada por alguns filósofos do século XX, sobretudo aqueles ligados à Fenomenologia. É dessa esfera teórica que partem as principais referências de Rabourdin.</p>
		<p>Dado que cada capítulo do livro constitui um pequeno ensaio que - apesar do tema geral - possui particularidades, discriminamos a seguir do que trata cada um deles.</p>
		<p>No primeiro capítulo, a pesquisadora discorre acerca das diferentes traduções para o inglês das palavras francesas “<italic>sense</italic>” e “<italic>langue</italic>”, tais como empregadas por Maurice Merleau-Ponty e por Ferdinand de Saussure. Rabourdin critica as traduções inglesas por elas reduzirem os termos, livrando-se do caráter ambíguo ou múltiplo extremamente necessário para a compreensão do pensamento dos dois teóricos. A autora aponta então duas saídas para evitar esse reducionismo: manter os termos sempre idênticos, exigindo da própria leitora uma função ativa em que ela distingue cada sentido, ou aquela em que a tradutora usa diferentes termos no transcorrer do texto para a mesma palavra, respeitando ela própria o contexto vigente.</p>
		<p>Para a teórica, fechar o significado ao traduzir é, portanto, restringir muitas vezes o caráter não só polissêmico, mas também transdisciplinar dos termos, algo por ela exemplificado a partir da obra <italic>Le sens du mouvement</italic>, de Alain Berthoz e da tradução para o inglês do livro <italic>L’orreille de l’autre</italic>, de Jacques Derrida.</p>
		<p>No segundo texto, Rabourdin analisa a ideia de translação (<italic>translation</italic>), como movimento espacial, destacando o campo da Geometria. Para tanto, ela aborda o pensamento de três cientistas: Euclides, Henri Poincaré e Alain Berthoz. O objetivo principal da autora parece residir na especulação de como nosso corpo se relaciona com o espaço que ocupa e que o cerca, e quais as influências que nele incidem e que ele próprio suscita (pensamento atado à Fenomenologia, que propunha que o espaço não pode ser pensado separado das ações do indivíduo, antes no par sujeito-objeto).</p>
		<p>Novamente, Rabourdin se debruça sobre as traduções feitas para o inglês de livros escritos em francês. Nesse caso, as imprecisões do inglês quando traduzindo a obra de Poincaré. Nesse capítulo, a autora defende a compreensão da tradução linguística como uma forma de exigência de movimento no corpo da própria tradutora: pensar, falar, escrever de uma língua à outra, e também, talvez sobretudo, no espaço intersticial, entre os idiomas.</p>
		<p>Rabourdin embarca em uma interessante discussão quanto aos sentidos da palavra “<italic>umbrella</italic>”, para demonstrar como a tradução também envolve esse movimento no espaço. Há evidentemente aí toda uma questão semiótica, porém a autora não entra tanto nesses méritos, fiando-se às discussões linguísticas (<italic>umbrella</italic>, <italic>parapluie</italic>, <italic>ombrelle, parasol</italic>) e desenhando um diagrama - uma certa geometria - de vetores de sentido e conotação que ilustram os movimentos linguísticos possíveis ao corpo bilíngue, demonstrando, no final das contas, como o “sentido” (em sua ambivalência, sentido como significado e sentido como direção) da translação geométrica (<italic>geometrical translation</italic>) é reativado no ato da tradução linguística (<italic>linguistic translation</italic>).</p>
		<p>Ao terceiro ensaio, Rabourdin reserva uma análise do livro <italic>La Modification</italic> de Michel Butor, narrativa que consiste na descrição de uma viagem de trem, de Paris a Roma. A principal característica para o enfoque no escritor ligado ao grupo do <italic>Nouveau Roman</italic>, é o fato de ele ter considerado a própria escrita como um ato de viagem, e, consequentemente, também a leitura.</p>
		<p>Esse ponto de vista de Butor faz com que Rabourdin retome novamente definições de Merleau-Ponty, como a de que a questão da profundidade, da percepção de um espaço, advém inexoravelmente da experiência do movimento de um corpo. Desse modo, a autora passa a relacionar o movimento do corpo no trem a essa perspectiva fenomenológica, destacando como o personagem de Butor vai, no transcorrer de sua viagem, antecipando os lugares pelos quais passa, já que a percepção incide em um esforço de projeção.</p>
		<p>Assim como com a percepção do corpo no espaço, a autora dirá como tanto o escritor quanto o leitor projetam e se projetam em um espaço, nesse caso, não físico, mas ficcional, aquele que é produzido por um movimento virtual, no espírito.</p>
		<p>No quarto capítulo, Rabourdin aborda a poesia e as obras da artista Caroline Bergvall, que tem o norueguês como sua língua materna, mas também utiliza em seus trabalhos o inglês e o francês. Rabourdin a considera uma artista da sonoridade, da atenção na ressonância dos sons nos corpos.</p>
		<p>Antes de lidar com a obra de Bergvall, Rabourdin comenta rapidamente a poesia de Helène Cixous, detendo-se, para isso, em perspectivas do filósofo Jean-Jacques Lecercle, que indicam o alcance da linguagem que vai para além dos sentidos comuns que queremos expressar. Na linguagem, há algo que será dito por ela mesma, uma extensão de sentido que escapa às nossas intenções utilitárias.</p>
		<p>A “filosofia do não senso<italic>”</italic> de Lecercle tem aí papel fundamental, por buscar investigar esse nível da linguagem que não está comprometido com significados ditos “fixos”, automáticos. O “não senso”, aquilo que está aberto à produção de sentido - como diz outro filósofo francês, Gilles Deleuze - dispara conexões semânticas em mais de uma língua, como mostrará Rabourdin a partir dos exemplos por ela aventados. Partindo então da obra de Bergvall, Rabourdin apresenta a escrita da artista como uma modulação de diferentes “corpos” (um corpo trilíngue).</p>
		<p>No quinto texto, Caroline Rabourdin analisa a obra de Louis Wolfson, nova-iorquino que escreveu apenas em francês. A história de Wolfson suscita diversas questões pelo fato do escritor sentir uma extrema repulsa diante da exposição à língua inglesa, ao ponto de se dizer violentado por sua língua materna. A partir dessa reação, ele inventa um procedimento que o faz escapar da percepção da língua inglesa, utilizando outros idiomas por ele estudados.</p>
		<p>Rabourdin destaca o escritor como alguém que traz à luz a materialidade da linguagem, através de uma obsessão linguística que não representa ou significa, mas produz algo, uma nova linguagem, um novo corpo. Para a autora, o procedimento de Wolfson não anula sua língua materna, porém o seu próprio corpo anglófono, procurando eliminar qualquer resquício das sensações corpóreas advindas da percepção da língua inglesa. Para Rabourdin, Wolfson destrói um corpo para construir um outro, um corpo sem língua. Por fim, a pesquisadora indica que o que Wolfson faz não é uma mera tradução do inglês para o francês, mas o que chama de uma “tradução absoluta”, a partir de Jacques Derrida: uma tradução que pretende apagar os rastros de qualquer língua “de partida”.</p>
		<p>No último ensaio de <italic>Sense in Translation</italic>, a autora veicula uma comunicação conduzida pela análise de dois textos transcritos, um em francês e outro em inglês. O primeiro deles é o seminário sobre o conceito de “hospitalidade”, de Jacques Derrida; e o segundo uma palestra dada pela poeta canadense Lisa Robertson.</p>
		<p>Falando sobre sua própria experiência, deixando a França rumo a Inglaterra, Rabourdin destaca como suas ações para a criação de seu corpo bilíngue se pautaram por um método similar ao que Merleau-Ponty chamou de “sedimentação”, a absorção de certas palavras e termos em determinadas situações que eram levadas para o uso em outros contextos, o que cria uma espécie de língua singular, falada por um corpo estrangeiro.</p>
		<p>Essa língua singular, um outro inglês dentro do inglês, aparece como força disruptiva ao que Saussure chamou “sedentarização” da linguagem nas comunidades, a utilidade cotidiana que acaba por “fechar” uma língua. A troca, a conversa com estrangeiros seria então uma forma de desfazer um pouco certo “conformismo” dos idiomas. Aí é que Rabourdin destaca o texto de Derrida, que afirma que uma língua materna não é algo aberto a uma nova linguagem, mas uma força de resistência ao fenômeno do deslocamento, da migração.</p>
		<p>Finalmente, a autora entra em uma discussão sobre o <italic>Brexit</italic>, em 2016, que acarretou em uma forma de isolamento do Reino Unido, impedindo a própria liberdade de movimentação (espacial e linguística) dentro do continente europeu.</p>
		<p>Acreditamos que o livro de Caroline Rabourdin suscita interessantes discussões, pensando o fenômeno do bilinguismo, ou o bilinguismo enquanto Fenômeno, sobretudo na relação entre espaço e linguagem, geometria e tradução, destacando a própria operação do corpo nessas trocas ou relações entre áreas e campos do saber, pensadas não mais como distintas e apartadas, mas como dinâmicas que dotam o corpo de uma maior possibilidade de produção de sentido.</p>
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				<p>É artista, tradutor e pesquisador. Realiza atualmente um pós-doutorado junto ao Programa de Pós-Graduação em Letras Estrangeiras e Tradução, da Universidade de São Paulo, contando com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), processo nº2020/08504-1.</p>
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