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          <publisher-name>São Paulo SP: Universidade de Sao Paulo Faculdade de Filosofia Letras e Ciencias Humanas Centro Interdepartamental de Traducao e Terminologia</publisher-name>
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          <article-title>Resenha: Elegía Apu Inka Atawallpaman. Primer documento de la resistencia Inka (siglo XVI)</article-title>
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              <given-names>Roseli Barros</given-names>
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          <institution content-type="original">Doutora pela FFLCH/USP (2005), professora-adjunto da DLE/UFC.</institution>
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          <country country="BR">Brasil</country>
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          E-mail: 
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      <p>Em 
        <italic>Elegía Apu Inka Atawallpaman</italic>, Odi Gonzales, peruano radicado nos Estados Unidos e professor da Universidade de Nova Iorque, apresenta uma proposta de retradução do poema “Apu Inka Atawallpaman”, sobre a morte do imperador inca Ataualpa; cotejos entre transcrições do poema na língua quéchua e entre traduções para o castelhano; além de um amplo aparato de elementos paratextuais que colaboram com a hipótese lançada pelo pesquisador a respeito da autoria e provável data de escritura daquele que considera o primeiro documento de resistência inca.
      </p>
      <p>A obra tem a seguinte divisão: “Comunidad de hablantes”, primeiro capítulo; segundo, “Harina de otro costal”; terceiro capítulo, “Texto y contexto”; quarto e quinto, “Un cantar de largo aliento” e “Laguna mental”, respectivamente. Há também os “Anexos”; um prólogo, “Un libro tan esperado como necesario”, assinado pela pesquisadora Mercedes López-Baralt e ainda, no início, a seção “Justicia poética”, na qual o autor comenta brevemente as motivações acadêmicas e pessoais que o levaram a empreender a tradução e a escritura do livro.</p>
      <p>Na introdução ao primeiro capítulo, encontramos espelhadas a transcrição do poema em quéchua e a tradução ao castelhano, ambas realizadas pelo autor. Nos “Anexos”, a transcrição e retradução de Gonzales podem ser contrastadas com as mais antigas, de José Mario Benigno Farfán, de 1942, publicadas no suplemento especial que ele compilou para a 
        <italic>Revista del Instituto de Antropología</italic>, da Universidade Nacional de Tucumán, Argentina, e com as de José María Arguedas, de 1955, cujo subtítulo é “elegia quéchua anônima”.
      </p>
      <p>Segue nesse capítulo um estudo histórico do percurso do poema. Ele teria chegado ao conhecimento de Farfán por meio de um harpista de Cusco, que, por sua vez, o teria subtraído de um livro de cantos do músico e compositor Cosme Ticona, recompilador da obra em quéchua no início do século XX. O autor também faz referência a outras traduções do poema, como a de López-Baralt e Donald Solá (1980), com sua primeira versão para o inglês, ou ainda aos fragmentos do poema alternados ao discurso narrativo no romance 
        <italic>El jinete insomne</italic> (1978), de Manuel Scorza.
      </p>
      <p>Dessas considerações Gonzales passa a recuperar o momento de escritura do poema e sua autoria. Comenta que Arguedas acreditava que o autor da poesia teria conhecimento histórico de fatos posteriores à queda do império inca. Além disso, pelo estilo e léxico, considerava que o poema teria sido escrito no final do século XVI ou no XVII (pp. v38). O autor contrapõe outro ponto de vista, o do pesquisador Jesús Jara, para quem o poema pertenceria ao ciclo pré-colonial, quase imediatamente à morte do imperador, uma vez que não encontrava nele influência da poesia espanhola, e sim características do que entendia como “poesia tawantinsuyana”. Essa hipótese é refutada por Gonzales, para quem, devido a sua natureza oral, não haveria como recuperar tais formas da poesia pré-hispânica quéchua. O autor ainda dá voz a outras interpretações, como a de López-Baralt (2005), que crê que a obra foi composta entre o final do século XVIII ou início do XIX; Julio Ortega (2003), que indica o século XVIII; e César Itier (2000), para quem a composição não é anterior ao XIX.</p>
      <p>Ao procurar resgatar a autoria da obra, Gonzales reconstitui o contexto histórico que é tema do poema. Ele faz alusão à morte do rei Ataualpa, abatido pelos espanhóis depois de o império inca enfraquecer-se por uma guerra fratricida. Mas não apenas a esse fato. A “Elegía” teria sido escrita nos “últimos 50 anos do século XVI” (pp. v43), posteriormente à morte de outro inca importante, Tupaq Amaru I, em 1572: “a morte de Atawallpa constitui a primeira morte do Inka como líder do mundo quéchua, a morte de Tupaq Amaru, a segunda e definitiva aniquilação da estirpe e o colapso do império inca” (pp. v48), constatação que leva o autor a considerar a obra como o “primeiro documento da resistência inca”.</p>
      <p>Gonzales segue apresentando elementos para comprovar sua hipótese mediante uma ampla bibliografia comentada, assimilada ou refutada, mas também e, principalmente, construída por meio do que ele conclui a partir de sua transcrição e tradução do texto do quéchua para o castelhano. Os capítulos que as seguem são elementos paratextuais que colaboram com sua proposta de retradução.</p>
      <p>No segundo capítulo, o autor, além de tratar de outra obra supostamente recolhida por Lara, a peça dramática 
        <italic>Tragedia del fin de Atawallpa</italic>, realiza uma breve análise temática entre ela e a “Elegía”; coteja a transcrição quéchua realizada por Farfán (1942) e a de Lara (1947), na qual, segundo ele, há constantes modificações e algumas adaptações da variante do quéchua cusquenho à do quéchua boliviano e, ainda, a de Arguedas (1955).
      </p>
      <p>No terceiro capítulo, Gonzales relaciona a obra 
        <italic>Instrucción del Inca Don Diego de Castro Titu Cusi Yupanqui al licenciado don Lope García de Castro</italic>, crônica ditada por Titu Cusi Yupanqui e registrada em espanhol, em 1570, com a “Elegía”. Não quer, com isso, dizer que o autor de uma conhecesse a outra, mas reitera que ambas são “documentos de uma mesma época, de um mesmo sentimento, regidos pela memória oral, e que contêm, portanto, evidentes coincidências” (pp. v92).
      </p>
      <p>Gonzales trata também do texto e imagem registrados no manuscrito em quéchua 
        <italic>Primer Nueva Coronica y Buen Gobierno</italic>, de 1615, do cronista Felipe Guaman Poma, e tece considerações sobre a diferente tradução apresentada no 
        <italic>Sitio de Guaman Poma</italic> e a que ele entende como construída pelo autor, um indivíduo bilíngue principiante, no fragmentado texto em quéchua.
      </p>
      <p>Nesse capítulo, Gonzales refere-se ao aspecto formal do poema como uma confluência das tradições espanholas, tal como assinalaram Arguedas (1957) e López-Baralt (2005), e da tradição indígena, para uma vez mais defender sua tese de que o autor seria um mestiço aculturado que poderia conhecer inclusive as 
        <italic>Coplas a la muerte de su padre</italic>, do poeta espanhol do século XVI, Jorge Manrique (pp. v106-107).
      </p>
      <p>No quarto capítulo, Gonzales coteja outras traduções com a que propõe. Para isso, faz um estudo sobre as duas traduções de Farfán (1942; 1947), realizadas a partir de apenas uma transcrição do quéchua. Segundo o autor, o objetivo expresso desse primeiro tradutor teria sido o de realizar uma “tradução mais literal”, “somente em poucos casos atendendo mais à expressão do pensamento que da forma, quando não se podia encontrar uma dicção castelhana correspondente” (pp. v114).</p>
      <p>Também coteja sua tradução com a de Teodoro Meneses, de 1957; a de Mercedes López-Baralt e Solá, de 1980, e ainda a de Arguedas, de 1955, que, segundo Gonzales, tinha como língua materna outra variante do quéchua, o 
        <italic>chanka,</italic> e de quem comenta que algumas decisões tomadas para manter uma “extrema fidelidade” ao texto na língua indígena levam a uma “literalidade restritiva” (pp. v121), sem que isso desmereça seu valor. O autor justifica que as decisões tomadas por ele estão apoiadas em sua experiência como falante do quéchua cusquenho, o que já havia comentado na seção “Justicia Poética”, onde informa ter nascido em Calca, Cusco, mesma região onde se recompilou o poema (pp. v9). Ao longo do capítulo, num estudo minucioso e didático, mostra espelhadamente as opções dos demais tradutores e as que ele produziu.
      </p>
      <p>O autor constrói, por meio da retradução e dos paratextos que apresenta, a comprovação de suas hipóteses sobre datação e autoria do poema, que muitas vezes contraria as hipóteses e opções tomadas por outros tradutores e estudiosos, como, por exemplo, em relação ao que sustenta López-Baralt sobre o texto e imagens de Guaman Poma e a crônica sobre a morte de Ataualpa apresentadas em 
        <italic>Historia general del Perú</italic> terem sido “embriões” da “Elegía” (pp. v132).
      </p>
      <p>Finalmente, no último capítulo, o autor promove, ainda que brevemente, um estudo sobre a intertextualidade da “Elegía” com outras obras que tratam do tema da morte do rei inca, tais como o livro de poemas 
        <italic>Taki parwa</italic>, de Killu Warak´a, pseudônimo de Andrés Alencastre Gutiérrez, de 1952, e os poemas de 
        <italic>Katatay</italic>, escritos por Arguedas entre 1962 e 1969, nos quais Gonzales encontra elementos da tradição oral também presentes na “Elegía”. Comenta ainda a adaptação do tema da morte de Ataualpa para outras artes, tais como o documentário 
        <italic>Llamellin y su fiesta patronal</italic> (2007), realizada pelo cineasta Mitchell Tepliski; o álbum 
        <italic>Apurimac</italic>, (1985), da banda alemã de 
        <italic>new age</italic> “Cusco”, que inclui a canção “Atahualpa, the last Inca”. Dentre essas retraduções, vale a pena destacar a pintura a óleo de Luis Montero, intitulada “Los funerales de Atahualpa”, de 1867 (capa desta edição bem cuidada da editora peruana Pakarina), e a releitura contemporânea do artista plástico Marcel Velaochaga, em 2005, na qual em colagem realizada sobre o quadro de Montero insere referências a pessoas da atualidade, tais como o líder do movimento guerrilheiro “Sendero Luminoso” Abimael Guzmán, Che Guevara e o papa Bento XVI.
      </p>
      <p>Enfim, o trabalho de Odi Gonzales é de grande interesse para estudiosos da tradução e de outras áreas que se debrucem sobre questões latino- americanas e, mais especificamente, andinas. Além de um acurado trabalho de cotejo de traduções anteriores à sua, proporciona ao leitor uma retradução comentada e um amplo apoio paratextual da época de recolhimento do poema oral aos trabalhos de retraduções posteriores. Podemos valer-nos das palavras da pesquisadora da Universidade de Porto Rico Mercedes López-Baralt, que no prólogo à obra enaltece a pesquisa desenvolvida pelo autor e sua grande capacidade como tradutor, uma vez que, além de poeta, apresenta-nos a obra a partir de sua “própria experiência vital andina”.</p>
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