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		<journal-meta>
			<journal-id journal-id-type="publisher-id">tradterm</journal-id>
			<journal-title-group>
				<journal-title>Revista de Tradução e Terminologia</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Revista de Tradução e Terminologia</abbrev-journal-title>
			</journal-title-group>
			<issn pub-type="ppub">2317-9511</issn>
			<issn pub-type="epub">2317-9511</issn>
			<publisher>
				<publisher-name>Centro Interdepartamental de Tradução e Terminologia da Universidade de São Paulo</publisher-name>
			</publisher>
		</journal-meta>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.11606/issn.2317-9511.v41p127-137</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>Articles</subject>
				</subj-group>
			</article-categories>
			<title-group>
				<article-title>Entrevista com Almiro “W.S” Pisetta sobre a tradução dos sonetos shakespearianos</article-title>
			</title-group>
			<contrib-group>
				<contrib contrib-type="author">
					<name>
						<surname>Silva</surname>
						<given-names>Carlos César da</given-names>
					</name>
					<xref ref-type="aff" rid="aff1"><sup>1</sup></xref>
				</contrib>
				<aff id="aff1">
					<label>1</label>
					<institution content-type="original">Doutorando em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual de Campinas.</institution>
					<institution content-type="orgname">Universidade Estadual de Campinas</institution>
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			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
				<day>07</day>
				<month>10</month>
				<year>2022</year>
			</pub-date>
			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<month>02</month>
				<year>2022</year>
			</pub-date>
			<volume>41</volume>
			<fpage>127</fpage>
			<lpage>137</lpage>
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				<license license-type="open-access" xlink:href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/" xml:lang="pt">
					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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		</article-meta>
	</front>
	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>1. Apresentação</title>
			<p>Almiro Pisetta é tradutor de poesia e professor aposentado pela Universidade Estadual de São Paulo (USP) - conhecido, sobretudo, pela tradução dos poemas na segunda edição brasileira do romance <italic>O Hobbit</italic> e da trilogia <italic>Senhor dos Anéis</italic>, cujos conteúdos em prosa foram traduzidos por sua esposa, Lenita Esteves Pisetta, também professora na USP. Em abril de 2019, Almiro Pisetta lançou, pela Martin Claret, a tradução dos sonetos de William Shakespeare, com o título bilíngue <italic>The sonnets of William Shakespeare &amp; os sonetos de Almiro W. S. Pisetta</italic>. A capa da edição pode ser vista na <xref ref-type="fig" rid="f1">Figura 1</xref> indicada abaixo.</p>
			<p>
				<fig id="f1">
					<label>FIGURA 1</label>
					<caption>
						<title>Capa da edição</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2317-9511-tradterm-41-127-gf1.jpg"/>
					<attrib>Fonte: Amazon. Acesso em: 03 de junho de 2021. </attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>Em maio de 2021, a professora Viviane Veras convidou o tradutor para falar sobre a publicação em uma aula da disciplina de <italic>Introdução aos Estudos da Tradução</italic> do programa de pós-graduação em Linguística Aplicada da Universidade Estadual de Campinas, ministrada virtualmente durante a pandemia. Auxiliado nas questões técnicas por sua esposa, a quem a revisão processual e final das traduções dos sonetos é atribuída, Pisetta concedeu aos alunos da disciplina uma breve apresentação em <italic>PowerPoint</italic> sobre os sonetos shakespearianos e sua história com a tradução destes, incluindo, ainda, a discussão de alguns poemas selecionados. Após a apresentação, a professora Viviane Veras passou a palavra ao autor deste trabalho para que ele entrevistasse Pisetta acerca de seu processo tradutório e carreira de tradutor<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref>. </p>
			<p>Cabe neste texto, primeiramente, introduzir o projeto de tradução a ser discutido a partir de informações trazidas nos paratextos inclusos no livro e da própria apresentação feita pelo professor e tradutor durante a aula, anteriormente à entrevista que segue. O conteúdo teórico aqui trazido é abordado com mais profundidade no texto introdutório de Pisetta da edição do livro e será retomado neste trabalho com o intuito de esclarecer as visões do tradutor em sua empreitada shakespeariana e de guiar as discussões acerca de suas traduções, e não de trazer reflexões teóricas do próprio autor deste texto. O volume de <italic>The sonnets of William Shakespeare &amp; os sonetos de Almiro W. S. Pisetta</italic> reúne traduções na íntegra de todos os 154 sonetos atribuídos ao Bardo, cada um dividido em três momentos: (i) o texto shakespeariano original em inglês; (ii) uma tradução em prosa literal; e (iii) a recriação em português, seguida de notas explicativas sobre o contexto do poema na coleção, questões linguísticas pertinentes e quaisquer outros aspectos relevantes para a leitura e estudo daquele poema. Esse esquema é ilustrado na <xref ref-type="fig" rid="f2">Figura 2</xref>, a seguir:</p>
			<p>
				<fig id="f2">
					<label>FIGURA 2</label>
					<caption>
						<title>Organização dos sonetos no livro</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2317-9511-tradterm-41-127-gf2.jpg"/>
					<attrib>Imagem do soneto 24 na edição, cedida por Pisetta e Esteves para ilustração deste trabalho. </attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>É importante ressaltar, ainda, que a tradução dupla, em verso e em prosa, é inédita em português. Ademais, segundo Pisetta, sua tentativa foi incorporar William Shakespeare para as traduções em verso - pegando emprestadas, dessa forma, as iniciais do nome do dramaturgo e inserindo-as no meio de seu próprio nome para dar título à obra aqui abordada<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref>, como visto na <xref ref-type="fig" rid="f1">Figura 1</xref>.</p>
			<p>Contextualizando a obra poética de William Shakespeare, Almiro Pisetta expõe que a coleção de sonetos do Bardo traz uma narrativa poética de um triângulo amoroso entre três personagens: o eu-lírico poeta, entendido como o próprio Shakespeare (ou talvez um <italic>alter ego</italic>), o <italic>Fair Youth</italic> (traduzido por Pisetta como “Belo Rapaz”) e a <italic>Dark Lady</italic> (traduzida como “Dama Escura”). O eu-lírico é apaixonado pelo Belo Rapaz, que eventualmente se apaixona pela Dama Escura, por quem o eu-lírico também passa a nutrir sentimentos amorosos. Alguns dos principais temas da narrativa trazida são o Tempo, a Natureza e a Morte - também personificados em determinados sonetos. Há 400 anos, discute-se se esse enredo é puramente fictício ou se traz aspectos factuais da vida de Shakespeare.</p>
			<p>Em seu relato durante a aula, Pisetta revela que o processo de tradução durou cerca de 13 anos, e se dividiu em três etapas temporalmente distintas. Entre janeiro e maio de 2004, foram feitas as primeiras versões das traduções em verso a partir de um “furor tradutório”, como colocado por Pisetta. De 2008 a 2012, ele trabalhou nas versões em prosa dos sonetos. Por fim, entre abril e setembro de 2016, as traduções foram revisitadas para que houvesse uma harmonização entre os três textos (original, tradução em prosa e tradução em verso).</p>
			<p>O tradutor indica, ainda, que sua empreitada se apoia teoricamente nos estudos de Ezra <xref ref-type="bibr" rid="B1">Pound (1968</xref>) e Paulo Vizzioli (1983), com a recriação literária a partir dos elementos que energizam o elemento poético: a sonoridade e o ritmo (melopeia), as imagens, ideias e metáforas (fanopeia) e a ideia por trás das palavras (logopeia). Sobre esses elementos, nas traduções de Pisetta, a fanopeia foi o aspecto que menos sofreu alterações. Por outro lado, no que diz respeito à melopeia, o famoso pentâmetro iâmbico de Shakespeare deu lugar, de maneira geral, a versos decassílabos sem alteração de sílabas tônicas e átonas. A logopeia também foi impactada, já que os sonetos em português trazem consideravelmente menos palavras do que os originais em inglês.</p>
			<p>A ideia de tradução poética pela recriação, o “<italic>make it new</italic>” de <xref ref-type="bibr" rid="B1">Pound (1968</xref>), fica ainda mais explícita em dois momentos do volume. A coletânea do tradutor brasileiro supera em número a dos sonetos shakespearianos, pois dois dos poemas foram traduzidos duas vezes: os números 135 e 136, totalizando 156 poemas de Pisetta.</p>
			<p>Nesses dois sonetos em questão, Shakespeare faz trocadilhos com seu apelido “Will”, uma palavra polissêmica da língua inglesa usada pelo Bardo não apenas como nome, mas também como verbo, substantivo abstrato e, sobretudo, com uma conotação sexual. Explorando a polissemia do termo, na primeira apresentação dos sonetos, o tradutor propõe recriações que mantêm a palavra inglesa; na segunda, outras em que substitui “Will” por “Miro”, o diminutivo de seu nome. A entrevista tem início com esse passo além em que se autoriza uma invenção poética nesses sonetos shakespearianos, chamados por Pisetta de “<italic>Will sonnets</italic>”.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>2. Entrevista</title>
			<p><bold>CARLOS SILVA: Como se deu a decisão de apresentar os “<italic>Will sonnets</italic>” em duas versões?</bold></p>
			<p><bold>ALMIRO PISETTA:</bold> Eu nunca havia discutido os “<italic>Will sonnets</italic>” antes.</p>
			<p>O problema da palavra “<italic>will</italic>” é que ela tem muitos significados nesses sonetos. [William Shakespeare] usa “Will” para indicar o marido da Dama Escura, depois “Will” é o Belo Rapaz, “Will” é William Shakespeare, “<italic>will</italic>” é o desejo de caráter sexual, “<italic>will</italic>” é “vagina” ... (Tudo isso não fui eu quem inventou. Peguei de notas de outros estudiosos). E tem “<italic>will</italic>” como “pênis” também. Depois tem “Wills”, como vários homens - em um outro soneto, ele descreve essa mulher como um porto onde muitos navios iam atracar. Então, como você vai traduzir “Will” com todos esses significados? Fica difícil.</p>
			<p>Vamos ler o soneto 135 em inglês:</p>
			<verse-group>
				<verse-line><italic>Whoever hath her wish, thou hast thy Will,</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>And Will to boot, and Will in overplus;</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>More than enough am I that vex thee still,</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>To thy sweet will making addition thus.</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>Wilt thou, whose will is large and spacious,</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>Not once vouchsafe to hide my will in thine?</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>Shall will in others seem right gracious,</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>And in my will no fair acceptance shine?</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>The sea, all water, yet receives rain still,</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>And in abundance addeth to his store;</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>So thou being rich in Will add to thy Will</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>One will of mine, to make thy large Will more.</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>Let no unkind, no fair beseechers kill;</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>Think all but one, and me in that one Will.</italic></verse-line>
			</verse-group>
			<p>Esses “<italic>wills</italic>” todos, com minúsculas e maiúsculas, têm vários significados, como eu trouxe anteriormente. Eu pensei: “não dá para traduzir esses ‘<italic>wills’</italic>”. Não tem jeito, ou falseia demais. Então, usei um recurso: mantive o “<italic>will</italic>” em todos os casos. E a palavra, no texto em português, vai ter os vários significados que vão transparecer na leitura. Seja lendo em voz alta, ou não. Então, lendo agora a tradução em verso:</p>
			<verse-group>
				<verse-line>Outras têm seu querer, tu tens o Will,</verse-line>
				<verse-line>Outro Will e mais outro Will por cima.</verse-line>
				<verse-line>Te basto eu que sempre te assedio,</verse-line>
				<verse-line>À tua doce will somando rima.</verse-line>
				<verse-line>Não posso em tua will larga e espaçosa</verse-line>
				<verse-line>Ocultar o meu will uma vez só?</verse-line>
				<verse-line>Só o will dos outros é coisa graciosa,</verse-line>
				<verse-line>E em meu will não brilha nenhum dó?</verse-line>
				<verse-line>Um mar de água a chuva aceita a mais</verse-line>
				<verse-line>E abundante à abundância vai somar;</verse-line>
				<verse-line>Tu, rica de Wills, ao teu Will darás</verse-line>
				<verse-line>Um will meu para teus Wills aumentar.</verse-line>
				<verse-line>Com belos pretendentes sê gentil;</verse-line>
				<verse-line>São todos um - sou eu naquele Will.</verse-line>
			</verse-group>
			<p>Dizem que o Bardo teria escrito esse poema para rir nos <italic>pubs</italic>, quando ele saía para beber depois das apresentações das peças de teatro. Ninguém sabe exatamente. Os sonetos foram publicados, mas não foi o próprio Shakespeare que organizou a publicação.</p>
			<p>Agora, conforme a pergunta, vamos à segunda tradução. Essa segunda ficou mais interessante, porque - já que estou me apropriando dos sonetos de Shakespeare, fazendo deles meus sonetos - eu acabei inserindo meu nome no fim das contas. Lenita teve culpa nessa inserção. Seguimos à leitura:</p>
			<verse-group>
				<verse-line>Outras têm seu querer, tu tens o Miro,</verse-line>
				<verse-line>Outro Miro e mais outro Miro por cima.</verse-line>
				<verse-line>Te basto eu que sempre te prefiro,</verse-line>
				<verse-line>À tua doce mira somo rima.</verse-line>
				<verse-line>Não posso em tua mira ampla e espaçosa</verse-line>
				<verse-line>Guardar este meu miro uma vez só?</verse-line>
				<verse-line>Só o miro dos outros coisa é graciosa,</verse-line>
				<verse-line>Meu miro não merece nenhum dó?</verse-line>
				<verse-line>Um mar de água a chuva aceita a mais</verse-line>
				<verse-line>E abundante à abundância vai somar;</verse-line>
				<verse-line>Tu, rica do Miro, ao Miro adirás</verse-line>
				<verse-line>Meu miro para mais Miros guardar.</verse-line>
				<verse-line>Com belos pretendentes eu sugiro: </verse-line>
				<verse-line>Vê todos num, e eu naquele Miro.</verse-line>
			</verse-group>
			<p>Conforme digo na introdução do livro, eu não evitei um caráter lúdico na tradução desses sonetos.</p>
			<p><bold>SILVA: Como foi seu processo de tradução dos sonetos shakespearianos ao longo de sua vida e como você entende a tradução poética?</bold></p>
			<p><bold>PISETTA:</bold> Vou dizer como eu procedi na tradução naqueles primeiros quatro meses em que trabalhei primeiramente nas traduções em verso. O procedimento foi o seguinte: eu copiava o soneto em folha de papel almaço, pulando uma linha entre cada verso. Eu lia e relia o soneto, e de repente me surgia a ideia para traduzir um único verso. Não era necessariamente o primeiro ou o último, poderia ser algum lá para o meio do soneto, mas assim que se traduz uma linha, você já se compromete. No soneto 144, por exemplo, eu traduzi “<italic>Two loves I have of comfort and despair</italic>” para “Dois amores, conforto e desespero”, e, a partir disso, você vai ter que criar uma rima para “desespero”. E então eu busquei uma rima para essa palavra. No soneto original, a rima era feita com a palavra “<italic>fair</italic>”, então “um louro todo esmero” se tornou a rima para “conforto e desespero”. E, então, aparecia a ideia para a tradução de um outro verso.</p>
			<p>Às vezes a tradução fluía e era feita com certa facilidade. Às vezes era mais complicado. Houve dísticos que me deram um trabalho tremendo. Por exemplo, o dístico do primeiro soneto deu muito trabalho. Ele é esquisito, não é claro, é difícil. O dístico desse soneto que mencionei anteriormente, o 144, também deu muito trabalho. Entre outros, como o 24, que acho que nunca entendi. Mesmo hoje, não entendo aquele soneto. É um soneto gongórico, esquisitíssimo.</p>
			<p>Mas, voltando, cada soneto era copiado e eu o traduzia nas entrelinhas. Em geral, eu tinha dois sonetos - às vezes até três - traduzidos por dia. Eu percebi que tinha mais facilidade se traduzisse caminhando. Por isso, eu levava uma prancheta e escrevia.</p>
			<p>O que posso dizer é que eu tinha uma certa facilidade para traduzir sonetos. Para escrevê-los, melhor dizendo. Em meia hora eu poderia escrever um soneto. Eu tive esse hobby desde a adolescência, de escrever poesia. Devo ter escrito cerca de cinquenta. Mais do que pesquisador, eu era amante da poesia. Como eu disse, gostava muito de traduzir sonetos também. Alguns de Shakespeare eu havia traduzido para trabalhar em sala de aula, então a vontade de traduzir surgiu espontaneamente. Terminadas as traduções, fui trabalhando nelas, revisando-as e acabando com várias versões. Infelizmente, não guardei a primeira - a que eu fiz à mão e traduzi nas entrelinhas. Aquela eu joguei fora.</p>
			<p>Quanto às minhas convicções teóricas sobre tradução, eu tinha basicamente Ezra Pound e Paulo Vizzioli e depois incluí a licença poética [de Horácio] para o tradutor<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>3</sup></xref>. De Pound, o elemento melódico, o elemento imagético e o elemento intelectual-semântico - tudo isso eu tentei preservar. Sobre escrever poesia, e traduzir, eu sempre achei que quando eu me aposentasse, faria traduções. Assim que me aposentei, apareceu <italic>O Senhor dos Anéis</italic>. Não aceitei porque era muito longo, mas aceitei <italic>O Hobbit</italic> e decidi traduzir os poemas. Já havia quem faria a tradução da prosa, que era Lenita. Ofereceram <italic>O Senhor dos Anéis</italic> para Lenita, e ela, muito corajosamente, aceitou. Na tradução dos poemas, eu tomava muita liberdade como tradutor.</p>
			<p>Consultei fãs da série e alguns me confessaram pular os poemas durante a leitura.</p>
			<p><bold>SILVA: Na introdução do livro, professor, o senhor assemelha a narrativa dos sonetos às peças cômicas Shakespeare. Se surgisse a oportunidade ou o convite, há alguma peça que o senhor gostaria de traduzir?</bold></p>
			<p><bold>PISETTA:</bold> Na verdade, não, nenhuma. Já me ofereceram <italic>Júlio César</italic>, mas acho que é “muito para o meu caminhãozinho”. E eu gosto muito das peças. Quando aluno, fiz um semestre inteiro sobre as comédias, e outro semestre sobre as tragédias - em cada uma das aulas, discutíamos uma obra. Mas, não. Entre as comédias ou os outros textos em prosa de Shakespeare, não tenho interesse, apesar de já terem me oferecido.</p>
			<p><bold>SILVA: Agora, dois anos após a publicação do livro, e certamente mais tempo após o processo, há alguma escolha tradutória que o senhor mudaria?</bold></p>
			<p><bold>PISETTA:</bold> Às vezes pego meu exemplar para ler e faço algumas anotações. Caso haja a possibilidade de uma nova edição corrigida, eu teria algumas coisas a acrescentar, sem dúvida alguma.</p>
			<p><bold>SILVA: E, por outro lado, há alguma escolha em particular que o senhor ainda defende?</bold></p>
			<p><bold>PISETTA:</bold> Há uma brincadeira no soneto 38. Nesse poema, Shakespeare censura sua Musa por alegar não ter assunto, mesmo estando diante do Belo Rapaz e toda sua beleza. Ele pede que o rapaz seja sua décima musa. Esse trecho está nos seguintes versos (9-12):</p>
			<verse-group>
				<verse-line><italic>Be thou the tenth Muse, ten times more in worth</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>Than those old nine which rhymers invocate;</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>And he that calls on thee, let him bring forth</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>Eternal numbers to outlive long date.</italic></verse-line>
			</verse-group>
			<p>A tradução em versos ficou assim:</p>
			<disp-quote>
				<p>Vem cá, musa dez, pé lépido, musa Melhor que as nove amadas dos poetas. O que te invoque sempre e só produza Verso eterno que vença eternas metas.</p>
			</disp-quote>
			<p>Carlos, o que você notou?</p>
			<p>SILVA: Referências ao futebol brasileiro. PISETTA: Por exemplo? </p>
			<p><bold>SILVA: “Musa dez, <italic>pé lépido</italic>”, em referência ao Pelé.</bold></p>
			<p><bold>PISETTA:</bold> E “vencer metas” também, como em “marcar gols”. “Vem cá, musa dez” eu coloquei por causa da camisa 10. “Pé lépido” foi porque uma Musa deve saber dançar bem. Já que Shakespeare está exaltando a beleza e todo o padrão de excelência máximo desse Belo Rapaz, eu coloquei aí um padrão de excelência máximo do Brasil - que é o Pelé. Brincadeiras como essa tem várias. Falo sobre elas no texto introdutório ao volume, mas essa em particular eu não havia mencionado nele.</p>
			<p><bold>SILVA:</bold> Aproveitando a deixa dessa brincadeira com esse trocadilho inserida por um gosto particular pelo futebol brasileiro, a próxima pergunta é sobre esse caráter biográfico. Assim como se especula que a narrativa apresentada por Shakespeare na coletânea dos sonetos carrega traços de suas próprias experiências, houve também algo mais pessoal trazido pelo senhor nessas traduções, além das brincadeiras com seu nome para as traduções dos “<bold>
 <italic>Will sonnets</italic>
</bold> ”?</p>
			<p><bold>PISETTA:</bold> Acho que muito pouco. Nos casos específicos dos “<bold>
 <italic>Will sonnets</italic>
</bold> ”, sim, mas no restante eu não pensava em inserir dados biográficos. A brincadeira com</p>
			<p>o futebol também de fato foi uma exceção, já que gosto muito de acompanhar</p>
			<p>o esporte. Apesar de, infelizmente, o Pelé não ter sido do meu time.</p>
			<p><bold>SILVA: Por fim, o senhor tem algum conselho para tradução ou escrita de poesia?</bold></p>
			<p><bold>PISETTA:</bold> Meu conselho é que, se alguém gosta de escrever versos e se souber fazer disso um hobby, esse exercício pode ser útil na vida. Vale a pena “perder tempo” escrevendo versos; traduzindo versos também. Ouvi um conselho de uma professora de poesia uma vez que dizia: “nunca escreva um poema em primeira pessoa”. Acho um bom conselho, porque você se obriga a ser mais objetivo, mais observador. Você pode escrever na terceira pessoa falando de si mesmo. E outra coisa que essa mesma professora disse foi: “para cada poema que você escrever, leia outros cem, de outros poetas”.</p>
		</sec>
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	<back>
		<ref-list>
			<title>Referências bibliográficas</title>
			<ref id="B1">
				<mixed-citation>POUND, Ezra. How to Read. In: POUND, Ezra. Literary Essays of Ezra Pound. 11. reimpressão. Nova York: New Directions, pp. 15-40, 1968.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
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							<surname>POUND</surname>
							<given-names>Ezra</given-names>
						</name>
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					<chapter-title>How to Read</chapter-title>
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					<source>Literary Essays of Ezra Pound</source>
					<comment>11. reimpressão</comment>
					<publisher-loc>Nova York</publisher-loc>
					<publisher-name>New Directions</publisher-name>
					<fpage>15</fpage>
					<lpage>40</lpage>
					<year>1968</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B2">
				<mixed-citation>SHAKESPEARE, William; PISETTA, Almiro W. S. The Sonnets of William Shakespeare e os Sonetos de Almiro W. S. Pisetta. São Paulo: Martin Claret, pp. 384, 2019.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
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							<surname>SHAKESPEARE</surname>
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						<name>
							<surname>PISETTA</surname>
							<given-names>Almiro W. S.</given-names>
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					<source>The Sonnets of William Shakespeare e os Sonetos de Almiro W. S. Pisetta</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
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					<lpage>384</lpage>
					<year>2019</year>
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				<mixed-citation>VIZIOLI, Paulo. A tradução de poesia em língua inglesa: problemas e sugestões. Tradução e Comunicação, São Paulo, n. 2, pp. 109-128, mar. 1983.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
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							<surname>VIZIOLI</surname>
							<given-names>Paulo</given-names>
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					<article-title>A tradução de poesia em língua inglesa: problemas e sugestões</article-title>
					<source>Tradução e Comunicação</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
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					<fpage>109</fpage>
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					<year>1983</year>
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			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>A entrevista teve as perguntas planejadas em antecedência à aula de que o tradutor participou e receberam aprovação prévia da professora responsável pela disciplina. O texto aqui reportado foi editado para fluência das informações colhidas. Tratando-se de um bate-papo, retirou-se da versão final os assuntos paralelos que divergiam do propósito da entrevista.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>No livro, a decisão estilística de interpolação do nome de Almiro Pisetta com as iniciais de William Shakespeare como expressão de incorporação é explicada no preâmbulo escrito por Lázaro Polar (in <xref ref-type="bibr" rid="B2">SHAKESPEARE; PISETTA, 2019</xref>: 7).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p>Conforme trazido por Almiro Pisetta na introdução do volume: “Convencido de que traduzir um soneto era criar um novo poema, [o tradutor desta edição] julgou que deveria ter direito à licença poética explicitada por Horácio: ‘Pictoribus atque poetis quidlibet audendi semper fuit aequa potestas’, ou seja, ‘os pintores e poetas sempre tiveram com justiça a faculdade de cometer qualquer ousadia’” (PISETTA, 2019, p. 7).</p>
			</fn>
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