Traduzir o medieval de Céline: arcaísmo e ritmo em La Volonté du Roi Krogold
DOI:
https://doi.org/10.11606/issn.2317-9511.v50.248579Palavras-chave:
tradução literária, arcaísmo, ritmo, literatura francesaResumo
O artigo propõe uma reflexão sobre a tradução da lenda La Volonté du Roi Krogold (1939/40), manuscrito inacabado e póstumo de Louis-Ferdinand Céline publicado pela Gallimard em 2023, no qual o medievo é reinventado por meio de arcaísmos, fragmentações sintáticas e experimentações lexicais. Inserida na tradição moderna que reelabora o imaginário medieval, a lenda apresenta desafios tradutórios que exigem soluções capazes de preservar o vocabulário arcaizante, bem como o ritmo peculiar da escrita, marcado por passagens metrificadas, cortes abruptos, aliterações e assonâncias. A tradução mobiliza arcaísmos efetivamente atestados no português medieval, assim como barbarismos e neologismos que reproduzem a instabilidade do original. Ela recusa, assim, a normalização dos desvios célineanos, assumindo tais ocorrências como procedimentos estruturantes do sentido. No plano rítmico, privilegia-se a manutenção dos paralelismos, da métrica e dos encadeamentos paratáticos, preservando a pulsação violenta e descontínua da prosa célineana. A partir da proposta de Henri Meschonnic (1999), discute-se, enfim, a tradução como recriação formal, entendendo o ritmo como dimensão essencial do sentido, inseparável da historicidade da língua e da organização da voz no discurso. Traduzir o medieval de Céline implica, pois, tanto a restituição de um passado linguístico do português quanto a ativação de um ritmo capaz de produzir estranhamento semelhante ao do original.
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