Patrimonialização e colonialidade: quando proteger é capturar mundos
DOI:
https://doi.org/10.11606/1982-02672026v34e45Palavras-chave:
Patrimônio contra-colonial, Patrimônio Cultural, Território Indígena, Memória, Ferrovia, Cosmopolítica IndígenaResumo
O patrimônio é uma política de esquecimento. Este artigo problematiza o paradigma ocidental do patrimônio cultural no Brasil, evidenciando como seus critérios normativos, baseados na materialidade, monumentalidade e autenticidade, promovem a exclusão sistemática das formas indígenas de memória e territorialidade. A partir da análise de tombamentos ferroviários realizados pelo Conselho do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado (CONDEPHAAT) no Estado de São Paulo, argumenta-se que tais políticas reforçam narrativas hegemônicas de progresso, enquanto a ausência de reconhecimento dos lugares de memória indígenas contribui para o apagamento histórico e territorial desses povos. Amparado em autores como Laurajane Smith, Rodney Harrison, Catherine Walsh e, sobretudo, Ailton Krenak e no pensamento contra-colonial de Antônio Bispo dos Santos (Nêgo Bispo), sustenta-se que a patrimonialização estatal pode operar como continuidade da colonialidade. Defende-se, por fim, a urgência de um paradigma patrimonial que reconheça a inseparabilidade entre cultura, território e vida, assegurando a reprodução e o futuro das cosmopolíticas indígenas.
Downloads
Referências
Fontes impressas
BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988.
BRASIL. Decreto nº 3.551, de 4 de agosto de 2000. Institui o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial que constituem patrimônio cultural brasileiro, cria o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 2000.
Livros, artigos e teses
BLASER, Mario. Storytelling Globalization from the Chaco and Beyond. Durham: Duke University Press, 2010.
CARNEIRO, Sueli. A construção do outro como não-ser como fundamento do ser. 2005. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.
CASTRO, Eduardo Viveiros de. A inconstância da alma selvagem. 2. ed. São Paulo: Cosac Naify, 2002.
CASTRO, Eduardo Viveiros de. Cosmological Deixis and Amerindian Perspectivism. The Journal of the Royal Anthropological Institute, London, v. 4, n. 3, p. 469-488, 1998. DOI: stable/3034157.
CASTRO, Eduardo Viveiros de. O nativo relativo. Mana, Rio de Janeiro, v. 8, n. 1, p. 113-148, 2002. DOI: 10.1590/S0104-93132002000100005.
DEAN, Warren. A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
ESCOBAR, Arturo. Designs for the Pluriverse: Radical Interdependence, Autonomy, and the Making of Worlds. Durham: Duke University Press, 2018.
HARRISON, Rodney. Heritage: Critical Approaches. London: Routledge, 2013.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo Demográfico 2022: primeiros resultados – população indígena. Rio de Janeiro: IBGE, 2023. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv102018.pdf. Acesso em: 02 dez. 2025.
KOHN, Eduardo. How Forests Think: Toward an Anthropology Beyond the Human. Berkeley: University of California Press, 2013.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
KRENAK, Ailton; CAMPOS, Yussef. Lugares de origem. São Paulo: Jandaíra, 2021.
MIGNOLO, Walter. Desafios decoloniais hoje. Revista Epistemologias do Sul, Foz do Iguaçu, v. 1, n. 1, p. 12-32, 2017. Disponível em: https://revistas.unila.edu.br/epistemologiasdosul/article/view/772/645. Acesso em: 01 dez. 2025.
MONTEIRO, John Manuel. Negros da terra: Índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
PLENS, Cláudia Regina. Railways: Landmarks and Scars in the Atlantic Rainforest. In: ORSER JR., Charles (ed.). Archaeologies of the British in Latin America. Cham: Springer, 2018. p. 201-218.
PLENS, Cláudia Regina. A Arqueologia de São Paulo Oitocentista: Paranapiacaba. São Paulo: Annablume, 2016.
POTIGUARA, Eliane. Metade cara, metade máscara. São Paulo: Global, 2004.
PRADO JR., Caio. Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo: Brasiliense, 2008.
SACRAMENTO, Leonardo. Holocausto Paulista: o genocídio dos Kaingang sob o mito da paulistanidade. Rio de Janeiro: Telha, 2025.
SANTOS, Antônio Bispo dos. Colonização, quilombos: modos e significações. Brasília: INCTI/UnB, 2015.
SMITH, Laurajane. Uses of Heritage. London: Routledge, 2006.
UNITED NATIONS EDUCATIONAL, SCIENTIFIC AND CULTURAL ORGANIZATION. World Heritage Centre. The Operational Guidelines for the Implementation of the World Heritage Convention. Paris: UNESCO, 2023. Disponível em: https://whc.unesco.org/en/guidelines/. Acesso em: 20 abr. 2026.
WALSH, Catherine. Interculturalidad, plurinacionalidad y decolonialidad: las insurgencias político epistémicas de refundar el Estado. Tabula Rasa, Bogotá, n. 9, p. 131–152, jul./dez. 2008. Disponível em: https://revistatabularasa.org/numero-9/08walsh.pdf. Acesso em: 4 set. 2026.
Downloads
Publicado
Declaração de Disponibilidade de Dados
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.
Edição
Seção
Licença
Autores que publicam nesta revista concordam com os seguintes termos:
- Autores mantém os direitos autorais e concedem à revista o direito de primeira publicação, com o trabalho simultaneamente licenciado sob a Licença Creative Commons Attribution que permite o compartilhamento do trabalho com reconhecimento da autoria e publicação inicial nesta revista.
- Autores têm autorização para assumir contratos adicionais separadamente, para distribuição não-exclusiva da versão do trabalho publicada nesta revista (ex.: publicar em repositório institucional ou como capítulo de livro), com reconhecimento de autoria e publicação inicial nesta revista.
- Autores têm permissão e são estimulados a publicar e distribuir seu trabalho online (ex.: em repositórios institucionais ou na sua página pessoal) a qualquer ponto antes ou durante o processo editorial, já que isso pode gerar alterações produtivas, bem como aumentar o impacto e a citação do trabalho publicado (Veja O Efeito do Acesso Livre).
Como Citar
Dados de financiamento
-
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
Números do Financiamento Processo nº 302206/2025-6
Anais do Museu Paulista 