Espelhos quebrados e palcos de resistência: arte cênica, subjetividade e crítica ao sistema prisional a partir de O Espelho, de Machado de Assis
DOI:
https://doi.org/10.11606/issn.2238-3999.v15i2p69-86Palavras-chave:
Machado de Assis, resistência, sistema prisional, subjetividadeResumo
Este artigo explora a intrincada relação entre identidade, sistema prisional e o potencial transformador das artes cênicas, a partir do conto de Machado de Assis O espelho: esboço de uma nova teoria da alma humana. A teoria das “duas almas” de Jacobina – uma interior e outra exterior, validada pelo reconhecimento social – serve como metáfora para compreender como a subjetividade é construída e pode ser desmantelada, particularmente no contexto carcerário. A prisão, frequentemente atuando como um espelho deformador, nega sistematicamente a individualidade e fragmenta o eu. Em contraste, este trabalho argumenta que as artes cênicas (teatro e performance) em instituições correcionais podem funcionar como “espelhos críticos” e “palcos de (re)existência”. Ao analisar projetos artísticos no Brasil e em outros países, e dialogar com teóricos como Foucault, Mbembe, Ben-Moshe, Freire, hooks, Lucas e Nascimento, este estudo investiga como essas práticas possibilitam que pessoas encarceradas desafiem narrativas estigmatizantes, reescrevam suas próprias histórias e reconstruam suas subjetividades. O objetivo central é demonstrar que as artes cênicas, quando imbuídas de pedagogias libertárias, podem transcender o mero passatempo, tornando-se um ato político e existencial de resistência, humanização e crítica social, fomentando a descolonização do olhar e a reivindicação da plena humanidade dentro e fora dos muros da prisão. A conclusão do artigo enfatiza a importância de investir em práticas artísticas e pedagógicas que visem não apenas a “reabilitação”, mas também uma transformação fundamental do sistema de justiça criminal em direção a uma sociedade mais justa e menos punitiva.
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