CHAMADA Revista Aspas 16.2 Corpo como tecnologia: saberes negros gravados no tempo
A Revista Aspas, publicação do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da ECA/USP, anuncia que entre os dias sete de abril a seis de junho de 2026 estará com chamada aberta para o recebimento de textos para sua edição 16.2 – Corpo como tecnologia: saberes negros gravados no tempo.
Em continuidade à escuta de corpos dissidentes e à expansão das epistemologias do sul nas artes da cena, esta edição reconhece o corpo de terreiro como o centro da encruzilhada simbólica, estética, metodológica, afro-filosófica, ética e ancestral — não apenas como tema, mas como matéria viva de criação e pensamento. Propomos, assim, um ebó de produções que compreendam o corpo de terreiro como território de memória, resistência e futuro: uma tecnologia que se atualiza a cada gesto, a cada canto, a cada toque do atabaque, a cada dança, a cada cantiga que pulsa no agora.
O corpo negro como tecnologia ancestral é entendido aqui como uma máquina do tempo espiralar e cíclica, um arquivo vivo, onde a memória se move em espirais e o tempo e os saberes se dobram para atravessar passado, presente e futuro. Em diálogo com os saberes de terreiro e com as cosmoperformances afro-diaspóricas que desafiam o carrego colonial, esta edição convida artistas/pesquisadores/educadores a partilhar criações, fabulações, magias e metodologias que se enraízam no corpo de terreiro e se projetam como invenção de mundo.
O corpo — quando pensado como território, como quintal, como dança, como memória, como tambor, como voz — é também uma tecnologia do axé: lugar de subversão, inscrição, transmissão e transformação de saberes. O corpo é tecnologia e produz tecnologia! São esses saberes negros gravados no tempo, inscritos no ara - corpo - e no gesto, que interessam a esta chamada.
Ebó de perguntas:
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Como as artes da cena têm se alimentado das tecnologias ancestrais negras?
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Que corpo-ritual, corpo-quintal, corpo-exu se manifesta nas práticas artísticas contemporâneas?
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Como o tempo espiralar de Leda Maria Martins (2021), a memória e o axé se tornam ferramentas metodológicas para a criação em palco ou em sala de aula?
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De que modo as corporeidades negras tensionam as fronteiras entre espiritualidade, política e estética?
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Que pedagogias emergem das práticas corporais de terreiro, da capoeira, de rua, da margem? Elas convidam a uma “Pedagogia das encruzilhadas” (Rufino, 2019)?
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O que se produz no corpo e na voz são uma episteme (Martins, 2021). Quais são as encruzilhadas entre corpo, voz e cena a partir da cosmopercepção (Oyěwùmí, 2021) afro-brasileira?
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O Candomblé e seus desdobramentos nas artes da cena. O que o terreiro-escola tem a nos ensinar sobre as artes? O que as “Coisas do povo de santo” (Nogueira, 2023) ensinam?
Assim, a edição 16.2 – Corpo como tecnologia: saberes negros gravados no tempo propõe acolher textos que escrevam com o corpo, que dançam a escrita, que desafiem o formato acadêmico tradicional e proponham modos de pensar que sejam também modos de viver.
Serão aceitos artigos acadêmicos, ensaios, textos performativos, relatos de práticas artísticas, investigações teórico-práticas, autoetnografias, críticas e entrevistas que dialoguem com os temas propostos. Os textos podem ser escritos em português ou inglês e devem seguir as normas editoriais da Revista Aspas.
São especialmente bem-vindas propostas coletivas, colaborações entre artistas/povos quilombolas/povos de terreiro e pesquisadores, e escritas que performem o pensamento negro em sua potência criadora, ancestral e insurgente.
Esta edição é um convite à escuta dos tambores do tempo. A cada toque, um gesto de sobrevivência; a cada corpo, uma tecnologia de futuro.
Negras vozes citadas, ou escritas que inspiram.
BARBOSA, Fernanda Júlia. Teatro preto de candomblé: uma construção ético-poética de encenação e atuação negras. 2021. 246 f. Dissertação (Mestrado em Artes Cênicas) – Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2021.
FU-KIAU, Bunseki. O livro africano sem título - Cosmologia dos Bantu-Kongo, tradução Tiganá Santana. Rio de Janeiro: Cobogó, 2024.
MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.
NOGUEIRA, Sidnei. Coisas do “povo de santo”. São Paulo: Selo Editorial Laroyê, 2023.
OYĚWÙMÍ, Oyèrónkẹ́. 2021. A invenção das mulheres: construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de gênero . Trad. Nascimento, Wanderson. - 1. ed - Rio de Janeiro: Editora Bazar do Tempo, 2021.
RUFINO, Luiz. Pedagogia das encruzilhadas. Rio de Janeiro: Mórula Editorial, 2019.
Ana Clara Ferraz (ECA-USP), Adnã Alves (IA-UNICAMP), Alexandra Campos Tavares (ECA-USP) e Iuri da Silva Gomes (FFLCH-USP)
Editorial 16.2 – Corpo como tecnologia: saberes negros gravados no tempo
