(Sobre)viver: impactos na saúde mental de trabalhadores remanescentes de demissões em massa
DOI:
https://doi.org/10.11606/issn.1981-0490.cpst.2025.214117Palavras-chave:
Saúde mental, Demissão em massa, Sociologia clínica, Análise do discurso críticaResumo
O processo de desvalorização do humano no trabalho sustenta um contexto em que demissões em massa aparecem como estratégias de negócio utilizadas de forma recorrente para aumentar a eficiência organizacional. À luz da perspectiva crítica dos estudos organizacionais e sob lente da Sociologia Clínica, este trabalho objetiva identificar como os trabalhadores remanescentes de demissões em massa descrevem os impactos desse processo na sua saúde mental. Foram realizadas entrevistas individuais com 10 pessoas que permaneceram empregadas após a ocorrência de processos de demissão em massa. Os dados foram analisados a partir da Análise de Discurso Crítica. Os resultados revelam impactos sociais como a fragilização dos laços e a desconfiança nos colegas. Na organização do trabalho emergiu a sobrecarga e o aumento no ritmo das atividades. Sentimentos e sintomas emergentes incluíram desmaios, convulsões e burnout, além da obrigatoriedade de redução nos hábitos de consumo. Conclui-se que o trabalhador “sobrevivente” se vê ameaçado por pressões indiretas, medos e inseguranças. Nesse processo, a gestão baseada nos pressupostos gerencialistas cria um cenário caótico para o trabalhador, que, após ver os colegas sendo demitidos, acabam por ser forçados a se adaptar a novos desafios, o que compromete, consequentemente, sua saúde mental.
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