A Farroupilha e o “espírito da caudilhagem”: o conceito de “caudilho” em Guerra-Civil do Rio Grande do Sul, de Tristão de Alencar Araripe (1879–1881)
DOI:
https://doi.org/10.11606/issn.2318-8855.v14i2p586-619Palavras-chave:
caudilho, História Conceitual, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), Revolução Farroupilha, Tristão de Alencar AraripeResumo
Guerra-civil do Rio Grande do Sul é uma obra de 1880 publicada na Revista do IHGB por Tristão de Alencar Araripe, homem de grande destaque no cenário político do Segundo Reinado. Longe do tom laudatório que marcou a escrita da história da Revolução Farroupilha posteriormente, esta “memória” descreve o episódio enquanto uma rebelião movida pelo egoísmo de alguns poucos “caudilhos” e responsável por fragmentar a Nação brasileira. O presente artigo, sob o prisma da História Conceitual, tem como objetivo analisar ao que exatamente Araripe se referia quando utilizava a denominação “caudilho” em seu texto e demonstrar a centralidade que este vocábulo, aqui entendido enquanto conceito, possui em sua narrativa. Além disso, daremos destaque também para as oposições conceituais construídas pelo autor, que estruturam seu argumento e que se relacionam profundamente com o conceito que analisamos. Nossa hipótese passa por duas questões centrais: em primeiro lugar, a conceitualização de caudilho enquanto um chefe local poderoso, mas desprovido de princípios políticos, de maneira similar a como ele foi mobilizado na América Hispânica, contribuía para a deslegitimação da experiência republicana rio-grandense. Em segundo lugar, este conceito se relacionava à imagem negativa que as elites imperiais desenvolveram, desde a Independência, das repúblicas vizinhas, tidas enquanto sociedades “caudilhescas” e cujo modelo parecia, para Araripe, perigosamente próximo do que ocorrera no governo instituído pelos farrapos.
Downloads
Referências
Fontes:
ALFONSO X. Prosa Histórica. Madrid: Ediciones Cátedra, 1984.
ARARIPE, Tristão de Alencar. Guerra civil do Rio Grande do Sul: memória acompanhada de documentos, lida no Instituto Histórico e Geográfico do Brasil. Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, Rio de Janeiro, tomo 43, parte II, p. 115–359, 1880.
ARARIPE, Tristão de Alencar. História da Revolução em Pernambuco em 1817. Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, Rio de Janeiro, tomo 60, parte 1, p. 103–291, 1897.
ARARIPE, Tristão de Alencar. História da província do Ceará, desde os tempos primitivos até 1850. Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha, 2002.
ARARIPE, Tristão de Alencar. Indicações sobre a História Nacional. Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, Rio de Janeiro, tomo 57, parte 1, p. 295-290, 1894.
ASSIS BRASIL, Joaquim Francisco. História da República Rio-Grandense. Rio de Janeiro: Typographia de G. de Leuzinger & Filhos, 1882.
AULETE, Caldas. Diccionario Contemporaneo da Lingua Portugueza. Lisboa: Delta, 1881.
FIGUEIREDO, Cândido de. Novo Diccionário da Língua Portuguesa. Lisboa: Tavares Cardoso & Irmão, 1899.
MARTIUS, Carl Friedrich Philipp Von. Como se deve escrever a história do Brasil. Coleção Capistrano de Abreu. Rio de Janeiro: Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 1991.
PONTES, Rodrigo. Memória histórica. Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, n. 11, p. 401–460, 1923 [1844].
PORTO, Aurélio. Influências do caudilhismo uruguayo no Rio Grande do Sul. Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, n. 35, p. 371–454, 1929.
SILVA, Antonio de Moraes. Diccionario da lingua portugueza. Vol. 1. Lisboa: Typographia de Joaquim Germano de Souza Neves, 1877.
VIEIRA, Domingos. Grande diccionario portuguez ou Thesouro da lingua portugueza. Vol. 2. Porto: Casa dos Editores Ernesto Chardron e Bartholomeu H. de Moraes, 1871.
Referências Bibliográficas:
ANTONIOLLI, Juliano Francesco. Com a metodicidade das obras de jurisprudência: o julgamento histórico a partir da Guerra civil no Rio Grande do Sul, de Tristão de Alencar Araripe (1879-1881). História da Historiografia, Ouro Preto, v. 12, n. 29, p. 214–243, 2019.
ANTONIOLLI, Juliano Francesco. Um passado republicano para chamar de seu: a reescrita da história nacional pela geração 1870 da Faculdade de Direito de São Paulo (1870-1880). História Unisinos, São Leopoldo, RS, v. 24, n. 1, p. 54–66, 2020.
BASILE, Marcello. O laboratório da nação: a era regencial (1831-1840). In: GRINBERG, Keila; SALLES, Ricardo (orgs.). O Brasil Imperial (1830-1870). Vol. II. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010, p. 59.
BOEIRA, Luciana Fernandes. Como salvar do esquecimento os atos bravos do passado riograndense: a província de São Pedro como um problema político-historiográfico no Brasil imperial. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2013.
CARVALHO, José Murilo de. As Américas. In: CARVALHO, José Murilo de (org.). A construção nacional (1830-1889). Vol. 2 de História do Brasil Nação (1808-2010). Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, p. 281–286.
CARVALHO, José Murilo. A construção da Ordem: a elite política imperial; Teatro das Sombras: a política imperial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2023.
FERNÁNDEZ SEBASTIÁN, Javier. História conceitual no Atlântico ibérico: linguagens, tempos, revoluções. São Paulo/Rio de Janeiro: Hucitec/PUCRJ, 2023.
GOLDMAN, Noemí; SALVATORE, Ricardo (orgs.). Caudillismos rioplatenses: nuevas miradas a un viejo problema. Buenos Aires: Eudeba, 2005.
GUAZZELLI, Cesar Augusto Barcellos. Fronteiras em conflito no espaço platino: da Guerra dos Farrapos à Guerra Grande. In: NEUMANN, Eduardo S.; GRIJÓ, Luiz A. (orgs.). O continente em armas: uma história da guerra do sul do Brasil. Rio de Janeiro: Apicuri, 2010, p. 97–122.
GUAZZELLI, Cesar Augusto Barcellos. La República Rio-Grandense y el retorno de la “Pátria Grande” (1838-1843). Pasado Abierto, Mar del Plata, n. 2, p. 1–28, 2015.
GUIMARÃES, Manoel Luís Lima Salgado. Nação e civilização nos trópicos: o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o projeto de uma História Nacional. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p. 5–27, 1988.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. A Herança Colonial - sua desagregação. In: Holanda, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização Brasileira. Tomo II. Vol. 1. São Paulo: Difel, 1962, p. 13–47.
HRUBY, Hugo. O século XIX e a escrita da história do Brasil: diálogos na obra de Tristão de Alencar Araripe (1867-1895). Tese (Doutorado em História) – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2012.
JOCKYMAN ROITHMANN, André. The Surprising Survival of Constitutionalism in the Caudillo Republic of Rio Grande do Sul, Brazil (1836-1845). The Historical Journal, Cambridge, v. 67, n. 5, p. 1004–1024, 2024.
KLAFKE, Álvaro. Antecipar essa idade da paz, esse império do bem: imprensa periódica e discurso de construção do Estado unificado (São Pedro do Rio Grande do Sul, 1831-1845). Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2011.
KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC-Rio, 2006.
KOSELLECK, Reinhart. História de Conceitos. Rio de Janeiro: Contraponto, 2020.
LAMB, Nayara Emerick. História de Farrapos: biografia, historiografia e cultura histórica no Rio Grande do Sul oitocentista. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2012.
LYNCH, John. As repúblicas do Prata: da Independência à Guerra do Paraguai. In: BETHEL, Leslie (org.). História da América Latina, Volume III: Da Independência a 1870. São Paulo: Edusp, 2018, p. 264–315.
MATTOS, Ilmar Rohloff. O Tempo Saquarema. São Paulo: Hucitec, 2012.
MENEGAT, Carla; ZALLA, Jocelito. História e memória da Revolução Farroupilha: breve genealogia do mito. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 31, n. 62, p. 49–70, 2011.
PICCOLO, Helga. O processo de independência numa região fronteiriça: o Rio Grande de São Pedro entre duas formações históricas” In: JANCSÓ, István. (Org.). Independência: história e historiografia. São Paulo: Hucitec, 2005, p. 571–613.
PIMENTA, João Paulo Garrido. A Independência do Brasil e a Experiência Hispano-Americana. São Paulo: Hucitec, 2015.
PRADO, Maria Lígia Coelho. O Brasil e a distante América do Sul. Revista de História, São Paulo, n. 145, p. 127–150, 2001.
RODRIGUES, Mara Cristina de Matos. A releitura do passado farroupilha no IHGB (1921–1935): memória republicana e legitimidades intelectuais. Revista Tempo, Niterói, RJ, v. 19, n. 35, p. 161–183, 2013.
SALLES, Ricardo. As águas do Niágara. 1871: crise da escravidão e o ocaso saquarema. In: GRINBERG, Keila; SALLES, Ricardo (orgs.). O Brasil Imperial (1870-1889). Vol. III. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p. 39–83.
SARMIENTO, Domingos Faustino. Facundo: ou Civilização e Barbárie. São Paulo: Cosac Naify, 2010.
SCHEIDT, Eduardo. O processo de construção da memória da Revolução Farroupilha. Revista de História, São Paulo, n. 147, p. 189–209, 2002.
SÊGA, Rafael Augustus. Getúlio Vargas e o Caudilhismo. Fronteiras, Dourados, MS, v.18, n. 32, p. 307–325, 2016.
SOUZA, Adriana Barreto de. Entre o mito e o homem: Caxias e a construção de uma heroicidade moderna. Locus, Juíz de Fora, MG, v. 7, n. 1, p. 93–106, 2001.
SVAMPA, Maristella. La dialéctica entre lo nuevo y lo viejo: sobre los usos y nociones del caudillismo en la Argentina durante el siglo XIX. In: GOLDMAN, Noemí; SALVATORE, Ricardo (orgs.). Caudillismos rioplatenses: nuevas miradas a un viejo problema. Buenos Aires: Eudeba, 2005.
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2025 Carlos Eduardo Sant'Anna da Silva Porto

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
A revista Epígrafe não exerce cobrança pelas contribuições recebidas, garantindo o compartilhamento universal de suas publicações. Os autores mantêm os direitos autorais sobre os textos originais e inéditos que disponibilizarem e concedem à revista o direito de primeira publicação, com o trabalho simultaneamente licenciado sob a Licença Creative Commons Attribution que permite o compartilhamento do trabalho com reconhecimento da autoria e publicação inicial nesta revista.