Quando a linguagem fala sem corpo: enunciação pós-humana na era da realidade sintética
DOI :
https://doi.org/10.11606/issn.2236-4242.v39i1p195-216Mots-clés :
Pós-humanismo, Enunciação, Linguagem, Inteligência ArtificialRésumé
Este artigo examina a linguagem como prática pós-humana e investiga de que modo algoritmos, robôs e avatares atuam como agentes de enunciação na era da inteligência artificial. A partir de autores como Latour (2020), Barad (2003, 2007), Pennycook (2018), Morin (2025) e Lemes (2025), e de uma metodologia exploratória de abordagem qualitativa, argumenta-se que a linguagem não se restringe à ação humana, mas se distribui em redes híbridas compostas por humanos e não humanos. Essa perspectiva desafia concepções tradicionais de autoria, voz e subjetividade ao situar a produção de sentidos em assemblagens materiais, tecnológicas e afetivas. Foram analisadas duas materialidades discursivas: o avatar corporativo Lu do Magalu e a deepfake de Morgan Freeman. Ambas exemplificam como as novas ecologias comunicativas reconfiguram a confiança, a afetividade e a percepção do real por meio de tecnologias de síntese e mediação. A primeira evidencia como agentes virtuais podem performar proximidade emocional e estabilizar formas de interação digital. A segunda revela a fragilidade da percepção em contextos de realidade sintética, nos quais verdade e simulação se tornam indiscerníveis, expondo as dimensões éticas e políticas da enunciação pós-humana. O estudo defende a necessidade de uma Linguística Aplicada indisciplinar e crítica, capaz de compreender a linguagem como acontecimento material-discursivo que ultrapassa as fronteiras do humano. Tal abordagem convoca uma reavaliação do que significa falar, ouvir e interpretar em uma era moldada pela mediação algorítmica. As práticas linguísticas pós-humanas, por fim, convidam a um renovado olhar ético e epistemológico sobre as relações entre humanos, tecnologias e as realidades que produzem conjuntamente.
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