Uma caixa com uma fresta, a sobrevivência das borboletas
DOI:
https://doi.org/10.11606/issn.2525-8133.opiniaes.2025.232895Palavras-chave:
Sobre o que não falamos, Ditadura Militar brasileira, Bildungsroman, literatura brasileira contemporânea, Crítica literáriaResumo
Este ensaio pretende tecer uma crítica ao romance Sobre o que não falamos (2023), de Ana Cristina Braga Martes. Seguindo a trajetória de Clara quando criança, narradora e personagem principal, na busca por descobrir o paradeiro de seus pais, o romance se passa no governo ditatorial brasileiro instaurado em 1964. Esse retrato histórico-político me permite comparar as borboletas, imagem recorrente na obra, com os vaga-lumes, que, conforme proposto por Georges Didi-Huberman (2011), são uma resistência antifascista. A narrativa ainda me possibilita articular o conceito de “democracia”, nos moldes de Jacques Rancière (2005), bem como perceber os impactos do golpe militar apontados por Nelly Richard (2007). No caso de Clara, a resistência ao autoritarismo expande-se para uma contrariedade ao dispositivo de racialidade, como definido por Sueli Carneiro (2021), e à misoginia. Em acréscimo à discussão estético-política, o ensaio se propõe a colocar Sobre o que não falamos (2023) em diálogo com as tradições dos Bildungsromane partindo de Franco Moretti (1987), com o intuito de perceber seu contato com o caráter democrático dos romances de formação britânicos, e de Wilma Patrícia Maas (2000) e Cristina Ferreira Pinto (1990) a fim de inserir o romance em uma outra tradição, a do Bildungsroman feminino.
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