O "sensório" da capoeira angola: uma organização cultural dos sentidos.
DOI:
https://doi.org/10.11606/issn.1676-6288.bjlas.2026.239514Palavras-chave:
Capoeira angola, sensorium, percepção, sensibilidade, corpoResumo
Neste artigo, proponho uma releitura de minha experiência como praticante e pesquisadora de capoeira angola, com base em uma pesquisa etnográfica participativa e autoetnográfica realizada junto ao Grupo de Capoeira Angola Pelourinho (GCAP), entre 2010 e 2017, na qual investigo a construção de um sensorium próprio dessa arte. Inspirada pelos estudos de Kathryn Linn Geurts sobre o povo Anlo-Ewe, analiso como o “ser capoeirista” se articula a formas culturalmente mediadas de percepção, sentimento e conhecimento corporificado. Compreendo a capoeira como um sistema epistemológico incorporado, no qual os sentidos — incluindo vocalidade-auralidade, movimento-cinestesia, equilíbrio-balanço, toque-visão e paladar-olfato — são desenvolvidos de maneira intersubjetiva, intertextual e intersensorial. Discuto como a prática da roda, a música, os fundamentos e as interações promovem a transmissão de valores, habilidades e conhecimentos, evidenciando que “ser capoeirista” vai além do domínio físico e envolve processos complexos de percepção, sentimento, intuição e ética. Argumento que o conceito de sensorium oferece uma chave de leitura complementar a categorias já consolidadas nos estudos sobre corporalidade, como “habitus” e “performance”, ao evidenciar a organização cultural dos sentidos como um sistema intersubjetivo e moralmente situado. Com isso, busco compreender a capoeira angola como uma tradição ativa e sensorial, capaz de integrar corpo, mente, cultura e comunidade.
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