O perfil do poder de controle nas companhias brasileiras
DOI:
https://doi.org/10.11606/issn.0102-8049.i1p%25pPalavras-chave:
poder de controle, controle concentrado, companhias brasileiras, abuso de poder, governança corporativa, lei das s.a, enforcementResumo
O presente artigo descreve o processo histórico de formação do perfil do poder de controle nas companhias brasileiras e observa o seu descompasso com a lógica jurídica de sistemas de capital difuso que inspirou a Lei das S.A.. O objetivo central é demonstrar os fatores culturais, econômicos e regulatórios que favoreceram a concentração acionária no Brasil e as consequências do desalinhamento entre a lógica adotada pela lei e a estrutura acionária das companhias brasileiras. O método utilizado consiste em revisão bibliográfica, análise de normas jurídicas e regulamentares bem como de casos concretos e de jurisprudência recente. Como resultado, verifica-se que a preferência nacional pelo controle concentrado foi viabilizada pela utilização de instrumentos jurídicos que intensificaram a separação entre propriedade e controle acionário, como a emissão de ações de classe especial. Além disso, observa-se que o uso da lógica de sistemas de capital difuso prejudica a regulação da dinâmica de poder entre acionistas minoritários e controlador. Conclui-se que, tal desalinhamento não apenas dificulta a responsabilização dos acionistas controladores, mas também favorece a adoção de práticas de governança corporativa inefetivas, por serem voltadas à redução de custos de agência próprios de sistemas de dispersão acionária. Assim, o artigo defende a adequação do ordenamento jurídico e dos mecanismos de governança corporativa à realidade brasileira, de modo a equilibrar as dinâmicas de poder e coibir abusos nas sociedades anônimas.
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