A cláusula de sandbagging: entre a autonomia privada e a boa-fé objetiva
DOI:
https://doi.org/10.11606/issn.0102-8049.ip191-238Palavras-chave:
contratos empresariais, venire contra factum proprium, Sandbagging, Boa-fé objetiva, autonomia privada, Fusões e aquisições, Dever de informaçãoResumo
O presente artigo examina a cláusula de sandbagging nas operações de Mergers and Acquisitions (M&A) à luz dos princípios da autonomia privada e da boa-fé objetiva. Tal cláusula, amplamente difundida na prática contratual norte-americana, tem sido incorporada a contratos empresariais brasileiros em razão da globalização e da padronização de modelos jurídicos. O estudo parte da contextualização da cláusula no cenário nacional e internacional, passando pela análise dogmática da autonomia privada como fundamento da livre pactuação e da boa-fé objetiva como parâmetro limitador dessa liberdade. Discute-se, assim, se a previsão contratual que assegura ao comprador a aplicação de remédios contratuais, mesmo tendo ciência prévia de inveracidades nas declarações e garantias, representa exercício legítimo da autonomia privada ou se configura abuso vedado pelo ordenamento. A pesquisa adota metodologia dedutiva, com revisão bibliográfica especializada e análise comparada. Conclui-se que a validade da cláusula depende de sua compatibilidade com os deveres anexos de conduta, sendo possível sua adoção entre partes experientes e em negociações equilibradas, desde que respeitados os limites da boa-fé. O trabalho não pretende esgotar o tema, reconhecendo a existência de outros fundamentos para sustentar a validade ou a invalidade da cláusula.
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