Publicada edição ARA PYAU 19 e Chamada aberta para ARA 20
Patrimônio Cultural: transversalidades
Paulo Cesar Castral
Na contemporaneidade, o patrimônio cultural afirma-se como um campo intrinsecamente transversal, atravessado por disputas simbólicas, políticas, sociais e espaciais que excedem os limites disciplinares tradicionais. Longe de constituir um conjunto estável de bens excepcionais a serem preservados, o patrimônio configura-se como um processo social ativo, continuamente produzido por narrativas, usos, valores e conflitos, que envolve seleção, mediação e autoridade, sempre situado historicamente.
Essa compreensão crítica desloca o patrimônio de uma lógica normativa e tecnicista para uma prática cultural e política viva. Laurajane Smith (2006) ao fazer a crítica ao Authorized Heritage Discourse (AHD) evidencia que o patrimônio é constituído por discursos institucionais que legitimam determinadas memórias e silenciam outras, mobilizando campos diversos como arquitetura, urbanismo, história, antropologia, artes e políticas culturais. Nesse sentido, a transversalidade não é um adjetivo acessório, mas uma condição estrutural do patrimônio contemporâneo, que demanda abordagens interdisciplinares e metodologicamente híbridas no desvelamento de outras narrativas e identidades.
No contexto brasileiro, Maria Cecília Londres Fonseca demonstra que a trajetória das políticas de preservação esteve, desde sua origem, profundamente imbricada em projetos de Estado, de modernização e de construção de identidades nacionais. O patrimônio, longe de ser neutro, expressa escolhas culturais e políticas (FONSECA, 2005), articulando escalas institucionais, territórios urbanos e narrativas históricas. A ampliação conceitual do campo — do monumental ao cotidiano, do material ao imaterial — reforça essa condição transversal ao incorporar saberes, práticas e paisagens que escapam às categorias clássicas da história da arte e da arquitetura.
Pesquisas recentes evidenciam, ainda, que o patrimônio é um campo de conflitos, atravessado por desigualdades socioespaciais e disputas por reconhecimento. Simone Scifoni tem mostrado como processos de patrimonialização podem tanto reforçar exclusões quanto se tornar instrumentos de luta social, especialmente em contextos periféricos e populares. Ao articular patrimônio, trabalho, classe e direito à cidade, a autora destaca que o patrimônio contemporâneo exige uma leitura que integre geografia humana, sociologia urbana e políticas públicas, compreendendo-o como espaço de negociação entre diferentes atores e interesses.
A transversalidade do patrimônio manifesta-se também na articulação entre escalas — local, nacional e global — e entre saberes técnicos e experiências vividas. Inventários participativos, práticas educativas e ações comunitárias tensionam modelos tradicionais de preservação e ampliam o campo patrimonial, incorporando vozes historicamente marginalizadas. Nesse processo, o patrimônio deixa de ser apenas objeto de tutela estatal e passa a operar como ferramenta de mediação cultural e política em processos sociais de constituição de identidades.
A crescente aproximação entre patrimônio cultural e artes contemporâneas intensifica essa condição transversal. Intervenções artísticas, práticas curatoriais experimentais e projetos colaborativos reconfiguram narrativas históricas e regimes de visibilidade, deslocando o patrimônio do campo exclusivo da conservação para o da crítica, da imaginação e da criação. O patrimônio passa a ser entendido como dispositivo estético e político, capaz de articular memória, espaço urbano, corpo e narrativa, abrindo-se a novas formas de apropriação e leitura do passado no presente.
Esta chamada convida pesquisadoras e pesquisadores, artistas e agentes culturais a submeterem trabalhos que explorem o patrimônio cultural como campo transversal, híbrido e disputado. Buscam-se contribuições que problematizem discursos hegemônicos, apresentem abordagens metodológicas inovadoras e investiguem experiências que revelem o patrimônio como prática social viva, em permanente negociação com as dinâmicas urbanas, culturais e políticas da contemporaneidade. Esta edição da Revista ARA pretende afirmar o patrimônio não como herança estática, mas como espaço crítico de reflexão, ação e transformação.
FONSECA, Maria Cecília Londres. O patrimônio em processo: trajetória da política federal de preservação no Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ; IPHAN, 2005.
SMITH, Laurajane. Uses of Heritage. London; New York: Routledge, 2006.