O fonograma como objeto em disputa: escuta, plataforma e insurgência na etnomusicologia digital
DOI:
https://doi.org/10.11606/issn.2238-7625.rm.2025.237101Palavras-chave:
Etnomusicologia crítica, Fonograma digital, Escuta etnográfica, Plataformas de streaming, Autoria musicalResumo
Este artigo propõe uma reflexão crítica e etnográfica sobre o fonograma na era digital, compreendendo-o como um objeto técnico, afetivo, econômico e político em constante disputa. Partimos das definições jurídicas internacionais e brasileiras que ainda ancoram o fonograma em modelos materiais, mesmo diante de sua transformação em fluxo digital, algorítmico e desmaterializado. Ao mobilizar autores como Gilbert Simondon, Jonathan Sterne, Brian Massumi, Steven Feld, Georgina Born e Christopher Small, buscamos evidenciar que o fonograma não apenas contém som, mas produz escuta, relação e presença. A partir da etnomusicologia e de inserções autoetnográficas, analisamos como fonogramas se tornam veículos de memória, territorialidade e afeto, ao mesmo tempo em que são submetidos às lógicas de apagamento, anonimização e hierarquização promovidas pelas plataformas de streaming. Discutimos as economias do fonograma no regime das plataformas, denunciando a concentração de capital simbólico e financeiro em poucas corporações, e a desautoria estrutural que afeta especialmente artistas independentes, LGBTQIAPN+ e racializados. Defendemos a escuta como gesto epistemológico e político: uma prática sensível que permite mapear mundos, resistir ao silêncio imposto pelos algoritmos e reconstituir os vínculos rompidos pela lógica mercadológica da música. A etnomusicologia, nesse contexto, emerge como campo de enfrentamento e criação de outras possibilidades de escuta e de existência. O fonograma, mesmo digital, continua sendo um arquivo de vida e um lugar de insurgência.
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