“Eu vi um rosto com mil semblantes”: interpretar a estatuária ptolemaica mista
DOI:
https://doi.org/10.11606/issn.2448-1750.revmae.2019.169503Palavras-chave:
Egipto ptolemaico, Escultura real ptolemaica em pedra, Estátuas greco-egípcias, Contacto cultural, Estudo sobre consumoResumo
Na época em que o paradigma pós-colonial se estabelecia nas humanidades, o período ptolemaico também recebia crescente atenção por parte dos investigadores. Os estudos sobre essa cronologia, durante a segunda metade do século XX, contudo, entendiam a sociedade e a cultura ptolemaicas como um agregado de comunidades/tradições em grande medida impermeáveis, coexistindo apenas entre si. Essa interpretação causou uma alteração radical na historiografia sobre o período. Mais significativamente, porém, deixou a cultura material que não pertencia exclusivamente a nenhum dos conjuntos culturais (grego ou egípcio) largamente ignorada e, mais tarde, subestimada nos debates sobre quem influenciou quem. A dissertação de mestrado da autora tomou como estudo de caso a escultura em pedra greco-egípcia dos governantes ptolemaicos masculinos, procurando entender melhor esses objetos. Contudo, os mesmos não foram subestimadosno sentido de que a sua existência não foi reconhecida ou analisada, mas sim no sentido de que a explicação apresentada não se revelava suficientemente complexa. Os estudos apresentavam uma interpretação elaborada principalmente do ponto de vista do Estado ptolemaico e das elites, desconsiderando assim outros possíveis domínios de agência. Este artigo apresenta uma parte da investigação, nomeadamente o quadro teórico adoptado para sugerir uma outra interpretação para a existência da estatuária “mista” de governantes ptolemaicos. Ainda que hoje o Egipto ptolemaico não seja entendido como um caso colonial, os estudos pós-coloniais contribuirão para esta linha de interpretação alternativa através do descentramento da análise, do Estado para outros grupos. A contribuição maior virá, não obstante, de uma teoria do consumo, que visa por seu turno descentrar os estudos, de questões de poder para outras esferas.
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