A estereotipização do “Outro” em um relato turístico ilustrado oitocentista sobre a Argélia colonizada
DOI:
https://doi.org/10.11606/issn.1984-4867.v36pe025011Palavras-chave:
Ocupação turística, Cultura, História do turismoResumo
O brutal processo de colonização do Norte da África, colocado em prática pelos franceses no século XIX, paradoxalmente, impulsionou a abertura da Argélia, do Marrocos e da Tunísia ao Turismo. Na França do período, circularam inúmeros relatos turísticos que retrataram os habitantes dos territórios colonizados como pitorescos e exóticos, mas, simultaneamente, como bárbaros, apáticos e bestiais. No presente artigo, trazemos uma análise do relato turístico ilustrado L’Algérie contemporaine illustrée, ou A Argélia contemporânea ilustrada, escrito pela Baronesa Mary Elizabeth Herbert, e publicado em Paris em 1881. Temos um objetivo duplo com esse ensaio: por um lado, esclarecer o leitor sobre o brutal processo de invasão, dominação e exploração, inclusive turística, da Argélia, bem como elucidar o modo como o preconceito sobre o Outro colonizado está presente nos relatos turísticos ilustrados de viajantes que estiveram na Argélia na segunda metade do século XIX. Para alcançar esse propósito, adotamos diferentes métodos de pesquisa: a consulta a fontes primárias do período (textos e imagens), a leitura crítica de referências contemporâneas que fundamentam nossa reflexão teórica e, de modo especial, a análise integrada das imagens e narrativas contidas no relato turístico em questão. A análise foi pautada no pressuposto de que produções artísticas e literárias, como o relato da Baronesa Herbert, só adquirem pleno significado quando compreendidas no interior de um conjunto mais amplo de práticas e ideologias que lhes são contemporâneas.
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