Proposte
Dossiê - Memórias do trauma: colonialismo, racismo e escravidão no pensamento negro, na memória social e na historiografia
Organizadores:
Leila Maria Gonçalves Leite Hernandez (Universidade de São Paulo)
Alexandre Almeida Marcussi (Universidade de São Paulo)
Iceu Carlos Sitoe (Universidade Pedagógica de Maputo)
Prazo final para o envio das submissões: 31 de outubro de 2026.
Ementa:
O século XX já foi descrito como a “era dos traumatismos” (Soler, 2021, p. 21), percepção que deu destaque, na memória social recente e no discurso crítico contemporâneo, para os testemunhos daqueles que foram vitimados por seus múltiplos episódios de violência (Seligmann-Silva, 2022; LaCapra, 2023; Sarlo, 2007). Esses episódios são rememorados como constitutivos em processos de elaboração de identidades coletivas e reivindicações políticas, particularmente para grupos sociais marginalizados. No caso das identidades negras dos séculos XX e XXI, foram determinantes as memórias relativas à dominação colonial europeia no continente africano e no Caribe, às políticas de segregação racial em diferentes lugares do mundo (com destaque para a África do Sul e os Estados Unidos) e aos legados da escravidão em sociedades pós-escravistas americanas (Mbembe, 2001).
A importância desses processos históricos tendeu a ser minimizada nas grandes narrativas hegemônicas da modernidade e nas memórias nacionais oficiais dos países do norte global durante quase todo o século XX (Trouillot, 2024; Stoler, 2011; Mbembe, 2011), mas ganhou centralidade em perspectivas historiográficas elaboradas nas últimas décadas (Bhabha, 1998; McClintock, 2010). Movimentos em defesa de ações afirmativas e reparação histórica têm se engajado em discussões críticas a respeito da forma como esses passados foram patrimonializados em espaços públicos e discursos cívicos, de maneiras às vezes celebratórias das violências coloniais, exigindo uma crítica contundente das heranças coloniais que ainda atravessam a memória social hegemônica (Kross, 2015; World Heritage USA, 2025). Por outro lado, a crítica ao colonialismo e os projetos de “descolonização” epistemológica nem sempre resolveram todos os problemas envolvidos na elaboração memorialística desses processos. Em alguns casos, a condenação da dominação perpetrada por grupos sociais europeus levou a minimizar a agência histórica africana nos processos políticos da colonização (Cooper, 2005) e as responsabilidades políticas de elites africanas durante os períodos da escravidão (Hartman, 2021) e do colonialismo. (Mbembe, 2018).
Escopo do dossiê:
Levando em conta a multiplicidade de questões envolvidas nessa discussão, este dossiê pretende abordar as diferentes maneiras como o passado da escravidão, do colonialismo europeu e do racismo foram rememorados, narrativizados e interpretados por intelectuais africanos(as) e/ou negros(as), por movimentos, grupos e instituições sociais e pela historiografia. Pretende-se que as contribuições possam abordar questões ligadas à seletividade, aos apagamentos, às apropriações, às instrumentalizações político-ideológicas e aos recortes operados sobre essas histórias, tanto na produção intelectual e artística quanto na esfera da memória pública e cívica, englobando também as políticas de patrimonialização e arquivamento desses passados e de seus registros.
Referência bibliográfica:
BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998.
COOPER, Frederick. Colonialism in question: theory, knowledge, history. Berkeley/Los Angeles/Londres: University of California Press, 2005.
HARTMAN, Saidiya. Perder a mãe: uma jornada pela rota atlântica da escravidão. Trad. José Luiz Pereira da Costa. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.
KROS, Cynthia. Rhodes Must Fall: archives and counter-archives. Critical Arts: a South-North Journal of Cultural & Media Studies, Natal: Universidade de KwaZulu-Natal/Routledge, v. 29, n. supl. 1, dez. 2015, p. 150-165.
LACAPRA, Dominick. Compreender outros: povos, animais, passados. Trad. Luis Reyes Gil. Belo Horizonte: Autêntica, 2023.
MBEMBE, Achille. As formas africanas de auto-inscrição. Estudos Afro-Asiáticos, Rio de Janeiro: Universidade Cândido Mendes, ano 23, n. 1, p. 171-209, 2001.
MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. Trad. Sebastião Nascimento. São Paulo: n-1 edições, 2018.
MBEMBE, Achille. Provincializing France? Public Culture, Durham: Duke University Press, v. 23, n. 1, p. 85-119, 2011.
MCCLINTOCK, Anne. Couro imperial: raça, gênero e sexualidade no embate colonial. Trad. Plínio Dentzien. Campinas: Editora da Unicamp, 2010.
SARLO, Beatriz. Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva. Trad. Rosa Freire d’Aguiar. São Paulo/Belo Horizonte: Companhia das Letras/Editora da UFMG, 2007.
SELIGMANN-SILVA, Márcio. A virada testemunhal e decolonial do saber histórico. Campinas: Editora da Unicamp, 2022.
SOLER, Colette. De um trauma ao Outro. Trad. Cícero Oliveira. São Paulo: Blucher, 2021. (Série Dor e Existência)
STOLER, Ann Laura. Colonial afasia: race and disabled histories in France. Public culture, Durham: Duke University Press, v. 23, n. 1, p. 121-156, 2011.
TROUILLOT, Michel-Rolph. Silenciando o passado: poder e a produção da história. Trad. Sebastião Nascimento. Rio de Janeiro: Cobogó, 2024.
WORLD Heritage USA. Monuments Toolkit. 2025. Disponível em: < https://worldheritageusa.org/monumentstoolkit/>. Acesso em: 26 fev. 2026.
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