Dossiê Internacional

Inteligência artificial e educação: abordagens críticas, tensões e alternativas

Editores convidados: Adilson Citelli e Roseli Figaro (por Comunicação & Educação); Graciana Zarauza e Mariano Zukerfeld (por Hipertextos)

As revistas Comunicação & Educação (CCA/ECA/USP) e Hipertextos (Universidade de Buenos Aires, Universidade Nacional de La Plata e Universidade Maimónides) vão publicar em conjunto o dossiê “Inteligência artificial e educação: abordagens críticas, tensões e alternativas”. Para isso, convidam pesquisadoras e pesquisadores de todas as áreas que abordem criticamente a relação entre inteligência artificial e educação a enviar suas contribuições.

A questão que orienta o dossiê diz respeito aos desafios que a chamada inteligência artificial apresenta no âmbito educacional, entendido em sentido amplo. São de especial interesse trabalhos que, a partir de perspectivas críticas, permitam refletir, aprofundar discussões, dar visibilidade a pesquisas e propor alternativas que esclareçam as tensões que marcam a presença da IA nos processos educacionais, dentro e fora das instituições de ensino.

Com o objetivo de oferecer referências que orientem aqueles que desejam participar, indicamos a seguir cinco eixos temáticos, alguns deles organizados em subeixos. Não se trata de uma lista fechada: são bem-vindas as propostas que articulem mais de um eixo.

Eixo 1. Perspectivas teóricas críticas sobre a inteligência artificial

1.1. Críticas aos discursos dominantes sobre a tecnologia na educação

Abordagens críticas ao aceleracionismo, ao tecnossolucionismo, ao tecnodeterminismo, ao transumanismo, ao cognitivismo e a outras concepções que orientam o desenvolvimento e a difusão das IAs.

Análise das narrativas de inevitabilidade, inovação e “revolução educacional” que acompanham a chegada da IA à educação: quais pressupostos sobre o conhecimento, a aprendizagem e o ser humano elas mobilizam? Como contribuem para legitimar sua introdução acelerada — e pouco discutida — nas instituições educacionais?

1.2. Propostas teóricas críticas sobre a IA, na educação e além

Efeitos da IA sobre o pensamento crítico: ela favorece, enfraquece ou transforma as capacidades de análise, argumentação, avaliação de fontes e julgamento autônomo? Como pensar a relação entre pensamento crítico e delegação de tarefas intelectuais a sistemas automatizados?

Outros efeitos cognitivos da IA: atenção, memória, leitura e escrita, delegação cognitiva, dependência, homogeneização discursiva. Que transformações nas formas de pensar, aprender e produzir conhecimento podem ser conceituadas?

Relações entre a IA e as características do capitalismo contemporâneo: capitalismo de plataformas e de vigilância, extrativismo e colonialismo de dados, concentração nas big tech e oligopólios do conhecimento, trabalho invisibilizado de treinamento e classificação, custos materiais e ambientais.

Redefinições de noções como autoria, saber, verdade, linguagem e inteligência, e contribuições das tradições teóricas latino-americanas e do Sul Global para refletir sobre a IA.

Eixo 2. Regulamentação, políticas públicas e ética

2.1. Regulamentação e políticas públicas

Marcos regulatórios nacionais, regionais e internacionais sobre IA e seu alcance no âmbito educacional. É imperativo regulamentar a IA ou deixá-la se autorregular? Que operações retóricas sobre o conceito de liberdade de expressão permeiam esse debate atualmente e que disputas políticas, ideológicas e econômicas elas expressam?

Políticas educacionais em relação à IA: debates sobre sua proibição, restrição, regulamentação ou incentivo nas instituições de ensino; concepção, implementação e avaliação dessas políticas. Papel dos organismos internacionais e das corporações tecnológicas na formulação de políticas e suas consequências para a autonomia das instituições de ensino e do trabalho docente.

Proteção de dados de alunos e professores, compras públicas de plataformas, soberania tecnológica e educacional.

2.2. Ética

Questões éticas, de risco e de responsabilidade no uso de IA generativa na educação: vieses, transparência, privacidade, integridade acadêmica, equidade.

Análises críticas dos próprios marcos éticos: até que ponto os códigos e princípios da “IA responsável” funcionam como alternativa à regulamentação ou como forma de autorregulação corporativa?

Eixo 3. Inteligência artificial e cenários educacionais

Este eixo abrange a educação formal em seus diversos níveis (educação infantil, ensino fundamental, ensino médio, ensino superior, formação de professores e pós-graduação), bem como a educação não formal (organizações sociais, educação popular, formação profissional e capacitação no trabalho, entre outras) e a educação informal (aprendizagens cotidianas mediadas por chatbots, plataformas e redes). Dá-se prioridade a análises de experiências e trabalhos empíricos baseados em fontes primárias (entrevistas, observações, pesquisas, documentos institucionais) e secundárias (estatísticas, documentos de política, relatórios). Entre outros temas:

Projetos de introdução da IA em instituições educacionais e os pontos de convergência de interesses com órgãos estatais. Pressões das grandes empresas de tecnologia na venda de materiais e plataformas denominadas “educativas”: estamos diante de um modelo de negócios implantado sob o pretexto da modernização educacional?

Desafios para o corpo docente e para os processos de ensino e aprendizagem; transformações na avaliação, no planejamento e nas condições de trabalho dos docentes.

Metodologias e propostas didáticas que incorporam IA generativa: quais são elas e quais são seus alcances e limites?

Usos e apropriações da IA por parte de alunos e professores; desigualdades de acesso e de uso.

Eixo 4. Alfabetização midiática, algorítmica e formação crítica

Como problematizar o que a UNESCO denominou de alfabetização midiática e informacional (Media and Information Literacy/MIL)? Trata-se de um imperativo formativo crítico ou pode levar a perspectivas meramente instrumentais e funcionais da educação? Os estudos e pesquisas desenvolvidos no âmbito da educomunicação oferecem possibilidades para ir além do conceito de alfabetização algorítmica e midiática?

A formação crítica e a emancipação dos alunos podem ser comprometidas com a introdução irrefletida da IA nas escolas? O ChatGPT e sistemas semelhantes estão adquirindo uma presença excessiva na vida de alunos e professores? O acesso indiscriminado e acrítico aos sistemas generativos pode gerar dependência cognitiva e até mesmo homogeneização discursiva? Existem estratégias de redução de danos diante das tecnologias, em particular diante da IA? O tempo em que os sistemas algorítmicos operam é o mesmo de que os alunos precisam para seu amadurecimento reflexivo e emocional?

O diálogo e a perspectiva interacionista, presentes em diversas tradições teóricas e práticas — como as de Mikhail Bakhtin, Paulo Freire e Célestin Freinet —, que, com diferentes ênfases, se dedicam a compreender e promover uma educação crítica, a autonomia intelectual dos alunos e a participação cidadã são compatíveis com os modelos de IA generativa nos processos escolares de ensino e aprendizagem? Em que condições os sistemas generativos, ao simularem interações dialógicas, favorecem ou comprometem os processos de produção de conhecimento crítico e emancipador? Quais são as possibilidades, os limites e as contradições dessa abordagem?

Eixo 5. Usos alternativos da inteligência artificial

5.1. Usos contra-hegemônicos das IAs comerciais

Apropriações críticas, táticas e resistências diante das IAs comerciais em contextos educacionais: práticas docentes, estudantis, de movimentos sociais e de educação popular que desafiam ou subvertem as lógicas das plataformas.

A recusa, a objeção e a desconexão como práticas pedagógicas e políticas.

5.2. IA não comercial e além dos grandes modelos de linguagem

Modelos abertos, públicos, comunitários ou desenvolvidos por universidades; IA de pequena escala e local; sistemas que não se baseiam em grandes modelos de linguagem (LLM); desenvolvimentos em línguas indígenas e locais; infraestruturas públicas e software livre.

Que condições técnicas, econômicas e institucionais essas alternativas exigem? Que outras visões da IA — e de seu lugar na educação — elas tornam possíveis?

Envio de artigos

Os artigos podem ser redigidos em espanhol, português ou inglês e são recebidos exclusivamente por meio do sistema de envio da revista Comunicação & Educação: https://revistas.usp.br/comueduc/pt_BR/about/submissions

Devem seguir as normas editoriais detalhadas a seguir. Cada artigo será avaliado no idioma em que tiver sido enviado. Os artigos selecionados serão traduzidos e publicados em português e inglês na revista Comunicação & Educação, e em espanhol na revista Hipertextos, independentemente do idioma do envio original.

Dúvidas: comueduc@usp.br

Normas de envio

a) Os títulos devem ser breves. Se o título incluir um subtítulo, ambos devem ser inseridos juntos no campo “Título” do sistema; não utilize o campo “Subtítulo”, pois essa informação é perdida na atribuição do DOI. Não utilize sinais de pontuação no final do título nem do subtítulo; evite o uso de negrito ou itálico, bem como símbolos como “&”; utilize letras maiúsculas apenas em nomes próprios e na palavra inicial. O corpo do artigo deve ser organizado em seções com subtítulos.

b) O autor ou os autores (máximo de quatro) devem apresentar um breve resumo curricular de no máximo três linhas, incluindo seu endereço de e-mail e seu ORCID.

c) No início do texto, o artigo deve incluir um resumo de 8 a 10 linhas e 5 palavras-chave em português, inglês e espanhol, independentemente do idioma do artigo. Evite o uso de negrito ou itálico, bem como símbolos como “&”.

d) Cada artigo deve ter uma extensão entre 30.000 e 45.000 caracteres (incluindo espaços, resumos e notas de rodapé).

e) Fonte: Times New Roman, tamanho 12, espaçamento entre linhas de 1,5.

f) Insira o número da página na parte inferior da folha.

g) Tamanho do papel: A4 (21,0 x 29,7 cm), com orientação vertical e margens superior, inferior, esquerda e direita de 2,5 cm.

h) As citações e referências bibliográficas devem seguir as normas a seguir, de acordo com o idioma do texto original: se o texto estiver escrito em português ou inglês, deve seguir a norma ABNT NBR 6023 e NBR 10520 (norma brasileira de referências bibliográficas); se estiver escrito em espanhol, deve seguir as normas da APA, 7ª edição (consulte o seguinte guia para sua aplicação: https://sedici.unlp.edu.ar/handle/10915/164813).

 

Cronograma

Prazo final para envio dos artigos: 28 de fevereiro de 2027.

Divulgação dos artigos selecionados: 30 de julho de 2027.

Publicação do dossiê: final de novembro de 2027.

                   

As equipes editoriais de Comunicação & Educação e Hipertextos

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