Reflexões sobre Yoshio: A Construção da Alteridade em Blanco Nocturno, de Ricardo Piglia
DOI:
https://doi.org/10.11606/issn.2447-9748.v5i2p%25pPalavras-chave:
Blanco Nocturno, Construção de Personagem, Estigma, Masculinidade, Ricardo PigliaResumo
Segundo Erving Goffman (1988), o estigma é uma relação social que desacredita o indivíduo, tornando-o alvo de exclusão. Esse caráter relacional da identidade evidencia-se em contextos de repressão, onde a fabricação de um culpado serve para reafirmar fronteiras morais. É nesse horizonte que se insere o presente trabalho, na interseção entre os estudos de gênero e a crítica literária. Propõe-se uma análise do romance Blanco Nocturno (2010), de Ricardo Piglia, centrada na construção do personagem Yoshio Dazai. Busca-se investigar como sua figura, enquanto corpo dissidente, opera como sonda analítica para expor as neuroses da sociedade argentina: a xenofobia e a homofobia. Para tanto, mobiliza-se um referencial teórico que articula os conceitos de estigma (Goffman, 1988), masculinidade subordinada (Connell, 2020) e a repressão do desejo homossexual (Hocquenghem, 2020). Tal instrumental teórico permite desnaturalizar a figura do "criminoso", evidenciando seus mecanismos de produção social. A análise organiza-se em três eixos: (1) O estigma do estrangeiro e a criminalização pela raça; (2) A masculinidade em xeque e a patologização do desejo; e (3) O romance noir como palco para a fabricação da culpa. Sendo assim, a narrativa pigliana evidencia que a investigação do crime é, na verdade, uma investigação sobre quem a sociedade elege como criminoso. Nesse espaço de desestabilização, a identidade de Yoshio abre a possibilidade de uma reflexão sobre os mecanismos de exclusão e a invenção de novas formas de convivência.
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Referências
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