Suicídios em uma universidade pública brasileira: análise documental de ocorrências entre 1990 e 2023
DOI:
https://doi.org/10.1590/S1678-4634202652295886porPalavras-chave:
Suicídio, Universidade, Saúde mental, EducaçãoResumo
Trata-se de um estudo que objetiva analisar as mortes por suicídio em uma universidade pública do estado do Rio de Janeiro, Brasil, no período de 1990 a 2023. Foi empreendida análise documental de 32 ocorrências de suicídio na universidade. Como resultados, o estudo apresenta duas categorias principais: Números que falam de tempo e de dor: o retrato do suicídio no contexto universitário, que demonstra que o suicídio não pode ser compreendido apenas como número, mas como expressão de uma trama de dores que se manifestam no contexto educacional de forma recorrente ao longo do tempo; e Dor que fala de pessoas: a singularidade do sofrimento estudantil, que evidencia ocorrências com características semelhantes, sendo a maioria de pessoas vinculadas à universidade, composta por homens, especialmente jovens entre 20 e 25 anos, com predomínio nos cursos de humanas. A aproximação teórica com Frantz Fanon e Émile Durkheim possibilitou o deslocamento da ideia de suicídio como fenômeno exclusivo da vulnerabilidade individual para uma compreensão como fenômeno sociogênico e como um Fato social, segundo o efeito das estruturas sociais, econômicas e culturais que moldam a vida estudantil. O estudo ainda problematiza as limitações dos modelos campanhistas de Janeiro Branco e Setembro Amarelo adotados no Brasil, que tendem a individualizar o sofrimento social. O suicídio no ambiente universitário expressa indicadores graves de saúde mental e reforça a necessidade de que o sofrimento estudantil não seja invisibilizado, mas que a universidade se constitua como espaço de cuidado, solidariedade e inclusão de estratégias coletivas de enfrentamento.
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