Sepultamento humano: a experiência de escavação em bloco e seus resultados
DOI:
https://doi.org/10.11606/issn.2448-1750.revmae.2026.243398Palavras-chave:
Sambaquis, Arqueologia Funerária, Arquitetura Funerária, Estratigrafia, Rio de JaneiroResumo
Sepultamentos humanos são desafiadores, e sua escavação é lenta e imprescindível para interpretação, tanto dos gestos funerários como da construção de muitos sítios arqueológicos. Nos sambaquis a presença de esqueletos humanos, principalmente em deposição primária, independente da sua integridade anatômica e dos acompanhamentos, contribui efetivamente para a interpretação do lugar de deposição do morto, dos gestos e dos processos de construção do monumento. A retirada de estruturas funerárias em bloco, para escavação em laboratório, realizada há décadas para fins também museográficos, revelou-se uma boa estratégia de abordagem em projetos de campo e vem permitindo detalhar o trabalho e aprofundar o entendimento dos sambaquis e sua construção. Durante as escavações do sambaqui de Sernambetiba, Magé/RJ, foram feitas diversas retiradas em bloco. A primeira delas, a retirada integral do Sepultamento 1, primário, feminino, adulto, seguiu-se da retirada de blocos parciais dos demais sepultamentos primários e secundários encontrados. Sua escavação, em paralelo em laboratório, ajudou a orientar os demais trabalhos, além de agilizar o trabalho em campo. Essa estratégia permitiu confirmar detalhadamente a ausência de cova, sua relação com a construção de montículo funerário e posicionamento do morto e a relação das camadas com a deposição do corpo. Além disso, confirmou evidências da prática de visitação após enterro, assim como a presença de artefatos e outros acompanhamentos que, por serem discretos, poderiam permanecer mascarados na construção, passando despercebidos. Os dados obtidos com o trabalho em paralelo nesse bloco ajudaram a orientar o campo e se somaram aos dados obtidos nos blocos parciais escavados no mesmo sítio, salvando mais informações e confirmando interpretações anteriores e a complexidade desses funerais em sambaquis do Rio de Janeiro.
Downloads
Referências
Bandeira, D.R.; Oliveira, E.; Santos, A.M.P. 2009. Estudo estratigráfico do perfil nordeste do sambaqui do Cubatão I, Joinville, SC. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP 19: 119-142.
Bianchini, G. 2015. Por entre corpos e conchas: prática social e arquitetura de um sambaqui. Tese de doutorado. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.
Buikstra, J.E.; Cook, D.C.; Bolhofner, K.L. 2017. Introduction: scientific rigor in paleopathology. International Journal of Paleopathology 19: 80-87.
Buikstra, J.E.; Ubelaker, D.H. 1991. Standards for data collection from human skeletal remains. In: Proceedings of 44th Archaeological Survey Research Series, 1991, Arkansas.
Costa, R.A. 1996. Sambaqui de Sernambetiba: análise de dois sepultamentos. Arquivos da disciplina de Arqueologia do Museu Nacional, Rio de Janeiro.
Deblasis, P. et al. 1998. Some references for the discussion of complexity among the sambaqui mound builders from the Southern shores of Brazil. Arqueologia Americana 15: 75-105.
Duday, H. et al. 1990. L’Anthropologie “de terrain”. Reconaissance et interpretation des gestes funeraires. Bulletin et Memmoire de la Societé d’Anthropologie de Paris (NS) 2: 29-50.
Estanek, A. 2016. Preparativos funerários no Sernambetiba: sambaqui vida e morte. Tese de doutorado. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.
Fernandes, L. 2002. Tafonomia comparada em urnas de Aratu (Piragiba e São Felix do Coriba, Bahia). Canindé 2: 291-310.
Figuti, L. 2009. Relatório do projeto Construindo o sambaqui: a ocupação e o processo de construção de sítio na bacia do Canal do Palmital, Santa Catarina (PROC. FAPESP 08/01285-0).
Fish, S. et al. 2000. Eventos incrementais na construção de sambaquis, litoral sul do estado de Santa Catarina. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP 6: 69-87.
Gaspar, M.D. 1994. Espaço, ritos funerários e identidade pré-histórica. Revista de Arqueologia 8(2): 221-231.
Gaspar, Maria Dulce; Klokler, Daniela. 2011. Amourins: same site, diferente perspectives. Sambaqui archaeology 30 years later. Proceedings of the 76th Annual Meeting of the Society for Amerian Archaeology, 1. Society for American Archaeology: Sacramento.
Gaspar, Maria Dulce; Klokler, Daniela; Bianchini, Gina Faraco.Gaspar, M.D.; Klokler, D.; Bianchini, G.F. 2013. Arqueologia estratégica: abordagens para o estudo da totalidade e construção de sítios monticulares. Boletim do Museu Paraense Emilio Goeldi 8: 517-533.
Gaspar, M.D.; Souza, S.M. 2013. Abordagens estratégicas em sambaquis. Habilis, Erechin.
Guerra, A.T. 1962. O significado geomorfológico do sambaqui de Sernambetiba. Revista Brasileira de Geografia 24: 565-570.
Herédia, O.R. 1978 Cadernos de campo: disciplina de arqueologia. Museu Nacional, Rio de Janeiro.
Herédia, O.R.; Beltrão, M.C. 1980. Mariscadores e pescadores pré-históricos do litoral centro-sul brasileiro. Pesquisas 31: 101-119.
Herédia, O.R. et al. 1981-1982. Pesquisa arqueológica no sambaqui de Amourins, Magé, RJ. Arqueivos do Museu de História Natural da UFMG 6-7: 175-188.
Hurt, W. 1986. Notes: excavations at the Sambaqui Sernambetiba: relatório do pesquisador nos arquivos da disciplina de arqueologia. Museu Nacional, Rio de Janeiro.
Klokler, D. 2014. Adornos em conchas do sítio Cabeçuda: revisita às amostras de Castro Faria. Revista de Arqueologia 27: 150-169.
Klokler, D.; Gaspar, M.D. 2013. Há uma estrutura funerária no meu sambaqui..., esse sambaqui é uma estrutura funerária! In: Gaspar, M.D.; Souza, S.M. (Orgs.). Abordagens estratégicas em sambaquis. Habilis, Erechim, 109-126.
Metraux, A. 1947. Mourning rites and burial forms of the South American Indians. América Indigena 7: 7-44.
Mezzalira, S. 1946. Sambaqui de Sernambetiba: notas preliminares e estudos. Departamento Nacional de Produção Mineral, Rio de Janeiro.
Paz, R.A.R.P. 1999. Arqueologia da Baía de Guanabara: estudo de sambaquis do município de Guapimirim. Tese de doutorado. Universidade de São Paulo, São Paulo.
Prous, A. 1989-1990. Os moluscos e a arqueologia brasileira. Arquivos do Museu de História Natural da UFMG 11: 241-298.
Rohr, J.A.S.J. 1968. Cimentação de sepultamentos arqueológicos e montagem de blocos-testemunho. Ciência e Cultura 20: 456-457.
Rohr, J.A.S.J. 1981. Cimentação de sepultamentos e de “blocos-testemunho”. In: Knelp, L.M.; Pallestrini, L.; Cunha, F.L.S. Pesquisas arqueológicas no litoral de Itaipu, Niteroi, RJ. Itaipu Cia. de Desenvolvimento Territorial, Rio de Janeiro, 111-119.
Roksandic, M. 2001. Position of skeletal remains as a key to understand mortuary behaviours. In: Haglund, W.; Sorg, M. (Orgs.). Advances in forensic taphonomy: methods, theory and archaeological perspectives. CRC Press, London, 99-118.
Scheel-Ybert, R.; Pinto, A.A.; Souza-Pinto, N.R. 2025. Ritual palm nuts in two Southeastern Brazilian shellmounds? Journal of Archaeological Sciences 61.
Souza, S.M. 1986. A urna cinerária da Maloca da Perdiz II: correlação etno-arqueológica. Revista do Cepa 13: 1-31.
Souza, S.M. 2010. O silêncio bioarqueológico da Amazonia: entre o mito da diluição demográfica e o da diluição biológica na floresta tropical. In: Pereira, E.; Guapindaia, V. (Orgs.). Arqueologia Amazônica. Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém, 425-446.
Souza, S.M. et al. 2002. Mumificação natural na Toca da Baixa dos Caboclos, Sudeste do Piauí. Uma interpretação integrada dos dados. Canindé 2: 83-102.
Souza, S.M. et al. 2013. Escavar e interpretar lugares de deposição de mortos. In: Gaspar, M.D.; Souza, S.M. Abordagens estratégicas em sambaquis. Habilis, Erechim, 127-154.
Souza, S.M.; Guapindaia, V.; Rodrigues-Carvalho, C. 2001. A necrópole Maracá e os problemas interpretativos em um cemitério sem enterramentos. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi 17: 479-520.
Souza, S.M.; Rodrigues-Carvalho, C. 2013. Ossos no chão: para uma abordagem de remanescentes humanos em campo. Boletim do Museu Paraense Emilio Goeldi (Ciências Humanas) 8: 551-556.
Souza, S.M.; Souza, M.M.F.; Castro, A.A. 1983. Tentativa de interpretação paleoecológica do sambaqui do Rio das Pedrinhas – Magé – RJ. Instituto Superior de Cultura Brasileira, Rio de Janeiro.
Vilaça, A. 1992. Comendo como gente: formas de canibalismo Wari (Pakaa Nova). Eduferj, Rio de Janeiro.
Villagran, X.S.; Gaspar, M.D.; Souza, S.M. 2015. Primeiros estudos micromorfológicos em sambaquis da baía de Guanabara (Rio de Janeiro): sítio Sernambetiba sob o microscópio. In: Rubin, J.C.R.; Dubois, C.M.F.; Silva, R.T. (Orgs.). Geoarqueologia na América do Sul. Universidade Católica, Goiânia, 427-462.
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença
Direitos autorais (c) 2026 Sheila Mendonça de Souza, Angelica Estanek, Maria da Glória Demamann

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.









