Imbondeiro: apontamentos para uma história editorial a partir da Colecção Imbondeiro

Autores

DOI:

https://doi.org/10.11606/va.v26.n2.2025.227733

Palavras-chave:

Imbondeiro, Colecção Imbondeiro, PIDE, Censura, Angola, colonialismo

Resumo

Em tempos coloniais, carregando as contradições que esse período histórico implicava, Leonel Cosme e Garibaldino de Andrade puseram, a partir da Huíla, as bases para a circulação da literatura angolana. A Colecção Imbondeiro (68 volumes) foi a mais prolífica série da editora. O projeto editorial gerou polémicas entre as franjas polticizadas das elites culturais anticoloniais e chamou a atenção da PIDE, que vigiou, censurou e reprimiu o projeto. Fou encerrado em 1965, após a apreensão massiva de exemplares e material de impressão pela PIDE. Neste texto, apresentam-se os resultados da pesquisa entre arquivos e fontes literárias, sobre um dos primeiros projetos editorias de grande alcance impresso em solo angolano antes da Independência. Discutem-se as razões da sua recepção diminuta na Angola pós-colonial, relacionadas com as suas ideias sobre o futuro do país.

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Biografia do Autor

  • Noemi Alfieri, Universidade Nova de Lisboa. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas

    FCT CEEC Researcher do CHAM – Centro de Humanidades da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa (2023–29). Membro do Conselho de Administração do CHAM, como Diretora Adjunta de Estudos de Pós-Graduação e Investigação. O seu projeto atual “Mapear redes anticoloniais através da literatura. Ligações transnacionais de pensadores africanos na reconfiguração do espaço e do pensamento (anos 1950–70)”, centra-se nas ligações entre os projetos editoriais, Mensagem (Lisboa), Présence Africaine (Paris e Dacar) e Black Orpheus (Ibadan). FoiVisiting Fellow” no African Studies Centre (U. Leiden, 2024) e no “Africa Multiple Cluster of Excellence” (U. Bayreuth, 2022/23 ay). Na ACM, foi também premiada com o “Collaborative Funding” para o Grupo de Trabalho de Pós-doutoramento: Trans*formações Digitais em África: Um Espaço para o Capital Intelectual e Material (Africa Multiple Cluster of Excellence, U. Bayreuth), que coordena e co-organiza com colegas da U. Bayreuth e Humboldt U. Berlin. Ex-bolsista de investigação de pós-doutoramento do projeto FCT-ID Afrolab: “Construir Literaturas Africanas. Instituições e Consagração dentro e fora do Espaço da Língua Portuguesa, 1960–2020”, sediado no Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2022). Em 2021, foi Membro da Equipa de Avaliação do PNL. É Membro do Conselho Editorial da Práticas da História, Membro Associado do Centre de recherches sur les pays lusophones (Sorbonne Nouvelle Université, França); membro do grupo de pesquisa Áfricas (UERJ-UFRJ). Em novembro de 2019, pesquisou no CEM Eduardo Augusto Kwamba (ISCED-Luanda). Também é membro da equipe dos Projetos financiados pela FCT AFROLAB (UL) e WOMENLIT — “Literatura Feminina: Memórias, Periferias e Resistência no Atlântico Luso-Afro-Brasileiro” (CHAM, NOVA-FCSH). Membro da Ação COST 18126 — “Writing Urban Places” (UE).

    Sua pesquisa se concentra em projetos editoriais africanos das décadas de 1950 a 1970 e se preocupa com a mobilidade de objetos, pessoas e ideias por meio das redes transnacionais estabelecidas na África, Europa e América do Sul por negritudinistas, escritores e intelectuais pan-africanos ou anticoloniais nessas décadas, com atenção especial à sub-representação da agência feminina nas narrativas históricas e acadêmicas produzidas sobre e nesses ambientes culturais.

    Doutorou-se em Estudos Portugueses (História do Livro e Crítica Textual) pela NOVA-FCSH com a dissertação: “(Re)construindo a Identidade através do Conflito: Uma Abordagem às Literaturas Africanas Escritas em Português (1961-74)”. Esta dissertação foi financiada pela FCT-IP e recebeu uma Menção Honrosa do Prêmio Mário Soares-Fundação EDP (2021). É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (Espanhol e Português, 2013) pela Università degli Studi de Turim, Itália. É Mestre em Línguas e Literaturas Modernas pela mesma Universidade, com uma dissertação sobre Literatura Angolana (2015).

    Interessa-se pela circulação de materiais impressos, ideias e seus agentes, bem como pela sua recepção, centrando-se atualmente em projetos editoriais africanos das décadas de 1950 a 1970, com ênfase na Literatura Angolana. Ela se preocupa com a mobilidade de objetos, pessoas e ideias através das redes transnacionais estabelecidas na África, Europa e América Latina por negritudinistas, escritores e intelectuais panafricanos ou anticoloniais naquelas décadas, com atenção particular à sub-representação da agência feminina nas narrativas históricas e acadêmicas produzidas sobre e nesses ambientes culturais. Ela endossa uma abordagem decolonial, feminista e interseccional para a pesquisa acadêmica, escrita e artes, unindo projetos literários e artísticos anticoloniais e antirracistas coletivos.

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Publicado

2025-12-24

Edição

Seção

Dossiê 47: Angola: acervo, memória e literatura

Como Citar

ALFIERI, Noemi. Imbondeiro: apontamentos para uma história editorial a partir da Colecção Imbondeiro. Via Atlântica, São Paulo, v. 26, n. 2, p. 32–49, 2025. DOI: 10.11606/va.v26.n2.2025.227733. Disponível em: https://revistas.usp.br/viaatlantica/article/view/227733. Acesso em: 8 fev. 2026.