Chamada para publicação - Caracol número 31

2025-02-18

Dossiê: Migrações de corpos, línguas e identidades

Na metade do século XX, o pensador martinicano Edouard Glissant criou nas Antilhas uma epistemologia diaspórica que abrangia o que chamou de créolisation, conceito por sua vez emprestado do poeta jamaicano Edward Kamau. Na fronteira dos Estados Unidos e México, Gloria Anzaldúa ressignificou a fronteira (1987) como um espaço poroso mas também conflitivo e a língua como local de mistura – na sua reivindicação do spanglish, por exemplo –Antonio Cornejo Polar pensou o discurso migrante como uma heterogeneidade não dialética (1996), radicalmente descentrado e multiplamente situado. No Brasil, o pretuguês de Lélia Gonzalez (1984) visibilizava na própria língua a experiência afro-brasileira. Mais recentemente, a linguista mixe Yásnaya A. Gil, entre outras, desenvolveu a noção de um “nós sem estado” (2019), baseado na autonomia dos territórios indígenas do continente que seja capaz de revitalizar línguas de Abya Yala ameaçadas de extinção, junto com a sua memória coletiva e as suas culturas. Neste contexto, a atenção às escrituras que transgridem a continuidade entre território, língua e literatura está em constante aumento.

Por outro lado, em um campo mais eurocentrado, perguntas que ressoam com o anteriormente exposto estiveram presentes, por exemplo, no conceito já clássico de extraterritorialidade de Georges Steiner (1969) ou nos trabalhos de Steven Kellman (2000) sobre translinguismo. Outras referências sobre o mesmo tema podem ser encontradas em Nicolas Bourriaud (2009) e sua reflexão sobre a altermodernidade (que qualifica como radicante e poliglota); em Myriam Suchet (2014) e seu conceito de “héterolinguisme” (desenvolvido a partir de Rainier Grutman, 1997); em Marie Louise Pratt (2014) e sua reflexão sobre a “poética translingue”; nas indagações de Yasemin Yildiz (2012) sobre a condição pós-monolingue; e nos estudos de Ottmar Ette (2018) sobre as “literaturas sem residência fixa”. Um trabalho paradigmático para este dossiê pode ser o realizado por Sandro Mezzadra (2007) a partir da teoria política e as propostas do teórico da tradução Naoki Sakai (1997). Esse caráter paradigmático obedece ao fato de Mezzadra estabelecer cruzamentos relevantes entre a reflexão sobre o heterolinguismo e a renovada ubiquidade do Ocidente e seu universalismo contemporâneo, expressada na fluidez com que escoam os totalitarismos do presente nas distintas geografias.

Nossa proposta para este dossiê é, desse modo, vincular a extensa e variada reflexão sobre a descontinuidade entre língua e identidade (linguística, territorial, nacional, étnico-racial, genérico-sexual) com o fenômeno dos deslocamentos humanos provocados por diversos fatores: migrações de ordem económica, política e social, “limpeza étnica”, exílios, diásporas, entre outros. Propomos, para isso, a hipótese de que a expressão literária da descontinuidade entre língua e identidade desagrega as bases de qualquer tipo de fundamentalismo. Essa não congruência entre língua e consensos representacionais parece especialmente potente para o mundo atual, tragicamente marcado, em sua dimensão política, por discursos ontologicamente fechados. Acreditamos que nestes discursos (e nas práticas que eles justificam) o outro, em lugar de ser considerado como constituinte de qualquer identidade (como ensinou no campo da psicanálise Julia Kristeva em Étrangers à nous-mêmes, 1988), é expulso como abjeto e resignado a sua própria materialidade e até literal extermínio. Isto é demonstrado hoje em dia na prática da necropolítica dos campos de refugiados bombardeados, nos discursos e práticas anti-migratórios ou na restauração do binarismo de género baseado em determinações biológicas. Nosso interesse pelos textos misturados, translíngues ou heterolíngues procura incentivar cruzamentos críticos que coloquem no centro aquilo que essas textualidades oferecem ao presente a partir da poesia, de narrativas diversas, crônicas ou não ficção.

Seguindo esses parâmetros, este número da revista Caracol receberá trabalhos situados de forma ampla na heterogênea territorialidade do mundo marcado pela hegemonia do espanhol como língua nacional. Propomos reflexões que, impugnando essa hegemonia, incluam línguas que tem misturado o espanhol e o debilitaram na sua dimensão de “pureza” ou de “normatividade legítima”. O portunhol; processos culturais no Caribe com o inglês e outras línguas; a mistura do créole com o espanhol nas migrações haitianas; a presença do kichwa, o quíchua, o aimará e outras línguas indígenas; as línguas de escrituras dissidentes como o bajubá, são alguns dos exemplos que assinalamos como referência.

Entre os eixos possíveis para o desenvolvimento desta proposta, destacamos os seguintes:

  • Fenômenos de escrita literária em línguas consideradas não nacionais, não vernáculas, ou não “maternas”, tanto no âmbito contemporâneo como em uma dimensão diacrónica;
  • Escrituras caracterizadas pela mistura de materialidades linguísticas diversas;
  • Escrituras que expressam linguisticamente trânsitos e transições não normativos do corpo e dos afetos;
  • Escrituras que explorem estéticas queer e outras dissidências que vinculam-se às migrações, como a vida sem documentos, o sexílio, a migração por HIV;
  • Reflexões teóricas e estudos de caso sobre tradução e trânsito, por exemplo análises de traduções para a língua espanhola (ou para outras presentes na territorialidade latinoamericana) de obras caracterizadas pela representação de eventos de desapropriação territorial e de deslocamento forçado de populações e comunidades;
  • Análises críticas, com especial atenção às caraterísticas linguísticas, de produções literárias marcadas por episódios de migrações, diásporas, exílio ou vida na fronteira.

 

Os artigos devem ser submetidos por meio da plataforma da revista Caracol, usando-se o link a seguir: https://www.revistas.usp.br/caracol/about/submissions. Os textos deverão obedecer às normas estabelecidas pela revista, em suas diretrizes para autores disponíveis na mesma página web.

Data-limite para a submissão de artigos: 30/06/2025.

 

Organização do dossiê:

Cristina Burneo Salazar (Pesquisadora Independente)

Meritxell Hernando Marsal (UFSC)

Pablo Gasparini (USP)

 

 

Dossier: Migraciones de cuerpos, lenguas e identidades

A mitad del siglo XX, el pensador martiniqués Edouard Glissant forjó desde las Antillas una epistemología diaspórica que atendía a lo que llamó la créolisation (1956), concepto a su vez tomado del poeta jamaiquino Edward Kamau. Desde la frontera entre Estados Unidos y México, Gloria Anzaldúa resignificó la frntera (1987) como un espacio poroso a la vez que conflictivo y la lengua como lugar de mixtura –en su reivindicación del spanglish, por ejemplo–. Antonio Cornejo Polar pensó el discurso migrante como una heterogeneidad no dialéctica (1996),  radicalmente descentrado y múltiplemente situado. En Brasil, el pretuguês de Lélia Gonzalez (1984) evidenciaba en la lengua la experiencia afrobrasileña. Más recientemente, en el siglo XXI, la lingüista mixe Yásnaya A. Gil, entre otras, ha desarrollado nociones de un “nosotros sin estado” (2019) basado en una autonomía de los territorios indígenas del continente que sea capaz de revitalizar lenguas de Abya Yala, amenazadas de extinción junto con su memoria colectiva y sus culturas. En este contexto, la atención a escrituras que transgreden la continuidad entre territorio, lengua y literatura ha ido en constante aumento.

Por otro lado, desde un campo más bien eurocentrado, preguntas resonantes con lo anterior han estado presentes, por ejemplo, en el concepto ya clásico de extraterritorialidad de Georges Steiner (1969) o en los trabajos de Steven Kellman (2000) sobre translingüismo. Otras referencias en torno a la misma problemática pueden ser encontradas en Nicolas Bourriaud (2009) y su reflexión sobre la altermodernidad (a la que califica de radicante y políglota); en Myriam Suchet (2014)  y su concepto de  “hétérolinguisme” (desarrollado a partir de Rainier Grutman, 1997); en Marie Louise Pratt (2014) y su reflexión sobre la “poética translingüe”; en las indagaciones de Yasemin Yildiz (2012) sobre la condición pos-monolingüe; y en los estudios de Ottmar Ette (2018) sobre las “literaturas sin residencia fija”. Sumamos a estas referencias  un trabajo paradigmático, el que Sandro Mezzadra (2007) ha hecho desde la teoría política con la propuesta del teórico de la traducción Naoki Sakai, en el que logra establecer cruces relevantes entre la reflexión sobre lo heterolingüe y la renovada ubicuidad de Occidente y su universalismo contemporáneo, que se expresa en la fluidez con que permean los totalitarismos del presente en distintas geografías.

Nuestra propuesta para este dossier es aunar la vasta y variada reflexión sobre la discontinuidad entre lengua e identidad (lingüística, territorial, nacional, étnico-racial, genérico-sexual) con el fenómeno de los desplazamientos humanos ocasionados por factores diversos: migraciones de orden económico, político y social, “limpieza étnica”, exilios, diásporas, entre otros. Arriesgamos para esto la hipótesis de que la expresión literaria de la discontinuidad entre lengua e identidad disgrega las bases de cualquier tipo de fundamentalismo. Esta no congruencia entre lengua y consensos representacionales parece especialmente potente para el mundo actual, trágicamente marcado, en su dimensión política, por discursos ontológicamente cerrados. Creemos que en estos discursos (y en las  prácticas que los mismos habilitan) el otro, menos que considerarse como constituyente de cualquier identidad (como nos enseñó, desde el psicoanálisis, Julia Kristeva em Étrangers à nous-mêmes, 1988), es expulsado como algo abyecto y resignado a su propia materialidad y aun literal exterminio. Esto queda demostrado hoy en día en la práctica necropolítica de  campos de refugiados bombardeados, en los discursos y prácticas anti-migratorios o en la restauración del binarismo de género basado en determinaciones biológicas.  Nuestro interés por los textos llamados mixturados, translingües o heterolingües parte así del deseo de abrir cruces críticos que pongan en el centro lo que estas textualidades ofrecen al presente desde la poesía, distintas narrativas, crónica y no ficción.

Siguiendo estos parámetros, este número de la revista Caracol acogerá trabajos enmarcados de forma amplia en la heterogénea territorialidad del mundo signado por la hegemonía del español como lengua nacional. Proponemos reflexiones que, impugnando dicha hegemonía, incluyan lenguas que han mixturado el español y lo han debilitado en su dimensión de “pureza” o de “normatividad legítima”. El portuñol; los procesos culturales en el Caribe con el inglés y otras lenguas; la mixtura del créole con el español en las migraciones haitianas; la presencia del kichwa, el quechua, el aymara y otras muchas lenguas indígenas; las lenguas de escrituras disidentes como el bajubá, son algunos ejemplos que señalamos a modo de referencia.

Entre los ejes posibles para el desarrollo de esta propuesta, destacamos los siguientes:

- Fenómenos de escritura literaria en lenguas consideradas no nacionales, no vernáculas, o no “maternas”,  tanto en el ámbito contemporáneo como en una dimensión diacrónica;

- Escrituras caracterizadas por la mezcla de materialidades lingüísticas diversas;

- Escrituras que plasmen lingüísticamente tránsitos y transiciones no normativos del cuerpo y los afectos;

- Escrituras que exploren estéticas queer y otras disidencias que se vinculan a las migraciones, como la vida sin papeles, el sexilio, la migración por VIH;

- Reflexiones teóricas y estudios de casos sobre traducción y tránsito, por ejemplo análisis de traducciones a la lengua española (o a otras lenguas presentes en la territorialidad latinoamericana) de obras caracterizadas por la representación de eventos de despojo territorial y de desplazamiento forzado de poblaciones y comunidades;

- Análisis críticos, con especial foco en sus aspectos lingüísticos, de producciones escriturales signadas por episodios de migraciones, diásporas, exilio, o vida en la frontera.  

Los artículos deben ser enviados por medio de la plataforma de la revista Caracol en el siguiente link:  https://www.revistas.usp.br/caracol/about/submissions. Los textos deben seguir las directrices para autores de la revista, disponibles en la misma página web.

Fecha límite para el envío de los artículos: 30/06/2025.

 

Organización del dossier:

Cristina Burneo Salazar (Investigadora Independiente)

Meritxell Hernando Marsal (UFSC)

Pablo Gasparini (USP)