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Chamada de Trabalhos
Vol. 26, N. 1, 2026
Prazo para submissão: 15 de maio de 2026
Dossiê Temático: “(Re)Orquestrar: Perspectivas interdisciplinares sobre música sinfônica”
Editores convidados: Prof. Dr. Fabio Cury (USP) e Prof. Dr. Lucas Robato (UFBA)
*** Observação: para este número, a Revista Música receberá apenas trabalhos que estejam inseridos na temática deste Dossiê. ***
O Laboratório de Estudos Orquestrais (LEO) do Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) convida pesquisadores, acadêmicos e profissionais da música para a submissão de artigos destinados ao dossiê temático especial “(Re)Orquestrar: Perspectivas interdisciplinares sobre música sinfônica”, da Revista Música.
O presente dossiê pretende reunir a produção acadêmica em artes e em ciências sociais dedicada ao estudo da atividade de orquestras sinfônicas. Esses organismos carregam séculos de prática musical, apropriados de maneiras diversas em contextos locais múltiplos. Assim, embora grupos de diferentes partes do mundo partilhem a alcunha “orquestra sinfônica”, eles podem produzir música e organizar o trabalho artístico de formas potencialmente variadas. A literatura existente aborda esse universo a partir de múltiplos eixos de investigação. Um primeiro conjunto de estudos situa-se no âmbito econômico e das políticas culturais, destacando as tensões entre financiamento público e captação de recursos próprios (Galinsky; Lehman, 1995; Schulze; Rose, 1998), os desafios da profissionalização e das dificuldades financeiras enfrentadas por essas instituições (Flanagan, 2009; Segnini, 2014) bem como os impactos das transformações gerenciais sobre práticas de gestão orquestral (Chiapello, 1998). Um segundo eixo concentra-se na constituição dos coletivos artísticos e em seus modos de recrutamento, examinando tanto os processos de seleção e seus efeitos sobre a igualdade de gênero (Goldin; Rouse, 2000) quanto os mecanismos internos de reprodução de estratificações sociais e hierarquização musical (Willener, 1997; Lehmann, 2005). Essas análises se articulam a uma vasta literatura sobre o trabalho artístico, que explora as dinâmicas de cooperação e autoridade sob perspectiva interacionista (Faulkner, 1973 ; Ravet, 2015), assim como a imbricação entre processos institucionais e práticas artísticas (Pichoneri, 2016; Nápoli, 2016; Teperman, 2016), incluindo estudos dedicados à inovação de repertório (Kremp, 2010; Herman, 2022). Por fim, um terceiro conjunto de trabalhos coloca em foco as práticas artísticas e a participação coletiva, analisando o papel social da orquestra (Ramnarine, 2017), as estratégias de engajamento do público (Spronck, 2022; Peters et al., 2022) e o surgimento de novas formas de mediação e inovação cultural (Tröndle, 2020). Tais pesquisas evidenciam o caráter multifacetado do universo orquestral, no qual instituição, trabalho artístico e dimensões estéticas se articulam de maneira dinâmica.
Nesta perspectiva, o dossiê busca acolher contribuições de diferentes áreas do conhecimento que analisem como distintos contextos sociais se articulam ao signo da orquestra na música de concerto no Brasil, evidenciando as formas locais de sua produção, representação e significação. Como visto desde Small (1998), isso não está só no som emitido ou na partitura executada, está nas práticas performáticas, na atividade de arranjo, na acústica e na arquitetura das salas de concerto, nas relações de trabalho de profissionais da orquestra, na programação de obras, na gestão de políticas públicas para grupos sinfônicos e em demais desdobramentos dessa atividade. Em suma, em uma gama ampla e interdisciplinar de discussões estéticas, sociais e políticas.
O título dessa chamada “(Re)Orquestrar” pretende instigar pesquisadores para a reflexão sobre a situação que orquestras vivem no contexto atual, na qual a prática de orquestras sinfônicas enfrenta contradições e críticas. Há orquestras sinfônicas brasileiras que passam por transformações de relações de trabalho e emprego, dificuldades orçamentárias e fragilidades infraestruturais. Por outro lado, há de se considerar como as orquestras sinfônicas foram postas em um passado recente como um signo civilizatório da manifestação de uma alta-cultura de bases europeias, isso é, de uma herança colonial cultural. Como se pode analisar criticamente esses organismos musicais de modo a evitar a reinscrição de práticas coloniais, considerando tanto as dimensões das políticas públicas quanto aquelas estéticas, analíticas, performáticas e composicionais?
Essa abordagem ampla permite a compreensão do fenômeno orquestral em conexão com vastas questões contemporâneas, como políticas culturais, acesso à cultura, processos de educação musical e a sustentabilidade das instituições orquestrais no Brasil.
Eixos Temáticos para Submissão
Em consonância com o caráter multidisciplinar do Laboratório, o dossiê acolhe contribuições que se insiram, preferencialmente, nos seguintes eixos temáticos:
- Música de concerto, orquestras e seus contextos: Contempla estudos sobre as articulações entre a música de concerto, orquestras e as dimensões sociais, políticas e históricas das comunidades onde se inserem. Este eixo inclui discussões sobre as conexões entre públicos e repertórios; desenvolvimentos históricos ao redor das instituições musicais, seus repertórios e seus públicos; questões de inclusão social e cultural através da - ou no ambiente da música de concerto e das orquestras.
- Orquestra e institucionalidade: Contempla abordagens sobre experiências de gestão administrativa e artística, assim como sobre identidade institucional, políticas públicas e planejamento estratégico em orquestras. Este eixo inclui pesquisas e relatos sobre formas de financiamento; definição e aplicação de políticas públicas; projetos pedagógicos na orquestra sinfônica; articulações entre orquestras e outras instituições; e iniciativas inovadoras no âmbito institucional.
- Músicos, trabalho e criação: Contempla estudos sobre as articulações entre indivíduos, suas formas de trabalho e a dimensão da criação artística no contexto das orquestras sinfônicas. Este eixo inclui estudos e relatos sobre as relações entre as condições de trabalho no ambiente orquestral; os objetivos artísticos dos grupos; percepção de satisfação de carreira; e práticas performáticas e composicionais no contexto sinfônico.
- Música de concerto na contemporaneidade: a orquestra decolonial: Contempla estudos e relatos sobre as articulações entre os organismos orquestrais e questões sociais, políticas, culturais e artísticas de interesse atual. Propõe uma ampliação do conceito tradicional de orquestra sinfônica, abordando os desafios que a contemporaneidade apresenta à música de concerto e às orquestras, apresentando-se de forma transversal, tangenciando outros tópicos. Este eixo inclui estudos e relatos sobre os desafios de formação de público; os diversos locais e formas de apresentação da música orquestral; a participação do repertório brasileiro na programação dos grupos nacionais; repertórios alternativos; e formatos inovadores artísticos e de organização.
- Memórias, Passados e Disputas : O eixo propõe a congregação de trabalhos que abordem dimensões históricas de grupos orquestrais. Inclui propostas que procurem historicizar orquestras, desvendar tramas de suas constituições fundacionais, problematizar as redes de sociabilidade que constituíam os grupos, questionar as políticas e constituições de memória em torno dos grupos artísticos.
Bibliografia
CHIAPELLO, Eve. Artistes versus managers: le management culturel face à la critique artiste. Paris: Diffusion, Seuil, 1998.
FAULKNER, Robert R. Orchestra Interaction: Some Features of Communication and Authority in an Artistic Organization. The Sociological Quarterly, v. 14, n. 2, p. 147–157, 1973.
FLANAGAN, Robert J. Symphony Musicians and Symphony Orchestras. In: EICHENGREEN, Barry J.; BROWN, Clair; REICH, Michael (Orgs.). Labor in the Era of Globalization. Cambridge: Cambridge University Press, 2009. p. 264–294.
GALINSKY, Adam D.; LEHMAN, Erin V. Emergence, divergence, convergence: Three models of symphony orchestras at the crossroads. The European Journal of Cultural Policy, v. 2, n. 1, p. 117–139, 1995.
GOLDIN, Claudia; ROUSE, Cecilia. Orchestrating Impartiality: The Impact of “Blind” Auditions on Female Musicians. The American Economic Review, v. 90, n. 4, p. 715–741, 2000.
HERMAN, Arne. Orchestra Management: Models and Repertoires for the Symphony Orchestra. 1. ed. London: Routledge, 2022.
KREMP, Pierre-Antoine. Innovation and Selection: Symphony Orchestras and the Construction of the Musical Canon in the United States (1879–1959). Social Forces, v. 88, n. 3, p. 1051–1082, 1 mar. 2010.
LEHMANN, Bernard. L’orchestre dans tous ses éclats: Ethnographie des formations symphoniques. Paris: La Découverte, 2005.
NÁPOLI, Gustavo Anibal. A atividade sinfônica em belo horizonte: entre esperanças e lutas. Tese (Doutorado em música)—Minas Gerais: Universidade Federal de Minas Gerais, 2016.
PETERS, Peter et al. Artful Innovation: Learning from Experiments with Audiences in Symphonic Music Practice. In: CHAKER, Sarah; PETRI-PREIS, Axel (Eds.). Tuning Up – Innovative Potentials of Musikvermittlung. 1. ed. Bielefeld, Germany: transcript Verlag, 2022. p. 179–198.
PICHONERI, Dilma Fabri Marão. Músicos de Orquestra: Uma análise sobre a relação entre trabalho e qualificação em um contexto de reestruturação. In: SEGNINI, Liliana Rolfsen Petrilli; BULLONI, Maria Noel; SHIRASUNA, Marisa (Eds.). Trabalho artístico e técnico na indústria cultural. 1. ed. São Paulo: Itaú Cultural, 2016.
RAMNARINE, Tina K. Global perspectives on orchestras: collective creativity and social agency. New York: Oxford University Press, 2017.
RAVET, Hyacinthe. L’orchestre au travail : interprétations, négociations, coopérations. Paris: Vrin, 2015.
SCHULZE, Günther G.; ROSE, Anselm. Public Orchestra Funding in Germany - An Empirical Investigation. Journal of Cultural Economics, v. 22, n. 4, p. 227–247, 1 dez. 1998.
SEGNINI, Liliana Petrilli. O trabalho do musico entre o Estado e o mercado. Políticas Culturais em Revista, v. 7, n. 2, p. 249–265, 29 out. 2014.
SPRONCK, Veerle Gerardine Anita Jozefina. Listen closely: innovating audience participation in symphonic music. [S.l.]: Maastricht university, 2022.
TEPERMAN, Ricardo Indig. Concerto e desconcerto: um estudo antropológico sobre a Osesp na inauguração da Sala São Paulo. Tese (Doutorado em música)—São Paulo: Universidade de São Paulo, 2016.
TRÖNDLE, Martin. Classical Concert Studies: A Companion to Contemporary Research and Performance. 1. ed. [S.l.]: Routledge, 2020.
WILLENER, Alfred. Les instrumentistes d’orchestres symphoniques: variations diaboliques. Paris: L’Harmattan, 1997.
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Sobre o Laboratório de Estudos Orquestrais
A criação do LEO foi motivada pela relevância do tema abordado e pela identificação de uma lacuna significativa no cenário nacional: a inexistência de grupos de pesquisa dedicados exclusivamente à orquestra sinfônica como objeto de estudo. Essa ausência contrasta diretamente com o lugar de importância central que a orquestra ocupa no universo da música de concerto, sendo reconhecida como uma manifestação complexa da música de concerto.
O LEO, ao preencher essa lacuna, propõe-se a investigar a orquestra sob múltiplas perspectivas, adotando um olhar essencialmente interdisciplinar que transcende uma abordagem puramente musical. A orquestra é analisada tanto em sua dimensão artística, como representação de execução musical, quanto como uma instituição que reflete dinâmicas sociais, econômicas e culturais.
Idiomas aceitos: português, espanhol e inglês.