Chamada para publicação: "Literatura infantil e juvenil: leituras contemporâneas"
Proposta
Por se tratar de objeto de alta complexidade artística, “a literatura infantil e juvenil, como obra de Arte, implica o concurso de vários campos interdisciplinares” (Abdala Jr., 2014, p. 13). Entende-se, de partida, que a obra de arte de qualidade — pensada ou não tendo a criança e o jovem como destinatários prediletos — ancora-se não apenas na esfera da estética, mas também na esfera da ética, engendrando, pela língua — esta invariavelmente atravessada por discursos não isentos de ingerências de ordens sociais, históricas, culturais e políticas — e por recursos de diferentes linguagens, um objeto composto de experiências humanas que promove relações dialógicas ancoradas no discurso ficcional. Recorre-se, neste ponto, à ideia de Helena Carvalhão Buescu (1998, p. 25), de que um texto nunca é “autogerado”: ele sempre parte de um ser social, cultural e historicamente inscrito para outro, carregando consigo, de forma mais ou menos explícita, resquícios de consciências de mundo que lhe são próprias e podem ou não encontrar ressonância em leitores inscritos em outros sistemas.
A literatura infantil e juvenil — o que se expande à noção geral de Literatura enquanto Arte — afeta de maneiras profundas a divulgação de valores culturais que dinamizam uma sociedade ou uma civilização. Benjamin Abdala Jr. (2012) endossa tal posicionamento e é sintomático ao sugerir que é preciso “assumir atitudes mais ativas e prepositivas para criar ou desenhar, com matização mais forte”, tendências que embalam a noção de devir encapsulada na juventude (a infância como “sociedade em crisálida”, tal como proposto por Florestan Fernandes), apontando para a necessidade de uma literatura infantil e juvenil ao mesmo tempo “lúdica e lúcida”, engajada na gestação de novos paradigmas, os quais se engendram e se espraiam com muito mais alcance nesse gênero literário.
Numa perspectiva comparatista que considera as contribuições de diferentes campos do saber a fim de pilarizar reflexões mais profundas acerca das experiências de infância e juventude na arte literária, “o diálogo se inicia na obra e a ela retorna, após uma longa cadeia de associações com outros saberes e, nessa viagem, a pluralidade do leitor vai sendo construída, seja porque busca outros textos para esse diálogo, seja porque aprende a importância do próprio diálogo” (Gregorin Filho, 2014, p. 259).
Maria dos Prazeres Mendes (1994) afirma, que é necessário, antes de tudo, compreender a natureza da “boa literatura (sem adjetivações), repropondo a qualidade estética como dado de fruição”, visto que “almejar a criança é, ao final, desejar a fruição de uma mente que considera a criatividade e a imaginação como desígnios da Arte, as quais acabamos por perder ao longo de nosso aprendizado cartesiano”. Ao fim e ao cabo, trata-se do reconhecimento de que uma literatura que se pretenda destinada à infância exige “o trânsito entre o sensível, o inteligível, o imaginativo e a ação” para o desenvolvimento da criticidade e das novas consciências, tal como alega Maria Zilda da Cunha (2009, p. 19).
Neste sentido, este dossiê da revista Via Atlântica convida à submissão de trabalhos que evidenciem a complexidade estética, ética e política da literatura para crianças e jovens na contemporaneidade, colocando o livro infantil e juvenil em perspectiva que acentue tanto o diálogo e os trânsitos com outras áreas do saber (teoria literária, pedagogia, sociologia, filosofia, história, design) quanto a sua inserção no contexto mais ampliado e comparatista das práticas literárias e artísticas produzidas nos países de língua portuguesa.
Eixos temáticos sugeridos:
- Figurações da personagem criança em livros ilustrados contemporâneos;
- Diálogos interartes no livro contemporâneo de recepção infantil e juvenil;
- Questões sociais e temas fraturantes na literatura infantil e juvenil contemporânea;
- Autoria e representatividade feminina, negra, indígena, LGBTQIAPN+ e de corpos dissidentes na literatura infantil e juvenil contemporânea;
- A literatura infantil e juvenil na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa;
- Literatura infantil e juvenil contemporânea e os novos suportes midiáticos.
Organização
Diana Navas (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Brasil); Francisco Camêlo (Universidade de São Paulo, Brasil); Lígia Regina Máximo Cavalari Menna (Universidade Presbiteriana Mackenzie, Brasil); Paulo César Ribeiro Filho (Universidade de São Paulo, Brasil).
Referências
ABDALA JR, Benjamin. (Org.). Estudos Comparados: Teoria, Crítica e Metodologia. Cotia–SP: Ateliê Editorial, 2014.
BUESCU, Helena Carvalhão. Em busca do autor perdido: histórias, concepções, teorias. Lisboa: Edições Cosmos, 1998.
CUNHA, Maria Zilda da. Na tessitura dos signos contemporâneos: Novos olhares para a Literatura Infantil e Juvenil. São Paulo: Humanitas/Paulinas, 2009.
FERNANDES, Florestan. Folclore de mudança social na cidade de São Paulo. Petrópolis: Vozes, 1979.
GREGORIN FILHO, José Nicolau. “Sobre a necessidade de um olhar comparatista para a literatura infantil/juvenil”. In: ABDALLA JR., Benjamin (Org.). Estudos Comparados: Teoria, Crítica e Metodologia. Cotia–SP: Ateliê Editorial, 2014
MENDES, Maria dos Prazeres. Monteiro Lobato, Clarice Lispector, Lygia Bojunga Nunes: o estético em diálogo na literatura infanto-juvenil. Tese (Doutorado em Comunicação e Semiótica) — PUC, São Paulo, 1994.
- Submissões a partir de 1º de dezembro de 2025.
- Data limite para as submissões: 30 de maio de 2026.
- Previsão de publicação: outubro de 2027.
SEÇÃO OUTROS TEXTOS
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